Daniel ajeitou um pouco a perna, seu pé também estava imobilizado - mas com uma bota ao invés de gesso -. O garoto estava com alguns ferimentos quase cicatrizados pelo rosto, como alguns cortes. A cabeça ele já havia desenfaixado.— Eu também queria saber — sorriu fraco para amenina — Queria poder te responder como se eu soubesse o que aconteceu. Mas talvez eu possa dizer o que os médicos me disseram. — engoliu em seco parando de olhar um pouco nos olhos da menina e fitando a grama pensando um pouco — Aparentemente eu não tenho mais pai. O que é um pouco ironico, pois eu nem mesmo me lembro de como era seu rosto. — olhou para o chão negando com a cabeça — Pelo que mais me disseram eu e minha mãe nunca nos demos bem, e que ela me abandonou. Não me lembro do rosto dela também. — comprimiu os lábios — Eu havia saÃdo da minha casa que eu também não me lembro como é com uma moto que eu ainda não sei como é. E então, eu estava nervoso, a moto de alguma forma bateu, ou algo assim. Eu acordei em um hospital, fiquei em coma por um tempo. E.. Agora eu não me lembro de mais nada. Todas as informações que eu tenho é que eu me chamo Daniel Parker. Estudo nesse lugar, do qual me parece completamente novo. E não me lembro de ninguém. Inclusive você. — tentou falar tudo da forma mais seca o possÃvel. Mas era inevitável que Daniel por dentro sentia a maior vontade do mundo de chorar. Estava vivo, mas sequer sabia quem era. Como uma pessoa poderia ter vivido por dezoito anos e simplesmente não se lembrar de absolutamente nada do passado de um dia para o outro? Era um menino completamente sem identidade. — É… Isso aÃ.
As informações vieram como socos em seu estômago. Barbara sabia da morte do pai do garoto, sabia que ele havia ido ao enterro, mas não sabia de mais nada. Achou esse tempo todo que ele estava lá, com os avós ou alguém tentando superar aquilo. Por isso não estranhou a falta do melhor amigo. Melhor amigo que nem se lembrava quem ela era. Nem seu nome. Nem seu rosto. Nem o apelido que só ele usava. Nem das noites de fugitivo até o quarto da garota. Nada. Ela olhava para ele, mas era como se não estivesse ali, porque sua mente trabalhava tentando juntar as coisas e começar a odiar alguns nomes por não ter sido informada do estado de Daniel mesmo que isso fizesse a situação dela ser pior do que já era. Bem. Ele estava ali, vivo, já era algo bom. Mas quem tinha sido a pessoa estúpida que deixara ele sair nervoso numa moto? E o que os médicos diziam sobre a melhora dele? Talvez ele nunca lembrasse. Aquilo fazia alguma parte dela doer, porque saber que ele não se lembrava de si era péssimo de todas as maneiras. Ela apagou o cigarro no chão e deixou a bituca ali, jogaria fora depois, quando saÃsse dali. Os dedos da menina tocaram a face dele delicadamente enquanto ela própria suspirava. -- Eu costumo te chamar de Grandão. Ou... de melhor amigo. Daniel. Eu sinto muito. Ninguém me disse nada. Eu achei que ainda estivesse na sua casa, com seus avós eu... Eu deveria ter tentado ligar, mas disse que me ligaria se precisasse e eu não queria incomodar enquanto estivesse na sua casa. -- ela acariciou com a ponta dos dedos a parte de baixo rende aos olhos dele, sabia que ele tentava conter as lágrimas -- Você não precisa tentar ser forte comigo... -- ela murmurou, deixando que ele entendesse que poderia chorar se quisesse, ou então jogar suas frustrações para fora. Pior do que não ser lembrada, deveria ser não lembrar mesmo que tentasse.














