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Não quero apenas existir, quero viver.
Houve um tempo em que eu não percebia o peso do silêncio. Achava que a ausência era apenas a falta de alguém, mas descobri, da pior forma, que ela também pode ser a falta de nós mesmos. Desde então, carrego os dias como quem atravessa um corredor escuro, tateando as paredes em busca de alguma lembrança que ainda brilhe. Os relógios continuam funcionando, as pessoas continuam vivendo, o mundo continua girando com a mesma pressa de sempre, mas existe algo dentro de mim que ficou parado em algum lugar do passado, observando tudo através de um vidro embaçado. Às vezes me pergunto em que momento comecei a desaparecer. Em que momento minha voz ficou tão distante dos meus próprios ouvidos. Em que momento os meus sonhos deixaram de soar como promessas e passaram a soar como despedidas. Eu me vejo nas fotografias, nos textos antigos, nas versões de mim que habitavam outros anos, e sinto como se estivesse olhando para uma estranha. Alguém que sabia sorrir sem esforço. Alguém que acreditava que o amor era capaz de consertar todas as rachaduras do mundo. Mas a vida tem maneiras cruéis de nos ensinar que nem tudo o que amamos permanece. Então os dias passaram a se acumular dentro de mim como poeira sobre móveis abandonados. Cada saudade encontrou um lugar para morar. Cada adeus construiu sua própria morada no meu peito. E eu fui aprendendo a conviver com os fantasmas das coisas que perdi. O som de uma risada que não escuto mais. A sensação de pertencimento que existia quando alguém me chamava de lar. A certeza tranquila de saber que eu era amada e que havia um lugar no mundo onde meu coração podia descansar. Existem noites em que o vazio parece ter voz. Ele sussurra lembranças no escuro, percorre meus pensamentos como uma tempestade lenta, me faz revisitar momentos que já não existem. E eu me vejo ali outra vez, segurando tudo aquilo que escapou pelos meus dedos. Tentando alcançar o que já partiu. Tentando despertar sentimentos que ficaram soterrados sob os escombros da dor. Porque essa é a pior parte de perder algo que amamos: não é apenas a pessoa que vai embora. Partes inteiras de nós partem junto. Versões nossas que só existiam naquele encontro. Sonhos que só faziam sentido ao lado de alguém. Pequenos universos que desaparecem sem deixar mapas para o caminho de volta. E, ainda assim, existe uma parte de mim que continua esperando. Não esperando que alguém me salve. Não esperando milagres. Mas esperando aquele instante raro em que a luz atravessa as frestas. Aquele momento em que o coração, cansado de sobreviver, decide bater por algo mais uma vez. Porque, por mais profundo que seja o inverno, nenhuma alma nasceu para permanecer congelada para sempre. Talvez eu ainda esteja adormecida em muitos sentidos. Talvez existam pedaços meus espalhados entre lembranças, fotografias, músicas e promessas não cumpridas. Mas eu gosto de acreditar que eles ainda podem voltar para casa. Que existe vida depois da ruína. Que existe beleza depois da perda. Que existe um despertar depois de tantas noites insones. E quando esse dia chegar, quero abrir os olhos para mim mesma. Quero reconhecer meu reflexo novamente. Quero sentir o mundo sem o peso constante da ausência. Quero deixar de ser um fantasma caminhando entre memórias e voltar a ser alguém de carne, sonho e esperança. Até lá, sigo aqui. Entre sombras e amanheceres. Entre o que morreu e o que ainda insiste em florescer. Carregando dentro do peito a estranha certeza de que, mesmo quando tudo parece silencioso, existe uma parte da alma que nunca deixa de chamar pela vida. E talvez seja essa voz, frágil e persistente, que ainda me mantém de pé, esperando o dia em que eu finalmente desperte por completo. Porque, no fundo, tudo o que eu sempre quis foi voltar a sentir que estou viva. Não apenas existindo. Viva. Inteira. Profundamente viva.
thomas jaquet