valsecaprice:
@incapacitex
Podia dizer que sentia-se em um filme, glorioso - gostava de ter a impressão de estar exibindo a estrela que morava dentro de si num plano completamente cênico. Cruzou as pernas suave, e esticou as costas na poltrona, que foi estrategicamente movida para o meio da sala do detetive. Com o referido na porta de sua própria - embora o assunto fosse debatível a partir de agora - casa, Ellison sorriu bastante satisfeito, quase apoiando as pernas longas no banquinho também estrategicamente movido para um pouco a frente da poltrona, e descansando as mãos juntas no seu colo, entrelaçadas e, de novo, de modo cênico. Alegre, cumprimentou entusiasmado: “Boa noite, Artemis!” e com não muito pouco tempo para o outro fazer qualquer comentário, adicionou sem muitos rodeios: “Fiz uma cópia da chave da sua casa.” e o sorriso nos lábios finos parecia um pouco mais orgulhoso agora. “Imaginei que você não se incomodaria com a minha presença, então te digo que vamos nos ver mais que o normal daqui em diante.” disse, quase cantante. Era evidente que haveria terrível desconforto da parte do investigador em ter o homem que ele apostava ser o culpado de um ou outro desaparecimento pisando em seu território, mas essa era a parte divertida. Steven estava determinado a mostrar e demonstrar que brigas com ele, além de serem muito mal escolhidas, são complicadas, doloridas, e um pouquinho só imprevisíveis. Não costumava gostar, como convicto de sua santidade, de tomar o papel de um demônio, mas nessa situação o faria de muito boa vontade.
Alaska, ou melhor, Artemis, não contava que naquele dia teria aberto a porta do inferno ao invés de onde morava atualmente. O próprio Diabo — seu demônio pessoal — estava sentado na sua poltrona, que foi movida de lugar por mãos atrevidas, o aguardando para mais uma provação. Ellison parecia uma peça que não se encaixava no ambiente, uma mancha profana e repugnante na imaculada paisagem; uma mancha que retiraria com as unhas se fosse possível, raspando até que ela se extinguisse e então fosse restabelecida a ordem. Ao ouvir a voz dele e o que disse, quase ficou nauseado, entretanto logo recuperou-se e o sentimento de enjoo foi substituído por uma raivosa indignação. O espaço mais perto de seguro que ele tinha agora seria apenas mais um qualquer em que aquele homem poderia o perturbar — e com esse pensamento, sentiu os ombros tensionarem.
‘‘Quando você conseguiu minha chave para a cópia?’’ inquiriu com o tom beirando ao agressivo, andando em direção a ele e deixando a bolsa em cima duma mesa no caminho. Já estava tentando pensar em quem contrataria para mudar a fechadura da porta, afinal alertar a polícia sobre um suposto invasor estava fora de cogitação, dado ao desgosto que sentia por aquele departamento. ‘‘É óbvio que me incomodo com sua presença, Ellison. Bastante, inclusive. Mas sei que não há nada que eu possa fazer agora. Então, o que pretende fazer com esse novo poder? Acordar-me com um beijo e dar bom dia toda manhã?’’










