Eu estava me sentindo perdida naquela cidade. Então de repente, vi luzes piscando ao redor de uma placa que dizia "TEATRO DA VIDA - Sessão única às 21h".
Não sei o porquê, mas aquele letreiro me chamou a atenção, e eu fui caminhando rumo à bilheteria e um menino que tinha feição de seus 12 anos, com uma luz envolta nele e asas (que eu não sabia se era fantasia ou algum fundo) me atendeu...
- Vai querer o ingresso único para o espetáculo "Teatro da Vida"?
- Ingresso único? (eu falei sem entender nada)
- Sim. Essa peça acontece apenas uma vez a cada pessoa que procura nossa bilheteria. E tenho certeza que você gostará da peça.
- Bom, algo me diz para comprar esse ingresso. Eu vou querê-lo.
- Ótimo. - disse ele retirando o ingresso - Bom espetáculo.
De repente, outro menino de uns 14 anos, e com asas também, apareceu do meu lado e tinha escrito no crachá "funcionário Santo Anjo"...
- Onde vocês alugam essas fantasias que até vocês voam com elas?
- Entenderás no decorrer do espetáculo.
Ele sorriu e eu inevitavelmente sorri de volta, não sei o porquê.
Estávamos na porta e ele me encaminhou a um banco único no centro do teatro.
E eu me sentei e ele disse...
- Não se preocupe, haverá cenas fortes e assustadoras na peça, mas recorra à mim se quiser fechar os olhos ou tiver medo.
- Ok. (disse eu achando tudo estranho)
Então as luzes se apagaram, e ficaram apenas dois refletores de luz, um no palco e um sobre minha cadeira.
Um casal estava andando de mãos dadas e o homem beijava a barriga da mulher e assustadoramente, a barriga crescia, mas a mulher era atormentada por tempestades. E de repente, ela deitou no chão e aparecia uma placa "Santa Casa de Misericórdia", e um bebê pequeno, assustadoramente pequeno, fraquinho, magrinho, saiu de dentro dessa mulher e foi levado à encubadora, e a mulher estava assustada, porque via tanta fragilidade naquela vida e não se sentia capaz de oferecer o que ela merecia. Sim, era uma menina. Aquele bebê era uma menina. Assustadoramente, ela tinha o meu nome, e eu fiquei meio sem entender, tanta coincidência.
De repente, visitavam aquela menininha, e ela lutando pela vida, com dificuldades na amamentação da mãe dela para com ela, e ela tendia a ter dificuldade a aumentar o peso nos primeiros momentos. Aquela menininha chorava muito, de forma que seu choro perturbava a paz de sua mãe, e me trazia dor ao coração.
Ela estava bem frágil nos braços de sua mãe insegura e tão frágil quanto.
De repente, trocava-se o cenário, a menininha era uma criança, uma criança linda e que causava discórdia entre seus familiares próximos, porque ela era a primeira e muito apegada fora ao seu avô que faleceu antes da sua irmãzinha nascer.
Ela se sentia só. Ela via os seus brigarem por ela, enquanto ela tentava ser vista, mas eles apenas se viam em tê-la como prêmio, porque ela era diferente, ela transmitia algo diferente. Eles a queriam. E eu senti como um golpe no coração e não entendi aquela dor inesperada em mim.
De repente, tudo ficava escuro. E apareciam pessoas cercadas de figuras más, e caçoavam dessa menininha. A menininha se ajoelhava e chorava desesperadamente, com medo, e tinha um ursinho em forma de coelho nas costas, tirou-o e abraçou, com medo, e abraçou seus joelhos.
Haviam gritos e gritos, e ela era atormentada.
Então apareceu um homem vestido de branco, com uma faixa vermelha cruzando Seu Corpo, e uma coroa na cabeça. Ele se aproximava da garotinha e a abraçava. E logo ela desfalecia, e Ele a colocava no colo. Enquanto isso, as figuras ruins continuavam a caçoar da garotinha, e quando esse Homem andava com ela, esses monstros tentavam tirá-la dos braços ďEle.
Eu então, senti um fogo no coração.
Troca de cenário. Era um quarto escuro, e essa garotinha sofria ataques de monstros horrendos, e ela chamava esse Homem de branco, que ela chamava-O de "Papai", e ele fora à frente dela e afastou os monstros e ďEle saía uma grande luz que por um momento me tirou a visão, de tamanha intensidade.
Logo, apareceu uma moça linda, ela estava vestindo uma saia midi, e uma roupa maneira, e ao lado dela, uma mulher com vestes brancas e a cintura com uma tira azul, e eu vi o Coração dessa mulher pulsar e era envolto de rosas.
Essa moça passava por decepções, ela se sentia sozinha. Mas ela não enxergava que não estava.
As luzes se apagaram verdadeiramente, e a moça e eu ouvimos nos nossos ouvidos, vozes horripilantes dizendo que não valíamos nada e que nossas vidas eram amaldiçoadas e rejeitadas não só pelo mundo, mad por Deus.
A menina, foi cravada nas costas com uma espada e a espada foi brutalmente retirada dela, e o Homem de branco a pegou no colo, perdendo sangue e a curou, fechando as feridas e parando o sangramento. E eu estava com as mãos no peito, pelo susto, e quando eu as olhei, elas estavam encharcadas de sangue e de repente ficavam brancas.
Aquela peça estava confusa, mas algo me prendia naquele banco.
De repente, voltaram as luzes centrais e a minha.
A moça olhava no espelho e chorava. Ela se sentia muito feia, embora eu a visse tão bonita e eu dissesse "qual o problema dessa moça? ela não vê o quanto é linda?"...
E a moça me olhava e dizia algo que eu não entendia, apenas compreendi 3 palavras soltas "eu", "sou" e "você"!
Por conseguinte, as luzes apagaram e apenas uma luz estava acesa, a do meio do palco.
A moça já era uma mulher. E ela estava caminhando com o Homem de branco e vermelho e com coroa na cabeça e via um rapaz sentado na areia, riscando a areia com um galho seco de árvore. O Homem dizia...
- Vai lá, filha, ele precisa de você e você dele.
Eu não entendia, como essa mulher tinha dois pais? O de calça jeans e camisa polo, e o com uma túnica branca e um pano vermelho cruzado e a linda coroa.
Então ela chegou, sentou e o rapaz a olhou e...
- São 10 da noite. Por quê?
- Me disseram que o trem ia passar às 19h.
- Mas aqui não é uma estação ferroviária.
- Não. Na verdade, estamos debaixo de um céu estrelado, mas não vejo trilhos.
- Mas eu escuto um barulho de trem. Você não?!
- Silencia e escuta com atenção. (disse ele riscando a areia)
De repente, houve um barulho de trem, com seu apito, e uma luz saía de um túnel que se formava na frente deles. O trem chegou e...
- Vou ter que ir. (a moça ficou apreensiva)
- Você comprou sua passagem?
- Eita. Você está sozinha? (disse ele segurando na haste fora do trem)
- Sim. Meu Pai me deixou aqui, e disse que me veria no trem, mas estou só, pelo visto.
- Ah. - ele respirou fundo - Você quer companhia para ir comprar o ingresso?
- Qual o destino desse trem?
- Ainda não sei, apenas sei que tem 2 trens, onde um deles passa 7x ao dia, e o outro 6x.
- O que passa às 23h, que é depois desse. - ele entendeu o que disse - Eu ia pegar o trem errado.
- Eita. - nós rimos - Então, me faça companhia.
Eles foram caminhando pela estação ferroviária, e ele disse...
- Eu preciso ir ao banheiro. Me espera aqui. Não saia, por favor. Aqui é muito grande.
Então ele saiu correndo, e ela viu algumas pessoas como ciganos, cantarolando, e ela ficou com vontade de ir vê-los.
Ela chegou lá, e eles ficaram a rodeando, e ela os via como bonitos, mas eu os via com aspecto de monstro. Enquanto isso, o rapaz voltou ao lugar e não a achou, e foi até a bilheteria e...
- Moço, com licença. Uma moça um pouco baixa, com vestido abaixo do joelho e o cabelo azul nas pontas, ela passou por aqui? Aliás, ela comprou uma passagem pro trem das 23h?
Nesse momento, aparecia uma criatura horrenda e ele saiu correndo e foi procurar a sétima bilheteria que ficava do outro lado da estação 70.
Ele chegou lá, e estava uma luz forte e brilhante. Era alguém parecido com o funcionário Santo Anjo, e ele tinha o mesmo nome. E eu não entendia como, dois funcionários parecidos e com o mesmo nome...
- Olá. Uma moça mais ou menos baixa, com vestido midi, abaixo do joelho e um cabelo com as pontas azuis, passou por aqui e comprou um ingresso?
- Não, meu rapaz. Mas eu vi essa moça entre uns ciganos.
- Normal. Esses ciganos daqui são amaldiçoados.
- Leve consigo, vai precisar.
Esse funcionário entregou uma cruz processional, e uma túnica branca e mandou que ele vestisse-a e ao se aproximar dos ciganos, ajoelhasse com a cruz cravada no chão e dissesse "Cristo vence".
Ele assentiu e foi em busca da moça. E ao encontrá-la, ele gritou, e seis ciganas vieram até ele, e ele ajoelhou e tentou gritar "Cristo vence", mas uma delas silenciou-o com os dedos e sorriu de forma assustadora e segurou em seu queixo, e ele desviou o olhar da cruz processional. E embora ele não a largasse, ele não conseguia olhar, e a cruz começava a brilhar lentamente.
De repente, essas ciganas arrodearam ele e cantaram um cântico que me deu calafrios, e ele caiu no chão, sob a cruz processional, e as ciganas tentaram tirá-la dele, mas suas mãos estavam fixas e nada o desprendia dela.
Ao ouvir o barulho da queda, a moça correu e tentou ajudá-lo, mas as seis ciganas a derrubaram e riram fortemente dela. Bateram nela e a jogaram por cima dele, ambos desacordados.
Ela foi recobrando a consciência aos poucos, e olhou aos lados, as malditas ciganas estavam em seus assustadores mini trailers. E ela levantou devagar e viu ele desacordado, e mexeu nele mas nada.
Uma das ciganas ouviu e chamou as outras como num grito ensurdecedor, e algo motivou a moça a pegar a cruz processional, e ela conseguiu, e ajoelhou na frente do rapaz e disse 7x "Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera".
A cada vez pronunciada, uma cigana virava pó diante de seus olhos.
Ao pronunciar a quinta vez, a última cigana, super resistente, contorcia sua cabeça e de sua boca, uma língua de serpente saía, e ela se transformava numa horrível serpente de 7 cabeças, e tentava dar o bote, mas ela defendia com a cruz.
E de repente a serpente me olhava com fúria e vinha em minha direção, e o funcionário Santo Anjo gritou "GRITE A CRISTO", e a moça com a cruz fez uma genuflexão e gritou "Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera"!
De repente, ouviu-se um grito ensurdecedor, e a serpente virou pó, porém, pequenas serpentes vinham em minha direção e da moça e eu tentei subir na cadeira, mas eu me sentia presa naquela posição sentada.
E o Homem de branco apareceu com a Mulher de azul, um pequeno exército de funcionários chamados Anjos e outros chamados Santos.
E mataram serpente por serpente. E ao matar a última, elas viraram pó, e um fogo subiu sob o teatro todo, e ao meu redor. Eu estava apavorada, mas o funcionário me pedia calma.
De repente, uma chuva caiu sobre mim e o elenco. Os funcionários com asas voaram, e os demais ficaram parados e essa chuva era vermelha. Após todos termos ficado encharcados com tom vermelho, um sol surgiu e dele caiu uma chuva límpida e transparente, de forma abundante.
Todos ficamos com as vestes brancas. Então a moça sumiu e o funcionário disse...
- Pegue a cruz processional, e vá até aquele rapaz e diga diante dele "Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera. Como Cristo amou a Sua Igreja, eu te amarei pela vida inteira".
Eu assenti sem entender nada. Eu estava com um vestido midi azul e com o cabelo igual o da moça. Peguei a cruz no chão, o Homem e a Mulher de branco com outras 30 pessoas me acompanharam, e eu ajoelhei, cravei a cruz no chão e disse, dessa vez, diante do rapaz, e não sobre sua frente...
- Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera. Como Cristo amou a Sua Igreja, eu te amarei pela vida inteira.
De repente, ele foi voltando a respirar e foi recobrando a consciência e eu levantei apreensiva. E ele segurou na minha mão sobre na cruz processional, e levantou e me olhou e aquele olhar me era familiar...
- Ué, você estava no meio de umas ciganas.
De repente minha cabeça teve a sensação de giro, e eu desmaiei e o rapaz me segurou.
E ele me colocou no colo e foi me levando para o banco perto da bilheteria número 7.
De repente, ele me deixou com a cruz processional, comprou uma água, o meu ingresso e foi instruído a ir esperar o trem e que eu chegaria lá em poucos minutos e eu ficaria bem.
Ele assim o fez. Com 2 minutos, eu acordei, e vi como pisca-piscas no chão e fui até a bilheteria número 7...
- O rapaz que você procura, está esperando o trem das 23h, que acaba de chegar.
- Apenas vá. Os demais vagões estão lotados, mas o vagão número 7 está vazio, e ele está com seu ingresso. Boa viagem à terra da Pátria Celeste. Vocês chegarão em um tempo estimado de uma vida passageira por essa terra.
Eu me achava estranha, não lembrava da peça. Eu corri e vi o rapaz me esperando com o meu bilhete na mão. Ele entregava ao condutor, e disse que outra pessoa logo entraria no sétimo vagão.
Eu então cheguei próxima ao condutor, e Ele se transformou no Homem de branco, sorriu e disse...
- O seu ingresso já me foi entregue. Boa viagem filha. Eu os confio um ao outro.
- Tá certo, Papai. - eu O abracei - Sua Mãe e Eu vamos entrar logo. Qualquer coisa, chamem-nos no interfone do trem, que tem uma plaquinha dizendo "para conversar com o maquinista, converse via oração".
Eu então entrei, e sorri.
De repente eu vi o rapaz e sentei-me e ele sorriu.
- Cheguei a achar que você não viria.
- Eu jamais perderia esse trem, e nem te deixaria ir sozinho.
Ele sorriu, segurou em minha mão.
E tudo se apagou, como num final de filme, as luzes no cinema.