nome completo: isla pauline ainsleigh montbéliard.
apelidos: seus pais lhe chamam de polly.
série: senior.
idade: dezoito.
signo: câncer.
traço bom: caridosa.
traço ruim: indulgente.
skeleton: héstia.
extracurriculares: comitê de ações sociais, líderes de torcida e clube de escrita criativa.
mora fora do campus, num apartamento junto de sua governanta, nikola.
pagante.
inspirações: mary margaret blanchard (once upon a time), esme cullen (twilight), alisson cameron (house md), fleur delacour (harry potter), molly weasley (harry potter) & rory gilmore (gilmore girls).
@gg-pontos
o casal laoghaire ainsleigh e leonard de montbéliard se conheceram da forma mais inusitada da qual poderia se imaginar: num museu. os dois, já com seus quarenta anos, viúvos e com filhos, se conheceram e decidiram que se iriam ficar juntos, juntariam os dois lados da família. laoghaire com seu filho de seis anos e leonard com o seu, de nove.
os ainsleigh não eram ricos. isso era um fato. laoghaire foi a única dos irmãos que chegou a cursar uma graduação, nos bons tempos financeiros da família. viviam da agricultura, no norte da escócia. para ajudar a família, a mulher cursou administração de empresas, tentando dar uma guinada nos negócios dos pais.
no outro lado da moeda, tinham os montbéliard. família tradicional francesa, nobre, levando o sobrenome da comuna que viviam. dinheiro não era um problema. leonard era pintor e escultor, tinha uma galeria de arte com seu nome em paris. vendia uma peça por milhares de euros.
a junção dos dois foi benéfica para as dívidas que laoghaire tinha. acusaram-na de alpinismo social, de usar do marido. a chamaram de todos os nomes possíveis. para leonard, foi benéfica no sentido de lhe dar uma nova motivação, uma nova musa inspiradora.
já não estavam em uma idade tão boa para engravidar e decidiram adotar a pequena isla. uma adoção internacional. a menina estava há dois anos esperando um lar na turquia, e foi encontrar uma família no outro lado do mapa. escolheram dois nomes para a menina: isla e pauline, um tradicional escocês e o de sua avó paterna, combinados com os sobrenomes de ambos os pais.
pouco sabe de sua vida antes de chegar na casa dos montbéliard. eles contam que demoraram para entrar em uma rotina, para entender as necessidades de isla, que chorava enfurecidamente. estava traumatizada com algo, achavam eles. hoje em dia, agradece por não ter lembranças da turquia, principalmente depois que SEGREDO aconteceu e trouxe a tona inúmeros sentimentos que pensava ter superado.
a infância foi feliz, assim como o início de sua adolescência. como os meios-irmãos mais velhos, entrou na truffaut assim que completou a idade correta. os pais mandaram com a menina sua governanta, nikola, uma jovem sérvia que tratava isla como sua filha. sentia falta dos pais, mas sempre os tinha em sua cabeça. nikola não lhe deixava esquecer do amor dos dois e da busca por uma criança que significasse o mundo para eles.
isla utilizou-se disto para tornar-se forte. tinha de converter as dores em algo que fosse produtivo. disso, resultou num intelecto brilhante, muito curioso e muito esperto, sempre querendo aprender. as notas altas eram somente recompensa de um trabalho árduo. queria além de orgulhá-los, mostrar que todo o amor que estavam depositando nela, tinha resultados positivos.
ser adotada não era, e nunca foi, o problema para isla enquanto sua cabeça rondava em ser perfeita para os pais tanto quanto os meios-irmãos mais velhos eram. sempre se comparando, sempre sofrendo por dentro ao ver as grandes conquistas deles, enquanto se mantinha estagnada, principalmente presa ao que seu SEGREDO resultou.
Depois das páginas entregues por Jun, Marcellus sabia que não podia mais ficar se esquivando de entrar de cabeça naquela porcaria toda. O garoto tentou ao máximo não se envolver com as questões do anônimo porque o compromisso com aquilo simplesmente não combinava com ele… Mas desde a peça de primavera as coisas mudaram. Alguém estava tentando incriminar Eloise, fazendo pessoas próximas dela pensarem que tinha matado a própria gêmea. Poderia estar bravo com a irmã, mas ainda assim a conhecia melhor do que ninguém. Sabia que ela estava feliz em descobrir a nova família e tudo o que observou de camarote acontecer na vida dela não podia ser fingimento. Eloise não sabia que Camille existia, isso Mars tinha certeza.
Então, por que alguém queria que os melhores amigos dela pensassem diferente? Lembrava da garota dizendo que foi embora porque a coisa estava muito pior do que imaginou e que a pessoa em questão tinha muita coisa contra ela. E se essa pessoa, provavelmente a mesma do anônimo, estivesse tentando incriminá-la pela morte de Camille Martin? Precisava descobrir isso, porque apesar de não estarem concordando em tudo, Elo foi sua única família por anos e sempre fez de tudo para cuidar dele. Foi assim que pediu acesso à um contato na delegacia para analisar o processo arquivado, no qual havia as páginas digitalizadas de todos os diários dela. Procurou nas datas indicadas nas páginas fornecidas por Jun durante dias e no restante dos volumes e não encontrou nada. Estava aliviado por estar certo, porém sabia que apenas confirmar aquela informação não era o suficiente; precisava descobrir o por quê dela existir. Jun não estava mais disponível, mas Isla sim e ela tinha sido a outra pessoa que recebeu as mesmas informações. Se aproximou da garota em seu armário. ❝ — Ei, Isla, tudo bem?❞ — perguntou. ❝ — Preciso falar com você sobre o que você e o Jun receberam lá em Paris.❞ — foi direto ao ponto.
Isla queria por fim àquele ano letivo logo. Apesar de amar a escola, o ambiente juntamente com os dramas que perseguiam ela e os amigos já estava lhe sufocando. Sem contar que, em casa, na casa da família, os dramas não terminavam. Sufocando já não parecia mais a descrição certa, estava mesmo era sendo inundada por dramas intermináveis. Para ela, a positividade de sempre já nem lhe cabia mais. Não fazia mais sentido esperar pelo melhor se, no último ano, só havia se decepcionado pensando assim. Quando foi abordada por Marcellus, respirou fundo. Aquilo só podia significar mais problema. “Tudo certo...” Respondeu, mas logo foi surpreendida pelo assunto de Paris. Hugo. Seu olhar mudou completamente. “Paris? Os papéis de Eloise?” Questionou somente para se assegurar, mas sabia que aquele era o assunto mesmo. “Aconteceu algo para você querer falar disso? Porque os papéis nem estão comigo...” Justificou, enquanto entrava na sala ao lado de seu armário, vazia, esperando que ele lhe seguisse para poderem conversar com ninguém em volta.
“fuck!¹” castiel xingou alto ao que, mais uma vez, ninguém de sua família atendia suas incessantes e desesperadas ligações. precisava contar sobre o que o anônimo tinha revelado, ainda que não fosse dar os detalhes que não fossem essenciais. afinal, já antecipava também uma viagem do pai só para surrá-lo caso soubesse por outras fontes que não ele sobre o segredo ter vindo à tona. mentira, não segredo, mas, ainda assim, era a palavra de castiel contra a de claire e edgar. com os olhos marejando de raiva, castiel passou as mãos pelos cabelos, e então encostou a cabeça na parede gelada, como se aquilo fosse capaz de esfriar sua mente. “i’m gonna murder this fucking bastard…²” rosnou mais para si mesmo, nem sequer dando-se conta de que não estava mais sozinho ali no corredor, só notando alguns segundos depois. seu olhar mudou completamente, então, para uma mistura de medo e choque ao perceber: não era um monstro, mas talvez seu comportamento ali corroborasse a mentira divulgada pelo anônimo. “isla… eu não…” as palavras, por desespero, lhe faltaram, temendo que além de tudo, também a assustasse.
A mensagem do anônimo não havia incomodado tanto Isla. O segredo de Jeanne não lhe afetava. O de Valentin e Faheera... Apesar de surpreendente, não doía seu coração. Conhecia os dois e preferia acreditar que a causa principal não fora o temperamento de seu melhor amigo. Porém, continuando a ler, o nome de Castiel e a situação descrita... Lhe fez arregalar os olhos. Não combinava com a pessoa que conhecia, ou achava conhecer. Castiel era bom. Não era um assediador. Ao menos, repetia isso para si, tentando acreditar firmemente naquelas palavras. Para ela, era mais fácil perdoar Valentin pelo ocorrido pelas diversas possibilidades da morte do homem, enquanto Castiel... Não tinha perdão, a ex-namorada não mentiria, mulheres não deveriam mentir sobre situações como aquela. Ela queria chorar. Chorar pela imagem distorcida que tinha do rapaz. Caminhou até um corredor afastado, mas lá ouviu um grito de Castiel que lhe assustou mais ainda. Seus olhos voltaram a situação anterior: medo, confusão. Que temperamento era aquele? “Uma parte de mim queria acreditar que aquilo poderia ser uma mentira...” Ela deu um passo para trás. “Mas, te vendo assim...”
Quando a imensidão de pensamentos dolorosos tomaram conta de Isla, ela decidiu que sairia daquela festa. Não era saudável para si mesma ficar ouvindo aquelas conspirações sobre o anônimo, depois de tudo o que ele havia causado à ela. Não era como os outros. Não era vingativa. Queria só silêncio e uma vida tranquila, sem que ele lhe atordoasse... Principalmente com o que havia soltado sobre Valentin. Porra. Havia o protegido antes para que agora tudo fosse a tona? Que merda. Merda, merda, merda, repetia Isla. Não julgava o que ele havia feito, porque acreditava que a morte havia sido decorrente de outros fatores, ao menos era o que queria acreditar. Amava Valentin demais para colocá-lo como vilão da história. E gostava muito de Faheera para achar que os dois, juntos, teriam dolosamente matado alguém. Não fazia sentido. Porém, não falava direito com seu melhor amigo há tanto tempo que o álcool em seu organismo e a busca por tranquilidade lhe levou diretamente a... Ele mesmo, Valentin. Ela se aproximou com um olhar envergonhado, porque desde que sua gravidez foi exposta a ele, não trocaram muitas palavras além do básico. Queria ele de volta, queria a conexão que tinham de volta, mas eram tantos segredos entre eles... “Você não ‘tá com cara de quem tá feliz aqui. Eu ia subir pro meu apartamento, quer ir junto?” Ofereceu, estendendo a mão. “Podemos.. Conversar sobre tudo isso. Acho que está na hora.” Sussurrou, tímida, pensando que talvez ele pudesse não querer nem falar com ela.
Wolfgang estava eufórico e muito feliz. Quando pensou no plano e esquematizou ele com Cédric, tinha suas dúvidas de que fosse dar certo mesmo. É claro que tinha ficado zangado com a exposição do anônimo, especialmente porque afetou pessoas que ele gostava, mas quando foi até a festa e o pessoal começou a falar sobre o assunto, tudo o que conseguia era ainda ficar viajando na própria sorte daquela noite. Estava mexendo no celular enquanto outros amigos falavam sobre a situação, quando notou Isla sentando ao seu lado. ❝ — Ei, tudo bem? Cansou da conspiração?❞ — brincou.
A exposição do anônimo entristeceu Isla num nível que pensava que ele não conseguia mais lhe aborrecer. O ponto era: Valentin foi alvo dessa vez. Valentin. Ela não conseguia cruzar os olhos com ninguém pensando no mal que seu melhor amigo havia feito, ou poderia ter feito, àquele homem mencionado, e à família dele, por Deus. Quando todos começaram aquele assunto do qual Isla não queria fazer parte, principalmente pelos últimos acontecimentos da sua vida, foi atrás de ar puro. Notou Wolfgang em seu celular e aproximou-se, sentando ao lado do rapaz, e levando os dedos até os cabelos, ajeitando a presilha que segurava sua franja. “Conspiração ou não, cansei. Acho que eles estão brincando com fogo.” Opinou, antes de pender a cabeça para os lados, com preguiça. “Isso era para ser uma festa, não uma reunião de comitiva. Pela primeira vez, queria estar loucona dançando, não... assim.” Brincou, em resposta, tirando seus saltos altos dos pés para livrar-lhe do incômodo. “Por que você não está lá? Depois do... Bem, você sabe.” Mencionou o vídeo, tentando saber como ele estava acerca da exposição durante a peça.
but it's shitty 'cause i'm doing the same to you .
flashback ; college weekend .
parte dois de dois .
nove de maio de dois mil e vinte e um .
cinco horas da tarde .
@gg-pontos
depois do áudio enviado a jun, isla ponderou se deveria comunicar mais alguém do que estava prestes a fazer e de quem estava prestes a encontrar. não sabia em qual humor encontraria hugo, mas o assunto que tinham a tratar não era dos mais simples. não era todo dia que seu ex-namorado (atrevia-se a chamá-lo dessa maneira, mesmo sabendo que ele nunca foi seu, nem perto) descobria que você teve um filho com ele e o entregou a uma família na península dos balcãs. de longe, era uma situação única. única e dolorosa. esperava que ele não estivesse com raiva, ou qualquer sentimento parecido, porque se sentiria obrigada a deixá-lo sozinho e voltar ao seu quarto. não estava preparada para lidar com a raiva dele acerca da gravidez e do bebê. não era um assunto que queria discutir com ele. contudo, no fundo de seu coração, entenderia a raiva alheia, uma vez que isla escondeu o assunto dele, privando-o de ter ciência e opinião naquilo. por si só, decidiu dar o menininho a outra família, mas nunca passou em sua cabeça que hugo teria uma opinião diversa daquela. pelo que conhecia dele, isla tinha certeza absoluta em suas ideias e concepções que ele não estava preparado para ser pai. entretanto, eram duas coisas diferentes: estar preparado e querer, e ela nem lhe deu a possibilidade de querer ser pai.
montbéliard chegou no restaurante e logo vou escoltada até a mesa onde o rapaz estava. ele, como de costume, estava com uma taça de vinho em mãos, e aparentava lindo, como isla sempre o achou. ❛ bonne nuit¹. ❜ cumprimentou-o, antes de notar que o garçom puxava a cadeira para que sentasse. acomodada, ela ainda não conseguia encará-lo nos olhos sem sentir que estava perto de um precipício. ❛ aceita? você ainda bebe vinho, não? é um clos de papes chânteauneuf du pape, ótimo. ❜ pauline, de forma nervosa, somente assentiu, e observou o garçom servir uma taça para si. os lábios (vale mencionar, sem batom algum, coisa que fazia isla se sentir nua) foram de encontro com o cristal da taça e degustou a bebida. ❛ ótimo, bem como você disse. ❜ respondeu, devolvendo a taça para o local próximo ao prato vazio. não pretendia jantar definitivamente com hugo, nem acreditava que ele mesmo queria fazer aquilo, mas era uma boa distração para sua mente o guardanapo de tecido em cima do prato branco, pois tinha algo com que seus dedos podiam brincar que não era sua própria pele, o que fazia sempre que não se sentia confortável em uma situação, machucando levemente a si mesma.
para acabar com aquele silêncio (curto, mas incômodo para ela), arrematou: ❛ hugo... ❜ e ele, ao mesmo tempo, também pareceu ter a mesma ideia, dizendo: ❛ acho que temos muito a conversar. ❜ deixou hugo terminar sua frase e tomou a iniciativa de respondê-lo com o início de sua história: ❛ vou começar, então... a história não é longa, mas acho que você precisa entender o momento em que tudo começou. ❜ propôs, e o rapaz logo assentiu, bebericando o vinho. ❛ eu descobri em junho que estava grávida. final de junho, quase julho de 2019. não deveria estar com mais de três semanas quando descobri, por isso acho que... a concepção foi ainda nos dois primeiros finais de semana que passamos juntos. a única pessoa que eu contei foi a eloise, porque ela lhe conhecia e sabia do nosso envolvimento... não queria assumir para mais ninguém o que estava acontecendo, nem para meus pais. ❜ ele interrompeu-a movendo a cabeça negativamente e concluiu: ❛ nós não nos cuidamos. ❜ a francesa somente assentiu, porque não havia nada que discordasse daquela conclusão. realmente não haviam se cuidado o suficiente. isla não tomava anticoncepcional e não podia ter certeza que haviam se protegido de outra maneira. ❛ continua. ❜ pediu ele.
❛ não quis fazer nenhum exame de farmácia, queria ter uma resposta concreta e certeira, mas não podia usar meu plano de saúde, nem minha identidade. tudo com o sobrenome do meu pai vira fofoca, não podia deixar que eles descobrissem. eloise me ajudou a arranjar uma identidade falsa e paguei com dinheiro o exame, porque nem passar meu cartão na clínica parecia seguro... deu positivo, não tem nem o que explicar sobre isso. ❜ ela se encolheu na cadeira, focando sua visão e sua atenção no guardanapo em sua frente. ❛ quando eu li o resultado do exame, tive que contar para nikola.. digo, para a governanta lá de casa. alguém precisava saber para me ajudar, e ela era a única em quem eu confiava. foi bem triste guardar esse segredo de todos. tive que sair da equipe de torcida, parei de ir em festas... foquei em estudar e era isso que dizia para poder negar todas as saídas. ❜ isla tinha de agradecer por poder ter aquela opção de focar em seus estudos, porque foi um tempo totalmente nebuloso em sua vida. ❛ eu.. amava ele, hugo. amava. cada chute, cada soluço, cada movimento, tudo que ele me fazia sentir... doía saber que eu não daria a ele a vida que ele merecia. ele não merecia ser um segredo. não merecia. ❜ negava com tanta dor que sua cabeça se movia freneticamente para os lados, os olhos fechados tentando não cair em lágrimas.
❛ era um menino...? um menino? ❜ aquela pergunta partiu seu coração. a voz dele era rouca, como se estivesse triste, processando aquela tonelada de informações. tinha tirado dele a oportunidade de desejar ser parte da vida daquela criança. ❛ remy. o nome dele é remy. eu dei esse nome a ele. ❜ respondeu a hugo, tentando, ao menos, cruzar seus olhos com os dele, por mais que lhe machucasse. ❛ um menino. ❜ repetiu. ❛ você deu ele para alguém conhecido? alguém... bom? amável? ❜ isla não conseguiu segurar seu choro e, com o mesmo guardanapo que brincava para tentar dissipar o nervosismo, limpou suas lágrimas. ❛ quando nikola começou a perceber que eu já estava aparentando estar grávida e que os outros notariam com mais facilidade, ela fez todos os arranjos para que eu fosse para a cada dos pais dela na sérvia. eles conheciam um casal que estava há anos tentando aumentar a família e... bem, eu escolhi eles para ficarem com o remy. ❜ ela apoiou os cotovelos na mesa e, em seguida, a testa nas mãos, tentando acalmar-se para que não chorasse ainda mais. aquele era um assunto delicado, fruto de uma relação complicada, de pessoas que mal se conheciam, afinal. ❛ o mais doloroso foi... ficar com ele nos meus braços. ele era tão pequenininho, hugo. tão frágil. tão lindo. tinha cabelos escuros que nem os nossos, o nariz... o nariz, hugo, era tão parecido com o seu. ele era perfeito, só que eu não podia chamá-lo de meu. ele não era meu, não era nosso. era daquele casal. ❜ isla desabou assim que juntou forças para terminar sua frase.
❛ você ficou com ele, você o viu? ❜ perguntou o rapaz, mas isla não conseguia nem respondê-lo. havia passado um mês com remy, tentando amamentá-lo, antes de entregar o bebê àquela família. talvez tenha sido por isso que aquilo tinha doído tanto, porque sabia qual era a sensação de tê-lo junto de seu seio, como as mãozinhas dele apertavam sua pele procurando por alimento, por aconchego. a francesa soluçava e, quando ouviu o barulho da cadeira de hugo, pensava que ele iria deixá-la sozinha ali. afinal, conhecia um cara impaciente, teimoso, determinado. porém, ele abaixou-se ao lado da cadeira de isla e a abraçou. era uma atitude que não imaginava que partiria de hugo laurence cayard.
montbéliard não pode precisar quantos minutos ficaram em silêncio enquanto ela chorava, com os braços de hugo em volta de seu corpo. foi, no entanto, o necessário para acalmá-la. não falava sobre remy com ninguém. e, quando o segredo foi revelado por -e, não quis conversar sobre com seus amigos porque eles não entenderiam. ninguém entenderia. isla sabia a dor de ser abandonada, deixada em um orfanato a mercê do desejo dos outros, e tinha prometido a si mesma que seu filho nunca pisaria em um. por isso, mesmo que não fosse a coisa mais legal (juridicamente falando), queria entregá-lo a uma família que o queria, que iria amá-lo e cuidar dele como se fosse seu. não havia dado seu filho a outros porque não queria ser mãe. entregou-o porque era a atitude mais maternal que podia ter naquele momento.
ela enxugou suas lágrimas no dorso das mãos e respirou fundo. no entanto, não queria que hugo lhe soltasse, mas era o que deviam fazer. ❛ hugo... você me perdoa? por não ter te contado? por ter sumido, por ter te bloqueado sem me explicar? ❜ indulgência era uma característica de isla, e esperava que fosse de hugo também. o rapaz se desprendeu da menina e voltou a sua cadeira, com o rosto vermelho. isla se perguntou mentalmente se ele estava segurando suas emoções. ❛ não tem nada para ser perdoado aqui, isla. eu só queria que você tivesse me contado. eu tinha que ter feito parte. não era só seu. ❜ aquelas palavras doíam, mas não tanto quanto falar de remy para ele. ❛ eu entendo que você não queria me contar, mas deveria. agora já foi. já passou. ❜ a voz do rapaz tinha um misto de tristeza e incômodo que isla nunca havia ouvido antes, não na boca de hugo laurence. ❛ não foi... não é fácil. ❜ tentou contribuir com algo, mas voltou a fechar-se. ❛ doía! só doía! doía falar dele, falar com ele... eu não queria falar com você. você não parecia querer ser pai, ninguém quer ser pai naquela idade, principalmente alguém com seu estilo de vida. ❜ julgou, mas doeu falar daquela forma. porém, era a verdade. hugo vivia em festas. não fazia jus a um dad material, nem de longe. ❛ você sempre espera o melhor das pessoas, isla, mas de mim... sempre espera o pior, não sei porque ainda me surpreendo. ❜ criticou o mais velho. isla não podia nem rebater aquela afirmação. era a mais pura verdade, mas mesmo assim, disse: ❛ só pelo jeito que você me tratou quando apareci no seu dormitório, achei que essa conversa seria... bem pior. ❜ ela deu de ombros em seguida. ele soltou uma risada irônica e balançou a cabeça, como se quisesse falar algo mas estivesse se segurando.
❛ a última coisa, isla, que eu quero.. quer dizer, que eu preciso saber, é se você tem algum contato com ele? notícias? qualquer coisa. ❜ optou pela honestidade. tinha de ser honesta agora, por não ter sido antes. devia aquilo a ele, não? ❛ tenho contato, sim. ❜ confessou, buscando seu celular. ❛ eu... mando dinheiro todo mês... para que ele possa ter uma educação de qualidade, uma vida boa e confortável, que não passem necessidade alguma. só isso. não me meto, não pergunto, só envio dinheiro. ❜ respirou fundo, antes de completar: ❛ eu tenho uma foto dele... você quer ver? ❜ questionou, e nem deu tempo para buscar a foto em seu rolo da câmera, a resposta de hugo foi veloz: ❛ óbvio! ❜ e, enquanto isla procurava pela imagem, ele completou: ❛ eu quero ajudar também. com dinheiro, com roupas, com o que ele precisar. com o que a família precisar. ❜ um sorriso cresceu nos lábios de montbéliard, transformando a expressão tristonha em uma orgulhosa, contente com o que havia ouvido. não esperava nada de hugo, nem os pais de remy esperavam, mas saber que ele queria ajudar... era tudo para isla. ❛ vou pedir para nikola fazer os arranjos então, te mandar as informações. ❜ acalentou-se com aquelas frases.
quando encontrou a foto, fechou os olhos, lembrando-se do momento em que foi tirada. era o retrato do nascimento de remy. os olhos de isla mostravam o cansaço, mas a alegria em ter colocado ele no mundo, com vida, saudável. ainda na sala de parto, a mãe de nikola, antonja, havia insistido em registrar o momento, e isla acabou permitindo, mesmo que soubesse que derrubaria algumas lágrimas toda vez que esbarrasse seus olhos naquela foto. o pequeno remy estava encolhido em seu peito nu, ainda sujo, com seu cordão umbilical recém cortado, e isla estava com seus lábios encostados em seus cabelos ralos, mas escuros. deslizou o aparelho celular pela mesa até que estivesse próximo de hugo e assim que notou que ele colocou seus olhos na tela, pôde vê-lo tomar outra expressão em seu rosto. manteve o silêncio, porque não queria dizer a coisa errada, e permaneceram daquela maneira por algum tempo, até o rapaz pronunciar algo: ❛ ele... é... ele é a minha cara, não? ❜ isla somente assentiu, optando por manter o silêncio com um sorriso delicado no rosto, tentando não passar muito tempo olhando a foto na tela de seu celular para não se entristecer novamente. ❛ eu.. preciso ir, isla. isso foi... esclarecedor, mas tenho que pensar sobre... refletir... eu agradeço a sua honestidade, apesar de ter demorado quase um ano, dois até. espero que você realmente peça para sua governanta me contatar. quero ajudar, mas você tem que permitir, e não me afastar de tudo. posso não ter sido bom para você, mas quero ser bom para ele. ❜ hugo, por fim, levantou-se e, antes de caminhar em direção a saída do restaurante do hotel, depositou um beijo no topo da cabeça de isla, que permaneceu imóvel, como uma estátua, processando a noite que tivera.
Era quarta-feira quando Wolfgang finalmente conseguiu dar as caras na escola. Não gostaria de ir nunca mais se fosse honesto, mas se queria se formar precisava comparecer às aulas (assumindo que ainda existia um futuro que fosse fora da cadeia). Além disso, foram ordens do juiz dele continuar estudando para não precisar usar tornozeleira eletrônica. Só que em certo ponto do dia todos os olhares e cochichos deixavam-no sufocado. Ele não gostava normalmente de ficar sozinho, mas ultimamente estava preferindo. Ia para as aulas e saía delas mudo e calado. Era difícil falar quando só tinha uma coisa em mente: como sair desse buraco? Por isso o austríaco ia com ainda mais frequência para um lugar não muito frequentado: o terraço. Queria ficar em paz lá em cima e ver se conseguia pensar em alguma fórmula mágica, um feitiço para livrá-lo daquilo. Mal percebeu que não estava mais sozinho. O garoto suspirou. ❝ — Então, veio pular, tá fugindo da polícia ou só veio mexer na estufa mesmo? Tag yourself.❞ — falou, soltando uma risada meio nervosa.
Isla não gostava da sensação de ter algum conhecido seu se sentindo mal. Conseguia ver na feição e nos trejeitos de Wolfgang que ele estava longe de estar em seu humor normal e cotidiano. Não queria, contudo, ser o tipo de pessoa que se metia nos assuntos dos outros, para isso já bastava o anônimo que perseguia ela e os colegas, colocando seu dedo onde não era chamado. Por si só e seus recentes acontecimentos, a vida de Isla não estava uma das melhores. Não estava contente com seus últimos dias, nem semanas. Seu segredo se tornou público para quem aquele anônimo bem entendesse enviar, havia encontrado com Hugo e descoberto coisas de Eloise que lhe fazia tremer só de lembrar e cogitar a possibilidade dela ter feito algo a Camille. Por isso, nos últimos dias, para conseguir pensar, se locomovia até o terraço, onde podia ler com tranquilidade. A voz de Wolf lhe tirou a concentração de seu livro. O escolhido da vez: História de Florença, de Nicolau Maquiavel. Abaixou o livro e levantou seus olhos para os do rapaz. “Fugindo de uma tal de Isla Montbéliard, conhece?” Respondeu, com um riso incomodado. “E você? Já aviso que se for pular, não permitirei. Ninguém pula daqui sob minha observação.”
A resposta de Andrea para tudo o que vinha acontecendo era que todos precisavam de ar fresco. Paris pelo visto não havia ajudado muito - e até adicionado outros traumas - então lá estava o rapaz tentando fazer o bem para uma das pessoas que se importava. Combinou com Isla de saírem para fazer um piquenique, assim ele poderia colocar em ação outros planos que havia em mente. Assim que estacionou a BMW em frente ao prédio que a maioria de seus amigos moravam, logo pegou o celular para mandar mensagem para a menina.
[ 📲 to Isla 👩❤️💋👨 ]: bonjour, mon amour. Já estou te esperando aqui embaixo 😘
A resposta de Andrea para tudo o que vinha acontecendo era que todos precisavam de ar fresco. Paris pelo visto não havia ajudado muito - e até adicionado outros traumas - então lá estava o rapaz tentando fazer o bem para uma das pessoas que se importava. Combinou com Isla de saírem para fazer um piquenique, assim ele poderia colocar em ação outros planos que havia em mente. Assim que estacionou a BMW em frente ao prédio que a maioria de seus amigos moravam, logo pegou o celular para mandar mensagem para a menina.
[ 📲 to Isla 👩❤️💋👨 ]: bonjour, mon amour. Já estou te esperando aqui embaixo 😘
Isla leu a mensagem com um sorriso no rosto. Avisou Nikola, sua governanta, dos seus planos para aquela tarde e, como sempre, a mulher fez questão de ficar na janela esperando para avistar Andrea e poder encantar seus olhos com a visão que, nas palavras dela, era do paraíso. Quando ela viu o carro estacionar em frente ao prédio, gritou para Isla, mas a mesma já havia colocado seus olhos na mensagem enviada por Andrea. Havia optado por um conjunto lilás com um salto alto de tipo bloco, para que pudesse caminhar confortavelmente até na grama, se esse fosse o destino final dos dois. Não se deu ao trabalho para responder, pois logo que leu a mensagem, alcançou sua bolsa e correu para o elevador, nervosa pelas horas que viriam. Gostava de Andrea, mas guardava seus sentimentos para si para não danificar o laço que tinham criado nos últimos tempos. Não podia se dar ao luxo de perder a amizade dele por uma paixonite que poderia não ser correspondida. Não podia. Priorizava a amizade acima de tudo, inclusive da sua felicidade no quesito romance. Quando chegou no hall de entrada do semiramis, caminhou com passos corridos até o carro do rapaz. “Demorei?” Questionou, abrindo a porta. “Nikola mandou um abraço!” Lembrou com um sorriso enorme estampado no rosto. “Pronto, devidamente segura... Oi!” Riu, colocando o cinto de segurança, e avançando na direção dele para dar-lhe um tradicional e natural beijo na bochecha.
estudou-a com muita cautela, como no intuito de se certificar de que poderia confiar na palavra dela de que não precisava de um hospital. ludovic se aproximou, com certo receio. — ❝ um copo d’água. tomar um ar, talvez? ❞ — sugeriu, a preocupação implícita em sua voz insistia no fato de que ela não parecia nada bem. — ❝ só preciso pagar o livro e podemos dar uma volta se você quiser. ❞ — ergueu o único exemplar que restou em sua mão depois de ter arrumado os que foram derrubados pelo nervosismo alheio. estava prestes a abrir a boca para dizer mais alguma coisa quando entendeu que sua suspeita era confirmada, ela realmente pensava que ele iria julgar ela pelo que foi exposto pelo anônimo. quem era ele para julgar, afinal? ele tinha um segredo, e era muito pior que aquele de certa forma. — ❝ somos jovens, isla. todos nós já fizemos algo de errado na vida. até mesmo eu. ❞ — permitiu que uma risada baixa, talvez um tanto mórbida, escapasse por entre os lábios. — ❝ não acho que errar defina nosso caráter, permanecer no erro sim… mas errar e reconhecer que errou é o que podemos fazer de mais humano nessa vida. eu não faço ideia do contexto, se foi mesmo um erro ou não, mas não preciso saber pra te falar que não precisa ficar se martirizando por isso, ok? ❞ — olhou para ela e esboçou um sorriso afetuoso.
Balançou a cabeça para os lados pensando se queria passar seu tempo com Ludovic naquela situação. Gostava da companhia dele, mas não sentia que seria uma acompanhante... Simpática, quando tudo o que queria era desaparecer do universo agarrada em seus livros de romance de época. Porém, não queria ser desagradável. Negar convites não era de seu feitio, Isla sempre aceitava qualquer convite de seus amigos, em qualquer circunstância pessoal que tivesse. “Uhm, claro, um ar fresco seria ótimo.” Aceitou, dando um passo para trás, observando o livro nas mãos do rapaz. “O que você teria feito de tão ruim? Matou uma formiga?” Atreveu-se a brincar com o comentário alheio, em tom baixo, numa tentativa de tirar o foco do assunto de si e jogá-lo para o rapaz. Não queria nem lembrar de que seu segredo havia sido exposto para seus amigos, porém o discurso dele só lhe fazia daquilo. Não achava que tinha feito um erro, mas o modo como o anônimo descreveu sua história, parecia algo terrível. Ela não se arrependia de nada. Fez tudo com o coração apertado de tanto amor que sentia por aquele bebê, somente buscando dar a ele a melhor vida do universo, a melhor família. “Eu não errei, Ludo. Nunca disse ou pensei que errei, ele só colocou num contexto que... Pareceu um erro.” Confessou, dando de ombros, sem olhar nos olhos do menino. “Posso pagar isso para você? É o mínimo.. Depois de derrubar quase a livraria inteira.” Estendeu a mão esperando que ele aceitasse sua oferta.
O telefone do quarto do hotel tocou e Isla estranhou. Será que havia acontecido algo para a recepção estar ligando para lá? Qualquer outra pessoa estaria lhe enviando uma mensagem no celular que estava em sua mão, navegando pela timeline do instagram. Como sua cama ficava do outro lado do quarto, demorou alguns segundos até que alcançasse o telefone e foi tempo suficiente para ela lembrar que alguém tinha sua localização. Não acreditava que poderia ser Hugo, mas a recepcionista logo disse: “Senhorita Montbéliard, Hugo Cayard está aqui no lobby. Posso deixá-lo subir?” Sem nem respirar ou pensar, a menina respondeu: “Não!” O modo abrupto como respondera talvez tivesse sido desrespeitoso para quem estava no outro lado da linha, mas a recepcionista logo contornou a situação. “Uma mesa no restaurante, então? Ele disse você que estaria a espera de sua visita.” Isla, então, respondeu antes de desligar a ligação e correr em direção a sua mala: “Isso. Irei descer em dez minutos.”
Era complicado para ela encarar aquele rapaz. Tinha inúmeros sentimentos que se confundiam e lhe resultavam em uma grande dor de cabeça. Queria odiá-lo. Queria afastá-lo. Queria tirá-lo de sua vida. Ele havia lhe causado tanta dor, mas tanta, que era difícil distinguir o que fora real e o que fora mentira no tempo em que o relacionamento durou.
Eloise sempre julgou um traço específico da personalidade de Isla: ser romântica incorrigível até demais. Para qualquer sinal de atenção vinda de um homem, ela já estava suspirando de amores. Foi assim com Valentin, foi assim com Hugo, duas figuras de extrema importância em sua vida. Os únicos com quem havia se envolvido sexualmente, afinal, o que era algo grande, muito grande para Isla, que tinha diversas inseguranças que bloqueavam-na sexualmente com outros. Se apaixonava facilmente, isso sem dúvidas, beijava com tranquilidade, mas em qualquer sinal de avanço, ela sempre desistia. Com Valentin, sentia que a confiança que tinha nele e a amizade que construíram com base em honestidade e cumplicidade (tirando o fato de que poderia ter estragado a relação dele com Viviénne e ainda não haviam conversado sobre), possibilitava que, com ele, tudo de natureza sexual era facilmente acatada pelo cérebro e corpo de Isla Pauline.
Com Hugo... Bem, foi diferente. Ele soube domar Isla do jeito certo, quase como se tivesse sido avisado de suas inseguranças, de seus problemas. Falou as palavras certas, ofereceu uma mão amiga e transformou essa mão em uma coleira, sem ela mesmo perceber. Foram três meses o encontrando toda sexta e todo sábado. Dormia com ele, acordava com ele. Apesar do relacionamento ter sido curto, Hugo fez Isla se apaixonar de forma tão intensa que, quando ela descobriu que ela já tinha uma namorada, ela continuou lhe vendo. Continuou trocando mensagens. Continuou sendo dele, mesmo que ele não fosse somente seu. Ou seu em qualquer maneira.
Buscou uma roupa que fosse clara, mas isso não foi tão difícil, porque seu guarda-roupa era predominantemente de tons claros. Queria mostrar que estava indo com paz, afim de solucionar qualquer problema ou sentimento pendente que tivessem, e achava que uma roupa branca provocaria tão impressão. De certa forma, também, queria que ele lhe visse de outra maneira a não ser com roupas de festa que Eloise sempre lhe ajudava a escolher. Queria estar vestida como Isla Pauline.
Quando decidiu por uma camisa de cetim e uma saia de tweed, Isla pegou somente seu celular e a chave do quarto para, então, se dirigir até o elevador. Enquanto esperava as portas se abrirem, mandou uma mensagem para Jun com os seguintes dizeres: “Hugo veio me ver. Estaremos no restaurante do hotel. Te avisando por precaução, não acho que ele viria se fosse me destratar. Assim espero. Me liga em uma hora? Amo você.”
desde que fora confundida com eloise e a garota despejara a informação de que eloise poderia correr perigo, viviénne não conseguia tirar da cabeça uma possível relação com o recente sumiço da garota. tal pensamento vinha mantendo-lhe preocupada, e cansada de ter suas tentativas de contato com eloise frustradas, viviénne viu-se apelando para um último recurso ao procurar por alguém com quem não tinha a melhor das relações: isla. podia não ser fã da proximidade que ela tinha com valentin, porém a proximidade da garota com eloise poderia vir a calhar. assim, logo que o sinal da aula soou, avisando seu término, viviénne fez questão de esbarrar contra a mesa de isla ao levantar, de forma a fazer seu estojo cair no chão e espalhar os lápis e canetas. assim que abaixou-se para ajudar a recolher o material espalhado, assim dando algum tempo para que a sala se esvaziasse, vivi disse baixo a isla, com seu olhar dedurando a preocupação e a seriedade “precisamos conversar. é sobre eloise.”
Isla ainda estava lidando com sentimentos confusos sobre o que tinha acontecido em Paris. Apesar de ter se preparado para contar sua história a Hugo, quem lhe surpreendeu foi ele, e não o contrário. Por isso, estava meio aérea durante aquela aula. Não ouviu nem o sinal tocar e, muito menos, sentiu algo negativo quando alguém esbarrou em sua mesa, porque de algum jeito pensava que aquilo era culpa sua. “Pardon.” Desculpou-se, imaginando ser culpada de algum modo, como sempre em sua vida. “Eu junto!” Falou a Viviénne, abaixando-se junto dela para juntar o máximo de objetos que podia. Quando ela disse aquelas palavras, olhou para a outra confusa. “O que aconteceu?” Sussurrou preocupada. “Você tem notícias dela?” Disparou.
Quando Isla pediu que Jun aguardasse, ele apenas fez isso. Faria qualquer coisa que ela pedisse, afinal de contas. Encostou-se na parede, aguardando e então deixou-se ser arrastado por ela devagar pelo corredor em direção ao pátio. “Eu quero ler, mas ao mesmo tempo não quero ler.” Confessou o rapaz assim que se sentou ao lado da amiga. Balançava os pés, nervoso enquanto tentava evitar de levar uma das mãos ao boca e roer as unhas, sinal que denunciava sua ansiedade. “Ela era nossa amiga, mas sinto que nunca a conheci. Tenho tentado manter para mim as primeiras lembranças que tenho dela, a garota que me ajudou, que me apresentou a escola, a tagarela que sempre tinha um sorriso no rosto.” Jun Ho riu rapidamente com a recordação. “Você se lembra, Isla? Quando éramos nós três, apenas? Sem se importar com muita coisa, sem perseguições, exposições…” Ele apenas balançou a cabeça, triste pelos tempos mais simples que jamais voltariam. “Parece que a cada coisa que acontece ou que descubro, percebo que aquela garota não existe. Ela está sento destruída para mim. Aquela Eloise realmente existiu? Era uma farsa ou ela mudou?” Um suspiro escapou pelos lábios, mas Jun decidiu parar de falar. “Vamos ler isso logo.” Enfiou as mãos no bolso e respirou fundo, abrindo o conteúdo do envelope.
“Essa parece a letra da Eloise.” Constatou o coreano com o primeiro pensamento que lhe vira a mente. Ele esticou a folha, de modo que Isla pudesse ler também e assim que a primeira passagem, Jun Ho sentiu-se engasgar.
Querido diário,
Tenho uma irmã gêmea. O nome dela é Camille Martin. Não sei como eu devia me sentir sobre isso. Talvez feliz, mas eu só consigo pensar que ela vem tentando ter tudo que é meu: minha escola, meu círculo social… Se isso não parar, o que ela vai conseguir tirar de mim? Não quero descobrir.
“Camille Martin? Essa não é o nome da irmã desaparecida do Cedric?” Questionou para a amiga, virando-se rapidamente para ela antes de continuar a leitura, pensando em como Eloise parecia egoísta através daquelas palavras e o outro trecho parecia apenas comprovar.
Querido diário,
Camille está cada vez mais confortável com o fato de sermos gêmeas. Ela fala de se mudar para minha casa, para o meu colégio, conviver com os meus amigos. Essa coisa toda tá saindo fora do controle. Vou precisar dar um basta nisso, de um jeito ou de outro…
“Eu não entendo, qual o problema? Se eram irmãs, Eloise não deveria querer apresentar seu mundo a ela?” Conseguia entender muito bem o lado de Camille, porque Jun uma vez fora o irmão de fora, o recém chegado ansiando por conhecer um novo mundo e lutando para se adaptar. A terceira passagem fez com que o coreano se arrepiasse, um sentimento estranho trilhando todo o seu corpo.
Vou encontrar ela hoje na festa de passagem. É hoje. De um jeito ou de outro eu vou resolver nosso probleminha. É hoje ou nunca, diário.
“Então Camille estava mesmo na festa de passagem.” Disse mais para si mesmo. apesar de ser óbvio naquele ponto. “Camille e Eloise se encontraram então? Saiu no jornal que o corpo encontrado era o de Martin, o fato dela ser gêmea de Eloise revela o porquê de terem confundido. Mas por que ela estava lá?” Sabia que a amiga não conseguiria responder nenhuma de suas perguntas, de modo que falava mais para si mesmo, tentando de maneira falha juntar todas as peças. “Ninguém de Truffaut conhecia a Camille, não há razão para algum tê-la assassinado lá.” Um outro arrepio, dessa que o fez tremular, percorreu seu corpo. Havia apenas uma pessoa que poderia ter convidado Camille Martin e que tinha motivos para querer ela fora de seu caminho. Não. Apesar de tudo, Jun Ho não acreditar em nenhuma barbaridade que pudesse envolver o nome da amiga. Amaldiçoou-se por pensar mal dela, por pensar tão ruim de uma pessoa que tinha sido tão boa com ele. “Eu vou ficar louco.” Disse ao deixar as folhas de lado e passar as mãos pelo rosto.
Não era sempre que Isla queria parecer forte. Não era sempre, contudo, que apesar de querer, ela conseguia. Naquele momento, com Jun, segurando aqueles papéis, a francesa queria tudo, mas principalmente ser forte e não ter medo do conteúdo do que seguravam. Sabia que Eloise escondia muita coisa. Isso já não era mais uma hipótese, uma fofoca de corredor de escola, era um fato, e um fato dos mais comprovados possíveis.
“Eu tenho certeza que a gente nunca conheceu ela completamente, Jun.” Disparou a garota. “Você mais do que ninguém sabe que foi complicado pra mim aceitar a volta dela, que ela nunca esteve realmente morta... Nem o luto que sentimos foi de verdade, entende? Não era ela.” Explicou seus sentimentos, sentindo seu coração doer ao falar de um dos piores momentos de sua vida. “Eu tinha recém voltado da Sérvia e perdi minha melhor amiga. A única pessoa que sabia o que eu tinha passado, o que eu estava passando, e foi um sentimento em vão. Descobri coisas horríveis sobre ela. Ela não era a amiga que eu pensava que era.” Sussurrou, por fim.
Não precisou ajeitar-se para ler pois Jun foi cuidadoso ao distribuir o espaço e a carta consigo. “É dela.” Afirmou junto ao comentário sobre a letra de Eloise ser aquela nos papéis e suspirou, iniciando sua leitura.
Queria poder emanar qualquer sentimento a não ser aquele: preocupação. Preocupava-se com o que Eloise queria dizer com Camille tirando algo dela. A única coisa que disse foi uma resposta a Jun Ho: “É ela sim, a irmã do Cedric...” Sua cabeça estava confusa. A cada letra, a cada frase, Isla perguntava-se quais os motivos e acontecimentos que levaram a Eloise escrever aquilo. “Parece que ela estava com raiva...” Pensou em alto e bom som.
“Muito estranho isso, Jun. Quem não iria gostar de descobrir um irmão? Ela não era egoísta assim com a gente...” Era difícil separar o que conhecia de Eloise e o que estava a conhecer. Consigo, ao menos, nunca havia sentido que a amiga era egoísta, sempre foram tão próximas, dividiam segredos, roupas, comidas, tudo o que viesse a calhar. “Se Camille estava na festa, Eloise a viu...?” Questionou, após ler a última passagem, certamente trêmula.
“Eu não quero assumir que a Elo fez algo contra ela, mas é o que parece... Não é?” Pediu confirmação para Jun porque não sabia o que achar daquilo tudo. Eloise parecia ter toda a motivação do universo para querer ver Camille fora de seu caminho, e toda a sua motivação era tão... Errada. Não fazia sentido. Para Isla, Eloise nunca seria capaz de matar alguém, mas após aquelas passagens, era o que sua cabeça estava querendo assumir. “Será que ela foi por causa da Eloise? Tipo, será que ela que chamou a Camille? Afinal, parece que elas conversavam...” Comentou, em dúvida. “Jun... Não quero parecer pessimista, ma essa não é a nossa amiga.” Concluiu antes de pegar os papéis da mão dele e colocar dentro de sua bolsa, para que saíssem de sua vista.
Isla estava assustada com Eloise e com o que tinha lido. Estava assustada por Eloise, também, por Camille, por Marcellus, por Cedric. Aquilo parecia não ter fim.
Isla, assim que soube que viajariam para Paris, definiu um objetivo: visitar a ponte dos cadeados e procurar, com uma foto de seu pai em mãos, algo que afirmasse que ele havia estado ali com outra mulher que não sua mãe. Era uma chance em um milhão, é claro. Ela sabia disso. Porém, estava confiante que o universo lhe ajudaria. Ser positiva é a chave da conquista, dizia Nikola. Ao chegar no local, vestida dos pés a cabeça de Chanel (e até cheirando a Chanel n. 5), a menina pegou dentro de sua bolsa a foto que, há alguns dias, havia recebido de seu irmão. O pai não havia mudado nada, com o mesmo olhar brincalhão, sonhador de sempre, mas estava menos grisalho, com menos rugas. Com certeza, Antoine e dera mais trabalho ao pai nos últimos anos, brincou mentalmente, zombando do meio-irmão como era de praxe. Ela posicionou a foto em direção ao céu, analisando-a e tentando encontrar algo que indicasse alguma exatidão geográfica naquela imensidão de cadeados. Fora assim que, caminhando sem prestar atenção para onde ia, esbarrou em alguém. De antemão, desculpou-se: “Perdão!” E logo, abaixou a foto, notando que o universo gostava de brincar consigo. “Jeanne! Me desculpa, estava prestando atenção nisso e... Nem vi para onde estava indo.” Explicou-se, mantendo um sorriso calmo e doce nos lábios. Não eram exatamente próximas, nem perto disso, e sempre sentiu que as personalidades se colidiam demais nas poucas ocasiões que trocaram algumas palavras. Pelo que sabia de Jun Ho e da menina a sua frente, queria fazer um esforço para ser amiga dela se a mesma permitisse. Afinal, seu melhor amigo não escondia nenhum detalhe daquela relação (acreditava Isla).
Não havia nenhum universo no qual Jun deixaria de amparar Isla. Era sua melhor amiga, havia sido seu porto seguro durante alguns momentos sombrios e jamais, em hipótese alguma a deixaria. Quando soube do filho dela pelo E, sentiu-se culpado da maneira como havia se sentido com Eloise. Não era confiável o suficiente para que suas amigas compartilhassem os segredos e aflições? Mesmo que tivesse pensando bastante a respeito, não levou o questionamento pra Isla. Apenas a apoiou, abraçando-a enquanto tentavam superar a ferida provocada pelo anônimo. Quem ele era, afinal? Por que achava-se no direito de estragar a vida das pessoas? Jun esperava que quando acabasse a escola e fosse para longe, os problemas desapareceriam também… Talvez estivesse errado.
Como um bom amigo de Isla, não pensou duas vezes antes de ir com ela enfrentar o pai de seu filho. Conseguia entendê-la perfeitamente, os motivos e todas as outras coisas e estaria ao lado dela para garantir que este tal Hugo não fosse um completo imbecil. Isla não merecia, já havia passado por tanto, afinal de contas. De braços dados, demonstrando todo apoio que podia, a acompanhou pelo corredor. Sentia-se em defensiva, a adrenalina correndo seu corpo enquanto imaginava o pior dos cenários. Se ele dissesse qualquer coisa minimamente ofensiva, Jun não hesitaria em acertar um soco no rosto alheio. Estava preparado para enfrentar um babaca. Quando o rapaz atendeu a porta, o coreano apenas se desvencilhou dela e deu um passo para trás, quase como um guarda costas. A cada palavra pronunciada por Isla, sentia a admiração e o orgulho por ela crescer, porque ela não parecia mais a menina recatada e indefesa que sempre parecera, mas sim uma mulher confiante. Jun gostava de ver esse lado, pensando em como havia testemunhado o crescer de Isla. No entanto, embora tenha havido certa surpresa, a expressão do rapaz tornava-se cada mais uma entediada, cada vez mais inexpressivo.
Jun permaneceu em silêncio, apenas aguardando o desenrolar. Não conhecia alguns dos nomes citados, porém achava tudo muito curioso. Ficou ainda mais curioso quando ele perguntou de Eloise e bem, furioso também. Hugo havia ignorado quase que completamente a informação sobre um filho, ignorado a pergunta de Isla sobre a tal Cecile e ido diretamente para Eloise, como se ela fosse mais importante do que todos os assuntos anteriores. Jun achava que nada era mais importante que um filho. No entanto, viu ali uma chance de desvendar um pouco do mistério que Eloise tinha se tornado.
“Eloise estava querendo saber de você.” Jun finalmente se pronunciou, dando de ombros suavemente, como se suas palavras não fossem nada demais. Estava blefando, mas sempre fora um bom mentiroso. Deu um passo para frente, um sorriso nos lábios, mesmo que suas mãos estivessem em punhos no bolso da jaqueta, enroladas em raiva. Decidiu ser um pouco mais ousado, ir um pouco mais longe. “Você pode nos entregar o que ela pediu.” Disse com confiança, mas sentindo-se confuso. Eloise tinha muitos segredos, não sabia se aquele rapaz poderia saber de algum, mas não deixaria de tentar. Valeria a tentativa, certo? “Eu não sabia que… Chase disse… Bom, ok”, falou surpreso e confuso. Enfim, ele caiu na isca, mexeu nos bolsos e entregou um envelope para eles. “Eloise queria isso aqui, pelo que eu entendi, e não era pra ninguém mais ler. Eu não sei como isso veio parar com… Enfim, não posso falar muito sobre isso, só sei que não era para cair nas mãos erradas”, disse e deu de ombros. “Não somos as mãos erradas, cara. Somos amigos dela, de Truffaut.” Garantiu, o sorriso verdadeiro dessa vez ao constatar que estava certo. O blefe tinha dado bons resultados. “Nada melhor do que voltar para ela, não?” Dobrou o envelope, enfiando-o nos próprios bolsos. O rapaz assentiu, dando uma última olhadela para Isla, seguida de uma piscada e então fechou a porta.
“Que babaca.” Murmurou baixo, segurando a mão de Isla. “O que você quer fazer agora? Quer conversar com ele de novo?” Perguntou, porque achava que a pessoa mais importante ali e com mais motivos era a melhor amiga.
Isla Pauline se sentia suja pelo modo como Hugo lhe olhava, pelo modo como ele ousava falar que ela deveria ter lhe dito algo... De certa forma, ela sabia que aquele bebê era metade dele, em questão biológica, e isso lhe fazia se sentir triste, porque tirou dele essa informação, mas não sentia como se devesse algo. Não devia.
Se sentia igualmente suja pelo modo como ele pronunciava aquelas palavras sobre Eloise e o que quer que ela tinha deixado com ele. Jun havia sido inteligente, rápido e certeiro. Ela nunca pensaria em falar nada como aquilo. Quando o rapaz começou a mexer nos bolsos, Isla até tomou uma expressão surpresa, mas satisfeita, porque a isca havia sido mordida e realmente ele tinha algo de Eloise consigo. Isla queria mais respostas sobre Eloise, principalmente depois do que havia encontrado em seu quarto e, principalmente, com o seu segredo tendo sido vazado.
“Ela queria que eu pegasse isso.” Mentiu, num sussurro, tomando coragem para dizer algo junto com a garantia de Jun de que eram amigos de Eloise. “Você eu sei que era amiga dela. Não daria isso se ele aparecesse sozinho.” Resmungou Hugo e a resposta de Isla foi abrir um sorriso forçado e totalmente falso.
“Você me espera, rapidinho?” Questionou, soltando a mão de Jun e batendo na porta do rapaz novamente. Ela alcançou sua agenda na bolsa e anotou nela o hotel que estava hospedada e o número de seu quarto. Quando ele abriu a porta, com uma expressão impaciente, ela estendeu o papel. “Se você quiser conversar... Vou embora amanhã.” Afirmou. Não o desbloquearia nas redes sociais e nem queria que ele tivesse seu novo número de celular. Por isso, parecia mais prudente encontrá-lo no hotel em que estavam, principalmente se fosse em público. Ela não se despediu, nem nada, só se afastou lentamente e voltou a entrelaçar seu braço no de Jun Ho. “Vamos encontrar um lugar calmo para ler isso aí.” Afirmou, antes de iniciar uma caminhada em direção do pátio externo e dizer: “O que será que é isso? Porque tinha de cara de ser algo em extremo segredo... Pelo jeito que ele falou.” Arqueou as sobrancelhas, pensativa. No primeiro banco que encontraram vago, os melhores amigos se sentaram.