Este é o meu jeito de lidar com as coisas: prefiro mil vezes rir de algo do que chorar, então conto piadas. Sou brincalhão, e quando a brincadeira se volta para mim, eu rebato. Retruco, com leveza. E talvez assim as pessoas não percebam o quanto fiquei incomodado.
Este é o meu jeito do lidar com as coisas: prefiro mil vezes sorrir a chorar. E quando a vida fica difícil, eu aciono uma série de microestratégias para aliviar a tensão, como me exercitar até os meus músculos doerem, me drogando com a positividade da endorfina. Ou me ocupando ao máximo, pois a melhor maneira de superar o barulho é fazendo mais barulho ainda, falando mais alto do que ele. Entra em cena uma série de gatilhos, rotas de fuga forjadas por experiência, para situações de estresse e que me parecem naturais a qualquer pessoa.
Este é o meu jeito de lidar com as coisas: rir para não chorar. E quando o choro não pode ser evitado, eu choro – à minha maneira. Digo, por mais estranho que dizer algo possa parecer.
Aqui estou eu, dizendo, ainda que com mil anos de atraso.
Queria ter escrito este texto em dezembro de 2022, quando caçava algo interessante no meu dia a dia para dizer e não encontrava nada. Não queria falar de coisas banais como o cansaço do trabalho ou fazer a retrospectiva retomando o esgotamento mental de um ano tão bom e ruim, de saltos extraordinários para a minha carreira ao mesmo tempo letargia e melancolia completa da minha vida emocional. Eu não queria falar do óbvio, me repetir nos meus assuntos, ser monotemático. Queria escrever um texto olhando para a frente, genuinamente olhando para a frente. E comecei o novo ano com uma boa sensação, além de uma ressaca monstruosa.
Por quase três semanas, meus fardos pareceram um pouco mais leves, as minhas questões um pouco mais flutuáveis, como se pudessem ser naturalmente levadas pela maré em breve, a qualquer hora.
Saí com um amigo para conversar – realmente conversar – sobre todas as minhas questões de gênero, que, é claro, não vão embora. Fui me deixando levar por oportunidades sem perder de vista aquilo que eu já tinha em mãos. Mantive em mente o pensamento positivo, que meus protetores tanto reforçaram da última vez, a vontade de aproveitar mais os dias sem deixar de lado o respeito cada vez maior pela minha solidão.
Já eram dias melhores, e estava tudo bem.
Fato: não sei ser gentil comigo mesmo. E não sei tratar os meus defeitos e contradições com real compaixão. Sou muito bom em me punir, e o primeiro a fazer isso. A linha editorial do meu Twitter é a autodepreciação cômica.
Esse é o meu jeito de lidar com as coisas. E percebi que quando a vida fica difícil, eu aciono uma série de mecanismos de autodefesa que basicamente implicam em sentir o menos possível. O que me parece, com uma dose bastante latente de consciência, plenamente antinatural.
Eu, que sinto tanto, bolando planos mirabolantes – mas executáveis – para não sentir.
Certas coisas não acontecem do dia para a noite.
Com mil anos de atraso, venho recuperar minhas forças. E testo minhas palavras ao me sentir sendo aberto como um ovo e não fugir. Estou aqui e vou sentir isto. Vou sentir esta dor, esta raiva, este incômodo. Vou sentir esta felicidade. Vou ficar aqui enquanto as ondas batem e se quebram na costa. Vou permanecer aqui para os espasmos. E talvez, se ficar, no fim tenha a certeza de que estou forte novamente, um pouco como Sansão esperando os cabelos crescerem.
E uma vez grandes, quem sabe a iminência do desmoronamento não me pareça tão assustadora assim.