pxccatori
Se achava ruim quando o assunto era carinhos em geral, mas o rapaz em sua frente era muito mais. Tinha percebido isso desde que haviam se conhecido, mas a suspeita se concretizou quando começaram a passar alguns dias juntos em sua casa. Enfim, o desafio não tinha vindo de ninguém em especial, apenas de si mesmo. Já que o garoto pretendia ser um escritor de romances, mesmo não sabendo nada de romances, o moreno ficou encarregado de ensiná-lo o que sabia. O caso era que não sabia de muita coisa, não sabia praticamente de nada. Mas a tarefa tinha sido dada; por isso, o mais velho aproveitou para sentar no colo do outro, empurrando-o para deitá-lo, curvando-se em seguida para alcançar o seu ouvido: ❛ — Eu não sou nenhum ator. Muito menos um tarado. Mas eu vou fazer uma simulação para você agora, certo? ❜ o homem soltou um risinho nasal, tocando a destra no tórax do outro, sentindo os seus batimentos cardíacos com a ponta dos dedos. E sorriu. Apesar de detestar tanto contato físico com quem mal conhecia, era um ótimo professor, e não iria desapontá-lo.
❛ — Aqui. As coisas começam com sussurros. Não importa quem toma a iniciativa, mas todo momento romântico tem isso como iniciação. A maioria. ❜ e, obviamente, sussurrou. Os dedos traçaram um caminho lento até o seu rosto, onde firmaram-se em sua bochecha; o dono dos cabelos cacheados, então, desviou-se para o que estava abaixo de si, olhando-o diretamente. ❛ — E há contato visual. Mas não se esqueça que todo toque e toda atitude é extremamente delicada aqui, se você quer algo bonito de verdade. Não faça ninguém subir a voz. Descreva tudo de um jeito suave. As garotas costumam gostar disso, e alguns garotos também. ❜
O homem agia exatamente como descrevia. Explicações podiam ser esquecidas. Principalmente quando quem as recebe é alguém que pouco compreende de amor; mas, ao contrário dele, Jude teve mais de quinze anos para ler o que bem entendesse sobre aquele assunto. E apesar da prática escassa e quase inexistente, ele sabia de todo o conceito. E sabia como agir. Também, não podia negar; o outro parecia, apesar de assustado, entender melhor o que se passava. Apesar de não haver um pingo de paixão em seu olhar, deduziu que o escritor saberia onde encaixar isso. O olhar era a primeira coisa que qualquer pessoa com um excesso de criatividade se prestava a descrever.
❛ — Deixe um momento de silêncio entre as personagens, aliás. Não é obrigatório, mas o clima sempre fica melhor se você parar para detalhar toda a troca de olhares. ❜ gentil, aconselhou-lhe, afagando a sua bochecha com o polegar. A outra mão, que outrora estava livre, também acabou recostando-se no rosto do menino. Aproximou-se mais. Tocou ambas as testas, e então o nariz, antes de continuar: ❛ — E aí tem o beijo. ❜
Em vez de fazer exatamente aquilo que o menino esperava, levou o indicador até os próprios lábios, deixando-o ali antes de encostá-lo também contra os lábios deste. Um beijo indireto. Era complicado para ambos aquela parte, afinal, e não faria algo do tipo apenas para uma explicação. Já tinha ido bem longe. Julgou que não era necessário dar sequer um passo a mais.
❛ — Vê se consegue publicar algum livro agora, chará. Eu vou ficar triste se todo o meu desempenho for em vão. ❜
Sem máscara. Conseguia sentir o pânico infiltrar cada poro da própria pele como se fosse o vírus do qual tinha tanto medo, cada respiração compartilhada era um risco, o próprio cérebro parecia gritar quando a mão do rapaz tocara o próprio peito para que deitasse, o peso dele não amenizou o furacão que iniciara no tórax e parecera subir até a garganta. Toques. Fugia deles, era como um carro que desviava de cones na rua, o espaço pessoal era um escudo, mas ele quebrara a barreira, ele fizera que o coração batesse em desespero sem sequer uma palavra; ❛ Jude❜ o interior berrava ao encontro de algum sinal que já não existia, continuara estático. — Por favor. — pediu em um sussurro, uma súplica para que ele parasse. Fechou os olhos, achava que isso pudesse trazer de volta a barreira que moldara, mas mesmo quando os abrira de novo ele continuava ali e encontrar o seu olhar foi o último passo para o precipício.
Seu objetivo, porém, fora entendido com rapidez e mesmo enquanto o ouvia explicar em sussurros não permitiu que a barreira se fosse por completo, não deixou de sentir que as luvas ainda cobriam as mãos agora quentes. Fitou os olhos em toda sua mistura de castanho e verde com atenção, a audição compreendia cada uma das palavras e a memorizava, mas a visão não encontrava naquele olhar o que realmente queria, o que realmente poderia valer. Não deveria, sequer poderia pensar em tal assunto, mas por algum motivo queria encontrar; desejava encontrar alguma paixão naquelas orbes, por mais que fosse falsa, por mais que se sentisse incapaz de corresponder.
— Jude. — chamou em um sussurro, o rosto pouco inclinado em direção a uma das mãos do rapaz quando sentira a primeira lágrima escorrer pela própria maçã do rosto, tentava não soluçar, implorava para os próprios pulmões não falharem; por qual motivo poderia desejar o proibido? Queria sentir pela primeira vez a maciez que diziam que os lábios tinham, desejava que ele retirasse da própria garganta a dor incrustada ali durante tanto tempo, mas não podia. Ele não permitiu. Os olhos marejados permitiram que visse o toque tão simples entre os lábios feitos pelo indicador e apenas isso fora o suficiente para que enfim movesse a destra. — Não será. — respondeu com dificuldade ao erguer a mão e extremamente hesitante tocar a bochecha do dono dos cabelos encaracolados; o primeiro toque. — Obrigado, Jude. — e esperava que o próprio olhar fosse o suficiente para que ele entendesse a gratidão, por mais que esta não fosse apenas para a atuação feita em tão pouco tempo, mas que parecera se arrastar o suficiente para que tivesse certeza que o musicista já estava suficientemente dentro da barreira para não sair.

















