@armoredwitch
Certas coisas são capazes de machucar, outras de confundir por razões que o cérebro não consegue de fato conectar. É assim que se desenvolve medos! Se toda vez que uma pessoa sobe numa montanha um terremoto numa vila próxima ocorre, quando ela retornar ao seu grupo será com toda certeza punida por tal alto, seja coincidência ou não. Eventualmente dirá-se ás crianças que não subam na montanha, eventualmente punirão quem pensar em tentar subir, mas ninguém se lembrará a razão exata do porquê. Era isso tipo de coisa que estava corroendo sua mente presa por correntes: um medo de algo que pode acontecer ou não, mas que certamente não deve ocorrer por desastres passados ou só crendice e sandices.
Felizmente Vienne é só um gato escaldado que esqueceu que tipo de coisa teme. Esse medo de ter algo que teme felizmente não é algo tão torturante, poderia ser pior. Aceitar carinhos era algo que fazia bem, seu ego era uma das únicas coisas que permanecia igual ao seu eu infantil. Se bem que Vienne não era muito diferente de uma criança bem crescida com os olhos de uma velha que sabe que não deveria estar fazendo horas extras no mundo. Seus tremulares estavam aos poucos diminuindo com aqueles carinhos, sua garganta parecia menos seca, entretanto o medo de algo conhecido, porém esquecido ainda a praguejava, beliscava suas extremidades, mordiscava seus ossos e raspava o interior de suas veias.
— … Esta nem mesmo é questão, Megan. Eu apenas sinto que algo não está correto. — Uma risada pouco convincente escapuliu de seus lábios, uma tática frouxa para se sentir melhor. — Talvez eu tenha falhado tantas vezes que ver algo que se assemelha à um sucesso fácil me assusta. — No fim acabou conseguindo se colocar numa melhor posição, pelo menos melhor para não ferir seu orgulho imenso com as costas retas e pernas cruzadas sob as saias. Ainda assim, o tombo a praguejava fortemente. — … Muitas coisas ocorrem todos os dias, Megan. Eu sinto como se algo tivesse mudado lá atrás, é como se eu perdesse um pouco de minha vontade original, minha identidade, a cada dia que passa. Não possuo mais controle sobre muitas coisas que penso, digo ou faço. É assim que é a velhice de verdade? — Dois segundos de silêncio e gargalhou. Gargalhou jovialmente e de forma genuína, claramente perdendo seus lados pelo modo que se abraçou. — Ah, espera! Não tem como você saber, não é?! — Ah, essa foi a melhor das piadas. Vienne nunca experienciara a velhice, até mesmo sua fase final da adolescência fora bastante turbulenta, sua fase adulta foi jogada no lixo. Como saber o que é velhice? Perguntando para uma garota atemporal é que não é!
eu entendia o que ela queria dizer, ou ao menos em alguns níveis eu achava que entendia, porque mesmo sendo imortal e tendo visto muito, não era como se alguns aspectos não tivessem me mudado e impacto de formas diferentes. às vezes eu sentia que já tinha sido diversas pessoas diferentes em um mesmo corpo, como se minha alma e essência sempre estivessem sido manipuladas de um jeito novo que eu não compreendia ou que me fazia querer ficar deitada em minha cama durante todo um dia.
crescer e aprender era importante, estar aberta para novas experiências acaba sendo algo positivo dependendo do que vá fazer, mas eu usualmente me encontrava evitando isso ao máximo porque, céus, eu sentia medo. eu já tinha sido uma mulher mais cheia de coragem no passado, acho que sempre gostar de arriscar minha imortalidade me fez alguém pronta para correr qualquer risco, porém dessa vez só de pensar em qualquer ferida ou motivo para não mais existir eu... me tremia por inteiro. se eu não existisse eu não poderia tocar mais uma canção no piano, não conseguiria dormir rodeada dos meus três gatos tão folgados, e não poderia estar com vienne mais uma vez.
“bom... eu não sei como é a velhice, acho que nunca irei a experienciar.” comecei a falar ao me ajeitar ao seu lado, sentada no chão, enquanto a segurava com delicadeza em meus braços e me impedia de parar com os cafunés que, percebi, gostava muitíssimo de proporcionar a ela. “mas eu já perdi minha motivação e vontade originais vezes o suficiente para poder te dizer que, por mais ruim que pareça, é algo natural, e que se precisar de alguém que fique ao seu lado durante esse processo, eu estarei aqui.”
então deixei um breve selar em sua maçã do rosto, e provavelmente teria a olhado com carinho por um momento se não tivesse notado a marca que meu batom tinha deixado em sua pele; não aguentei segurar a risada. “acho que isso já é uma nova experiência, não? já sei que devo usar apenas hidratantes labiais se não quiser te manchar de beijos vermelhos em todas as vezes que eu te ver.” até porque era um tanto impossível evitar a vontade de enchê-la de carinhos e beijos em todas as ocasiões que nos encontrávamos.










