CAPÍTULO 6 — Rain on Steel
(Rick’s POV)
O tempo passou com a lentidão cruel dos dias que carregam silêncio entre palavras não ditas.
Desde aquela última noite, desde a discussão, desde o tom rouco de Negan cuspindo mágoa com controle cirúrgico, tudo em mim parecia suspenso, como um cigarro esquecido no cinzeiro ainda queimando lentamente, sem pressa de apagar.
Ele não me procurou. E eu também não procurei. Mas quase todos os dias, em algum momento entre o nascer do sol e o som abafado dos passos no corredor da delegacia, meus olhos percorriam sem querer o horizonte. Às vezes pegava caminhos mais longos, às vezes desviava do previsto. Só pra passar em frente à Sanctuary Motors. Só pra ver se ele estava lá. E ele sempre estava, sujo de graxa, sujo de mundo, limpo demais de mim.
Negan tinha virado ausência. Uma ausência barulhenta.
A viatura continuava dando problema, como se o próprio carro soubesse o que nos conectava. Mas, depois da última briga, Negan recusou qualquer serviço que envolvesse diretamente o meu nome. Quando eu mandava recado, ele fingia que não escutava, quando o carro era levado por outro policial, ele aceitava, fazia o reparo, enviava de volta, mas nunca com uma mensagem, nunca com uma nota. Nem mesmo um recibo assinado.
Eu merecia. Talvez.
Mas aquilo me corroía mais do que eu admitia. Até que o caso surgiu.
Uma caminhonete azul foi encontrada abandonada no limite sul da cidade, na borda do matagal onde o asfalto vira pó. O cheiro foi o primeiro alerta. Depois, o que vimos dentro da carroceria: um corpo jogado entre lonas plásticas e panos sujos. Nenhuma identificação, nada nos bolsos. Apenas vestígios de ferrugem sob as unhas, marcas no braço, graxa escura nas solas do tênis. E a única pista: o veículo havia passado dias antes na oficina de Negan para troca de óleo.
Eu li o registro uma, duas vezes. O nome da oficina, carimbado com tinta quase desbotada, me deu um calafrio estranho. Não era só o nome, era o retorno de algo que eu estava tentando enterrar com o tempo. Fiquei parado por minutos com o papel nas mãos, depois me levantei. O caminho até a Sanctuary foi mais longo do que o habitual e mais curto do que eu desejava.
A oficina estava aberta, como sempre. Portas metálicas erguidas, um rádio velho chiando uma música sem melodia definida, e o cheiro conhecido de óleo, poeira, e umidade. Ele estava de costas, abaixado sob o capô de um carro escuro, suado, com a camisa colada nas costas e sozinho, pela primeira vez estavamos sozinho em seu território, mas não me viu, ou fingiu não ver.
— Negan. — Minha voz saiu mais firme do que minha vontade. E nada. — Preciso falar com você. — Ele não levantou. Apenas deixou o silêncio crescer. Mais uns segundos e puxou o pano do bolso, limpando as mãos devagar, como se o gesto fosse um ritual e quando se virou, seus olhos eram puro aço.
— Tem alguém morto, é isso? — Direto. Sem rodeios. Ele sabia.
— Sim. — respondi, tentando não ceder ao peso daquele olhar. — E o veículo passou por aqui. Precisamos conversar. —
— "Precisamos". — ele repetiu, o gosto da palavra escorrendo com ironia. — Agora você fala "precisamos"? —
— Isso é uma investigação. — reforcei. — Eu sou o xerife. —
Ele se aproximou, andando devagar, o olhar cravado no meu como um aviso e quando parou, ficou a poucos centímetros. O calor do ambiente parecia se dobrar ao redor dele.
— Então seja xerife. Faça o que precisa. Me interroga, me revira, me acusa. Mas não vem aqui fingir que ainda tem direito de entrar nesse lugar como se fosse bem-vindo. —
Aquilo doeu e talvez porque fosse verdade. — Eu nunca te acusei de nada. —
— Não precisou. Sua ausência fez isso por você. — Ficamos em silêncio. Um trovão retumbou ao longe. O cheiro de chuva se aproximava como prenúncio.
Negan voltou a andar, como se já tivesse encerrado o diálogo. Pegou uma caixa de ferramentas, passou por mim e sumiu na parte dos fundos. Não me mandou embora, mas também não me impediu de ficar.
E eu fiquei.
A chuva caiu de repente, forte, molhando o chão de terra em segundos. Os pneus dos carros no pátio afundavam devagar, formando marcas. A camisa dele grudava no corpo como segunda pele quando voltou, e pela primeira vez em semanas, nossos olhos se cruzaram com algo além da raiva.
Era desejo, frustração, medo. Era tudo o que a gente evitava nomear.
— Vai embora, Rick. — ele disse, sem elevar a voz. — Eu não vim aqui por mim. — Na verdade eu nem sabia se isso era verdade.— Não minta pra mim. Nem pra você. — ele continuava a responder com calma e frieza.
Fechei os olhos por um instante. A água escorria pelo telhado, batendo em ritmos irregulares e eu ainda estava ali, parado, sujo de dúvidas, mais molhado por dentro do que por fora.
E pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia o que fazer a seguir.
— Eu só quero entender o que está acontecendo. — soltei, tentando encontrar alguma firmeza na voz. — Com o caso. Com você. Comigo. —
— Esse é o problema. — ele rebateu, enfim se aproximando mais. — Você quer entender, mas não quer sentir. Quer encaixar tudo na lógica de xerife, na moral do seu mundinho limpo. Mas isso aqui... — ele apontou entre nós dois — isso aqui nunca foi limpo. —
— Eu não tô aqui pra negar o que aconteceu. — Mas negou. Por semanas. — O tom dele se elevou, ainda controlado, mas afiado. — Fingiu que não existiu. Que eu não existia. Que aquele toque foi só um erro de cálculo. —
— Eu não sei lidar com isso, Negan. — E você acha que eu sei? — O trovão trovejou mais perto agora. O chão sob nossos pés parecia vibrar. Eu já não sabia mais se estava ali como policial, como homem... ou como o garoto perdido que ainda morava em algum lugar dentro de mim.
— Eu não queria te machucar. — Eu falava com sinceridade.— E machucou mesmo assim.— Você acha que isso é fácil pra mim? Que eu tô jogando? Que tudo isso é um jogo? — Não é um jogo. — ele disse, mais baixo, mas com mais raiva. — É a minha vida. E eu não sou teu experimento emocional. —
— Então me diz o que fazer.— Não sou eu quem tem que dizer, Rick. É você quem tem que decidir se vai continuar fugindo ou se vai finalmente parar de mentir pra si mesmo.
Havia algo nos olhos dele, algo entre frustração e dor, entre desejo e defesa. Eu dei um passo. Ele não recuou. O som da chuva agora batia nos carros do pátio como uma marcha crescente. Nossas roupas estavam coladas à pele, nossos pés sujos de lama.
O ar entre nós ficou denso. Quente. A respiração dele batia na minha boca. A minha encostava no queixo dele. Se eu estendesse a mão, tocaria seu rosto. Se ele se inclinasse um centímetro, nossos narizes se encostariam.
Mas ninguém se moveu.
— Eu não sou um caso, Rick. — ele disse, a voz falhando só no final. — E você não é só o xerife. Mas se continuar fingindo que é, eu prometo... eu prometo que da próxima vez, eu não vou nem abrir essa porta. —
Ficamos ali. Quase nos tocando. Quase dizendo. E então ele se virou. Sem pressa. Sem mais palavras.
Eu fiquei.
Na chuva. No silêncio.
















