A maldição de Hotward era de conhecimento da feérica há um bom tempo, por isso, antes mesmo de uma explicação aprofundada, as suas palavras foram capazes de lhe proporcionar um imediato incômodo. Se ele estava dizendo aquilo com tanta convicção era porque havia escutado algo e, ainda que não existe nenhuma habilidade sobrenatural envolvida na história, ela acreditaria nele. Isto porque em todo o tempo de amizade não conseguia pensar em sequer uma vez em que o alado tivesse mentido para si e o seu senso de proteção em relação a luminosa era bem explicito desde o primeiro momento – quando ele a protegeu de uma humilhante exposição em público sem nem ao menos titubear. ❛ — O que elas falaram? ❜ perguntou baixo, as íris encaminhado-se em automático para a face do amigo enquanto o corpo buscava apoio nas costas de uma das cadeiras da última fileira do auditório.
A explicação não demorou para vir e os dizeres provocaram um verdadeiro baque em Gweyr, que precisou apoiar ambas as mãos em seu encosto para não cair, os olhos sendo arregalados pelo espanto enquanto os seus lábios se entreabriam pela surpresa. Não consegua acreditar que as elfas haviam sido tão maldosas! Por que aquelas feéricas que se diziam suas amigas estavam lhe causando algum tipo de mal gratuitamente? Qualquer um que conhecesse a inocente Whitethorn sabia que a possibilidade de estar com Thomas por interesse era inexistente, jamais se prestaria aquele papel! E, por Sif, o que o seu noivo pensaria se ouvisse aqueles rumores sobre frequentar a cama de outro homem?! Conhecendo-o como conhecia, já que tinha consciência de que certamente Tommy não acreditaria no boatos, todavia, ele ainda poderia pedir para que ela se afastasse de Fenrys e, obviamente, a luminosa não gostaria de enfrentar uma briga desnecessária por conta de fofocas. Por que encrencá-la em troca de nada? Havia feito algum mal para as suas amigas? Pensava consigo mesma de maneira agoniada.
E, bom, todas as angustiantes reflexões somadas a imensa decepção que sentia foram o suficiente para ativar os poderes da feérica que, geralmente, costumavam se descontrolar quando a adrenalina tomava conta de suas veias. Então, a manifestação da aerocinese aconteceu de uma maneira totalmente inesperada. Bastou que a luminosa levantasse as mãos, com o intuito realizar o seu corriqueiro tique de mexer nos seus longos fios de cabelo, para que todos os ventos do ambiente se movimentassem furiosamente sobre o seu controle involuntário. Não existia nenhuma real intenção de mobilizar alguma rajada de ar, mas, ainda sim, ela pode sentir perfeitamente os ventos sendo empurrados por seus dedos, o gesto provocando-lhe um desespero imediado pois Fenrys estava exatamente na sua frente, ou seja, na direção dos fervorosos ares. Os dentes foram trincados e o cenho fora franzido de imediato enquanto as mãos foram puxadas para trás com força, mas o único resultado que obtivera fora o ricochete de metade da corrente, fazendo com que alguns cadeiras atrás de si voassem pelos ares com um impulso violento.
ᒥ — ✘ ┆ Em determinado momento havia deixado escapar sobre sua maldição, tendo a luminosa conhecimento do que se passava em sua cabeça. Logo, saberia que não estava mentindo, ainda que Fenrys pudesse inventar aquelas coisas. Mas, com que propósito? Por que desejaria afastá-la deliberadamente das féericas que a rodeavam como abutres? Podia odiar os nascidos elfos comuns, mas não mentiria para Gweyr. Tudo o que dizia, naquele momento, era a verdade sobre o que as outras vinham pensando a seu respeito, desagradável demais para que a morena digerisse sozinha. O Hotharn não era o melhor amigo que alguém podia pedir, no entanto, poderia ficar ao lado dela naquele momento. Diferentemente dele, palavras maldosas tinham um impacto maior em Gweyr, considerando que a própria não era do tipo que tecia tais comentários, acreditando, por outro lado, que a maioria das pessoas era de boa índole. Por vezes, Fenrys tinha vontade de gritar com a mais nova para que se atentasse àquelas questões, embora não o fizesse, sabendo que qualquer grosseria de sua parte não faria bem a ela.
Não era seu papel dizer o que pensava a respeito dos comentários, também. Sabia que jovens elfas podiam ser bem maldosas, e não mudariam do dia para a noite. A maioria dos membros da corte era formado do mesmo cerne vil, que vivia para desprezar e rebaixar os demais. Como alado e mestiço, o Hotharn teve de aprender a recepcionar comentários daquela natureza. Sempre optava pela violência, ou pelo deboche em retorno, não sendo surpresa para os de classe mais alta quando agia com total desrespeito.
Observava a morena atentamente enquanto ela se firmava nas cadeiras do auditório, esperando que dissesse alguma coisa - qualquer coisa - sobre o que estava pensando. Não esperava que fosse reagir da mesma maneira violenta que ele — Gweyr era uma pessoa melhor — então se manteve com a cabeça baixa. Até sentir a ventania. Como um mini-furacão, ele sentiu os ventos se movimentarem furiosamente em sua direção, e mesmo tendo armado rapidamente as asas, os músculos destas não podiam com a força do poder da lsojálfar. Arremessado na parede oposta, Rys sentiu as mesmas asas serem esmagadas, gemendo em resposta, até escorregar até o chão. Era como se estivesse no olho de uma tempestade, sendo levado de um lado a outro, arrastado pela magia feérica implacável. “Pare isso, Gweyr!”, gritou, duvidando que o som conseguisse chegar aos ouvidos da Whithetorn. Sequer sabia porque ela havia direcionado sua ira a ele, que era apenas o portador das más notícias. Pensando bem, mensageiros eram os primeiros a perderem a cabeça.