e tentando confiar que vou ser capaz de tomar uma decisão. que vou ser capaz de reorganizar minha vida. que vou ser capaz de reencontrar o sentido. os sentidos.
voltar com uma mala de mão para o meu país, o lugar onde eu cresci, parecia significar deixar tanto a me esperar. ao mesmo tempo, chegar aqui com uma mala tão pequena, agora penso, não parece dar conta de tudo o que tenho vivido aqui. achei que o espaço necessário seria pouco: errei. preciso de mais, mais espaço, mais tempo. me deixa ficar mais. mas me deixa quem? a quem eu peço? a quem cabe decidir se não a mim?
as pontas estão nas minhas mãos e eu tento segurá-las, encaixá-las, fazê-las se encontrarem de um jeito bonito. com sentido. mas é tanto, agora tenho coisas e pessoas em duas partes do mundo. sou tão grata e feliz por tudo o que vivi nesse 1 ano, mas também tenho me sentido feliz aqui. tenho me sentido mais feliz aqui. tenho sentido mais vontade de construir coisas aqui. habitar meu apartamento. me reaproximar da minha área de atuação. olhar o classificados de vagas de emprego. começar a viver a vida adulta. parece que tenho enxergado a necessidade de me perguntar: o que me mantém lá? tenho um objetivo? não mais. parece que apenas tenho vivido a vida esperando que algo aconteça.
e talvez seja aí, neste exato momento, o instante de pegar as pontas, as rédeas desse momento chamado "vida" e escolher o que fazer com isso.
e aí, enquanto tento equilibrar os pratos, criar um plano e ir de encontro a ele, aparece um antigo conhecido. achei uma surpresa gostosa o nosso reencontro. parece que eu esperava pouco, porque o nosso histórico não ajudava muito. mas me surpeendi com o quanto me diverti e com o fato de que quis ficar ali com você. eu apreciei sua companhia, mas eu escutava a todo o momento o som do relógio, que me lembrava da minha partida. meu tempo aqui no Brasil é pouco e, por isso, te disse o quanto queria poder te ver mais. você disse que não dava, e eu acho que a vida adulta tem um tanto disso, mas talvez sejam os filmes românticos que ecoam na minha cabeça me dizendo que quem quer dá um jeito. e aí eu digo que pensei muito em você naquele dia, você me pergunta o que eu pensei. eu respondo que pensei em você no geral, senti saudade de estar junto, vontade de estar junto. daí você me pergunta como vou fazer com a saudade na Itália, eu te respondo que ainda não sei e devolvo a pergunta pra você. você me diz que não sabe mas que não tem muito o que fazer, nos resta aproveitar o sábado. então eu te pergunto se quer dizer que você também vai sentir saudades. você me devolve a pergunta na primeira pessoa do singular, e diz que vai descobrir com o tempo. depois, entro em parafuso e sinto que estou prestes a estragar as coisas.
volta aquela voz que sempre me diz que eu sou demais, que eu sou intensa demais. pareço ser sempre demais, mas nunca o suficiente demais. então a angústia vem, e se mistura com tudo aquilo que já estava antes com todas as outras coisas que eu venho tentando lidar.
então, eu penso de novo: será eu o problema? não, não posso cair nesse lugar. vamos voltar, devagarzinho e narrar novamente a história? preciso voltar pra mim. come back to yourself, eu repito pra mim mesma. tenho pensado em outras línguas, e às vezes eu ainda falo baixinho "brava, gio". mas agora, eu digo, come back to yourself.
reencontrar você, com tanta bagagem acumulada, não é como encontrar uma pessoa desconhecida. sinto que te conheço mas também não te conheço tanto assim. o histórico me lembra das coisas que não encaixavam, o quanto parecíamos falar línguas diferentes. mas daí também lembro que éramos jovens demais. você também lembra disso. nos encontramos. o encontro vai bem. eu dou risada e você também. por alguma razão, parece que não falamos muito sobre a minha vida na Itália. você parecia nervoso. a noite foi mais longa do que eu imaginava e eu quis ficar. ainda me pergunto se você queria que eu ficasse. te digo que gostei, você diz o mesmo. continuamos conversando um pouco. eu te digo aquelas coisas todas e eu fico tentando entender o que você está me dizendo quando diz aquilo que me escreve. eu me angustio. então, pauso e lembro: não posso me perder de mim. não quero me perder de mim.
então, aqui vai:
nosso encontro foi divertido, senti e sinto vontade de passar mais tempo com você. por enquanto, temos até 16 de agosto. você delimitou só o final de semana como possibilidade. eu disse que te pensei naquele dia e demonstrei interesse. você pareceu evitativo. não sei se vale apostar tudo assim de cara, vamos com calma. eu sei, queria ir rápido, o tempo é curto. mas não dá, o preço vai ser alto. então, o que me resta é aceitar as coisas como são. perceber aquilo que eu gostaria e aquilo que a realidade me apresenta. lembro disso, me seguro ali, e confio (ainda) que o que é meu não vai exigir tanta força assim.
então, é isso. seguro as pontas.