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@izerokiryuu
⤹ ✿ . ⃗. . alone at night .
Não havia nada além da mais pura escuridão, desde que os olhos permanecessem fechados, não seria perturbada por um único som, além da água quente se chocando contra o piso. Era como se todos os sentidos tivessem adormecido; e pela primeira vez se forçou a ignorar absolutamente tudo ao seu redor e se centrou somente em si mesma. O preço pago por tamanho egoísmo foi um palpitar forte em seu peito, quando o corpo se ergueu rápido em resposta às palavras de Zero. Com os olhos arregalados, Kyou se esforçou para recuperar alguma energia e imediatamente levou uma das mãos ao registro, diminuindo a intensidade da água que caia sobre si para ouvi-lo melhor.
( Se eu fosse capaz de mudar o seu passado e tirar toda dor que você sofreu… Eu o faria… )
A destra repousou sobre o próprio peito, os dedos afundando ali com uma força demasiada, enquanto a cabeça tombava para frente, o olhar encontrava o chão. Ele havia notado tantas coisas sobre si mesma que chegava a ser quase arrepiante. Era impossível para si ignorar as palavras de Yuuki, não quando a força que esta exercia era enorme, não quando se tratava de seus sentimentos relacionados a Zero… Não quando ele se desculpava sem possuir culpa alguma. Logo os sentidos se aguçaram e mais uma vez estava atenta a absolutamente tudo… Mas algo a fez cair na escuridão uma vez mais. O aroma mal havia surgido e o corpo se contorceu em dor e não houve outra opção se não voltar a se abraçar como de costume, desesperadamente balançando a cabeça em negação. ❛ Zero... Não... É perigoso, então por favor... Não se aproxime... ❜ E mesmo que a intenção tenha sido a de elevar a voz, a sentença não passou de um mísero sussurro.
Os olhos se fecharam firmemente e ela se encolheu ainda mais e mesmo sem erguer o rosto para encará-lo, visualizou mentalmente cada passo dado pelo mais velho. ❛ Pare... ❜ No momento em que o sentiu diante de si os orbes pulsaram num vermelho profundo em resposta, não sendo mais possível evitar a presença dele. Não havia força que a tornasse capaz de impedir a aproximação que ele criava gradativamente. A respiração descompassou e a ruiva se moveu de acordo com a intenção alheia que se propunha em livrá-la de cada peça de roupa que lhe pesava o corpo. O rosto enrubesceu na mesma proporção do sangue que fluía do pescoço de Zero e mesmo que os atos dele tenham feito lágrimas surgirem em seus olhos, ela não recusou. Ser envolvida pelos braços dele era algo que não esperava sentir tão cedo. Kyou por muitas vezes se questionou se ele tinha alguma noção das reações que causava em si: mesmo sob o toque da pele gélida, ele era o único que a fazia queimar.
( all that i'm living for)
Precisava dar respostas a ele, precisava pensar um pouco melhor sobre tudo, precisava questioná-lo… Necessitava de tantas coisas e embora tenha lutado fervorosamente contra si mesma na tentativa de pender para o lado reacional, se viu derrotada no final. Os lábios se contorciam e a canhota deslizou através do colarinho da camisa branca, apenas para puxá-lo ainda mais; ampliando o espaço que o próprio vampiro havia criado antes de adentrar, expondo a pele alva . A língua deslizou sobre o sangue que escorria lentamente e o corpo estremeceu no instante em que o gosto deste prevaleceu em sua boca. Diferente do habitual, Kyou não fechou os olhos, ela se fixou em cada parte dele, enquanto os lábios se encaminhavam até a ferida, afundando as presas ali com cuidado para não agravar o ferimento. Mesmo quando o corpo necessitado implorava para que o devorasse, mesmo quando cada mísera parte de seu cerne o reivindicava…. Não havia qualquer impulso ou vontade de destruí-lo: mesmo em seu estado mais primitivo, não se sentia capaz de ameaçá-lo.
A Purosangue pousou a destra sobre o ombro do Kiryuu, o forçando para frente, em sua direção. Cuidadosamente, o corpo acompanhou o movimento para continuar absorvendo seu sangue, mas não o pressionou demais devido a preocupação sobre qualquer ferida que ainda pudesse estar ali e que desconhecesse a localidade. Sentiu o líquido fluir para dentro de si, tornando-se mais consciente do fato de que agora não havia quase nenhuma influência no sangue de Zero além do próprio. As lágrimas escorregaram pelas bochechas e Kyou grunhiu baixinho, apoiando ambas as mãos em cada ombro do outro. Sabia da necessidade de alimentar-se adequadamente para repor o indispensável, mas desta vez bastou tão pouco para se sentir saudável; não que isto fosse o bastante, o sangue dele não era algo que bastava, não importava o quanto ingerisse, nunca seria o suficiente.
A Guardiã recuou as presas, mordiscando o lábio inferior para que o próprio sangue se derramasse sobre a ferida, acelerando o processo de cicatrização; ao erguer o rosto, um simples filete resvalou sobre o canto dos lábio e os orbes ainda cintilavam perceptivelmente. O indicador deslizou pela pequena bagunça, até manchar-se de sangue e imediatamente a ruiva o aproximou dos lábios de Zero. Sentir a língua alheia envolver a pequena quantidade sangue que ofereceu foi demais até para si e Kyou abaixou o rosto, abafando um gemido com a mão livre. Mesmo com o constrangimento tentando convencê-la a parar, ela moveu os dedos suavemente para ajudá-lo em sua pequena tarefa; sentia-se estranha por estar tão atraida pelos lábios dele. Provocar aquele tipo de situação era injusto estando tão sensível. Talvez não fosse hora, não queria fugir, queria encontrar as palavras certas, colocar tudo em seu mais perfeito lugar... Mas as palavras nunca foram o forte de ambos e mesmo que estivessem trabalhando em relação a isso... Só se sentia capaz de fazer isso, tocá-lo...
( all that i'm dying for )
Mesmo tendo plena consciência de que não era o caso, parecia haver duas de si, estas em um conflito que dificultava seu reconhecimento como uma só. Era difícil chegar num consenso quando duvidava de si mesma, mas agora, ao vivenciar novamente essa sensação… Se recusava a aceitar sua situação imposta por Yuuki. Se a Kuran havia conseguido convencê-la de que não sentia nada do que acreditava... Bastava buscar por aqueles sentimentos de novo... E de novo... E de novo, até reconhecê-los ❛ Zero… Por favor… Não pare… Não me faça parar... ❜ A destra repousou sobre o lado direito do rosto do mais velho e lentamente Kyou selou ambos os lábios, ajeitando-se sobre o colo dele. Este gesto se encerrou rápido, mas antes que pudessem se pronunciar ou tomar uma nova ação, ela os uniu novamente. Os braços se entrelaçaram ao redor do pescoço de Zero, desfazendo o pouco espaço que ainda os separava. Mais uma vez fora ela quem iniciou o beijo, mais urgentemente que todos os anteriores e não importava quantas vezes se repetisse, ela sempre conseguia colocar algo a mais; como se através disso pudesse transparecer tudo que guardava dentro de si, mesmo que no fim só acabasse tornando ambos uma completa bagunça. Como se reafirmasse o pedido anterior, mesmo quando ambas as respirações se tornaram exageradamente audíveis e descompassadas pela necessidade de ar, ela não o deixou se afastar. Os dedos pressionaram a nuca de Zero, afundando os dedos dentre as madeixas grisalhas, as maçãs do rosto queimavam suficientemente ao ponto de Kyou finalmente se permitir fechar os olhos, entregando-se a ele.
( all that i can't ignore alone at night )
Ele puxou o ar com força para os pulmões. Como um membro do próprio corpo agindo sob reflexo, Blood Rose já estava empunhada para a figura do Puro Sangue ao centro da sala, mas não demorou muito para que Zero ajustasse a visão e direcionasse sua mira para onde a sombra do quarto cobria parcialmente a forma de Ophelia. As íris cintilavam em rubro e sabia que não se tratava de sede, mas de ira. Zero havia passado a perceber quando suas emoções pareciam beirar o limite entre a razão e dos instintos puramente vampíricos. Ele podia sentir a pulsação forte nas veias, ao ponto de conseguir ouvir os próprios batimentos, mas não podia deixar que isso tirasse seu foco do momento.
Quando encontrou o olhar da outra, as últimas cenas de ambos automaticamente repassaram sob a visão do caçador. Ele não havia deixado de notar a aparência completamente distinta dela, mas àquela altura, algo como aquilo não parecia surpreendê-lo. Quando se tratava de Ophelia, esse era o tipo de sensação que tinha. Que poderia esperar qualquer coisa dela e de suas ações.
Internamente, Zero sabia que deveria priorizar a parceira -caçadora que estava em claro perigo, mas mesmo com o som de correntes e o canto da visão acompanhando a movimentação em volta, seu foco continuava sobre Ophelia. Aos primeiros passos que deu adiante, Zero sentiu e viu Kyou e colocando entre ele e a outra ruiva. O olhar infeliz finalmente desviou para Kyou quando ela se direcionou a si, inspirando impaciente desde que sabia que provavelmente a ruiva não entenderia suas ações. Ainda assim…
Ainda assim, sua mão se manteve erguida, pronto para agir independente do que Kyou lhe pedisse. Finalmente os olhos se voltaram para a caçadora e o puro sangue, ávido por entender o que estava acontecendo naquele ambiente. Devagar, Zero deu passos curtos para sua esquerda, a fim de sair da guarda da menor e, talvez, abrir caminho, mas parou novamente quando ouviu a voz da mais velha. Os lábios se apertaram em uma linha quando a realização daquela pergunta lhe atingiu. De fato, Zero não havia compartilhado com Kyou o que realmente tinha acontecido na antiga capela destruída. Sua expressão escureceu quando ele rosnou ❝ —– Ophelia...❞ Ele também havia cansado de todas as histórias não contadas. De tudo o que ela parecia saber e não compartilhar.
Tudo o que havia se sucedido parecia apenas um borrão de movimentos. Uma vez que Zero captou o prelúdio no olhar de Ophelia, seu primeiro instinto foi seguir a purosangue quando esta avançou. Zero havia deixado escapar a movimentação de Kyou, quando reuniu toda a força para alcançar Ophelia e, ainda assim, conseguindo parar apenas alguns passos na frente dela, o vampiro ajoelhado entre ambos enquanto os dois trocavam olhares novamente. O caçador estava com a arma apontada para o peito já vazio do vampiro, sabendo que não havia sido ele a disparar um tiro sequer.
Mesmo com o som da arma disparando, demorou alguns segundos para que percebesse quem no recinto havia sido atingido, apenas porque sentiu o cheiro do sangue dela lhe atingindo como uma parede de concreto. As sobrancelhas se uniram e, mesmo contra a vontade, o olhar desviou para encontrar toda a confusão que se formava. Primeiro, encontrou a fonte do alarme na figura de Kyou ensanguentada e Momo que já seguia para socorrê-la. A visão seguiu ao mesmo tempo que a ruiva quando identificou a fonte do disparo. Zero segurou firme em sua arma anti-vampiro, voltando-se rapidamente para Ophelia apenas para ver o vulto da nobre quando esta passou por si, quebrando a janela atrás e escapando. O caçador apenas teve tempo de proteger o rosto dos cacos de vidro com os braços, logo se livrando dos pequenos cacos preso à roupa e seguindo para perto das irmãs.
❝ —– Momo… deixe-me ver.❞ Chamou em alerta a mais nova, segurando em seu pulso para que ela abrisse espaço para ele. Àquela altura, a conhecia suficientemente bem para saber que precisava acalmá-la antes que Momo chorasse ainda mais e entrasse em desespero.
A calma e frieza na voz do caçador poderia ser uma surpresa naquele momento, uma vez que era conhecido por seu temperamento explosivo. Mas o som de sua voz também pareceu despertar Ichiru, que logo correu para o lado da mais nova, apoiando as mãos em seus ombros.
Acontece que muita coisa havia mudado a respeito de Zero, principalmente quando dizia respeito à expressão de seus sentimentos em situações como aquela. Pelo canto do olho, observou Yagari silencioso, mas não esboçou emoção alguma. Ele entendia o que havia acontecido, então suspirou fundo, controlando os próprios instintos devido ao cheiro do sangue de Kyou e se agachou. ❝ —– Zero, tire-a daqui. Agora mesmo.❞ A voz amena e visivelmente preocupada de Kaein o alcançou ao tempo que sentiu a mão em seu ombro lhe apertando. O mais velho direcionou o olhar preocupado para a porta e em seguida de volta para si, deixando claro a urgência que demandava.
Ele confirmou com um aceno sem questionar e estendeu os braços de modo a posicioná-los para pegar a ruiva no colo. ❝ —– Aguente firme, Kyou. Nós vamos lidar com a situação aqui❞ Kaien falou baixo perto de ambos quando o caçador já estava com a menor nos braços, levantando para se retirar. Sair pela mansão pelo mesmo caminho que vieram a poucos minutos atrás era arriscado, mas também não podia simplesmente sair pela janela carregando Kyou, uma vez que estavam no andar superior. Zero suspirou rapidamente quando saiu pela porta do quarto, seguindo pelo corredor e tentando encontrar um caminho mais discreto possível que não fossem corredores ou escadas principais.
Com o cheiro do sangue exposto de Kyou, tentou focar em seguir os instintos de forma rápida para conseguir tirar ambos da construção o quanto antes. Em algum momento, finalmente encontrou uma saída pelos fundos da mansão, deixando o ar fresco e a escuridão da noite envolvê-los. Estava aliviado, deixando a respiração normalizar enquanto o cheiro dela e do sangue se misturavam aos do mundo. O caçador manteve os olhos à frente todo o caminho, por cada rua que seguia, cada viela levando-os a um caminho tão conhecido por ele. Zero tinha vontade de pressioná-la contra si, de inspirar o cheiro das madeixas e da pele da menor. De nunca mais soltá-la. Mas aquela sensação já era algo tão reconhecido por si, tão impossível que parecia se tornar um paradoxo naquela realidade.
Zero sabia que podia ser perigoso levá-la por esse caminho, mas sequer cogitou ir até a Associação ou ao colégio, dadas as circunstâncias. Seu apartamento se apresentava a opção menos arriscada no momento. Por esse motivo, agradecia o horário tardio, já que facilitava a movimentação pelas ruas e quando adentraram ao prédio. O buraco na parede do corredor já havia sido consertado, mesmo que desse para ver a diferença na pintura e o caçador imaginava que Momo e Ichiru haviam cuidado daquele pequeno problema para si. Quando já estavam na segurança do apartamento, Zero seguiu rapidamente para seu quarto, ajustando a menor com cuidado na cama e abaixando imediatamente de frente para ela. As sobrancelhas se uniram numa carranca quando viu o estado do braço de Kyou, por um momento, seu olhar seguiu até o dela, sabendo que encontraria dor ali. De fato, agora estava irritado com Yagari por aquilo. Com uma arma antivampiros... ❝ —– Deixe-me ver. Precisamos tirar o projétil daí.❞ Ele disse com cautela, esperando que ela entendesse o que queria dizer. Zero levantou indo rapidamente até o banheiro e voltando com alguns materiais para lidar com o ferimento. Embora soubesse que daqui algum tempo ela estaria curada, um ferimento feito com uma arma antivampiro demorava mais para curar completamente. ❝ —– E… você precisa de sangue para se recuperar...❞ Completou enquanto pressionava um pedaço da atadura no ferimento, para estancar um pouco do sangramento. Ele podia sentir a tensão no ambiente, embora não tivesse nenhum pouco desconfortável. Talvez fosse a densidade das palavras ainda não ditas e dos sentimentos acumulados. De qualquer forma, tentava ao máximo se concentrar apenas nos movimentos e não no que aquele líquido vermelho poderia significar para ele e para qualquer outro vampiro existe.
Conforme pensava nas palavras, Zero continuou estancando o sangue até que diminuísse a intensidade. Só então passou a limpar a área em volta com os materiais que havia reunido. Não podia fazer muito quanto as roupas dela naquele momento, mas assim que terminasse poderia levá-la até o quarto de Momo, onde a ruiva conseguiria se trocar. ❝ —– Vou retirar a bala agora...❞ Murmurou baixo em aviso quando levou uma pinça limpa para retirar o projétil, tentando ser o mais ágil possível para que acabasse de uma vez com aquilo. Parecia um procedimento quase familiar para ele, lidar com ferimentos como aquele. Por isso, alguns minutos depois já havia esterilizado tudo e passado uma atadura em volta do braço da menor. Talvez levasse um dia ou dois para estar cem por cento, embora ele estivesse claramente preocupado com o que poderia ter acontecido se Yagari realmente quisesse feri-la, mirando em outro local. Com o pensamento, Zero suspirou e colocou as coisas de lado, fitando o rosto da menor com a expressão mais amena. ❝ —– Como se sente?❞ Perguntou, sabendo que precisavam seguir para a segunda parte, mas abrindo espaço para que Kyou decidisse por si mesma. Com o silêncio em volta e a ausência de um perigo eminente, Zero começava a sentir os batimentos acelerarem com tudo o que havia reprimido pela situação em que haviam se reencontrado.
⤹ ✿ . ⃗. . alone at night .
Ele teve um segundo de satisfação ao observar a reação da menor enquanto recebia a arma de volta. Nunca foi irreconhecível para ele o quanto aquele objeto parecia ser importante para Kyou. Mas aquele contato e o sentimento através do olhar que trocaram passou rápido demais, embora ele tivesse deixado escapar um baixo suspiro quando a fitou de volta. Podia jurar que havia sentido o peito aquecer e a ponta dos dedos formigar, como a muito não sentia, trazendo uma sensação quase nostálgica. Havia sentido tanto a falta dela.
Após se afastar, Zero desviou o olhar para qualquer lugar do espaço, fechando os olhos por um momento para recobrar o foco. Não podia perder o controle. A mão apertou o braço esquerdo, um pouco acima do pulso, onde sentiu uma pressão e algo se remexer abaixo da pele de repente. Sabia que o sangue estava se agitando em suas veias e Zero engoliu em seco. Pela reação da ruiva ao se afastar, imaginou se ela havia sentido algo em si, algo que denunciasse tudo o que havia feito.
No entanto, a resposta de Kyou havia pegado o vampiro desprevenido. O grisalho a olhou novamente, as sobrancelhas frisando e o rosto assumindo uma expressão quase confusa. ❝ —– Acha que… eu não confio em você?❞ Uma sombra de dor tomou a face de Zero e ele soltou o ar pelo nariz com força, mas deixando que ela continuasse. Ouvi-la dizer algo como aquilo fazia parecer que eram completamente estranhos um para o outro. ❝ —– Como... caçador?❞ Repetiu. Àquele ponto, sentiu a necessidade de dar alguns passos, apenas para ter o que fazer com o próprio corpo e dissipar a sensação em suas veias. Zero se esforçou para convencer a si mesmo que Kyou não queria dizer aquilo de verdade, mas que, por algum motivo, havia dito. ❝ —– Não fale como se eu realmente fosse te tratar apenas como uma arma que ameaça ao Conselho e a Associação.❞ O tom não escondia que estava ofendido, mas ao mesmo tempo era um pedido. Kyou não podia pedir algo como aquilo dele. ❝ —– Fui contra as regras da Associação em diversos pontos para conseguir qualquer mínima informação sobre onde você poderia estar. Fiz-❞ Ele se interrompeu quando percebeu onde aquilo poderia acabar. Não era o momento. Não era.
No fundo, Zero sabia que aquele era um posicionamento muito profissional da parte da ruiva, e que legalmente seria o mais óbvio a se fazer. Mas não precisavam falar um com o outro daquela forma especialmente se estivessem apenas os dois no ambiente. Ele também sabia que havia sido o primeiro a dar aquele passo de distância no reencontro, mas não queria que realmente se tornasse um abismo entre eles.
Zero havia dedicado grande parte de sua força de vontade e comprometimento a odiar vampiros e caçá-los. Se dedicou fortemente a isso em detrimento de tantas outras coisas. Sabia que, naquele momento, ele mesmo estava em uma situação em que, politicamente, deveria se colocar em alguma posição. E que era esperado que essa posição fosse a favor dos seus: a ordem dos caçadores. Por outro lado, jamais poderia se colocar de tal maneira se isso significasse estar de um lado que não era o dela. Já havia assumido isso e aceitado fazia algum tempo. Mas cada passo tinha de ser cauteloso e precisava que ela entendesse isso sem que a machucasse.
Realmente queria poder dizer que o problema não era falta de confiança e que cogitar isso era absurdo. Para sua vergonha, o maior de seus problemas era não saber se teria sanidade o suficiente para resistir ao sangue da ruiva, não depois de tanto tempo. Não depois de desejá-la tanto, e dos pesadelos e das vezes que havia suado frio enquanto lutava contra a sede. E a saudade. Que o problema era estar ali e não confiar em si mesmo nem para tocar a pele alva, de modo a destruir todo o autocontrole que precariamente estava mantendo.
Mas ao invés de dizer tudo isso, ele apenas respirou fundo, balançando a cabeça para seguir com o outro assunto. E ouvir Kyou falando brevemente sobre o tempo com os Kurans, de algum modo não o surpreendia. Momo já havia falado certa vez para ele que os puro sangues as via daquela forma e que sempre haviam tentado manter o controle principalmente sobre Kyou. Aquilo apenas o irritava ainda mais.
Quando Thanatos reagiu a ela, Zero deu um passo de aproximação. ❝ —– Kyou...❞ Mas parou com o pedido dela. Ele já havia passado por uma situação complicada com Blood Rose assim que Kyou havia partido. Lembrava que haviam passado alguns dias até tentar usá-la novamente e era como se tivesse redescoberto a arma, que havia ficado confusa devido a Kaname. Não era fácil, uma vez que cada caçador possuía uma conexão com sua respectiva arma. Ele concordou com um aceno e abaixou para pegar Thanatos novamente, colocando-a no bolso cuidadosamente. Entregaria de volta quando ambas estivessem preparadas.
Zero olhou de relance para a menor à frente. Duvidava que, nesse momento, Yagari fosse tentar algo contra aquela aliança, mesmo que ele não fosse a favor, sabia que a Associação não estava exatamente numa posição de vantagem. Não quando Kaname havia declarado sutilmente poder de decisão sobre a ruiva. Mas, de fato, estavam todos relutantes.
Quando Kyou parou subitamente e pareceu se esforçar para conter alguma coisa, ele se aproximou novamente ❝ —– O que...❞ Mas ao ouvir sobre a caçadora, Zero congelou e xingou baixo. Ele deu alguns passos na direção da porta por onde haviam entrado e espiou do lado de fora, onde tudo parecia tranquilamente normal. O corpo e a atenção se voltaram para Kyou novamente quando ela lhe fez a pergunta. Nem todos os caçadores estavam ali pois, claramente, precisavam de uma certa quantidade cuidando das alocações da Associação e outro grupo estava em missão naquele exato momento. Havia, então, cerca de 17 dos melhores caçadores naquela ocasião.
Um segundo foi o suficiente, enquanto a fitava, para entender a seriedade da situação. Desde o momento que a vira entrando na sala onde ocorreu a reunião, ele sentiu que algo não estava certo. Ele acenou com a cabeça, concordando com o pedido subentendido.
Por conhecer exatamente cada rosto dos caçadores que estavam ali, precisava de uma visualização melhor do salão para tentar identificar quem não estava na formação que haviam planejado. Exceto que, pelo que a ruiva havia acabado de compartilhar, sequer tinham tempo hábil. Precisavam agir rápido. Uma calma fria tomou conta de si quando respirou fundo e se apressou pelo corredor. ❝ —– Vamos.❞ Uma máscara de pedra cobriu seu rosto e os sentidos já trabalharam avidamente para localizar Kaname, Yuuki e a puro sangue que haviam encontrado anteriormente. Era suspeita demais para que a deixasse de lado.
Zero sabia, desde o início, que tudo aquilo era como um teto de vidro. Jamais conseguiriam viver em harmonia, ambas as espécies. Os caçadores existiam para controlar aquilo, e os vampiros não conseguiam conceber a ideia de serem controlados, mesmo que minimamente. Como um vampiro ele mesmo, Zero sabia o que os instintos predadores e de poder podiam fazer com a mente, como podiam lhe arrancar a humanidade sutil e rapidamente. E se imaginasse isso na mente de um puro sangue, ou dos ancestrais... Mesmo com os passos apressados, não deixou de observar o tempo todo ao lado, onde Kyou o acompanhava com a mesma quietude. Todo aquele tempo tempo não havia tirado sua capacidade de reconhecer o franzir da sobrancelha quando estava extremamente concentrada e preocupada. E algo mais, algo que Kyou tentava esconder sob seu comportamento. Mais do que apenas observar, podia quase sentir as emoções percorrendo o corpo da menor, assim como os pequenos gestos e até o suar. Kyou estava com medo e aquilo o corroía por dentro.
Eles haviam subido as escadas no fim do corredor rapidamente e, quando chegaram ao andar superior, Zero pegou uma das saídas para a sacada que ligava à visão de todo o salão abaixo. Antes que pudesse alcançar onde sabia que seriam vistos, Zero segurou firme uma das mãos da ruiva, parando ambos no que restava das sombras. ❝ —– Me dê um segundo. É melhor que não sejamos vistos juntos… por enquanto.❞ Falou baixo logo a soltando e dando alguns passos casuais adiante. Muito provavelmente saberiam que estavam na companhia um do outro, mas não queria levantar suspeita sobre a situação. Zero não percorreu o olhar nas pessoas abaixo, não inicialmente. Precisava parecer que estava apenas dando uma volta, e não procurando uma caçadora descontrolada. Alguns passos até o outro lado logo o ajudou a visualizar todos a postos, exceto uma pessoa. Ele suspirou e entrou no corredor novamente, fazendo todo o caminho de volta até Kyou. ❝ —– Parte norte e leste parece estar coberta ainda. Sul ficou sob a responsabilidade de Kaito, que deve estar com Wakaba agora... ❞ Ele a olhou sugestivamente, esperando que a menor entendesse. Poderia não ser a melhor informação no momento, mas era a única que tinham, dado que ainda não conseguia sentir.
Zero voltou a caminhar para direção oeste, entrando pelos infinitos corredores iluminados apenas pela luz da lua que entrava através das grandes janelas laterais da construção de pedra. ❝ —– Onde estão Ichiru e Momo?❞ Zero pigarreou. Mais do que a resposta, precisava mesmo colocar alguns pensamentos na mente. Cada passo que dava em direção a um quarto, sala ou escada, cada porta que checavam, cada dedo que pressionava no cabo de Blood Rose fazia as íris brilharem e um deleite terrível lhe correr pela espinha apenas com a possibilidade daquela caçada. Zero gostava de caçar. E estava esperando por aquele momento a tanto tempo… caçar um puro sangue. Kaito havia o provocado especificamente sobre aquilo também, momentos antes, não sabendo o que aquilo podia fazer com seu interior.
Por esse motivo, mesmo que precisasse se concentrar em ouvir e sentir cada presença, precisava falar, pois no silêncio era muito fácil imergir naquele modo aterrorizante que havia explorado tantas vezes antes. O cheiro de Kyou tão próxima também funcionava como um estimulante, mas precisava focar adiante. Precisava protege-la.
Ele parou subitamente, imaginava que estivessem próximos à extremidade oposta do enorme prédio. Zero sentiu, ainda que estivessem distantes. Ele também sentia claramente o cheiro da caçadora, sentia o cheiro de sangue recém derramado. Os olhos escarlates cintilaram quando murmurou para Kyou ao seu lado, enquanto se preparava para correr: ❝ —– Kyou… essa presença...❞ Os batimentos aceleraram e o caçador sequer conseguiu terminar o raciocínio antes de usar toda a força e as habilidades para impulsionar o próprio corpo na maior velocidade que conseguia. Zero não conseguia acreditar no que sentia, ainda que confuso, e ainda assim, o sangue parecia ferver nas veias. Tudo parecia pintado em escarlate em sua visão quando arrombou a porta da sala.
⤹ ✿ . ⃗. . alone at night .
izerokiryuu:
Kaito havia provocado quando ainda estavam a caminho do lugar onde o encontro aconteceria. Mas, ao invés de reagir com seu habitual temperamento, Zero utilizou daquilo como um teste pra si mesmo, tendo em vista que precisaria de todo seu autocontrole exatamente para aquele momento.
No entanto, estava sendo mais difícil do que imaginava. Seus instintos entraram em alerta e os ombros se ergueram ainda mais, reajustando a postura assim que os viu irromper pela porta da sala. Não pode deixar de encarar profundamente do Líder Kuran, permitindo que a escuridão lhe abraçasse, convidada pelo ódio frio que tomou forma de escudo contra a presença ditadora do purossangue. Zero podia jurar que até o próprio sangue corria frio pelas veias.
Apesar da sensação, manteve-se inexpressivo com a revelação de Seiren em seguida, já que não era exatamente uma surpresa e sustentou o olhar do presidente, sabendo que ele entenderia a afirmação. Não haviam conversado tanto a respeito no passado, mas Zero sentia certa resistência vinda do diretor quando, de alguma forma, o assunto era Kyou e os Kurans. No fim, ele entenderia por si só.
O mesmo não poderia dizer de Yagari, que claramente se remexeu desconfortável, direcionando um olhar cheio de reprovação para a vampira silenciosa. Também não deixou de notar o olhar de Kaname sobre si, embora de forma alguma caiu em sua breve provocação. Ele sabia que Kaname estava aproveitando os momentos de poder em estar ali, sem a presença de Kyou ou Yuuki, como se usasse disso para expor maneiras de manipulá-lo. Pois Kaname sabia que era exatamente nela que seus pensamentos se concentravam. Mas o caçador nem mesmo se permitiu apertar o olhar em ameaça para o outro, permanecendo exatamente com a postura que havia erguido.
Era uma luta interna ter que permanecer imóvel para as provocações veladas do Kuran, afinal, a Ordem dos Caçadores só existia pela necessidade de exterminar os seres sobrenaturais que desequilibraram o rumo natural das coisas. E ainda que soubesse ser uma postura não muito adequada, ele se sentia contemplado pelo temperamento de Yagari ser resguardado por sua posição na hierarquia. Em alguns momentos, Yagari parecia ainda mais intolerante do que ele próprio, mas confiava o suficiente para saber que ele não soltaria nenhuma das informações relevantes que havia levantado nas últimas missões. Ainda não era o momento.
Com isso, apenas escutou e absorveu todas as informações, ao tempo que observava o mínimo movimento de qualquer um no recinto. Até que Kaname se dirigisse diretamente a si. Ele sabia que aquelas palavras não eram um ato nobre e confirmou isso com a última sentença: passar um tempo. As mãos que estavam cruzadas atrás do corpo se apertaram em um punho, fitando o vampiro por alguns segundos antes que sua única reação fosse direcionar um olhar para Kaien quando o sentiu fazendo o mesmo. Ele sabia o que Kaien estava pedindo e o quanto aquilo significava, mas não poderia deixá-lo sem uma resposta. Zero não sabia como aquela noite iria terminar, mas certamente não seria da forma de o Kuran pudesse estar esperando. A cabeça pendeu quase imperceptivelmente, ao passo que o canto dos lábios se ergueu, exatamente como ele havia feito assim que pôs os olhos sobre si. Não era uma tentativa de esconder que estava afetado, mas sim uma promessa de violência para o vampiro caso ele resolvesse agir.
Naquele meio tempo, imaginou como poderia assumir tal posição de liderança dos caçadores em algum momento, uma vez que aquela conversa não parecia seguir um caminho para quem busca paz entre duas frentes. A paz não poderia ser sustentada em meio a uma guerra de poderes. De reais poderes, muito além do que a humanidade poderia controlar. Por isso, aquilo nunca acabaria, era apenas uma bolha que podia estourar a qualquer momento.
Mas a feição se desfez assim que a sentiu. Zero se virou para a porta um segundo antes que essa abrisse, permitindo que uma voz alcançasse seus ouvidos assim como a presença conhecida. Mesmo que tivesse identificado imediatamente a diferença em sua essência, tê-la no mesmo recinto o fez congelar e ao mesmo tempo deixou seus instintos em alerta. Algo dentro de si, mesmo sem permissão, o fez piscar algumas vezes, forçando o grisalho a se mexer para reassumir o controle das próprias reações, ainda que os batimentos tivessem acelerados.
Por uma fração de segundo, ele abaixou o olhar, engolindo em seco pela mão invisível que o segurou pela garganta, fazendo-o se concentrar em conter a respiração. O olhar também alcançou os gêmeos logo depois e Zero franziu o cenho em questionamento para aquilo. Havia retomado a postura no mesmo instante e, por ordem natural, o caçador de aproximou um passo a mais do presidente quando a figura desconhecida se posicionou. Aquilo definitivamente não lhe cheirava bem, considerando que não era uma pessoa da Associação e, ao parecer, também não era do Conselho. No entanto, foi Yuuki quem realmente tirou de si uma reação mais expressiva, quando o caçador torceu os lábios, se esforçando para não repuxar a feição em raiva.
Quando Ichiru falou, Zero pressionou o maxilar. Claro que ele estaria envolvido no fim das contas, assim como Momo - e por esse motivo, também não escondeu o olhar irritado para nenhum dos dois. Qual atraso exatamente? Ambos sequer deveriam estar ali. Seu olhar os acompanhou até estarem próximos, ainda os fitando por breves segundos. Eles iriam explicar aquilo muito em breve. Mas assim como os demais na sala, sua atenção acompanhou a fala de Momo e, logo em seguida, Yuuki.
Naquele segundo olhar, Zero refletiu que, mesmo com o último encontro conturbado que tiveram, era difícil observá-la tão desconfortável como naquele momento. Ao menos até que Yuuki verbalizasse o que havia negado para si mesmo desde o início. E mesmo que quisesse, Zero havia sustentado o contato visual, sua total e completa atenção até as últimas palavras. Não justificava, nada poderia justificar. E Zero sinceramente quis rir de escárnio quando o Kuran mais velho a complementou.
Talvez devesse questioná-la posteriormente por que havia o poupado de tal gentileza. Talvez pudesse questionar, na ocasião, por que uma vampira havia manipulado humanos em vontade própria desde que não era uma real situação de risco, e isso por si só violava as leis que estavam discutindo exatamente naquele momento. E para que expressasse o pensamento, Zero a encarou por alguns segundos até que a risada de Kyou o chamasse atenção novamente.
O grisalho estava sinceramente chegando ao limite diante de toda a situação, mas, ao menos inicialmente, prestou total atenção ao que a ruiva pretendia dizer. Parte do que ela falava Zero já estava ciente, mesmo quando todo o caos aconteceu, mas, aquela última informação… as mãos que estavam atadas às costas se soltaram e ele fez menção de mover a cabeça em negativa quando sentiu a mão de Ichiru encostar à sua muito pontualmente para ter sido um gesto casual. Ele sabia que o mais novo clamava por atenção e, mesmo assim, resistiu alguns segundos antes de encará-lo. O que Kyou estava armando?
Ainda que tivesse a realização de que aquilo não era verdade, qual parte poderia ser mentira? Qual parte daquela história poderia estar, de fato, ligada a ele? Zero deixou de notar boa parte do que estava acontecendo, ainda que usasse as últimas forças para manter a postura. Não era possível, nada daquilo era possível. Não era possível que pudesse carregar algo tão importante sem notar pelo tempo que fosse. Não era possível que estivesse presente na vida de Kyou antes daquela noite na neve quando havia encontrado as irmãs sozinhas. Mas por algum motivo, ela havia revelado isso naquele momento. Não poderia dizer que não havia o ferido, caso fosse verdade, saber de tal informação naquelas circunstâncias. Assim, ele soltou a respiração devagar, relaxando os punhos antes que as unhas pudessem ferir as palmas das mãos.
Enquanto Kyou prosseguia, Zero sutilmente trocou olhares com Yagari. Haviam chegado àquele ponto, enfim, o que o ajudou a retomar seus pensamentos para o presente e a responsabilidade que havia assumido. Zero seria um tolo se deixasse que as emoções assumissem o controle sobre suas ações e pensamentos novamente. Não mais. Principalmente quando estava ali para reunir os pontos mais importantes que Kaname e o Conselho expressavam, ainda que fosse contra. Por fim, mesmo que todos começassem a dissipar, Zero permaneceu próximo a Kaien, apenas desviando a atenção quando o mestre parou ao seu lado. O grisalho acenou para o mais velho que não demorou a seguir seu caminho, direcionando um último olhar para Ichiru ao seu lado.
Zero se questionou, enquanto observava Kaien seguir com os demais, se deveria acompanhá-lo, como a posição demandava. Mas se viu incapaz de mover o corpo quando apenas os quatro permaneceram, até que as últimas presenças familiares dos irmãos os deixasse. Apenas Kyou e ele. Ainda assim, forçou os músculos a responderem, prestes a seguir em frente ou não saberia como reagir. À primeira menção de movimento, Zero sentiu o toque de Kyou sobre si e imediatamente fechou os olhos. Não ousou mover o olhar, os músculos ou até mesmo respirar. E nem conseguiria, caso quisesse, pois era como se algo estivesse preso a garganta e aos membros. O peito doía igualmente e ele tinha receio de que qualquer reação que pudesse ter, fosse o suficiente para que desmoronasse a fachada que havia mantido erguida durante todo aquele tempo.
Durante aqueles meses.
No entanto, ao ver a reação de Kyou, sem avisar, as lembranças de tudo o que havia feito vieram a si e ele apertou os lábios em uma linha fina, os olhos respondendo imediatamente em rubro vívido. Ele abriu a boca, mesmo sem a real intenção de dizer algo. O vampiro a fitou, enquanto Kyou permanecia com o olhar baixo, para a mão que o segurava. Ela estava sentindo o mesmo que ele? Ele sabia que a pele dela era fria, porém, era como se lhe transmitisse um calor incomum. Uma energia impossível.
A mão virou sob o toque dela, de modo que as pontas dos dedos pudessem tocar o pulso pálido, mas no mesmo instante a sensação se foi, assim como o contato. Ele teve medo. Foi tomado por um medo ridículo de que aquilo… que ela… não passasse de uma ilusão. Ou que abrisse a boca para dizer que não poderia ficar. Que jamais retornaria. Que Zero não poderia acompanhá-la. Que levaria Momo e, consequentemente, Ichiru consigo. Que seu lugar agora era ao lado dos Kurans.
Havia tanto que queria perguntar e dizer que mal poderia começar. Não poderia começar pois também não estava pronto para confessar todos os pecados que havia colecionado naquele tempo.
Por enquanto, ele a fitou, sabendo exatamente o que se passava com a ruiva e engolindo em seco. Os instintos de Zero, mesmo que majoritariamente predadores devido ao seu lado vampírico, gritavam em ordem para ir até Kyou. Para protegê-la. Para destruir aquilo que a fazia sofrer. E sabia que, de alguma forma, o sangue dela que existia em si também era responsável por incitar tais reações. Mas, além de tudo isso, o destruía vê-la daquela forma quando Zero sabia que tudo o que mais havia desejado antes de toda aquela herança biológica da ruiva vir à tona era que ela pudesse ter uma vida longe de tudo aquilo. Longe daquela realidade e daquela agonia.
Todo aquele tempo, ela estava…
Os olhos cintilaram novamente à menção de sangue e as mãos se fecharam em punhos, fazendo-o apertar os dedos com força. Não podia se deixar levar pelas emoções, nenhum dos dois podia, não ali. Mas as palavras seguintes de Kyou o trouxeram de volta, o atingindo com força. A garganta ardia e o vampiro estava usando uma força além do comum para permanecer exatamente onde estava. Zero lembrava exatamente dos últimos momentos com Kyou antes que apagasse no Colégio, e por isso, o peito apertou ainda mais. Não sabia quando havia sido a última vez na vida que ouvira tal frase direcionada para si. E sinceramente, não as merecia.
O caçador soltou a respiração de forma pesada, inclinando o rosto minimamente à uma lembrança do toque dela em sua face. Mas tudo o que fez foi direcionar o olhar para as grandes portas que davam para a saída do salão, podendo ouvir a movimentação mais à frente. E ainda que o medo o consumisse, Zero precisava saber. ❝ —– Quando isso acabar…❞ A voz falhou e o olhar voltou para a direção de Kyou. ❝ —– … Você… irá permanecer?❞ Ele desviou o olhar quando os orbes escureceram em um rubro intenso. Era um risco não dizer tudo o que precisava ser dito ali, enquanto ainda podiam. Mas Zero não podia colocar toda a missão em risco, e, consequentemente, a própria Kyou, por conta de suas reações imprevisíveis. Por esse motivo, não esperou uma resposta concreta antes de dar alguns passos na direção da menor para observá-la.
Se precisasse ser sincero, poderia segurar a dela mão e sair dali o mais rápido possível, para o mais longe possível. Ainda que soubesse que nenhum local do mundo seria longe o suficiente para que fugissem dos fantasmas daquele passado, ainda assim, se permitiu vislumbrar tal possibilidade, mesmo que já tivesse a considerado tantas vezes antes. Mas, no fim das contas, não era uma decisão sua, não era o passado dele em jogo. E sabia que Kyou jamais viraria as costas para aquilo. E além, muita coisa havia acontecido naqueles meses. Por isso, dessa vez ele não expressou nenhuma palavra.
Cada vez que percebia o quanto a amava, também percebia o quanto aquele sentimento era doloroso para ambos. O quanto aquilo tinha o potencial de se transformar em suas fraquezas.
Quando Kyou voltou a sentar, passando os próprios braços pelo corpo trêmulo, Zero estendeu os dedos, pronto para tocar uma mecha do cabelo ruivo na frente do rosto da menor. Mas parou no meio do caminho, fechando a mão e deixando que o braço pendesse ao lado do corpo. Se a tocasse ali, não seria capaz de parar mais. Com uma dor lancinante no peito ele respirou fundo, sentindo e vendo a visão embaçar ao fitá-la. ❝ —– Gostaria de ser capaz de tirar você de tudo isso.❞ Falou baixo o suficiente para que apenas ela pudesse ouvir, enquanto recolhia as mãos para os bolsos. O vampiro respirou fundo, se virando para a mesma porta que Kyou havia entrado. ❝ —– Precisamos ir.❞ A voz estava rouca pelo esforço de falar ainda tendo aquela mão invisível em volta do pescoço. Zero havia resistido por tanto tempo, então poderia lidar com aquela situação mais um pouco.
Zero se adiantou para aquela saída e evitou o caminho mais visível, que era a escada central, preferindo descer por uma escada anexa até estar nas laterais do salão, pronto para entrar por uma das portas dispostas pelos cantos discretamente. Tudo aquilo para que tivesse tempo de se recompor. Por isso, segurou a maçaneta e encostou a testa na madeira pesada e fria à sua frente, fechando os olhos por um momento e tentando fazer seu corpo e seus instintos vampíricos se acalmarem até estarem aceitáveis. Contava com o selo para isso, que não demorou em executar seu trabalho.
Quanto àquela sede… Zero entendia Kyou. Ele mesmo, como um mero vampiro, com a sede, precariamente conseguia manter o controle. Na verdade, havia o perdido semanas antes. Também não queria ter reagido a Kyou daquela forma, não depois de tanto tempo. Não com as mãos trêmulas e ávidas para tocá-la. Não com a vontade que teve de trazê-la para seus braços até que se tornassem um. Não depois das palavras…
Zero respirou fundo algumas vezes e apertou os olhos. A mão que percebeu apertar a maçaneta com força demasiada, afrouxou o toque.
Estava voltando a si. Os caçadores ainda precisam de sua presença, tinha muito trabalho a fazer e um papel a cumprir. Zero também pretendia conversar com Kaien e Yagari em algum momento, sem a presença da ruiva. Diante de toda aquela situação, ainda que parecesse egoísta, Zero seguiria os próprios termos desde que significasse a mínima segurança para Kyou. Ele entrou no salão, buscando os caçadores que estavam dispostos pelo local e fazendo um checklist mental para tudo o que haviam discutido para a ocasião.
Uma vez que estava convencido de que tudo estava em seu lugar, por enquanto, Zero seguiu na direção da entrada principal do prédio, descendo para a área da frente quando avistou Yagari e seguiu até parar ao lado do caçador, que estava fumando às escuras de uma sombra. Ele levou as mãos aos bolsos, aguardando e observando o céu escuro até que o mais velho lhe direcionou o olhar ❝ —– Consigo ouvir as engrenagens na sua cabeça trabalhando formas de tirar vantagem de tudo isso. Só não sei para quem.❞ Zero respondeu o olhar, o questionando mesmo que não precisasse. ❝ —– Não que eu duvide da sua índole, Zero. Mas quer usar isso, de alguma forma, para protegê-la, certo? Apenas cuidado. Não sabe com o que está lidando❞.
❝ —– Exatamente.❞ A voz saiu baixa, mas convicta. ❝ —– Não sabemos e, de alguma forma, os Kurans nos revelaram esta noite que eles também não sabem. Pelo menos não completamente. Creio que, até que toda a verdade seja revelada, a execução de Kyou traz mais benefícios para o Conselho do que para a Associação… ainda que represente algum risco para ambos os lados, é do nosso interesse manter os olhos nela e nos certificarmos de que os Kurans não estão a controlando.❞ Zero lutou contra a vontade de engolir em seco, sentindo as palavras amargas na própria boca. Ainda assim, se forçou a continuar: ❝ —– Ao que me pareceu, o Conselho a manteve consigo por esses meses mais por medo do que o poder de Kyou poderia representar. Compartilhar essas informações hoje não me pareceu um ato de gentileza, mas sim de ameaça.❞ Ele aguardou, até que o caçador se virou para ele por completo, avaliando sua expressão. ❝ —– Você sabe o que poderia significar para a Associação, então, se você ainda possuísse essa parte da essência de Kyou, certo?❞
O grisalho uniu as sobrancelhas enquanto encarava o mestre. ❝ —– Não é uma guerra pelo controle de uma arma! Ela ainda está sob nossa proteção. Além disso, não esqueça de que foi o sangue dela que sobrepujou o sangue de Shizuka em minhas veias. Você sabe o que isso significa.❞
Pelas constatações de Kaien, Zero tinha alguma influência na Associação naquele momento, mesmo que estivesse sendo completamente observado, até o mínimo piscar de olhos. Teria cuidado com as palavras, mas usaria isso, e entraria na dança política que envolvia a Associação e o Conselho. ❝ —– Poderia significar um pouco mais de conhecimento sobre com o que estamos lidando exatamente. E talvez até como isso reflete nos interesses do Conselho sobre ela. Ainda assim, preciso lembrá-lo que Kyou não é mais uma humana. E o poder que ela representa… não há como protegê-la disso, por mais que você tente, Zero. Nenhum de nós sabe o que aconteceu com ela durante esse tempo com os Kurans.❞
O grisalho apertou o maxilar, entendendo o que Yagari poderia estar insinuando. Mas ele sabia que não era o caso, pois Kyuo jamais os trairia. Era absurdo e se apegaria fortemente àquela afirmação. ❝ —– Eu não a entreguei.❞ A primeira reação do mais velho foi de confusão, mas quando ele direcionou o olhar rapidamente para a entrada do salão, Zero soube que ele havia entendido. ❝ —– Também não sabia dessa informação até hoje.❞ Esperava, profundamente, que não tivesse cometendo o maior erro de sua vida. Mas precisava ter a confiança da Associação. E, apesar de tudo, confiava em Yagari.
Zero finalmente fez menção de retornar para o interior do salão, mas o mestre ainda completou atrás de si: ❝ —– Seu inimigo tem tanta influência sobre você pois o entregou exatamente o que ele precisava saber: sua maior fraqueza. E isso é a derrota de qualquer caçador.❞ Ele seguiu para assumir mais uma vez sua posição dentro do grande salão, recebendo um olhar de Kaito. Logo, passou a se mover pelas laterais, dentre as pessoas, enquanto os olhos buscavam uma figura conhecida.
Era como se tivesse congelado exatamente no lugar onde estava, na posição em que havia se colocado e mesmo prestando atenção nas palavras de Zero, Kyou não fora capaz de responder nenhum dos questionamentos feitos pelo mesmo. A cada minuto que passava e não sentia o toque dele, um terror abrasador a consumia… Não havia ninguém ali, sua prisão fora dizimada… Então o que era aquela densa camada que se formou entre ambos? No instante em que a porta se fechou, os dedos afundaram na pele, controlados o suficiente para não a ferir desde que o derramamento de sangue seu próprio sangue traria problemas; com sorte, algo em seu subconsciente ainda era capaz de assumir o controle de pequenas coisas como esta.
❛ Você passou um pouco mais de meio ano fora… Ainda havia esperanças em seu coração de que alguma coisa voltaria ao normal diante do seu retorno? ❜ A medida que as lágrimas deslizavam em abundância pelo rosto de Kyou, a presença feminina de longos cabelos púrpuros se materializava próxima a porta de saída, as costas repousando ali, os braços se cruzando nervosamente. Aki possuía um ar diferente do que habitualmente carregava, algo mais agressivo. ❛ Você foi deixada em um casulo enquanto o mundo inteiro estava em chamas, Kyou. Acredito que até o tempo de pensar nessas circunstâncias tenha sido negado a você. ❜ A ruiva não respondeu, mantendo o olhar fixo no chão, enquanto as próprias lágrimas caiam num pranto incessante. Soluços reprimidos alcançavam a audição aguçada da Ancestral, que se aproximou um pouco mais. ❛ Nada pode voltar a ser como era antes… E você é a única capaz de encontrar as peças que estão faltando… Sobre seu passado, sobre você, sobre tudo. ❜
❛ Zero-nii passou por muita coisa… ❜ O rosto de Kyou se ergueu no momento em que a voz de Momo alcançou seus ouvidos. A mais nova se aproximou até mais do que Aki, deixando Ichiru, que claramente sempre a acompanhava, cuidando da porta por onde haviam adentrado. No fim, Aki também se moveu um pouco mais pelo ambiente, concentrando-se em algo mais especifico, suas ações dependiam de determinados resultados e, por tanto, não se moveria até tê-los de fato. Momo agarrou ambas as mãos de Kyou, pressionando-as contra o próprio peito, forçando a mais velha a se concentrar em si. ❛ Ele cuidou muito bem de nós por todo esse tempo, e sei que ele nem sequer se deu conta disso… Eu não teria sobrevivido sem ele… Sem Ichiru. Ficar sem você me deixou muito doente… Mas eles me lembravam constantemente de que você estava viva e então eu esperei ansiosamente pelo seu retorno. Eu sei que ele nunca deixou de pensar em você, de procurar formas de te trazer de volta… Foi terrível pra ele… ❜
❛ A posição dele como Caçador é completamente diferente agora… Tudo vai muito além do seu conhecimento atual e embora você tenha se tornado praticamente o centro de tudo… Os pormenores precisam continuar sendo levados em consideração… Então, por favor, não desista… ❜ O Kiryuu mais novo carregava um tom de voz bem mais ameno e preocupado, incapaz de manter o olhar fixo em Kyou enquanto ela estivesse naquele estado. Tinha pleno conhecimento de como as coisas haviam mudado e de como tudo seria mais difícil dali em diante… Só esperava que a ruiva conseguisse se encontrar novamente em meio a tudo.
As palavras dos gêmeos cessaram suas lágrimas, mas ainda se manteve imóvel e em silêncio. Talvez tivesse chorado mais nos últimos tempos do que em toda sua vida antes de ser levada pelos Kurans. Tudo que Momo e Ichiru diziam carregavam um peso enorme, entretanto… Era quase como se já soubesse sobre tudo, o problema não eram as circunstâncias ou o modo como o mundo funcionava atualmente, o real problema é que não esteve presente, durante todo aquele tempo. Não foi capaz de evoluir com nenhum deles, dar apoio, dividir o peso… Esteve presa no tempo, recuperando tudo que haviam tomado de si a força, procurado respostas que pudessem ajudar a desvincular sua existência de uma possível calamidade ou algo que confirmasse a periculosidade de sua existência… Só desejava saber se era alguém que valia a pena ser protegida ou se a própria destruição traria ordem ao caos. Estava orgulhosa, era visível como todos haviam evoluído, sendo capazes de controlar os próprios sentimentos nas situações mais árduas, lidar com alguém como Kaname… Suas feições carregavam novos traços e esperava poder entender tudo que haviam passado em algum momento também… Quando o silêncio voltasse a lhe pertencer… Talvez fosse a hora de ceder também.
❛ Ichiru, venha aqui… ❜ A destra de Kyou segurou firmemente uma das mão de Momo, enquanto a canhota se estendeu na direção do mais novo, que arregalou os olhos levemente, mas a aceitou. ❛ Aki, eu preciso que você nos isole, não deixe nada se externar para fora daqui… ❜ Um sorriso quase cruel se moldou nos lábios da Ancestral, que prontamente assentiu em resposta, se retirando do local com cuidado. Os irmãos, embora confusos, se mantiveram próximos a Kyou, aguardando uma resposta. ❛ Eu preciso do sangue de vocês… Mas não em uma quantidade pequena… Não posso garantir que ficaram conscientes depois disso… ❜ Momo foi a primeira a concordar sem quaisquer questionamentos, entretanto a relutância de Ichiru fez com que Kyou se erguesse da mesa, mantendo-os um de cada lado de si. ❛ Momo vai confiar em mim, pois somos ligadas por algo muito maior… Você compreende isso, já que compartilha dessa mesma ligação com o Zero… ❜ Os dedos do Kiryuu mais novo se entrelaçaram aos dela, ainda que estivesse com medo, aquela era uma afirmação que o preenchia com algo que superava sua covardia diante de tal situação… Era capaz de compreender aquele laço, entretanto não sabia se era capaz de confiar plenamente em qualquer ação que Kyou pudesse tomar dali em diante.
❛ Você vai se colocar em risco de novo… ❜ O menor sussurrou baixo, desviando o olhar e mordendo o próprio lábio inferior. ❛ Não me conforta saber que não vou estar consciente para intervir… ❜ Pouco se importava com o próprio sangue, mas não estar presente num momento como aquele… Aquilo o atormentava.
❛ Você sabe da restrição imposta a mim… Preciso me alimentar, mesmo que eu não queira, se eu continuar no estado em que eu estou, não vou conseguir fazer muito e o único sangue que eu sou capaz de aceitar é o de vocês… Momo porque é sangue do meu sangue… Você, Ichiru, porque compartilha do sangue do Zero… O cheiro de sangue não vai se espalhar, Aki vai garantir isso. ❜ Os olhos reluziam fracamente, como um vislumbre de sua sede, mas nada muito além disso. Mesmo que cada sangue possuísse uma singularidade, tomar o sangue de Momo e Ichiru mantinha seu sangue limpo, apenas com sangue do seu sangue… E dos Kiryuus. ❛ Maria vai estar com vocês em um dos quartos… Você deve ser capaz de despertar antes mesmo de Momo, mas precisam repousar e se alimentar logo em seguida. O motivo de eu pedir o sangue de ambos é porque a dose que eu necessito mataria um ser humano normal… ❜ Não havia orgulho em suas palavras, ainda que a voz não falhasse, a dor em seu peito se tornou crescente e precisava aceitar aquilo como sua única punição. Ou beberia do sangue de ambos, ou provavelmente perderia o controle até o fim da noite diante de qualquer situação que se sucedesse e seria levada por Kaname de novo, e, desta vez, nem um possível apoio da Associação serviria de ajuda. ❛ Meu familiar está vagando ao redor da Mansão desde que chegamos e eu sei que tem algo errado… Existem coisas que a Associação e nem o Conselho podem controlar, vocês sabem disso… ❜ Ela apertou um pouco mais as mãos de ambos. ❛ Eu vou falar com Zero e a Associação, eu prometo, só vou agir sozinha se não houver outra opção. ❜
❛✿:≀ eıns::。
❛ Jovem dama, você… Faz idéia do que se trata essa reunião…? ❜
❛ Convidar uma garota humana tão jovem a esse baile… Kaname-sama fez algo bastante perigoso…! ❜
❛ Com licença… Poderiam gentilmente me deixar passar? ❜ Atravessar o grande salão se mostrou uma grande tarefa. Enquanto Sayori transpassava pela multidão de vampiros, os murmúrios se dividiam entre très assuntos principais: a humana, os kurans e os purosangues convidados. A estudante vagou o olhar pela sala em busca de Kaito e ao avistar o mesmo, se aproximou com cuidado. ❛ Yuuki já chegou, eu ouvi uma agitação vindo da outra sala, poderíamos ir até ela agora? ❜ Tinha prometido não se afastar do Caçador e embora tenha vagado sozinha por um tempo, obedeceu a regra de não sair do campo de visão dele. Kaito apenas assentiu a cabeça positivamente, afinal, esteve atento ao baile durante todo momento e a chegada dos Kurans jamais passariam despercebidas aquela altura.
❛ Vamos… ❜ O mais velho segurou uma das mãos de Sayori, mas mesmo sua presença não fez com que os vampiros recuassem o suficiente, tornando o próprio espaço e o de Sayori limitados no salão. A língua estalou no céu da boca e ele suspirou impaciente, passando a buscar um caminho alternativo e, que de preferência, causasse menos incômodo.
❛ Pessoal… Não há motivos para se preocuparem, afinal, essa noite estamos entre damas e cavalheiros e somos todos convidados confiáveis, trazidos aqui por nosso anfitrião Kaname-sama, não é…? ❜ A voz desconhecida e aveludada ecoou num timbre impecável e como um feitiço de comando, ela conseguiu uma atenção maior de quem ela queria que a notasse, enquanto os demais provavelmente pararam no centro do salão apenas admirados por sua beleza. Cabelos longos e dourados, adornados por fitas brancas que acompanhavam o enorme vestido que trajava, os olhos dela cintilavam num azul profundo, como a parte mais funda e inalcançável do oceano, quase abissais. Ela exalava nobreza… E o sangue que corria por suas veias tornavam qualquer um ciente de seu status como uma Purosangue sem esforço. Um sorriso sutil moldou os lábios rosados, enquanto ela tombava a cabeça para o lado, claramente interessada e direcionada a Sayori. ❛ Você não ficou com medo? Mesmo acompanhada por um Caçador, a senhorita é uma jovem corajosa e… Também muito bonita. Estava procurando nossos anfitriões? Eu me chamo Sarah, Shirabuki Sarah e ficaria feliz em me oferecer para levá-la até eles. ❜ Sua beleza era tão surreal que tanto Sayori quanto Kaito não conseguiram dar uma resposta imediato e com isso, a mão de Sarah se aproximo de uma das mãos de Sayori, verdadeiramente disposta a guiá-la consigo.
❛✿:≀ zwei::。
Caminhar pelos corredores da Mansão lhe causavam arrepios, entretanto, Kyou conseguiu executar tal tarefa melhor do que o esperado. Era como se aquelas paredes pudessem a fechar e a aprisionar a qualquer momento… De novo, de novo e de novo. Depois de absorver o sangue dos mais novos e deixá-los sobre os cuidados de Maria, Kyou precisou tomar um tempo para si; quase como se o corpo tivesse demandado tempo para se adaptar ao sangue ingerido. Os sentidos se aguçaram como a muito tempo não fazia, era como se readaptasse a um corpo novo… Mas, precisava admitir, sentia-se quase inteira. Tudo que havia treinado, tanto em teoria quanto prática, o poder que Aki havia sobrepujado, pareciam voltar e se adequar, como se o corpo finalmente estivesse pronto para receber tudo que havia sido instruído.
Havia tomado para si como primeira missão encontrar Zero e como a intenção era continuar despercebida, Kyou diminuiu a intensidade da presença de seu sangue e caminhou com a cabeça coberta pelo capuz que usou para chegar ali. Não foi difícil trilhar um caminho, não quando os Nobres sussurravam sobre todos os acontecimentos e sem dificuldades ela chegou até ali…
Uma das mãos de Zero envolviam o pulso de uma suposta Purosangue… E a canhota de Yuuki se apoiava no braço de Zero.
❛ Poderia, por favor, soltá-la…? Ela é uma de nossas preciosas convidadas. ❜
As próprias mãos se guiaram até o laço envolto no pescoço e as pontas dos dedos os desfizeram, alargando o capuz que lhe cobria o rosto. Quando o mesmo caiu do topo da cabeça, as madeixas avermelhadas se soltaram, recaindo sobre os ombros cuidadosamente revelados. Os Nobres que a circundavam se distraíram por um único instante e quando os incontáveis olhares se fixaram na ruiva, os olhos dela comprimiram imperceptivelmente, reluzindo em uma faísca. Pela primeira vez, o salão fora tomado por um silêncio avassalador e imediatamente os que se encontravam no centro abriram espaço e Kyou caminhou até onde Zero estava, os olhos fixos na mão de Yuuki repousada no braço do Caçador. Quando atingiu distância o suficiente, a Caçadora agarrou o pulso de Yuuki, o puxando para cima, obrigando a Vampira a tirar a mão de Zero. A Kuran estremeceu, os lábios trêmulos revelavam que queria se pronunciar, mas estava assustada… Assustada demais com a essência que a ruiva exalava. Depois de livrar Yuuki de si mesma, Kyou se colocou defronte a Zero, desta vez era ela quem repousava a mão sobre a dele, as pontas dos dedos pressionando a pele do mais velho com uma força fora do comum, demonstrando o quão estava irritada, ainda que fosse difícil determinar um motivo específico.
❛ Então essa é a Purosangue vinculada a família Kuran? ❜
❛ Ela é realmente linda e deve ser a melhor amiga da Princesa Kuran. ❜
❛ Que tipo de relação ela deve ter com o Kaname-sama? ❜
❛ Qual o nome dela? De que família será que ela vem? ❜
❛ Ouvi dizer que ela é uma Caçadora desde pequena… ❜ Logo o salão se agitou novamente, a atenção dividida entre as duas Purosangues… E a Princesa Kuran.
❛ Por favor, Kiryuu-senpai… ❜ Talvez tivesse exagerado com tanta formalidade, mas não havia muito o que pudesse fazer mediante aquela situação.
❛ Ara… Ai está você… A melhor amiga dos Kurans! ❜ Toda atenção que se formou sobre Sayori se dissipou e no instante seguinte pairaram sobre Kyou. Sarah até mesmo diminuiu a distância, forçando Yuuki a ir um pouco para o lado e Kyou recuou, sentindo as costas baterem contra o corpo de Zero. ❛ A Purosangue que na verdade é uma Caçadora, não é? ❜
Kyou respirou fundo, repousando a mão livre sobre o peito e fazendo uma leve reverência… Não pareceu ter qualquer intenção de afastar o corpo de Zero e muito menos de soltar sua mão, precisava deixá-lo ciente de que precisava dele ali. ❛ Não presuma meu relacionamento, por favor, Shirabuki-sama… ❜ Os olhos piscaram rapidamente, como se algo a tivesse trazido certo tom de familiaridade, mas não conseguiu distinguir o quê e precisou dar continuidade para encerrar a comoção de uma vez. ❛ Eu sou realmente uma Caçadora, mas também sua semelhante e por isso gostaria de pedir para não se aproximar de Sayori, por favor, ela está aqui como convidada de Yuuki-sama e Kaname-senpai e tem toda proteção da Associação. ❜ A Purosangue sorriu, desta vez apenas observando as ações de Kyou e o movimento no salão. ❛ Kaito-san, acompanhe a Sayori-chan e a Yuuki-sama, eu cubro sua posição por aqui… ❜
Kaito agarrou as mãos tanto de Sayori quanto de Yuuki, aproveitando o espaço que ganhara para se livrar da multidão de vampiros e seguir para onde quer que as amigas pretendessem ficar. Ele claramente não agia pelas ordens de Kyou e a ruiva estava contente por existir algo a mais que o fazia acatar seu pedido.
❛ Vamos nos encontrar mais tarde! ❜ Sarah seguiu numa direção contrária ao grupo, sorridente e acenando como uma despedida, que Kyou não correspondeu, observando toda situação se dissipar e finalmente tudo voltou a uma normalidade.
❛ Precisamos conversar… ❜ A ruiva sussurrou baixo, de uma forma que somente Zero poderia escutar, enquanto repousava ambas as mãos sobre os ombros dele, pressionando os dedos ali como se pedisse para ele se abaixar e diante da situação, Kyou precisou se colocar na ponta dos pés, aproximando os lábios de uma das orelhas dele. ❛ Tem algo errado… Temos que voltar para os corredores e eu preciso da Thanatos… ❜ Os olhos vagavam pelas pessoas mais próximas, certificando-se de que ninguém estaria atento a eles.
Mesmo após uma volta quase completa no salão, Zero não havia encontrado rastros de Kyou. Na verdade, por algum momento, sequer pode sentir a presença dela próximo. Quase como se a ruiva tivesse deixado o local completamente e aquela percepção o fez voltar rapidamente para seu posto inicial, próximo de onde havia deixado Kaito. Os olhos ainda percorriam o salão de forma casual, buscando não atrair qualquer atenção por movimentos exagerados, mas parou quando viu o caçador sutilmente abrir uma bagagem onde Wakaba estava escondida. Rapidamente cessou a distância entre eles, para segurar o mais velho pelo colarinho da veste. ❝ —– Kaito, você perdeu a noção?❞ Falou entredentes. Facilitar a entrada de uma humana num ambiente como aquele, repleto de vampiros. Zero olhou para a garota que uniu as mãos em frente ao vestido de baile, desacreditado de que haviam planejado aquilo às cegas. ❝ —– Relaxa, Zero. Ela é apenas uma humana, podemos protegê-la sem problemas, certo?❞ Kaito deu um passo mais próximo de si, de modo a chamar sua atenção e quando Zero retribuiu, ele direcionou a fala para Sayori. ❝ —– Vá em frente, busque sua amiga. Mas, a única condição é que fique onde eu possa te ver.❞ Ela rapidamente acenou e se afastou de ambos.
O caçador suspirou, por fim, soltando o outro e se afastando o suficiente para parar ao lado. ❝ —– Bem, agora temos uma pequena cordeirinha...❞ Kaito continuou baixo, quando se virou para a direção onde a garota tinha seguido. Com aquela frase, Zero havia entendido perfeitamente suas intenções. ❝ —– Está vendo? Os olhos dos sanguessugas mudando de cor enquanto ela passa…❞ Ele direcionou um olhar para si, como se provocasse uma resposta do grisalho.
Zero fixou o olhar exatamente para encontrar as reações que Kaito acusava. O que poderia dizer naquela ocasião? Ele mesmo não conseguia evitar as próprias reações impostas pelos sentidos. A prova disso foi ter reagido à Kyou momentos antes e algo em si o dizia que Kaito percebia o que ele estava tentando esconder. ❝ —– E se em algum momento um daqueles vampiros se mover para ferir Wakaba… você teria a perfeita razão para atacar.❞ Completou pelo outro. De alguma forma, o olhar encontrou as figuras de Yuuki e Kaname, não demorando para que a princesa correspondesse e sustentasse a atenção por alguns segundos.
Yuuki foi a primeira a se mover, saindo do seu campo de visão por um momento. Ao seu lado, percebeu que Kaito também havia se movido dentre a multidão, mas Zero o ignorou e apenas virou o suficiente para encontrar os Kurans, no intuito de não perdê-los de vista. Quando pareceu que havia avaliado todo o salão, de onde estava, finalmente se deu conta da ausência de Momo e Ichiru. Se estavam ali durante a reunião, onde poderiam ter ido?
Com um suspiro, Zero voltou a caminhar. Pretendia alcançar Yagari, o qual havia acabado de retornar para dentro do espaço, mas não completou o destino pois uma pequena comoção o fez ir em direção onde avistou Kaito. Ele e a pequena que reconheceu como Sayori estavam na companhia de uma certa quantidade de cabelos loiros sob uma presença que sabia pertencer a linhagem de um purossangue. Não era preciso muito para perceber a malícia na aproximação da mulher, por isso, Zero rapidamente se direcionou até os três e antes que ela pudesse tocar em Sayori, surpreendeu a loira segurando firmemente em seu pulso. O olhar que direcionou para a outra deixava claro que não pouparia esforços, mesmo estando no ambiente em que estavam. Aquela mulher não tocaria na estudante enquanto ele estivesse ali.
O dedos se apertaram em torno da epiderme fria, mas, segundos depois Zero pode sentir um toque contido em seu próprio braço, identificando a responsável. Não era exatamente a pessoa que ele gostaria de ter que lidar no momento. ❝ —– O que está fazendo?❞ A voz seca foi direcionada a morena, mesmo que os olhos tivessem permanecido na purosangue a sua frente, que parecia divertir-se com tudo aquilo. O silêncio se estabeleceu, pois ele mesmo não se incomodou em responder. Convidada ou não, Zero estava ali sob um propósito e considerando que havia uma humana em meio aqueles vampiros, sua responsabilidade reforçava sua atenção. Por fim, Zero direcionou o olhar para Yuuki devagar, fitando-a pelo que pareceram minutos, mesmo que houvesse, na verdade, sido apenas longos segundos.
Até que foram surpreendidos por Kyou. Zero apenas foi capaz de observar o que se seguiu, mesmo que por nenhum momento tenha soltado a mão da puro sangue. Ao toque de Kyou, a própria feição irritada foi substituída por uma expressão leve de surpresa. O que era aquela reação consigo? Zero abriu os lábios para responder, pronto para deixar claro que não se importava de quem se tratava. Se aquela mulher vampira tinha intenções com a garota humana, ele iria interferir. No entanto, os murmúrios que se seguiram em volta deles o impediu, um em particular fazendo o caçador direcionar o olhar cortante na direção do responsável e, em seguida, apertar o maxilar numa tentativa contida. Ele desviou a atenção para a mão da ruiva sobre a sua por um momento mas, por fim, suspirou, voltando o olhar para Sayori. Até ouvir a voz da menor direcionada a si com tanta formalidade, quando a fitou erguendo uma sobrancelha.
Zero alternou a atenção entre a ruiva e a puro sangue à frente, sentindo o encontro com o corpo da menor quando ele mesmo havia, minimamente, dado um passo à frente, respondendo aos instintos ameaçadores da outra. Mesmo enquanto apenas observava a reação de Kyou, o caçador levou a mão livre a lhe tocar o braço, os olhos estreitando em direção a outra. Antes que Kaito pudesse sair com Sayori e Yuuki, ambos ainda trocaram olhares de forma rápida, pois Zero não deixaria passar o fato dele estar envolvido em toda aquela situação. No fim, sabia que aquela ideia não daria certo.
Quando Kyou se virou para falar consigo, o olhar seguiu de soslaio para as pessoas em volta, se certificando de que não estavam chamando atenção demais. A mão também deslizou sobre o braço dela conforme pendia o rosto de modo a facilitar a comunicação quando ele concordou. Calmamente, Zero afastou um passo e encostou a destra na altura das costas da ruiva, fazendo menção de acompanhá-la de modo casual. Eles caminharam até os cantos do salão e continuaram caminhando até que estivessem próximos das sombras e a uma das portas laterais novamente, aproveitando a primeira oportunidade para entrar. Como esperado, os corredores estavam vazios, mas, ainda assim, quando Zero recolheu a mão e deu alguns passos a fim de se certificar. Por fim, suspirou pesadamente e se virou para Kyou, se aproximando até que conseguisse sentir a respiração alheia. Embora tivesse hesitado a princípio, a destra foi até a mão da menor, dessa vez levantando até que ambos pudessem ver ele transmitindo Thanatos para ela sem problemas. Sempre carregava a arma consigo, até mesmo em suas missões. Não sabia ao certo o motivo, mas imaginava que tinha algo a ver com lembrá-lo constantemente de sua busca.
A observando novamente, seu primeiro pensamento foi imaginar que não colocaria a ruiva sozinha consigo naquele momento. Quando estavam no salão, não era tão difícil não focar em sua presença e essência, mesmo que se destacasse dentre tantos outros vampiros. Mas sabia que, pela ocasião e pelos acontecimentos anteriores, deveria ser algo sério. O caçador segurou a mão de Kyou por um momento, sentindo aquela tão conhecida energia que compartilhavam ao toque. Tanto tempo que havia esperado sentir aquele toque... Por esse mesmo motivo, a soltou, retomando o passo de distância.
Mas quando fez menção de desviar o olhar, Zero sentiu que além disso, havia algo mais. Mesmo sem uma iluminação adequada, notou a diferença em sua postura e em seu cheiro, fazendo-o franzir a testa. Algo dentro de si se revirou profundamente, mas o caçador apenas lembrou a si mesmo para focar no motivo de estarem ali. No fundo, estava apenas aliviado de que ela estivesse bem. ❝ —– O que aconteceu?❞
⤹ ✿ . ⃗. . alone at night .
Kaito havia provocado quando ainda estavam a caminho do lugar onde o encontro aconteceria. Mas, ao invés de reagir com seu habitual temperamento, Zero utilizou daquilo como um teste pra si mesmo, tendo em vista que precisaria de todo seu autocontrole exatamente para aquele momento.
No entanto, estava sendo mais difícil do que imaginava. Seus instintos entraram em alerta e os ombros se ergueram ainda mais, reajustando a postura assim que os viu irromper pela porta da sala. Não pode deixar de encarar profundamente do Líder Kuran, permitindo que a escuridão lhe abraçasse, convidada pelo ódio frio que tomou forma de escudo contra a presença ditadora do purossangue. Zero podia jurar que até o próprio sangue corria frio pelas veias.
Apesar da sensação, manteve-se inexpressivo com a revelação de Seiren em seguida, já que não era exatamente uma surpresa e sustentou o olhar do presidente, sabendo que ele entenderia a afirmação. Não haviam conversado tanto a respeito no passado, mas Zero sentia certa resistência vinda do diretor quando, de alguma forma, o assunto era Kyou e os Kurans. No fim, ele entenderia por si só.
O mesmo não poderia dizer de Yagari, que claramente se remexeu desconfortável, direcionando um olhar cheio de reprovação para a vampira silenciosa. Também não deixou de notar o olhar de Kaname sobre si, embora de forma alguma caiu em sua breve provocação. Ele sabia que Kaname estava aproveitando os momentos de poder em estar ali, sem a presença de Kyou ou Yuuki, como se usasse disso para expor maneiras de manipulá-lo. Pois Kaname sabia que era exatamente nela que seus pensamentos se concentravam. Mas o caçador nem mesmo se permitiu apertar o olhar em ameaça para o outro, permanecendo exatamente com a postura que havia erguido.
Era uma luta interna ter que permanecer imóvel para as provocações veladas do Kuran, afinal, a Ordem dos Caçadores só existia pela necessidade de exterminar os seres sobrenaturais que desequilibraram o rumo natural das coisas. E ainda que soubesse ser uma postura não muito adequada, ele se sentia contemplado pelo temperamento de Yagari ser resguardado por sua posição na hierarquia. Em alguns momentos, Yagari parecia ainda mais intolerante do que ele próprio, mas confiava o suficiente para saber que ele não soltaria nenhuma das informações relevantes que havia levantado nas últimas missões. Ainda não era o momento.
Com isso, apenas escutou e absorveu todas as informações, ao tempo que observava o mínimo movimento de qualquer um no recinto. Até que Kaname se dirigisse diretamente a si. Ele sabia que aquelas palavras não eram um ato nobre e confirmou isso com a última sentença: passar um tempo. As mãos que estavam cruzadas atrás do corpo se apertaram em um punho, fitando o vampiro por alguns segundos antes que sua única reação fosse direcionar um olhar para Kaien quando o sentiu fazendo o mesmo. Ele sabia o que Kaien estava pedindo e o quanto aquilo significava, mas não poderia deixá-lo sem uma resposta. Zero não sabia como aquela noite iria terminar, mas certamente não seria da forma de o Kuran pudesse estar esperando. A cabeça pendeu quase imperceptivelmente, ao passo que o canto dos lábios se ergueu, exatamente como ele havia feito assim que pôs os olhos sobre si. Não era uma tentativa de esconder que estava afetado, mas sim uma promessa de violência para o vampiro caso ele resolvesse agir.
Naquele meio tempo, imaginou como poderia assumir tal posição de liderança dos caçadores em algum momento, uma vez que aquela conversa não parecia seguir um caminho para quem busca paz entre duas frentes. A paz não poderia ser sustentada em meio a uma guerra de poderes. De reais poderes, muito além do que a humanidade poderia controlar. Por isso, aquilo nunca acabaria, era apenas uma bolha que podia estourar a qualquer momento.
Mas a feição se desfez assim que a sentiu. Zero se virou para a porta um segundo antes que essa abrisse, permitindo que uma voz alcançasse seus ouvidos assim como a presença conhecida. Mesmo que tivesse identificado imediatamente a diferença em sua essência, tê-la no mesmo recinto o fez congelar e ao mesmo tempo deixou seus instintos em alerta. Algo dentro de si, mesmo sem permissão, o fez piscar algumas vezes, forçando o grisalho a se mexer para reassumir o controle das próprias reações, ainda que os batimentos tivessem acelerados.
Por uma fração de segundo, ele abaixou o olhar, engolindo em seco pela mão invisível que o segurou pela garganta, fazendo-o se concentrar em conter a respiração. O olhar também alcançou os gêmeos logo depois e Zero franziu o cenho em questionamento para aquilo. Havia retomado a postura no mesmo instante e, por ordem natural, o caçador de aproximou um passo a mais do presidente quando a figura desconhecida se posicionou. Aquilo definitivamente não lhe cheirava bem, considerando que não era uma pessoa da Associação e, ao parecer, também não era do Conselho. No entanto, foi Yuuki quem realmente tirou de si uma reação mais expressiva, quando o caçador torceu os lábios, se esforçando para não repuxar a feição em raiva.
Quando Ichiru falou, Zero pressionou o maxilar. Claro que ele estaria envolvido no fim das contas, assim como Momo - e por esse motivo, também não escondeu o olhar irritado para nenhum dos dois. Qual atraso exatamente? Ambos sequer deveriam estar ali. Seu olhar os acompanhou até estarem próximos, ainda os fitando por breves segundos. Eles iriam explicar aquilo muito em breve. Mas assim como os demais na sala, sua atenção acompanhou a fala de Momo e, logo em seguida, Yuuki.
Naquele segundo olhar, Zero refletiu que, mesmo com o último encontro conturbado que tiveram, era difícil observá-la tão desconfortável como naquele momento. Ao menos até que Yuuki verbalizasse o que havia negado para si mesmo desde o início. E mesmo que quisesse, Zero havia sustentado o contato visual, sua total e completa atenção até as últimas palavras. Não justificava, nada poderia justificar. E Zero sinceramente quis rir de escárnio quando o Kuran mais velho a complementou.
Talvez devesse questioná-la posteriormente por que havia o poupado de tal gentileza. Talvez pudesse questionar, na ocasião, por que uma vampira havia manipulado humanos em vontade própria desde que não era uma real situação de risco, e isso por si só violava as leis que estavam discutindo exatamente naquele momento. E para que expressasse o pensamento, Zero a encarou por alguns segundos até que a risada de Kyou o chamasse atenção novamente.
O grisalho estava sinceramente chegando ao limite diante de toda a situação, mas, ao menos inicialmente, prestou total atenção ao que a ruiva pretendia dizer. Parte do que ela falava Zero já estava ciente, mesmo quando todo o caos aconteceu, mas, aquela última informação… as mãos que estavam atadas às costas se soltaram e ele fez menção de mover a cabeça em negativa quando sentiu a mão de Ichiru encostar à sua muito pontualmente para ter sido um gesto casual. Ele sabia que o mais novo clamava por atenção e, mesmo assim, resistiu alguns segundos antes de encará-lo. O que Kyou estava armando?
Ainda que tivesse a realização de que aquilo não era verdade, qual parte poderia ser mentira? Qual parte daquela história poderia estar, de fato, ligada a ele? Zero deixou de notar boa parte do que estava acontecendo, ainda que usasse as últimas forças para manter a postura. Não era possível, nada daquilo era possível. Não era possível que pudesse carregar algo tão importante sem notar pelo tempo que fosse. Não era possível que estivesse presente na vida de Kyou antes daquela noite na neve quando havia encontrado as irmãs sozinhas. Mas por algum motivo, ela havia revelado isso naquele momento. Não poderia dizer que não havia o ferido, caso fosse verdade, saber de tal informação naquelas circunstâncias. Assim, ele soltou a respiração devagar, relaxando os punhos antes que as unhas pudessem ferir as palmas das mãos.
Enquanto Kyou prosseguia, Zero sutilmente trocou olhares com Yagari. Haviam chegado àquele ponto, enfim, o que o ajudou a retomar seus pensamentos para o presente e a responsabilidade que havia assumido. Zero seria um tolo se deixasse que as emoções assumissem o controle sobre suas ações e pensamentos novamente. Não mais. Principalmente quando estava ali para reunir os pontos mais importantes que Kaname e o Conselho expressavam, ainda que fosse contra. Por fim, mesmo que todos começassem a dissipar, Zero permaneceu próximo a Kaien, apenas desviando a atenção quando o mestre parou ao seu lado. O grisalho acenou para o mais velho que não demorou a seguir seu caminho, direcionando um último olhar para Ichiru ao seu lado.
Zero se questionou, enquanto observava Kaien seguir com os demais, se deveria acompanhá-lo, como a posição demandava. Mas se viu incapaz de mover o corpo quando apenas os quatro permaneceram, até que as últimas presenças familiares dos irmãos os deixasse. Apenas Kyou e ele. Ainda assim, forçou os músculos a responderem, prestes a seguir em frente ou não saberia como reagir. À primeira menção de movimento, Zero sentiu o toque de Kyou sobre si e imediatamente fechou os olhos. Não ousou mover o olhar, os músculos ou até mesmo respirar. E nem conseguiria, caso quisesse, pois era como se algo estivesse preso a garganta e aos membros. O peito doía igualmente e ele tinha receio de que qualquer reação que pudesse ter, fosse o suficiente para que desmoronasse a fachada que havia mantido erguida durante todo aquele tempo.
Durante aqueles meses.
No entanto, ao ver a reação de Kyou, sem avisar, as lembranças de tudo o que havia feito vieram a si e ele apertou os lábios em uma linha fina, os olhos respondendo imediatamente em rubro vívido. Ele abriu a boca, mesmo sem a real intenção de dizer algo. O vampiro a fitou, enquanto Kyou permanecia com o olhar baixo, para a mão que o segurava. Ela estava sentindo o mesmo que ele? Ele sabia que a pele dela era fria, porém, era como se lhe transmitisse um calor incomum. Uma energia impossível.
A mão virou sob o toque dela, de modo que as pontas dos dedos pudessem tocar o pulso pálido, mas no mesmo instante a sensação se foi, assim como o contato. Ele teve medo. Foi tomado por um medo ridículo de que aquilo… que ela… não passasse de uma ilusão. Ou que abrisse a boca para dizer que não poderia ficar. Que jamais retornaria. Que Zero não poderia acompanhá-la. Que levaria Momo e, consequentemente, Ichiru consigo. Que seu lugar agora era ao lado dos Kurans.
Havia tanto que queria perguntar e dizer que mal poderia começar. Não poderia começar pois também não estava pronto para confessar todos os pecados que havia colecionado naquele tempo.
Por enquanto, ele a fitou, sabendo exatamente o que se passava com a ruiva e engolindo em seco. Os instintos de Zero, mesmo que majoritariamente predadores devido ao seu lado vampírico, gritavam em ordem para ir até Kyou. Para protegê-la. Para destruir aquilo que a fazia sofrer. E sabia que, de alguma forma, o sangue dela que existia em si também era responsável por incitar tais reações. Mas, além de tudo isso, o destruía vê-la daquela forma quando Zero sabia que tudo o que mais havia desejado antes de toda aquela herança biológica da ruiva vir à tona era que ela pudesse ter uma vida longe de tudo aquilo. Longe daquela realidade e daquela agonia.
Todo aquele tempo, ela estava…
Os olhos cintilaram novamente à menção de sangue e as mãos se fecharam em punhos, fazendo-o apertar os dedos com força. Não podia se deixar levar pelas emoções, nenhum dos dois podia, não ali. Mas as palavras seguintes de Kyou o trouxeram de volta, o atingindo com força. A garganta ardia e o vampiro estava usando uma força além do comum para permanecer exatamente onde estava. Zero lembrava exatamente dos últimos momentos com Kyou antes que apagasse no Colégio, e por isso, o peito apertou ainda mais. Não sabia quando havia sido a última vez na vida que ouvira tal frase direcionada para si. E sinceramente, não as merecia.
O caçador soltou a respiração de forma pesada, inclinando o rosto minimamente à uma lembrança do toque dela em sua face. Mas tudo o que fez foi direcionar o olhar para as grandes portas que davam para a saída do salão, podendo ouvir a movimentação mais à frente. E ainda que o medo o consumisse, Zero precisava saber. ❝ —– Quando isso acabar...❞ A voz falhou e o olhar voltou para a direção de Kyou. ❝ —– ... Você… irá permanecer?❞ Ele desviou o olhar quando os orbes escureceram em um rubro intenso. Era um risco não dizer tudo o que precisava ser dito ali, enquanto ainda podiam. Mas Zero não podia colocar toda a missão em risco, e, consequentemente, a própria Kyou, por conta de suas reações imprevisíveis. Por esse motivo, não esperou uma resposta concreta antes de dar alguns passos na direção da menor para observá-la.
Se precisasse ser sincero, poderia segurar a dela mão e sair dali o mais rápido possível, para o mais longe possível. Ainda que soubesse que nenhum local do mundo seria longe o suficiente para que fugissem dos fantasmas daquele passado, ainda assim, se permitiu vislumbrar tal possibilidade, mesmo que já tivesse a considerado tantas vezes antes. Mas, no fim das contas, não era uma decisão sua, não era o passado dele em jogo. E sabia que Kyou jamais viraria as costas para aquilo. E além, muita coisa havia acontecido naqueles meses. Por isso, dessa vez ele não expressou nenhuma palavra.
Cada vez que percebia o quanto a amava, também percebia o quanto aquele sentimento era doloroso para ambos. O quanto aquilo tinha o potencial de se transformar em suas fraquezas.
Quando Kyou voltou a sentar, passando os próprios braços pelo corpo trêmulo, Zero estendeu os dedos, pronto para tocar uma mecha do cabelo ruivo na frente do rosto da menor. Mas parou no meio do caminho, fechando a mão e deixando que o braço pendesse ao lado do corpo. Se a tocasse ali, não seria capaz de parar mais. Com uma dor lancinante no peito ele respirou fundo, sentindo e vendo a visão embaçar ao fitá-la. ❝ —– Gostaria de ser capaz de tirar você de tudo isso.❞ Falou baixo o suficiente para que apenas ela pudesse ouvir, enquanto recolhia as mãos para os bolsos. O vampiro respirou fundo, se virando para a mesma porta que Kyou havia entrado. ❝ —– Precisamos ir.❞ A voz estava rouca pelo esforço de falar ainda tendo aquela mão invisível em volta do pescoço. Zero havia resistido por tanto tempo, então poderia lidar com aquela situação mais um pouco.
Zero se adiantou para aquela saída e evitou o caminho mais visível, que era a escada central, preferindo descer por uma escada anexa até estar nas laterais do salão, pronto para entrar por uma das portas dispostas pelos cantos discretamente. Tudo aquilo para que tivesse tempo de se recompor. Por isso, segurou a maçaneta e encostou a testa na madeira pesada e fria à sua frente, fechando os olhos por um momento e tentando fazer seu corpo e seus instintos vampíricos se acalmarem até estarem aceitáveis. Contava com o selo para isso, que não demorou em executar seu trabalho.
Quanto àquela sede… Zero entendia Kyou. Ele mesmo, como um mero vampiro, com a sede, precariamente conseguia manter o controle. Na verdade, havia o perdido semanas antes. Também não queria ter reagido a Kyou daquela forma, não depois de tanto tempo. Não com as mãos trêmulas e ávidas para tocá-la. Não com a vontade que teve de trazê-la para seus braços até que se tornassem um. Não depois das palavras…
Zero respirou fundo algumas vezes e apertou os olhos. A mão que percebeu apertar a maçaneta com força demasiada, afrouxou o toque.
Estava voltando a si. Os caçadores ainda precisam de sua presença, tinha muito trabalho a fazer e um papel a cumprir. Zero também pretendia conversar com Kaien e Yagari em algum momento, sem a presença da ruiva. Diante de toda aquela situação, ainda que parecesse egoísta, Zero seguiria os próprios termos desde que significasse a mínima segurança para Kyou. Ele entrou no salão, buscando os caçadores que estavam dispostos pelo local e fazendo um checklist mental para tudo o que haviam discutido para a ocasião.
Uma vez que estava convencido de que tudo estava em seu lugar, por enquanto, Zero seguiu na direção da entrada principal do prédio, descendo para a área da frente quando avistou Yagari e seguiu até parar ao lado do caçador, que estava fumando às escuras de uma sombra. Ele levou as mãos aos bolsos, aguardando e observando o céu escuro até que o mais velho lhe direcionou o olhar ❝ —– Consigo ouvir as engrenagens na sua cabeça trabalhando formas de tirar vantagem de tudo isso. Só não sei para quem.❞ Zero respondeu o olhar, o questionando mesmo que não precisasse. ❝ —– Não que eu duvide da sua índole, Zero. Mas quer usar isso, de alguma forma, para protegê-la, certo? Apenas cuidado. Não sabe com o que está lidando❞.
❝ —– Exatamente.❞ A voz saiu baixa, mas convicta. ❝ —– Não sabemos e, de alguma forma, os Kurans nos revelaram esta noite que eles também não sabem. Pelo menos não completamente. Creio que, até que toda a verdade seja revelada, a execução de Kyou traz mais benefícios para o Conselho do que para a Associação… ainda que represente algum risco para ambos os lados, é do nosso interesse manter os olhos nela e nos certificarmos de que os Kurans não estão a controlando.❞ Zero lutou contra a vontade de engolir em seco, sentindo as palavras amargas na própria boca. Ainda assim, se forçou a continuar: ❝ —– Ao que me pareceu, o Conselho a manteve consigo por esses meses mais por medo do que o poder de Kyou poderia representar. Compartilhar essas informações hoje não me pareceu um ato de gentileza, mas sim de ameaça.❞ Ele aguardou, até que o caçador se virou para ele por completo, avaliando sua expressão. ❝ —– Você sabe o que poderia significar para a Associação, então, se você ainda possuísse essa parte da essência de Kyou, certo?❞
O grisalho uniu as sobrancelhas enquanto encarava o mestre. ❝ —– Não é uma guerra pelo controle de uma arma! Ela ainda está sob nossa proteção. Além disso, não esqueça de que foi o sangue dela que sobrepujou o sangue de Shizuka em minhas veias. Você sabe o que isso significa.❞
Pelas constatações de Kaien, Zero tinha alguma influência na Associação naquele momento, mesmo que estivesse sendo completamente observado, até o mínimo piscar de olhos. Teria cuidado com as palavras, mas usaria isso, e entraria na dança política que envolvia a Associação e o Conselho. ❝ —– Poderia significar um pouco mais de conhecimento sobre com o que estamos lidando exatamente. E talvez até como isso reflete nos interesses do Conselho sobre ela. Ainda assim, preciso lembrá-lo que Kyou não é mais uma humana. E o poder que ela representa... não há como protegê-la disso, por mais que você tente, Zero. Nenhum de nós sabe o que aconteceu com ela durante esse tempo com os Kurans.❞
O grisalho apertou o maxilar, entendendo o que Yagari poderia estar insinuando. Mas ele sabia que não era o caso, pois Kyuo jamais os trairia. Era absurdo e se apegaria fortemente àquela afirmação. ❝ —– Eu não a entreguei.❞ A primeira reação do mais velho foi de confusão, mas quando ele direcionou o olhar rapidamente para a entrada do salão, Zero soube que ele havia entendido. ❝ —– Também não sabia dessa informação até hoje.❞ Esperava, profundamente, que não tivesse cometendo o maior erro de sua vida. Mas precisava ter a confiança da Associação. E, apesar de tudo, confiava em Yagari.
Zero finalmente fez menção de retornar para o interior do salão, mas o mestre ainda completou atrás de si: ❝ —– Seu inimigo tem tanta influência sobre você pois o entregou exatamente o que ele precisava saber: sua maior fraqueza. E isso é a derrota de qualquer caçador.❞ Ele seguiu para assumir mais uma vez sua posição dentro do grande salão, recebendo um olhar de Kaito. Logo, passou a se mover pelas laterais, dentre as pessoas, enquanto os olhos buscavam uma figura conhecida.
⤹ ✿ . ⃗. . alone at night .
Talvez seu maior erro tivesse sido se entregar ao momento e dedicar toda sua atenção a ruiva. Havia isolado todo o resto, se deixando cegar pela preocupação, pela sensação da pele, pelo cheiro dela. Zero poderia punir a si mesmo por ter sido tão tolo àquele ponto. E alguma coisa, bem no fundo, o fazia sentir que não aquele não era o primeiro descuido.
Foi o que conseguiu raciocinar naquele breve segundo.
Sequer notou qualquer oscilação no ambiente até que fosse tarde demais e os pelos da nuca tivessem se eriçado meio segundo antes de sentir o toque que fez o tempo desacelerar. Que o afastou das sensações, das vozes, do próprio controle sobre o corpo e mente, que ficaram tão distantes tornando-o incapaz de entender o que era dito ou de quem era a voz.
Então Zero foi jogado no abismo.
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Uma pequena garotinha de cabelos escarlates e olhos carmesins, pele clara como a neve e uma expressão claramente emburrada, pisava forte no chão, fazendo um barulho irritante com o salto que calçava. Seu vestido era com o de uma princesa, tantos detalhes que nem valia a pena ressaltá-los.
Ele sentiu o corpo congelar quando a pequena ruiva se aproximou de si e logo em seguida começou a tremer levemente. O caçador se abaixou devagar em frente aquela figura e, esticando uma das mãos, lhe tocou a bochecha com a ponta dos dedos. Ela estava corada.
Não podia ser…
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Uma sensação de leveza o atingiu e era como se estivesse suspenso no ar depois de uma longa queda.
Em meio a escuridão, ele conseguia ver uma pequena faísca oscilante, tão distante. Uma joia que o vampiro reconhecia muito bem, mas, mesmo que tentasse estender a mão para alcançá-la, não conseguia se mover. Ele não conseguia se mover e impedir que aquela luz se apagasse aos poucos, até sumir, deixando-o sem nada novamente.
Calafrios o percorria, fazendo a garganta fechar e uma sensação de bile lhe atingir. Toda e qualquer energia parecia ter sido sugada do corpo, então Zero apertou os olhos, tentando trazer de volta os sentidos. Mas todo o processo parecia uma eternidade, e sequer mover qualquer membro se mostrou uma tarefa árdua.
O que tinha acontecido?
Ainda assim, o caçador se moveu minimamente, apoiando o tronco com os braços quando foi impedido por mãos pequenas e frias que lhe seguraram o rosto. Zero obrigou as pálpebras a se abrirem, mas a pessoa já estava próxima demais, os lábios tocando os seus e, de repente, todos os sentidos voltaram a si como uma parede se chocando contra o corpo. Os olhos se arregalaram, mas o corpo alheio se impulsionou contra o seu.
Estava tão surpreso que foi como se aquele segundo tivesse parado. Yuuki o havia beijado. De todas as situações possíveis, não poderia ter ficado mais confuso. E apesar do toque frio que havia sentido antes, os lábios de Yuuki pareciam mornos pressionados contra os dele, a respiração lhe atingindo o rosto.
Com os olhos abertos, após um segundo fitando o rosto dela, Zero não pode deixar de notar que Kyou não estava em lugar algum do cômodo. As mãos se moveram para segurar os ombros de Yuuki, e talvez ela não tivesse entendido sua intenção de afastá-la, a princípio, mas uma movimentação no ambiente a fez pular para longe. Só conseguia olhá-la petrificado. E estava prestes a perguntar o que inferno estava acontecendo, quando a porta do quarto irrompeu.
Momo entrou como um furacão, trazendo consigo os sons do mundo e cheiros e todo o resto. Antes que ela chegasse a si, os olhos do vampiro percorreram o quarto, buscando e analisando o que quer que tivesse despertado seus instintos.
Ele abriu a boca para dizer que estava bem, na medida do possível, pois não estava ferido. Mas o estado dela e a próxima pergunta veio, fazendo Zero apertar os olhos. ❝ —– O que v...❞ Algo estava muito errado, e ser interrompido pelas palavras de Ichiru apenas reforçaram. Os olhos dispararam para as mãos do mais novo, fazendo o mundo cair quando viu os cabelos ruivos.
Quando tentou buscar na memória, as lembranças pareciam distantes demais e, em algum ponto, sumiram como fumaça. E Zero não conseguia ir mais distante, sentindo a raiva tomar conta do peito.
Apesar do tom de voz direcionado a si, apesar dela sentir o sangue esquentando na veia em desafio, Yuuki se manteve visivelmente calma. Soltou um curto suspiro, o olhar voltando-se para Zero enquanto recordava daqueles momentos na velha construção. Das palavras que jogou contra a ruiva.
❝ —– Há muito pouco que você sabe e entende sobre o passado dela. Entenderia se soubesse...❞
Ele também conseguia ler pelo olhar da morena ao que ela se referia, e Yuuki estava satisfeita que tivesse conseguido fazê-lo lembrar. ❝ —– Eu disse pra você que nada disso é real. Eu disse que não permitiria isso. Disse o porquê de precisarmos fazer isso Zero! Você… você não pode apenas confiar em mim?❞
Disse que você é importante para mim. A vampira respirou fundo, controlando as emoções.
Zero soltou um riso de escárnio. No entanto, isso só fez com que Yuuki se movesse, levantando com uma calma incrível. ❝ —– Você está confuso porque ela não sabe como controlar aquele poder destrutivo. Todos nós estamos.❞ Continuou o fitando, mas logo completou num sussurro: ❝ —– Jamais deveríamos tê-la perdido de vista.❞
Toda aquela comoção era o que Yuuki não queria ter de passar. Tendo Kyou como o centro de todas as atenções e conflitos, no fim do dia, sempre se resumia a isso. Ela suspirou novamente e tocou os lábios com a ponta dos dedos por um momento, como se ignorasse toda a situação. Depois de tudo aquilo, das transformações, das palavras ditas e não ditas entre eles, não queria que acabasse assim. Tinha de haver outra forma!
Não é Zero? Yuuki pensava que tinha de haver, pois não suportava a ideia de se tratarem como inimigos.
❝ —– Você sempre quis ter o controle de tudo, não é?!❞ A voz de Momo se fez presente e quando ela estava prestes a se mover para avançar em Yuuki, Zero lhe pressionou a mão, segurando-a no lugar.
Ao menos porque ele mesmo precisava de algum apoio naquele momento, permaneceu com os dedos firmes em torno dos da mais nova. ❝ —– Onde ela está Yuuki?❞ A voz saiu rude e fria, fazendo a morena lhe lançar um olhar magoado e se virar. Ele ainda não sabia qual era o envolvimento de Yuuki em tudo aquilo, e ainda estava digerindo o significado dela tê-lo beijado momentos antes.
O vampiro já estava expandindo cada gota de força que tinha em busca de traços de Kyou, ele a sentiria. Se ela estivesse próxima, sentiria. No entanto, para o desespero, o único indício de presença se encontrava ali nas mãos de Ichiru. E, absurdamente, nada mais.
O caçador se moveu rápido, parando ao lado do irmão e pegando o cabelo cortado.
Se a única gota de essência que conseguia sentir se resumia aquilo… Zero entendeu. Ele se virou novamente, devagar, para Yuuki. ❝ —– Quanto tempo faz?❞ A pergunta lhe escapou baixa, uma raiva fria tomando conta de si quando os olhos brilharam escarlate.
A morena apertou os lábios em uma linha fina. Ainda que já estivesse longe, havia estragado tudo. ❝ —– Zero, ela já causou tantos danos… Essa existência...❞ tentou se aproximar com a mão estendida. No entanto, ele sabia que tudo aquilo era apenas uma perda de tempo. Por isso, se virou rapidamente para a porta, na mesma velocidade que Yuuki se pôs no caminho, bloqueando.
❝ —– Ela está bem, Zero.❞ Ele desviou do corpo menor, seguindo. As mãos fechadas em punhos numa tentativa de controle.
No meio do corredor, Yuuki o alcançou, fazendo ambos pararem novamente. Momo e Ichiru correram para fora do quarto, mas, àquela distância não conseguiram ouvir quando a vampira respondeu baixo: ❝ —– Ela partiu com o Kaname-sama.❞ O grisalho piscou. ❝ —– Estará segura com ele, você sabe disso... E ela também sabe.❞ Por isso havia partido — leu no olhar dela. ❝ —– Somos os únicos que podem ajudá-la.❞
Sem mais uma palavra, o caçador sacou Blood Rose, apontando-a para a morena que respondeu estendendo Artemis à frente de si. ❝ —– Me leve até Kyou, e deixe que ela diga isso para mim.❞ Por mais que tentasse controlar, o coração parecia que sairia do peito e já podia sentir o tremor tomando conta dos membros. ❝ —– Eu cansei de tudo isso. Do jogo que vocês puros-sangue jogam enquanto vivem sob as regras desse mundo podre. Não posso perdoar mais nada… Yuuki.❞ A voz tremeu ao final da frase, mas só conseguia sentir a raiva e revolta por parecer tão impotente quando rodeado pelas tragédias que envolviam aqueles vampiros. Pelo poder de controle e político que possuíam.
Chega.
❝ —– Não posso fazer isso com você, eu não posso. Você não entende, eu… Zero, eu decidi há muito tempo atrás que eu vou ficar do seu lado. Mesmo você me considerando sua inimiga.❞ A voz dela estava triste, apesar dos olhos decididos. ❝ —– Mas… não é justo… que seja apenas comigo...❞
Ainda que sentisse raiva, olhando para Yuuki naquele momento, ele não conseguiria puxar o gatilho. Não conseguiria usar a arma pois sentia que ainda estava preso as conexões do passado.
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Pequenas mãos macias seguraram seus punhos com força, ainda que tivesse um cuidado claro de não machucá-lo enquanto as afastava da epiderme já ferida. ❝ —– Está tudo bem agora… tudo bem.❞ A garotinha sussurrou com a voz embargada, o fazendo apertar os lábios em uma linha fina. Não queria que ela o tivesse descoberto ali.
Yuuki encolheu o corpo perto do seu, lágrimas já escorrendo pelo rosto que sempre lhe parecia tão alegre. ❝ —– Vou continuar aqui desse jeito, Zero-kun.❞ Com isso, uma das mãos foi até o pescoço dele, cobrindo o machucado que havia feito ali com as unhas, onde o sangue escorria e lhe manchava a camisa, assim como os dedos dela. ❝ —– Se você não consegue esquecer da sensação da mordida daquela mulher vampiro, então vou continuar segurando seu pescoço desse jeito para que possa esquecer...❞
A mão dela era tão morna e macia...
Não é só isso… Yuuki. Não era só isso e imaginou como ela reagiria ao saber que havia tentado atacar Kyou não muitos dias antes. Do que ele havia se tornado.
❝ —– Ok...❞
Zero não conseguia parar de se perguntar por que era ela quem estava chorando. Pensou que, na próxima vez, apenas se certificaria de que ela não o descobriria.
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Ele afastou a lembrança, passando por Yuuki com as madeixas entre os dedos apertados, correndo por todo prédio. E verificou em cada dormitório. E depois na velha construção em pedaços. Também percorreu toda a extensão da floresta ao redor.
Eu não quero perdê-la de novo… Então, por favor, não desista dela… A voz de Momo parecia trazer um peso ainda mais significativo em sua mente.
Em algum momento, Zero retomou a possibilidade da própria Yuuki levá-lo até o Kuran e voltou para a Academia. A morena havia partido não muito tempo antes e, aparentemente, não havia se esforçado para encobrir o próprio rastro, então ele seguiu. Mesmo sabendo que poderia ser uma armadilha, seguiu. Até os limites da Academia, já próximo a cidade quando os encontrou - esperando. Kaname e Yuuki, lado a lado, onde começava o caminho da estrada que os levaria para longe. Em algum lugar entre as árvores atrás, podia sentir outra presença vampírica, embora nenhum rastro de Kyou. Então Zero avançou com passos firmes, os olhos em um vermelho gritante.
Todo o cenário contribuiu para que sacasse Blood Rose, uma ira tão grande ao recordar de quando Shizuka havia aparecido, Ichiru, e então Rido. Tudo o que haviam causado de sofrimento para Kyou apenas pelo sangue que ela havia herdado. De alguma forma, Kaname estava sempre ligado aqueles acontecimentos.
Uma mistura de desespero apertou o peito por, ainda assim, não estar sentindo a essência de Kyou em lugar algum perto, e quando o grisalho encarou o puro-sangue, por algum motivo, a arma se uniu a si através de espinhos que percorreram seus braços e tronco. O momento não o permitiu sentir mais do que apenas a conexão se fortalecendo, tornando-os um só.
❝ —– Poupe suas energias, Kiryuu. Não tenho intenção de lutar contra você.❞ O caçador o encarou, podendo ler o “ainda” que completava a frase no olhar do outro. ❝ —– A pedido da nossa querida Kyou, você terá minha proteção, assim como Momo e Ichiru. Mas não me teste.❞
❝ —– Ela... tomou uma decisão, Zero.❞ A voz baixa da morena completou, sem emoção alguma dessa vez.
Era ridículo, e Zero sequer se deu o trabalho de responder, a arma alternando a mira para Yuuki também. Nesse momento, o Kuran mais velho uniu as sobrancelhas numa expressão irritada e ergueu uma das mãos, fios de sangue surgindo sob seu controle. Quando se moveu em direção ao caçador, fosse através dos instintos ou não, os espinhos se expandiram até que estivessem enroscados na destra estendidas do Puro-sangue, a meio caminho de si. ❝ —– Sei que não a mataria. Mas não posso perdoá-lo por apontar essa arma para Yuuki.❞
Então Kaname avançou novamente, fazendo Zero atirar em resposta e Blood Rose se encarregou de esmagar pele e osso com as raízes enroscadas no pulso do Kuran. O sangue do vampiro escorreu pelo punho e só não atingiu o chão devido a suas habilidades de controle sobre o líquido. Kaname não pareceu nenhum pouco abalado, no entanto.
❝ —– Onii-sama...❞ Yuuki fitava diretamente o pulso destruído do irmão, seus próprios olhos brilhando em escarlate naquele momento.
O vampiro manipulou o sangue para que reconstruísse o membro destruído e segurou um punhado de espinhos que ainda o circundava. Quando os olhos encontraram os do caçador, as palavras saíram como uma ordem, mas não para si ❝ —– Ainda que apenas pelo sangue de Kyou… Bloody Rose, se você conseguiu despertar esse tanto, será que consegue reconhecer minha voz?❞
Zero o olhou confuso quando sentiu um pulsar no pescoço, no punho e onde mais conseguia sentir os espinhos unindo-se à sua pele. ❝ —– Assim como reconhece o gosto do meu sangue. Você poderia, gentilmente, me libertar?❞ Com isso, não pode evitar olhar para o vampiro em choque. De repente, era como se a arma simplesmente não estivesse mais conectada a si. ❝ —– … Há alguém que quero proteger.❞
❝ —– O que… o que você fez?❞ Zero podia senti-la voltando-se contra si, contra sua própria natureza. Bloody Rose esteve consigo desde sempre, nem mesmo o rejeitando quando Zero era um vampiro. Mas, naquele momento… A mão livre seguiu para o punho onde ela estava presa, sugando seu sangue. Mas antes que pudesse agir, Kuran Kaname avançou em sua direção, uma arma de sangue pronta para finalizar com o caçador.
Exceto pelo momento que Yuuki apareceu diante de ambos, as mãos estendidas. ❝ —– … Parem agora!❞
❝ —– …Yuuki! Se afaste. Não posso perdoá-lo por pensar em ameaçar sua vida.❞
❝ —– Ainda assim, nós prometemos onii-sama. Não o Zero. Apenas… apenas vamos.❞ Os olhos se voltaram para Zero mais uma vez, e mesmo que estivesse decidido, baixou o olhar para a morena, que parecia prestes a chorar. Mesmo que a vida do caçador já não lhe servisse àquele ponto, Kaname não arriscaria carregar a mágoa de Yuuki. Não quando ela havia demorado tanto para retornar.
Ajoelhado no chão, sentindo as forças se esvaindo enquanto tentava empunhar Blood Rose novamente, Zero viu ambos se afastarem, a morena parando apenas mais uma vez, por apenas um segundo antes de desaparecer por completo na floresta. Ele não havia deixado de notar as lágrimas que escorriam pelo rosto dela.
Tudo o que Momo tinha lhe contado antes, todas as memórias. Tudo o que haviam passado com os Kurans. As últimas palavras de Yuuki.
Não desista dela…
Zero tentou se levantar, ainda que a energia se esvaísse aos poucos, lançando-se para frente a tempo de ver Seiren surgir como uma mancha entre ele e o caminho. Ela olhou para a mão do grisalho, onde a arma reagia assim como reagiria a qualquer outro vampiro. A uma ameaça. Mas não demorou muito para que fosse jogado para a escuridão novamente.
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Kaien permanecia sério, os dedos cruzados embaixo do queixo e o pensamento distante, enquanto Zero olhava para o jardim de uma das enormes janelas do escritório. Estivera um tempo andando de um lado para o outro, exatamente como Ichiru fazia agora. Mas a inquietude estava impedindo-o de pensar direito e Zero precisava se concentrar em achar uma solução.
O caçador teve de, finalmente, juntar os cacos do próprio caos e organizar todo aquele momento, não só com Kaien mas também com Ichiru. O diretor, de fato, não lembrava de absolutamente nada da ruiva e a julgar pela reação, estava considerando se aquele era um problema que colocaria acima dos problemas da Academia em ruínas. Dos alunos mandados para casa. De tudo o que havia lutado para construir.
Apesar da vontade instintiva de ameaçá-lo, Zero compreendia o dilema de Kaien. Se não existiam memórias, os sentimentos estavam perdidos e confusos. Além disso, claro, havia o acontecido com o presidente da Associação. Antes que pudessem conversar, Kaien havia se reunido com alguns membros e Yagari numa longa discussão. E sabia que ele mesmo havia sido citado, bem como Kyou, após os caçadores analisarem toda a destruição causada no Colégio e arredores, calculando o quanto eles representavam uma ameaça.
O diretor não estava em uma boa situação ele mesmo naquele momento. Foi a presença de Momo para reforçar o desaparecimento de Kyou, Yuuki e Kaname que o havia deixado reflexivo e com aquela expressão por longos minutos. Claramente, nas horas que haviam se passado até então, a mais nova havia entrado num ritmo acelerado de sofrimento. E Zero definitivamente não estava com temperamento para ajudar em absolutamente nada nem com o diretor e, muito menos, para consolar a mais nova.
Então guardava para si os próprios pensamentos que o sufocavam. Quando acordou depois do encontro com os Kurans, Momo estava ao seu lado, em desespero. Ele não sabia como ela havia chegado ali, mas Blood Rose estava jogada um pouco mais afastada de si. O punho se fechou com força, pela raiva, por não conseguir entender, ou pelos sentidos ainda turvos. Por ter perdido todo e qualquer rastro. Parando para pensar, todas as atitudes compulsivas que havia tomado haviam eliminado qualquer chance de chegar até Kyou. Ele não poderia se perdoar por isso.
E carregou essa culpa por muito tempo desde então.
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Era bastante raro que o caçador se permitisse aquele tipo de reflexão. Que deixasse a mente vagar, mesmo que minimamente, sobre memórias que havia enterrado bem fundo na mente. O primeiro passo, depois dos primeiros esforços de todos em minimizar o caos instalado na Associação e no Colégio, com Ichiru e Momo, foi simplesmente retornar ao trabalho. É claro que fizera isso com o objetivo próprio de explorar cada vez mais distante em busca de qualquer pista que denunciasse o paradeiro dos Kurans e, logo, de Kyou.
Passar tanto tempo em caçadas o levou à segunda decisão mais importante desde tudo: Zero se mudou. Consequentemente, não houve solução a não ser levar os gêmeos consigo. Precisava estar mais próximo da cidade, da Associação e também de toda a ajuda que pudesse para Momo — fosse essa ajuda humana ou não.
Ele puxou o capuz da capa preta que lhe cobria boa parte do rosto para observar a fumaça escura que saia dos corpos queimando naquele beco. Embora odiasse o fedor que emanava, havia se mantido por perto para ter certeza de que nenhum curioso que vagasse pela madrugada por aquela parte da cidade, próximo às margens mais distantes do portuário, tentasse se aproximar para verificar o que poderia estar acontecendo. Com um suspiro, e percebendo que até mesmo os farrapos que cobriam os corpos haviam se desintegrado na fogueira improvisada, Zero suspirou devagar.
O caçador virou as costas, novamente puxando o manto preto por cima da cabeça e, conforme se afastou, passou por outras duas figuras que se mantinham imóveis na entrada do beco. Nenhum deles falou nada até que estivessem distante o suficiente e seguros dentro do quarto alugado para aquela ocasião. ❝ —– Vocês podem retornar para a Associação amanhã. Entreguem o relatório da missão.❞ A voz saiu baixa e rouca, talvez por ter passado parte do dia sem dizer uma palavra sequer.
❝ —– Quatro assassinatos de humanos, antes mesmo que você pudesse encontrar os vampiros responsáveis e eliminá-los. Parece que não estamos encontrando os rastros a tempo de impedir os ataques.❞ Os caçadores que o haviam acompanhado sabiam o plano de trás para frente e haviam discutido cada mínimo passo e distintas possibilidades ao longo do dia anterior. Ainda assim, não era a primeira vez que toda a cautela parecia em vão, apesar de ter encontrado os alvos da lista em todas elas, sempre parecia tarde demais. As ordens sempre chegavam tarde demais.
Zero também odiava missões em que não podia seguir sozinho, embora daquela vez… ele sabia que os outros dois haviam sido enviados por Kaien e Yagari para verificar sua situação.
❝ —– O que você fará agora?❞ O primeiro perguntou, fazendo Zero lhe direcionar um olhar cortante. Apesar disso, o segundo pigarreou baixo, se desencostando da parede ao lado da porta e direcionando o olhar uma vez antes de completar a frase dele: ❝ —– Por que não irá voltar conosco? Acho que já passou tempo o suficiente fora.❞. Uma semana inteira. A cabeça baixa do vampiro não permitiu que os dois vissem a expressão contida no olhar de Zero. Ainda não.
❝ —– Há coisas que ainda preciso resolver.❞ Um silêncio se instalou no recinto. E sem mais uma palavra, voltou ao próprio aposento. No fim das contas, o caçador conseguiria se virar sozinho, embora estivesse preocupado com o que pudesse estar ocorrendo enquanto estava tão distante.
Zero também sabia que, tempos atrás, Momo havia ido falar com ele tentando convencê-lo para que os irmãos mais novos pudessem acompanhá-lo e ajudá-lo. Obviamente era impossível dada as condições de ambos, mas ela conseguia ser tão teimosa quanto a irmã. Momo havia piorado consideravelmente e sua saúde parecia cada vez mais fragilizada. E Zero, em todas aquelas missões, tentava encontrar algo, qualquer coisa, que pudesse amenizar aquilo. Por meios legais, ou não. Pensava que se, em algum momento, chegaram a conhecer alguém como Nyx que tentou ajudar Kyou, poderiam existir mais pessoas como ele. Mais pessoas como… Ophelia.
Dias antes, havia tentado conversar com um comerciante, dentre os becos mais rebaixados do mercado local. Sem sucesso, pois a solução que supostamente ajudava pais caçadores do infortúnio de ter gêmeos, eram para encerrar uma vida antes do nascimento. Certamente não servia para a situação de Momo e Ichiru.
Zero ainda permaneceu um bom tempo olhando para as pouca luzes acessas nos cantos afastados do centro da cidade, uma cortina branca de renda esvoaçava com o vento que vinha de fora da pequena janela. A verdade é que havia recebido, mais cedo, uma carta de Kaien perguntando sobre como iam as buscas e a missão. Então, além do relatório usual, Zero descreveu um pequeno relatório sem muitos detalhes para o diretor, que seria enviado junto aos outros dois caçadores.
Em uma cidade a meio dia de distância de onde estava, rumores de ataques em massa circulava e amedrontava a população. Mas esse não era o fato suspeito, e sim a forma como corpos eram deixados em ruas escuras ou prédios abandonados — como se houvessem sido dilacerados por animais. E sem uma gota de sangue. Informações como aquela não eram tão comuns, mas nos últimos meses ainda pareciam ocorrer ocasionalmente, fazendo com que Kaien acreditasse que após o assassinato dos membros do Conselho, àqueles que eram a favor da matança de humanos haviam se rebelado.
Até então não havia identificado nenhum padrão, nos locais, ou nas pessoas escolhidas — coisa que conseguiam verificar através de histórico de desaparecidos. Quando uma quantidade significativa de pessoas desapareciam, era sinal de que algum ataque estava próximo. O que os fazia quebrar a cabeça é que nunca ocorrida no lugar dos desaparecimentos. Zero suspirou, irritado.
Apesar de ser algo que o tirava do sério constantemente, se sentia, de certa forma, aliviado por ter tanto o qual se ocupar. O sumiço de Kyou havia transtornado seu temperamento e influenciado em tudo o que ocorreu depois. Era comum que estivesse em situações como aquela, mesmo na presença dos gêmeos mais novos, Zero não tinha muito o que compartilhar. Havia direcionado sua energia para as atividades da Associação, para o que era preciso, pois sentia que se não mantivesse a mente ocupado, seria puxado para aquele abismo novamente.
Mesmo sem rastros para seguir, Zero ainda tentou alcançar os Kurans. Retornou muito mais que horas depois, sem fôlego e sem forças de tanto correr. Na Academia, descobriu que não apenas uma pessoa, mas todos pareciam sequer saber da existência de Kyou. Não conseguiu informação alguma com quem quer que fosse. E ter apenas aquele rastro, apenas os fios como evidência da essência dela naquele lugar, era desesperador.
Zero passou a ter ataques durante a noite, sentindo minimamente a essência da ruiva próxima, para então descobrir que era apenas os fios que havia mantido por perto. Por isso, jogou as madeixas para queimar na lareira da sala do diretor tempos depois.
Buscar pistas sobre o paradeiro de Kyou fora da cidade, depois de algumas semanas, foi a primeira viagem que fizera. Mesmo com os contatos que havia buscado através de alguns caçadores conhecidos, suas primeiras tentativas não renderam nada. Mesmo quando passou a arriscar mais com as fontes, frequentar bares e casas noturnas sufocantes em busca de pessoas que sussurravam fofocas em troca de algum dinheiro… ainda assim, ou sequer sabiam da existência dos vampiros, ou preferiam morrer a revelar algo sobre àquela família. A única pista inútil é que estavam vivendo em uma mansão. Onde? Não sabia.
Foi durante aquele tempo que ouviu os primeiros sussurros sobre as mortes e massacres. E quando uma coisa se uniu a outra. Então Zero passou a caçar. Principalmente quando a última conversa com Yuuki lhe preenchia a mente. Ninguém poderia dizer que o grisalho sequer estava vivendo na mesma realidade. Ele planejava, investigava e caçava. Sem parar, sem dormir, sem se alimentar.
Se alimentar. O vampiro tinha sede.
Por meses depois, Zero teve pesadelos. Passou a tê-los no primeiro momento que conseguiu dormir, povoados pelos mais diversos cenários - reais ou não. Poderia ser um campo cheio de corpos, dentre eles, o de Kyou. Poderia ser a forma como ela o beijou e o tocou. Ou de como havia tentado atacá-la anos antes. Poderiam ser as memórias que ela havia compartilhado consigo. Poderiam ser memórias de cenas que jamais havia vivido.
Poderia ser a primeira vez que sujou as mãos com sangue humano, após descobrir sobre um homem envolvido com crimes realizados por vampiros, em que ele os ajudava encobrindo passos para não serem descobertos, sequestrando e sumindo com pessoas inocentes. Zero o observou por um tempo para entender seus movimentos e motivações. Apesar de tudo, não era de se surpreender que alguns humanos conseguissem ser tão monstruosos quantos os próprios vampiros — não quando se olhava nos cantos mais afastados da cidade, para onde ninguém prestava atenção durante a noite.
Até o dia em que encurralou o homem na saída de um daqueles bares noturnos, junto com dois outros que montavam sua guarda após uma negociação que rendeu a vida de duas jovens. Na madrugada, no silêncio, no escuro. O vampiro havia, pela primeira vez na existência miserável, mordido alguém até a morte. E o gosto era horrível.
Ele não sabia dizer quais daqueles pesadelos eram os piores. Mas o tempo e as buscas fracassadas pareciam alimentá-los. E haviam se passado meses. Àquele ponto, entretanto, sabia com mais clareza que Kyou estava viva. Ele apenas sentia e sabia. Mas tanto tempo depois e nenhum rastro, nenhuma notícia e o mundo parecia ter seguido normalmente. Mesmo que tivesse parado para ele.
Então, após tudo isso, Zero não tinha nada que pudesse fazer se não focar na solução dos casos que foram surgindo, enquanto buscava soluções para Momo e Ichiru. Levando-o para lugares cada vez mais distantes. Exceto àquela vez, não passava mais que dois ou três dias fora.
Com um suspiro, ele se obrigou a arrastar os pés até a cama, sentando-se após finalmente tirar a longa capa escura, o corpo se encostou nos travesseiros mas Zero não deitou, apenas apoiou a cabeça na cabeceira atrás de si e se permitiu algum descanso. Na manhã seguinte, partiria para a próxima cidade sozinho novamente.
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O vampiro mantinha as mãos no grosso sobretudo, parte da gola cobria o queixo e a boca, ocultando o ar frio que exalava. Na destra, Zero segurava firmemente a caixa que guardava o pequeno frasco de vidro, adquirido recentemente, os olhos fixos à frente em um caminho que conhecia muito bem.
Daquela vez, foi muito difícil tentar ignorar as lembranças do que havia feito, e Zero já havia desistido de lutar contra elas. Momo não precisava saber, Ichiru não precisava saber.
Quando Zero seguiu os rastros do humano que ajudava vampiros com contrabando e máfia da primeira vez, descobriu que se tratava de uma teia muito além do que poderia imaginar. Como sabia que, no momento em que reportasse, havia a possibilidade de Kaien mandá-lo voltar imediatamente, decidiu investigar por si mesmo mais um pouco. Havia encontrado não só alguém que poderia informá-lo de como funcionava todo o sistema, mas que, obviamente, era a pessoa mais invisível de toda a rede de mercado negro.
Ele soube que era arriscado, e antes de fazer qualquer coisa, se livrou dos próprios rastros, para que não fosse pego e denunciasse de onde vinha e para quem trabalhava. Também observou e planejou por dias, até a execução, descobrindo no meio do caminho outro nome que já estava na lista de execução. O que fazia total sentido.
E essa foi a segunda vez que Zero matou humanos, junto com o vampiro por trás. Não havia sido tão fácil quanto a primeira vez, uma vez que o caçador os atacou enquanto estavam juntos — cercados por seguranças. Mas foi também quando descobriu algo muito interessante no sangue do homem. Uma mistura que não poderia ser humana, levando-o a suspeitar de que algum vampiro trocava serviço ou informações por aquele… favor. Não sabia de onde vinha aquele sangue, não havia conseguido ir tão longe para descobrir se se era um ou mais vampiros que estavam envolvidos, mas não houve remorso daquela vez. Ele também levava consigo um pouco do sangue do homem, para que pudessem, de alguma forma, analisar.
Tanto tempo sem se alimentar havia tornado sua volta mais lenta, levando em consideração que havia sido ferido e, por pouco, escapado. Ele chegou nos limites da cidade que, de um lado, dava espaço para a estrada e a floresta que rodeava a Academia Cross, mas seguiu para o lado oposto, na cidade vizinha onde encontrava-se seu apartamento. Não era tão tarde, mas as ruas já estavam, em sua maioria, vazias, fazendo Zero preferir andar ainda mais discretamente pelas vielas menos iluminadas.
Não demorou muito para que escutasse, de longe, passos apressados e um choro infantil abafado. Zero rapidamente pulou para o terraço do prédio mais próximo, aproveitando as sombras para se esconder a tempo de ver um vampiro correndo com uma criança presa aos braços. Ele sacou a arma anti-vampiro e correu, acompanhando silenciosamente o homem, observando o caminho que ele fazia e se adiantando.
Levou apenas alguns segundos para que percorresse algumas quadras, ultrapassando ambos e identificando logo à frente o outro vampiro que os esperava. Quando pulou do terraço onde estava em direção ao vampiro que aguardava, Zero já havia disparado e encostado na parede novamente. Assim que o primeiro que carregava a pequena menina virou no beco onde estava e não viu o companheiro, xingou baixo. Ele ainda deu alguns passos quando parou de súbito, provavelmente sentindo o cheiro de Zero antes que ele se revelasse.
❝ —– Deixe-a ir, e corra.❞ Com o maxilar trincado, viu as narinas do vampiro se dilatarem enquanto ele tentava identificar porque o grisalho tinha cheiro de vampiro e onde estava o outro a quem deveria estar esperando. O vampiro riu, dando um passo para trás enquanto a menina em seus braços se debatia ainda mais. ❝ —– Por que eu a deixaria para você?❞
❝ —– Para não acabar como seu parceiro.❞ Ele respondeu, deixando que a luz precária da lua que iluminava o beco atingisse BloodRose na destra. Novamente, o vampiro xingou baixo, largando a menina no chão e correndo em direção onde Zero ainda permanecia nas sombras. O caçador correu na direção oposta, escalando algumas escadas para cima do prédio atrás de ambos. E o vampiro não viu, mas havia enroscado alguns fios de Thanatos no percurso e bastou que o homem fizesse os mesmos caminhos para acabar em cinzas quando o grisalho os puxou de volta.
Não se deu tempo de esperar e retornou para onde a menina estava, pulando novamente da construção alguns passos de distância dela, que tremeu e encolheu ainda mais o corpo pequeno. Zero ajustou a postura, suspirando baixo quando a viu espiar entre as mãos que cobria o rosto. Ela estava apavorada — e pensar que por muito pouco…
❝ —– Você é incrivelmente corajosa.❞ Falou com a voz branda, sem se aproximar ainda, pois ela estava claramente com medo. ❝ —– Está tudo bem agora, o homem mau que queria te levar foi embora. Não se preocupe.❞ Ele tombou o rosto para o lado, estendendo a mão para ajudá-la, mas vendo ela se encolher ainda mais.
Zero se abaixou, apoiando-se em um joelho e inclinando mais o rosto para tentar encontrar o olhar da pequena. ❝ —– Hey. Sei que posso parecer assustador, mas prometo que não irei te machucar. ❞ Estendeu a mão novamente na direção dela. ❝ —– Vamos, vou te levar de volta para sua avó. Ela está preocupada.❞ À essa menção, finalmente ela se moveu, apoiando-se sozinha na parede para ficar de pé e, só então, estender a mão para o caçador. O corpo era tão pequeno e ela estava tão assustada, que Zero procurou ter todo o cuidado ao pegá-la no colo e voltar calmamente pelas ruas onde ainda conseguia ouvir a mulher aos prantos, exigindo solução de um policial. Assim que virou a esquina onde conseguia vê-los, Zero pôs a pequena no chão. ❝ —– Vá, você está segura agora.❞ Ela se voltou para ele, segurando no tecido do casaco e lhe oferecendo um pequeno sorriso antes de sair correndo. Zero não esperou ser visto e saiu do local o mais rápido possível.
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Zero subiu as escadas do prédio onde morava em direção ao tão esperado descanso. Pensar que um ataque havia acontecido tão ocasionalmente no bairro o havia irritado o suficiente pela noite. Apenas uma criança. E se levasse em consideração todas as pessoas que não havia conseguido salvar a tempo…
No entanto, assim que entrou no corredor, ele suspirou fundo. O dia estava sendo longo demais. Os passos pesados seguiram firmes até que chegasse a metade do caminho para a entrada do apartamento. Ele sentiu uma presença vampírica dentro do cômodo que permanecia em total silêncio, ao tempo que também conseguia sentir os gêmeos lá dentro, embora nenhum cheiro de sangue. Os passos cessaram quando Zero socou a parede ao lado, fazendo pedaços de entulho voar por todos os lados ao passo que sacava e apontava Blood Rose para o alvo do outro lado.
❝ —– D-d-desculpa!❞ Kaien ergueu ambas as mãos em total desespero, olhando-o incrédulo. ❝ —– Não sabia que você ainda não tinha chegado quando vim e, Zero, se você não for mais cuidadoso vai colocar o prédio abaixo. Essa construção é bem antiga e, por isso, seja gentil, sim?❞ Como usualmente, o diretor não parou de falar coisas sem sentido. O caçador abaixou a arma e deu a volta até entrar no apartamento para olhá-lo de frente. Momo já estava parada em frente a porta com o rosto vermelho em fúria e as mãos fechadas em punhos. ❝ —– O que… Por que?!❞
❝ —– Sua aura… é horrível de distinguir porque algumas vezes se parece um pouco com a dos vampiros.❞ Ele uniu as sobrancelhas em direção ao mais velho. Estava aliviado que não era um vampiro mas, mesmo assim, o olhar percorreu rapidamente por Momo para checar se estava tudo bem.
❝ —– Z-zero!❞ Momo foi devagar até onde agora havia uma cratera na parede, podendo ver perfeitamente o corredor do outro lado. A mais nova olhou para trás, na direção onde Ichiru estava parado em frente ao quarto de ambos, não parecendo nenhum pouco abalado ou surpreso. De onde estava, Kaien suspirou alto, fazendo um gesto com a mão e sorrindo para que a mais nova não se importasse com aquele comportamento.
❝ —– O que está fazendo aqui, afinal? Achei que a Associação e mais um tanto de pessoas estavam atrás de você, e que você estava completamente sem saídas.❞ Ele passou pela mais nova, encostando a mão no topo da cabeça dela em cumprimento no meio do caminho. Obviamente a ruiva não amenizou o olhar que o fuzilava, furiosa pela destruição no apartamento. Zero foi até o próprio quarto, se jogando sentado na cama e levando as mãos para apoiar o rosto.
Estava cansado. Estava faminto.
❝ —– Resumindo, minha sentença foi adiada. E pelo que me disseram, parece que será decidida baseado em como as coisas vão terminar. Você sabe Zero...❞ Kaien o olhou de esguelha da entrada do quarto, indo em direção a janela mais próxima e afastando a cortina. ❝ —– … muitas coisas acabaram mudando nesses meses. E muitas ainda irão mudar... Mas❞ Zero sentiu o olhar dele sobre si novamente. ❝ —– Sobre o dormitório… vocês não voltarão a viver lá?❞ Ele sabia que aquilo era preocupação, assim como sabia que, apesar de estar afastado, o diretor preferiria manter os olhos nos gêmeos mais de perto. Principalmente Momo.
❝ —– Sempre que puder, irei à escola durante o dia e, pela noite, irei a missões para caçar vampiros, como a Associação deseja. Em troca disso, ganhei a liberdade de viver aqui. É melhor para nós. Além disso, não quero ficar no dormitório...❞ Zero levantou o rosto, fitando Kaien diretamente. ❝ —– Minha sede…você sabe que isso pode se tornar incontrolável. Por mais especial que… o sangue de Kyou seja, são 8 meses...❞ De alguma forma, não tinha problema em admitir aquilo para o diretor, mas a voz se manteve baixa devido a presença dos gêmeos no cômodo ao lado. Não gostava da ideia de esconder coisas, mas não precisavam adicionar aquilo a lista de preocupações. Além disso… ❝ —– Se eu não passar minhas noites caçando vampiros… ou pistas… não sei o que poderia acabar fazendo...❞ Ele pressionou as têmporas, desviando o olhar para o chão. ❝ —– Por que não posso matá-los quando quiser? Assim não há o bastante para...❞ Ele já sabia a resposta, não era uma pergunta genuína. Mas ainda assim.
❝ —– Zero, as listas de execução existem exatamente para não nos tornamos um bando de assassinos que caçam vampiros ao acaso.❞ Ao acaso. Mesmo depois de tudo o que havia visto, das pessoas que haviam morrido, daquela criança que quase teve o mesmo destino… Como matar vampiros poderia ser algo ao acaso? ❝ —– Na verdade, eu já esperava sua chegada alguns dias atrás, devido ao tempo previsto para a última missão. O que aconteceu?❞
❝ —– Alguns humanos estão agindo em conjunto com vampiros para desaparecer com pessoas. Eu encontrei alguns deles e sabia que estavam trabalhando para alguém mas… não consegui fazê-los dizerem mais nada.❞ Ele passou a mão pelo rosto mais uma vez. ❝ —– A caminho daqui dois outros vampiros haviam tentado sequestrar uma criança humana.❞
❝ —– Kiryuu-kun, não me diga que por não haver matança o bastante para te satisfazer, ou encontrar algo sobre o paradeiro da Kyou que você tanto procura… você foi e...❞ Será que ele não estava ouvindo?
❝ —– Não se preocupe diretor, eu não perdi o controle. Os dois vampiros desta noite já estavam na lista e quanto a missão… preciso que você ouça o report primeiro. As buscas não foram infundadas também.❞ Zero fitou o caçador, sustentando o olhar que era direcionado a si.
❝ —– As buscas... por falar nisso, sei que você utiliza dessas oportunidades para procurar por ela, mas, Kiryuu-kun, até quando pretende ir atrás de becos sem saída?❞ O grisalho odiava quando Kaien utilizava aquele tom de voz com pesar quando entravam naquele assunto em específico. Apesar de nunca insistir para falar sobre, o diretor sempre se mantinha contido. E apesar de não admitir, Zero sabia que, muito provavelmente, ele também entendia que se Kaname não queria ser encontrado...
❝ —– Até encontrá-los.❞ Ele levou a destra até o bolso do sobretudo, tirando de lá uma pequena caixa com as pastilhas para vampiros dentro. Todo o conteúdo foi prontamente despejado na boca do caçador enquanto ouvia Kaien resmungar desculpas, pois estava a tempos sem vê-lo e isso acabava deixando-o preocupado.
❝ —– Desde quando você começou a engolir tabletes de sangue em quantidades como essa?❞ Desde que havia matado o primeiro humano. O vampiro grisalho fechou novamente a caixa e a jogou ao lado. ❝ —– Desde que voltei a sentir sede.❞ Pontuou. Ter Momo e Ichiru por perto também não ajudava, eventualmente.
❝ —– Eu sei que todos vocês estiveram muito ocupados nesses meses que se seguiram a tudo, depois do Conselho ter sido eliminado. Todas as confusões que os vampiros que saíram de controle causaram. Estão causando, na verdade. Mas prefiro que você me conte o que aconteceu amanhã, na Associação.❞ O mais velho suspirou levemente antes de continuar: ❝ —– Por enquanto, Zero-kun, preciso lhe dizer que o Kaname-kun nos contactou.❞ Aquela informação o pegou de surpresa e Zero não escondeu a reação quando fitou o mais velho. O diretor parecia, automaticamente, ter assumido uma postura mais séria quando continuou: ❝ —– Ele quer restabelecer uma ordem com a Associação com propósitos de coexistência. Pelo que parece, ele esteve trabalhando bastante nas sombras para deixar a atual sociedade dos vampiros novamente sob controle. E agora que todos os preparativos foram feitos, ele pediu para falar diretamente com a recém estruturada Associação… como o representante da raça dos vampiros.❞ Não havia como mentir, Zero não poderia ter ficado mais impactado. A cabeça abaixou ao tempo que uniu as mãos apertando os dedos uns nos outros. Zero tentou controlar a respiração.
❝ —– E você realmente… espera que eu acredite nele, apenas com isso? Como os caçadores podem saber que ele não está se preparando para fazer uma declaração de guerra nesse momento?❞
O presidente da Associação pareceu refletir por alguns segundos. ❝ —– Hm. Eu pensei, por um momento, que você diria algo relacionado a matar o Kuran-kun caso ele aparecesse ao ar livre.❞ Zero suspirou, teria rido daquela declaração pois era exatamente algo que ele falaria e faria. No entanto, o Kuran era o único com informações valiosas demais. Ele era quem havia sumido sem rastro algum por oito meses.
❝ —– Não, ainda não. Mesmo agora, mesmo com toda a confusão existente, precisamos que os sanguessugas se comportem. E… se para isso… precisarmos dele vivo, então por enquanto...❞ Ele encarou os próprios dedos, a força que exercia enquanto limpava os pensamentos. De fato, Kaname ainda tinha influência sobre o mundo vampírico, apesar do que havia acontecido e, também, havia Kyou. Zero não sabia o que havia acontecido, onde ela estava. Se estava bem. Se estava presa. Se partiu… por opção.
❝ —– Se você se sente mesmo assim, então… Sua posição será diferente daqui para frente, Kiryuu-kun.❞ Kaien deslizou a ponta dos dedos sobre as rachaduras que se formaram na janela. Ele não tinha dúvidas quanto ao que vinha visualizando para a jornada de Zero. Sabia que ele tinha os próprios interesses naquelas palavras, mas, ainda assim, não havia duvidado um minuto do caçador e do que planejava para ele no futuro. ❝ —– Vim trazer novas ordens para você, da Associação.❞
❝ —– Não sem antes pararmos e jantarmos. Zero-nii mal chegou e você já está trazendo trabalho novamente. Ele não pára mais em casa!❞ Momo reapareceu na entrada do recinto, uma das mãos na cintura enquanto a outra era usada para se apoiar na parede. Aquela era uma visão bem comum de Momo em seus melhores dias.
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Claro que a ordem havia sido fazê-lo participar da reunião. Zero não protestou, nem mesmo uma palavra. Nem mesmo quando Kaien completou dizendo que aquela seria uma introdução oficial à sociedade dos vampiros de que, devido a suas habilidades, ele provavelmente se tornaria o presidente da Associação no futuro.
Com aquilo ainda em mente, Zero foi até o escritório do presidente na Associação, acabando por encontrá-lo conversando com Yagari fervorosamente. A princípio não deu muita atenção e logo apoiou os dois frascos de sangue que havia carregado consigo durante a viagem de volta em cima da mesa em frente a Yagari.
❝ —– O que...❞ O antigo mestre se aproximou dos recipientes, pegando um dos frascos com a mão para analisar o espesso líquido vermelho dentro.
❝ —– Um deles encontrei sob o pertence de um mercador nos confins de uma cidade. Aparentemente um mercado negro, embora tão raro que é tratado como lenda, que está contrabandeando esse sangue sob consentimento de algum vampiro. E o outro, é o sangue de um humano, que também contém sangue de vampiro.❞ Zero então explicou como havia acontecido as capturas, e tudo o que fez para descobrir como aquele comércio estava conectado, acabando, por fim, num beco sem saída quando não conseguiu arrancar mais informações do último homem.
❝ —– Aqui, foi onde ouvi sobre o primeiro caso.❞ Zero apontou no mapa que estendeu sobre a mesa do diretor. Ele seguiu com o dedo para cima até um outro nome, depois outro e outro, indicando mais três cidades. ❝ —– Essas foram as cidades que investiguei depois, até que esses informantes me levaram para essa cidade, Brielle.❞ Zero olhou para Kaien, enfatizando o fato de que, aquela cidade, ficava bem ao centro das outras três que havia indicado. O caminho não formava um triângulo perfeito, mas o acesso dela para as outras era facilitado por estradas pouco utilizadas. Manter um tráfico ativo entre os comércios não parecia tão complicado depois que Zero chegou a toda aquela conclusão. ❝ —– É a maior de todas e, apesar de ser a mais isolada, o submundo do comércio por lá é mais próspero.❞ Ele suspirou, se afastando um passo para analisar o mapa de longe novamente.
❝ —– Isso torna a circulação mais fácil pelo mesmo motivo, embora ainda mais engenhosa e… sigilosa.❞ O diretor completou e ele concordou, suspirando.
Ele se lembrava bem, a fim de conseguir investigar o que acontecia por trás da possível venda ou troca daquele sangue e da trilha de crimes cometidos por humanos com vampiros, Zero precisou ser muito mais cauteloso. Após matar o primeiro mercador, os ventos passaram a carregar a notícia de um lobo branco que, aparentemente, estava se metendo nos negócios. Pelas características, o vampiro não pode arriscar. Então, cortou o cabelo novamente, e acabou tingindo os fios com uma tinta negra que até saiu depois de algumas lavadas. Também havia arranjado uma pasta no seu tom de pele para cobrir a tatuagem evidente no pescoço.
❝ —– Mas ainda me pergunto como essa rede é mantida sem que a Associação saiba. Ou, ainda, o quanto dos esforços de Kaname Kuran estavam direcionados para acabar com isso.❞ Zero refletiu em voz alta. Ele mesmo só descobriu por mero acaso, enquanto buscava informações sobre o paradeiro de Kyou ao mesmo tempo que buscava soluções para Ichiru e Momo. Muito ao acaso.
❝ —– E todas essas ações completamente fora das ordens as quais recebeu inicialmente e, além disso, sem envio de reports.❞ Yagari foi o próximo a se pronunciar, fazendo Zero fitá-lo. Não iria se desculpar por aquilo, não era seguro que enviasse as informações por qualquer meio que fosse. Também não poderia perder tais pistas. Mas, ainda assim, o grisalho acenou para o mestre.
❝ —– Inicialmente, imaginei que… que talvez pudesse descobrir mais a respeito desse sangue. Sei que Momo e Ichiru jamais aprovariam, mas, se o sangue de… Shizuka os manteve vivos e fortes antes, imaginei que o sangue de outro vampiro puro-sangue pudesse fazer o mesmo.❞ Ele admitiu baixo. Parecia algo absurdo agora que ele mesmo externava. Mas eram suas últimas opções. Zero estava esgotado e sem saída.
❝ —– Isso é estúpido, Zero!❞ O caçador declarou com o tom de voz irritado, ao passo que Kaien apenas o observou em silêncio.
❝ —– Exatamente por isso os trouxe para cá, e não fiz nada idiota.❞ Suspirou pesadamente. ❝ —– De qualquer forma, acredito que isso deva ser tratado com cautela durante as negociações. Não sabemos o quanto Kaname está envolvido nisso. O quanto os vampiros… nobres… estão envolvidos nisso.❞
❝ —– Sim. Devemos manter essa informação por enquanto.❞ Kaien levou a canhota a ajustar os óculos no rosto e pigarreou. ❝ —– Zero, sei que você é independente, mas da próxima vez, tente não despistar os caçadores para fazer investigações por conta própria.❞
Após alguns segundos de silêncio, Yagari tamborilou a ponta dos dedos na mesa à frente de onde estava sentado. ❝ —– Bem, falando nas negociações. Sobre o baile, precisamos que mantenha o controle sobre-❞
❝ —– Baile?❞ Zero olhou irritado para ambos. Um baile? Desde quando a reunião havia tomado aquelas proporções? E entre a Associação e os vampiros? ❝ —– O que diabos vocês estão pensando?❞
Kaien audivelmente se sentou na própria cadeira, suspirando pesado em derrota. ❝ —– Não era bem assim que planejei te contar...❞ Ele gesticulou com a mão para uma grossa lista, com capa vermelha logo na mesa ao lado, o qual Zero encarou por um tempo. ❝ —– O propósito para ambos os lados é socializar, reforçando a ideia de que continuaremos trabalhando juntos pela paz.❞
❝ —– Ou ao menos é o que foi oficialmente declarado.❞ Completou Yagari, nenhum pouco mais feliz que o próprio grisalho. ❝ —– Os vampiros que tinham posição de poder na sociedade anterior também participarão dessa reunião. E toda a parte nobre também se fará presente. É uma forma de reforçar as decisões que forem tomadas e um símbolo de poder para a ascensão dos Kurans sobre eles.❞ O caçador mais velho o observou por um tempo, analisando as reações de Zero que se manteve quieto. Toda aquela demonstração de poder parecia ser não somente para a sociedade dos vampiros e ambos sabiam bem disso também.
❝ —– De qualquer forma, essa é a lista dos vampiros que estarão no baile. Grifados, os que estarão na reunião. Memorize todos e cuide da fiscalização disso durante a noite Zero. Espero que possamos contar com você.❞
Zero segurou o bloco de papel, apertando entre os dedos enquanto tentava não fazer o coração acelerar ou as mãos tremerem por imaginar o que encontraria anotado ali. Mas não foi preciso que folheasse sequer uma página, antes que Kaien continuasse. ❝ —– Além disso, Kaname-kun pediu para avisá-lo… que Kyou estará lá também Zero.❞ A testa do diretor estava enrugada, claramente preocupado com o que aquela sentença poderia implicar. Zero permaneceu estático, como se houvesse parado de respirar.
Não sabia o que sentir.
Mesmo oito meses depois, nada pareceu alterar a perda da memória relacionada à Kyou por parte de qualquer um na Academia. Também não conversaram muito sobre isso além das informações que Zero trocou sobre todos os acontecimentos que envolveram a destruição da propriedade naquela época. O grisalho não reuniu forças para compartilhar muito mais coisas que isso e, por esse motivo, tudo o que Kaien e Yagari sabiam é que ele buscava incessantemente por Kyou - sempre que podia. ❝ —– Apesar do que aconteceu, Zero, acredito que você não é do tipo que quebraria as regras da Associação dos caçadores e colocaria toda essa missão em risco por motivo algum.❞
❝ —– Sim. ❞ O tom havia sido mais seco do que esperava. ❝ —– Sim você está certo.❞ E assumindo que as informações haviam acabado por ali, Zero finalmente se retirou. Apesar de tudo, apesar da cabeça cheia, foi até a biblioteca da Associação, até os últimos corredores e últimas mesas, apoiou as mãos em punhos em cima da escrivaninha mais próxima em decadência e respirou. Ele arremessou o livro que estava ao seu lado na parede mais distante, levando as mãos aos cabelos em seguida, apoiando-as na nuca. Era difícil respirar. Era difícil aceitar que, mesmo após tantos esforços sem nenhuma pista sequer, nenhum rastro, eles apareceriam apenas pelo querer de Kuran Kaname.
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Ele respirou fundo mais uma vez, de forma sutil. Havia acabado de chegar aos salões em companhia de todos os caçadores — incluindo Kaito. Zero ainda se sentia confuso sobre a repentina aparição daquele que fora seu companheiro de treinamento durante grande parte da adolescência deles. Havia visto o mais velho nos corredores do Colégio no dia anterior, enquanto caminhava para a sala do diretor que o havia chamado por meio de Wakaba.
Todo o encontro fora extremamente estranho e Kaien havia lhe dado a curta explicação de que ele fora contratado como professor pela insistência de Yagari, no intuito de ajudar com a nova organização do sistema — seja da Academia ou da Associação. Ele não perguntou mais.
De qualquer forma, o antigo parceiro ajudou Zero na certificação de que todos os caçadores que manteriam os turnos estivessem posicionados em seus devidos lugares, inclusive aqueles que estariam ali de forma casual. Também bastou apenas alguns olhares para que identificasse no salão os nobres da lista infernal que havia sido designada para si.
Ele fez rápidas anotações mentais sobre cada um, mas logo se juntou aos outros caçadores de alta hierarquia poucos momentos depois deles utilizarem o tempo para a socialização, unindo-se para o infinito caminho até a sala reservada para a reunião.
É claro que, mesmo após se acomodarem, Kaname demorou mais alguns minutos para chegar, e o caçador, que tinha os olhos fixos na porta sem ao menos piscar, manteve a respiração exatamente controlada quando ele irrompeu, pelas grandes portas duplas do recinto. As mãos estavam cruzadas às costas, enquanto Zero obedientemente estava posicionado de pé ao lado direito de Kaien.
Zero era uma máscara inexpressiva.
Art by len-yan
⤹ ✿ . ⃗. . alone at night .
Não havia nada além da mais pura escuridão, desde que os olhos permanecessem fechados, não seria perturbada por um único som, além da água quente se chocando contra o piso. Era como se todos os sentidos tivessem adormecido; e pela primeira vez se forçou a ignorar absolutamente tudo ao seu redor e se centrou somente em si mesma. O preço pago por tamanho egoísmo foi um palpitar forte em seu peito, quando o corpo se ergueu rápido em resposta às palavras de Zero. Com os olhos arregalados, Kyou se esforçou para recuperar alguma energia e imediatamente levou uma das mãos ao registro, diminuindo a intensidade da água que caia sobre si para ouvi-lo melhor.
( Se eu fosse capaz de mudar o seu passado e tirar toda dor que você sofreu… Eu o faria… )
A destra repousou sobre o próprio peito, os dedos afundando ali com uma força demasiada, enquanto a cabeça tombava para frente, o olhar encontrava o chão. Ele havia notado tantas coisas sobre si mesma que chegava a ser quase arrepiante. Era impossível para si ignorar as palavras de Yuuki, não quando a força que esta exercia era enorme, não quando se tratava de seus sentimentos relacionados a Zero… Não quando ele se desculpava sem possuir culpa alguma. Logo os sentidos se aguçaram e mais uma vez estava atenta a absolutamente tudo… Mas algo a fez cair na escuridão uma vez mais. O aroma mal havia surgido e o corpo se contorceu em dor e não houve outra opção se não voltar a se abraçar como de costume, desesperadamente balançando a cabeça em negação. ❛ Zero… Não… É perigoso, então por favor… Não se aproxime… ❜ E mesmo que a intenção tenha sido a de elevar a voz, a sentença não passou de um mísero sussurro.
Os olhos se fecharam firmemente e ela se encolheu ainda mais e mesmo sem erguer o rosto para encará-lo, visualizou mentalmente cada passo dado pelo mais velho. ❛ Pare… ❜ No momento em que o sentiu diante de si os orbes pulsaram num vermelho profundo em resposta, não sendo mais possível evitar a presença dele. Não havia força que a tornasse capaz de impedir a aproximação que ele criava gradativamente. A respiração descompassou e a ruiva se moveu de acordo com a intenção alheia que se propunha em livrá-la de cada peça de roupa que lhe pesava o corpo. O rosto enrubesceu na mesma proporção do sangue que fluía do pescoço de Zero e mesmo que os atos dele tenham feito lágrimas surgirem em seus olhos, ela não recusou. Ser envolvida pelos braços dele era algo que não esperava sentir tão cedo. Kyou por muitas vezes se questionou se ele tinha alguma noção das reações que causava em si: mesmo sob o toque da pele gélida, ele era o único que a fazia queimar.
( all that i’m living for)
Precisava dar respostas a ele, precisava pensar um pouco melhor sobre tudo, precisava questioná-lo… Necessitava de tantas coisas e embora tenha lutado fervorosamente contra si mesma na tentativa de pender para o lado reacional, se viu derrotada no final. Os lábios se contorciam e a canhota deslizou através do colarinho da camisa branca, apenas para puxá-lo ainda mais; ampliando o espaço que o próprio vampiro havia criado antes de adentrar, expondo a pele alva . A língua deslizou sobre o sangue que escorria lentamente e o corpo estremeceu no instante em que o gosto deste prevaleceu em sua boca. Diferente do habitual, Kyou não fechou os olhos, ela se fixou em cada parte dele, enquanto os lábios se encaminhavam até a ferida, afundando as presas ali com cuidado para não agravar o ferimento. Mesmo quando o corpo necessitado implorava para que o devorasse, mesmo quando cada mísera parte de seu cerne o reivindicava…. Não havia qualquer impulso ou vontade de destruí-lo: mesmo em seu estado mais primitivo, não se sentia capaz de ameaçá-lo.
A Purosangue pousou a destra sobre o ombro do Kiryuu, o forçando para frente, em sua direção. Cuidadosamente, o corpo acompanhou o movimento para continuar absorvendo seu sangue, mas não o pressionou demais devido a preocupação sobre qualquer ferida que ainda pudesse estar ali e que desconhecesse a localidade. Sentiu o líquido fluir para dentro de si, tornando-se mais consciente do fato de que agora não havia quase nenhuma influência no sangue de Zero além do próprio. As lágrimas escorregaram pelas bochechas e Kyou grunhiu baixinho, apoiando ambas as mãos em cada ombro do outro. Sabia da necessidade de alimentar-se adequadamente para repor o indispensável, mas desta vez bastou tão pouco para se sentir saudável; não que isto fosse o bastante, o sangue dele não era algo que bastava, não importava o quanto ingerisse, nunca seria o suficiente.
A Guardiã recuou as presas, mordiscando o lábio inferior para que o próprio sangue se derramasse sobre a ferida, acelerando o processo de cicatrização; ao erguer o rosto, um simples filete resvalou sobre o canto dos lábio e os orbes ainda cintilavam perceptivelmente. O indicador deslizou pela pequena bagunça, até manchar-se de sangue e imediatamente a ruiva o aproximou dos lábios de Zero. Sentir a língua alheia envolver a pequena quantidade sangue que ofereceu foi demais até para si e Kyou abaixou o rosto, abafando um gemido com a mão livre. Mesmo com o constrangimento tentando convencê-la a parar, ela moveu os dedos suavemente para ajudá-lo em sua pequena tarefa; sentia-se estranha por estar tão atraida pelos lábios dele. Provocar aquele tipo de situação era injusto estando tão sensível. Talvez não fosse hora, não queria fugir, queria encontrar as palavras certas, colocar tudo em seu mais perfeito lugar… Mas as palavras nunca foram o forte de ambos e mesmo que estivessem trabalhando em relação a isso… Só se sentia capaz de fazer isso, tocá-lo…
( all that i’m dying for )
Mesmo tendo plena consciência de que não era o caso, parecia haver duas de si, estas em um conflito que dificultava seu reconhecimento como uma só. Era difícil chegar num consenso quando duvidava de si mesma, mas agora, ao vivenciar novamente essa sensação… Se recusava a aceitar sua situação imposta por Yuuki. Se a Kuran havia conseguido convencê-la de que não sentia nada do que acreditava… Bastava buscar por aqueles sentimentos de novo… E de novo… E de novo, até reconhecê-los ❛ Zero… Por favor… Não pare… Não me faça parar… ❜ A destra repousou sobre o lado direito do rosto do mais velho e lentamente Kyou selou ambos os lábios, ajeitando-se sobre o colo dele. Este gesto se encerrou rápido, mas antes que pudessem se pronunciar ou tomar uma nova ação, ela os uniu novamente. Os braços se entrelaçaram ao redor do pescoço de Zero, desfazendo o pouco espaço que ainda os separava. Mais uma vez fora ela quem iniciou o beijo, mais urgentemente que todos os anteriores e não importava quantas vezes se repetisse, ela sempre conseguia colocar algo a mais; como se através disso pudesse transparecer tudo que guardava dentro de si, mesmo que no fim só acabasse tornando ambos uma completa bagunça. Como se reafirmasse o pedido anterior, mesmo quando ambas as respirações se tornaram exageradamente audíveis e descompassadas pela necessidade de ar, ela não o deixou se afastar. Os dedos pressionaram a nuca de Zero, afundando os dedos dentre as madeixas grisalhas, as maçãs do rosto queimavam suficientemente ao ponto de Kyou finalmente se permitir fechar os olhos, entregando-se a ele.
( all that i can’t ignore alone at night )
Apesar de não haver mais o calor humano no toque, Zero notou que a pele alheia possuía um tipo diferente de calor - e ele se descobriu gostando daquilo também. Uma uma sensação certamente diferente da usual, mas nem de longe ruim e isso apenas resultou no vampiro rodeando a cintura de Kyou com os braços. Ele estava satisfeito com o resultado, pois apesar da resistência inicial, ela não se mostrou realmente disposta a rejeitá-lo. O coração palpitava forte quando Kyou o tocou e tudo pareceu decorrer lentamente - uma infelicidade para seu autocontrole. Zero engoliu em seco quando a sentiu provando o sangue, as mãos seguindo novamente para a cintura da menor e a trazendo minimamente mais para perto - era como se precisasse fazer algo além de apenas esperar. Até que finalmente ela o mordeu, fazendo um suspiro pesado lhe escapar pelos lábios e Zero direcionar uma das mãos para o pescoço de Kyou, parando apenas quando os dedos se enroscaram nos fios vermelhos. Era uma sensação dolorosamente extasiante.
Quando sentiu a vampira se afastando e o cheiro do sangue lhe atingindo, rapidamente o olhar encontrou o dela, não dando tempo para reagir antes que as próprias íris tivessem reluzido e correspondido. A mão que permanecia na nuca de Kyou recuou até que estivesse segurando os dedos dela, e o caçador estivesse, quase hipnotizado, provando daquele sangue também. Era apenas tão precioso que não podia deixar que a água o lavasse para longe. Não havia sido aquele o desfecho que ele estava imaginando, na verdade, mas não era como se pudesse prever ou ignorar as ações de Kyou quando ela agia daquela forma.
Apesar da concentração, conseguia ver pelos olhos de Kyou a confusão que a consumia por dentro, e talvez suas ações não estivessem ajudando em nada. Era difícil até para ele entender, mas era como se seus movimentos estivessem sendo executados de forma mais instintiva. Deveria parar? No entanto…
Zero… Por favor… Não pare… Não me faça parar…
Os olhos se arregalaram e o coração vacilou uma batida quando ouviu aquele pedido. Um som baixo lhe escapou pela garganta com um gemido, pois, sim, havia perdido e faria exatamente o que ela pedisse. Definitivamente, não era algo que estava esperando para tudo aquilo e, se alguma entidade divina realmente existisse, Zero rezava que a ruiva não estivesse apenas sob influência quando o beijou. No breve momento que ela separou os lábios Zero a olhou profundamente, apenas naqueles segundos, antes que retornassem ao beijo, fazendo-o lembrar de todas as vezes em que aquilo tinha acontecido. Inicialmente, sua intenção foi confortá-la e lhe tirar a dor que possivelmente queimava no interior, pois acreditava que a encontraria daquela forma depois de tudo o que ocorreu. Ou até pior. Mas, honestamente, não tivera intenção de provocar aquilo, embora naquele momento também não tivesse intenção alguma de pará-la, ou de parar as próprias mãos que voltaram a explorar e lhe sentir a pele da cintura, das costas, dos braços. O que inferno ele poderia fazer? Jamais teria forças para afastá-la. E Zero sabia, pelos deuses, sabia que estava completamente perdido dada as circunstâncias, pois a amava ao ponto de não poder e não querer se afastar.
O corpo do vampiro permanecia tenso, apesar de ter correspondido com intensidade, mesmo que tivesse lutado controlar certa ferocidade que o percorreu. Em algum ponto daquela confusão, as mãos seguiram para a face de Kyou, aos poucos, separando o beijo, mas apenas porque sentia a necessidade de sentir Kyou sob seus lábios e toque. Com os olhos entreabertos, Zero suspirou pesadamente, recuperando um pouco do ar antes de erguer ambos, havia segurado-a pelas coxas para conseguir se levantar, os lábios perigosamente próximos aos dela mas sem avançar. Após soltar Kyou devagar, um braço em torno da cintura para ajudá-la a ficar de pé, não levou mais que um segundo para que passasse um braço por trás dos joelhos enquanto o outro a apoiava nas costas, carregando Kyou para fora do banheiro.
A testa se recostou contra a dela conforme caminhava de volta para o quarto, de repente tomando consciência do estado que estavam. Da face corada e do corpo molhado de Kyou. Não tinha pensado tão claramente sobre aquilo antes mas, ali, percebeu que a desejava. Ah, como Zero a desejava. Entretanto, com tantas dúvidas pendendo entre ambos e todos aqueles sentimentos… aquele era um passo que Zero não tinha certeza se deveria dar. Não daquela forma. Apesar disso, contra os próprios pensamentos, o corpo menor foi colocado sobre a cama, não demorando antes que Zero sentasse e tivesse apoiado os braços em cada lado do corpo de Kyou e se inclinado novamente para lhe alcançar os lábios. Será que em algum momento cansariam daquilo?
A destra alcançou os dedos da ruiva, entrelaçando-os com os seus, apertando e arrastando a mão dela sobre o lençol, agora úmido, até que estivesse um pouco mais acima. Quando pausou o beijo de novo, Zero analisou o rosto dela de um lado ao outro, verificando aquela região para, em seguida, baixar o olhar para fazer o mesmo com o resto do corpo - da maneira que podia devido a proximidade. Precisava verificar se ela estava ferida e não conseguia acreditar em si mesmo por não ter feito aquilo primeiro. Logo, o vampiro aproximou os lábios novamente, mas seguindo com selares pelo queixo, pescoço até o ombro. Quando retornou o mesmo caminho, Zero parou no pescoço onde tinha visto o sangue antes e suspirou. ❝ —– O que Rido fez com você?❞ Os dedos se apertaram sob os dela novamente. Sua voz mantinha uma raiva contida, não queria retomar a tensão mas estava realmente preocupado com o que havia acontecido quando não estava por perto. E todos aqueles vampiros tão próximos dela… independentemente do poder que ela tivesse, as cenas daqueles monstros tão próximos e Kyou desacordada… Ele franziu a testa com a sensação que o percorreu.
Ainda assim, a ponta do nariz roçou no pescoço de Kyou quando ele inalou seu cheiro. Mesmo que ela não tivesse a intenção, tão próximos como estavam, Zero conseguia sentir o rastro daquela presença forte. Da essência vampírica tão perigosamente hipnotizante da ruiva. Dentre as carícias entre o pescoço e atrás da orelha, sentindo os cabelos dela dessa vez, a voz saiu rouca: ❝ —– Eu deveria ter destruído Rido no momento em que ele encostou em você. Em vez disso, fiquei lá parado, o observando tão próximo... Eu deveria tê-lo matado desde o primeiro momento. Me desculpe.❞ Por um momento, ele paralisou, apertando os lábios em uma linha fina. Mas por que sabia que Kyou tentaria negar ou revidar, ele a beijou novamente, um beijo lento e profundo e sensual, que carregava todos os seus sentimentos e desejos. Até que, deliberadamente, Zero deixou que o peitoral encostasse sobre o corpo menor, movendo-se até que tivesse uma das pernas entre as dela. Tinha completa consciência de que, naquele momento, em algum lugar da Academia, os outros estariam tendo que lidar com tudo o que havia acontecido: a destruição, mortes e os alunos da day class. Mas pouco importava para ele, se precisasse ser sincero, apenas Kyou importava.
❛✿∙∙∙໒ inside your memories.
Os olhos piscaram quando a viu se mover, as íris realizando um trabalho minucioso de percorrer o corpo da menor e certificando-se de que estava tudo no lugar, apesar de ter total consciência do sangue dela. O coração ainda pulsava forte devido a adrenalina que o havia atingido segundos antes, e o caçador simplesmente não conseguia ouvir nada ao redor não ser o próprio pulsar pressionando os ouvidos. Talvez não estivesse tão ciente antes mas, no momento em que parou, uma dor passou a consumir como chamas em palha, ganhando força e fazendo-o, por um momento, engolir em seco. Não fora visto de tal forma mesmo quando Rido apareceu pela primeira vez, fazendo Zero sucumbir totalmente aos instintos de forma voluntária pela primeira vez. A diferença podia ser vista na falta de brilho nos olhos, mesmo que ainda estivessem no tom escarlate.
Muito embora Zero soubesse que seu organismo e o sangue estavam trabalhando furiosamente para curá-lo naquele momento, os ferimentos causados pelos vampiros e por Rido pareciam resistir ao cansaço e a sede que o acometeram. Gotas espessas de sangue pingavam do uniforme ao chão, e mesmo que se mantivesse firme, cada respiração profunda fazia o corpo ser pressionado para frente até que inspirasse com força. Sentir o sangue de Kyou, estando no estado em que estava… não era de todo uma situação favorável. Mas nada ali era, na verdade.
Quando Kyou se pronunciou, a respiração parou no meio e o olhar inevitavelmente desviou dela para o chão a frente. Não, não desvie o olhar, você precisa encarar o que fez. A consciência parecia lhe gritar em meio aos estampidos dos batimentos - a voz da ruiva já perdida e distante demais para o alcançar. Ele usou os instintos mais uma vez para buscar a presença de Ophelia pelas proximidades, forçando ao máximo o pouco de controle que ainda possuía sobre as habilidades. Também estava completamente atento a qualquer movimentação, até ao mínimo floco de neve que caísse próximo a Kyou. Zero simplesmente parecia uma estrutura de granada que estava esperando apenas um movimento para explodir. E muito embora desejasse profundamente ir até a menor, tinha medo de que explodisse perto dela.
Ou talvez era apenas culpa que o impedia.
Quando virou o rosto por sobre o ombro, inalando o quanto podia além do sangue, ainda tentando buscar o rastro de Ophelia - e falhando - ele sentiu a mão de Yuuki envolver a sua. Sim, a frieza já podia ser sentida. Antes que ele pudesse fazer menção de se afastar, a morena lhe direcionou algumas palavras e, logo em seguida pode sentir os braços lhe envolvendo. Ele suprimiu a vontade de expelir mais sangue, trincando os dentes. Tão perto de sangue quando seu corpo mais precisava… Mas Zero direcionou o olhar para Kyou novamente, a dor de vê-la daquela forma se sobrepondo a dor física que sentia. ❝ —– Yuuki...❞ Ele sussurrou num pedido. Não precisava daquilo no momento, não podia só ficar parado ali. Tinha que dizer para Kyou que estava acabado, que não poderia devolver… que Ophelia o havia traído. Que talvez ela ainda corresse perigo.
No primeiro traço de transformação de Kyou, Zero supriu o corpo, fazendo com que Yuuki o segurasse mais firmemente, prendendo um soluço no processo por precisar ver o guardião reagindo ao que estava acontecendo. Mais uma vez, o grisalho pode sentir o que se movia em suas veias, respondendo na mesma intensidade. Havia falhado. A mão foi até o braço direito de Yuuki, apertando o local enquanto sentia o abdômen contrair violentamente, o processo de cura, de alguma forma, retardando ainda mais quando o selo no pescoço reagiu e brilhou no pescoço em resposta a toda aquela confusão. ❝ —– K-kyou...❞ os sons que ela emitia o atingiam como pedra, mas Zero não conseguia simplesmente se mover, sendo culpa de Yuuki ou dele mesmo - não poderia dizer no momento. Até que, rápido demais para que ele pudesse se preparar, a essência de Kyou o atingiu tão forte que ele quase cambaleou para trás, não fosse a vampira ainda o segurando com firmeza, utilizando sua força contra os instintos de Zero. Os olhos cintilaram mais uma vez e a garganta ardeu como a muito tempo não acontecia. E pensar que já haviam brincado com aquele poder, provocando em momento mais íntimos… o quanto tudo aquilo havia sido perigoso? Zero utilizou a força que não tinha e o apoio de Yuuki para conseguir se manter - o fazendo lembrar exatamente o que era. Talvez ele tivesse esquecido, por um tempo, que ainda era um monstro, e que ainda era instável, e que poderia descontrolar com algo como aquilo e se tornar incapaz de correr até Kyou para ajudá-la porque… por que não teria forças para resistir.
Quando Zero viu Kyou ceder sob os próprios joelhos, o corpo fez o mesmo, mesmo que a puro-sangue tivesse tentado resistir ❝ —– Zero, não faça isso...❞ Mas não era fácil. Para conseguir não surtar ali mesmo, Zero estava utilizando cada gota de energia que lhe restava. E enquanto isso, podia ver, na expressão da ruiva, que ela estava sentindo tudo o que estava acontecendo. Zero sabia que ela estava percebendo as conexões que havia criado com seu sangue, com o poder que tinha. E ele também sentiu a profundidade daquele poder, de alguma forma. Uma parte de si desejou que ela esbravejasse ali mesmo e não se contivesse em relação a eles - incluindo ele mesmo no processo.
O rosto pendeu para frente um momento, algum sangue escorrendo pelo canto da boca, mas a maior parte já coagulando por entre a pele ou as vestes. Quando ergueu o olhar, pode encontrar os olhos igualmente escarlates de Kyou encontrando os seus. A canhota se ergueu quando Kyou o chamou, mas o olhar acabou baixando para a reação da Kuran ❝ —– Yuuki, deixe-me ir.❞ Ela apenas balançou a cabeça em resposta, respirando fundo antes de olhá-lo ❝ —– Você apenas irá se machucar mais.❞ A voz sussurrada era como um pedido de desculpa, mas queria lhe dizer que, se fosse para ser daquela forma, que fosse. Ele muito provavelmente merecia algum tipo de punição. Mas tudo o que Kyou parecia lhe oferecer era uma aproximação, seus instintos respondendo a vontade de alcançá-la mas, olhar naqueles olhos… novamente a respiração pesou, ele sendo o primeiro a quebrar o contato visual e fitando o chão ao sentir o peito apertar mais uma vez.
A cena de Ophelia despedaçando a joia lhe retomou a mente. As mãos se fecharam em punho e nenhuma reação foi tida exceto a dos braços tremendo em fúria. Zero mal percebeu quando a morena se afastou. O que iria fazer agora? O que iria fazer agora? O que iria fazer… ❝ —– … se acalme❞ A voz de Ichiru o alcançou como uma brisa fresca, apesar de ter reagido levando a destra até agarrar o uniforme dele, lhe direcionando o olhar mas dando de cara com a expressão serena do mais novo. Aquela voz proferia as palavras numa tonalidade que lhe lembrava momentos da infância. A voz gentil de Ichiru. ❝ —– Você… não pode... me s-alvar, I-ichiru❞ A voz ainda falhava, sobrepondo o que o mais novo havia acabado de falar. Tudo aquilo era apenas uma forma de tentar contê-lo, sabia bem, mas a respeito de quê? Agora, de fato, não havia mais nada que pudesse fazer. As próximas palavras Zero absorveu com os olhos fechados, mas respondeu no mesmo tom ❝ —– Ela não precisa explicar termos para ninguém… nós que fomos burros… o suficiente para… entrar no jogo...❞ Não saiba mais a quem pertencia os comandos daquela jogada. Os momentos em que Ophelia havia se reunido com Kuran Kaname antes… Todas as informações não precisas, todos os segredos escondidos, todas as palavras que havia omitido. Qual era o ponto? Zero queria colocar as mãos na outra apenas para lhe perguntar qual era o inferno do ponto em tudo aquilo. Mas a pergunta que se seguiu vinda de Ichiru fez o mais velho o encarar novamente. Ele arfou, baixando a cabeça e livrando o rosto das mãos do gêmeo, que o segurou pelos ombros. O que Ichiru tinha acabado de falar ainda não fazia sentido, mas o fez minimamente tentar recuperar o controle das próprias ações e puxar as rédeas que havia afrouxado para os instintos. ❝ —– Busque em você… sinta.❞ Ichiru completou baixo. Zero o olhou sobre o ombro, buscando Kyou e a vendo sendo amparada por Momo - era o melhor. Naquele momento era o melhor. Não podia chegar tão perto. Mas não fazia sentido o que o mais novo falou com as próprias palavras de Ophelia. Não fazia sentido algum. Mas, no fim das contas, Kyou também estava viva.
Ele inspirou devagar, mas logo em seguida pode ouvir a voz de Kaname, o fazendo fitar o local onde o puro-sangue estava. Zero sentiu que algo não estava certo e finalmente se moveu, na intenção de ir até onde Momo e Kyou estavam. No entanto, os vampiros também se movimentaram, claramente demonstrando que não permitiram que os gêmeos saíssem dali. ❝ —– Você está louco?❞ Os tons se elevaram quando direcionou a pergunta para Kaname, vendo-o não retroceder o escudo. Ichiru parecia claramente desconfortável, mas impediu o mais velho de insistir ❝ —– Espere.❞ O olhar também estava fixo nas duas lá fora, mas ao contrário de Zero, este parecia ter entendido toda a intenção. Ao observar melhor, o caçador notou o comportamento estranho dos vampiros e tudo que veio a seguir apenas conseguiu paraliza-lo. Quando Kyou levou Momo até onde estavam, havia se aproximado dos limites da entrada junto com Ichiru, os olhos atentos em Kyou. Quando o olhar dela correspondeu e ela lhe direcionou as palavras, não pode conter seguir em frente, dando um passo apenas antes de parar com o aviso de Kuran Kaname surgindo ao fundo ❝ —– Se você sair, acabará como eles.❞ O coração parecia ter quebrado em pedaços com aquele sorriso direcionado a si. Engoliu em seco quando Kyou se virou, mas permaneceu exatamente onde estava, pronto para arriscar e intervir quando fosse preciso. Kyou estava usando o poder contido em seu sangue, ele podia sentir isso, mesmo com a barreira que protegia todos ali dentro. Se perguntava se os outros podiam sentir aquilo também. E se era exatamente do destino que todos lá foram tiveram que o puro-sangue os estava protegendo.
Acompanhou, inicialmente, quando Yuuki se aproximou e o puxou de volta para mais adentro, mesmo que continuasse com a atenção em Kyou que passou a se aproximar. Ele facilmente livrou o pulso da morena em determinado momento, o sangue aquecendo e o coração voltando a bater forte ao perceber o destino da ruiva focado em sua direção. Ele copiosamente ignorou todas as vozes ao redor, mas com Kyou cada vez mais próxima, os resquícios de sua essência ainda pairando no ar e, principalmente, entorno de cada passo que dava em sua direção… Zero ainda instável e aquele sangue… de forma completamente involuntária retrocedeu alguns passos. Os pelos do corpo se arrepiaram quando seus sentidos pressentiram um ataque, e Zero mal conseguiu inspirar quando exalou todo o ar ao dar de costas com o concreto. Ele apertou o maxilar com a dor que irradiou dos ferimentos, mas manteve-se imóvel, devolvendo o olhar da ruiva exatamente na mesma intensidade.
Kyou… realmente tinha recuperado o que havia dentro da joia? Como era possível? Mas com a menor tão próxima, Zero podia sentir claramente a diferença em sua totalidade. Ele fechou os olhos por um momento, não respondendo a pergunta e apenas absorvendo a voz, mas voltando a abri-los com o avanço dos toques alheios. Imediatamente os olhos cintilaram e Zero engoliu em seco. Tinha consciência de todos que os observava, do quão íntimo toda a situação estava se tornando, mas para o inferno as consequências. As presas se expuseram com o cheiro forte do sangue, mas Zero as suprimiu quando ele mesmo levou os lábios a encontrar os de Kyou no meio do caminho, as mãos se erguendo para tocar a cintura dela. Sentir o sangue de Kyou sendo absorvido pelo próprio corpo foi instantâneamente perturbador e relaxante. Perturbador pois este passou a acelerar o processo de cura novamente no momento em que fora ingerido. O poder que carregava também fazia os músculos do vampiro tremerem em êxtase. Foi uma surpresa quando ao pensar que a menor se afastaria, sentiu o corpo ser pressionado, os olhos entreabrindo para apreciar a ousadia de Kyou, mas fechando para corresponder ao beijo que se seguiu. Como poderia ter forças para impedi-la? Os dedos se apertaram em torno da cintura conforme avançava o rosto minimamente, no intuito absurdo de aprofundar o ósculo. Precisando ou não de ar, em determinado momento os lábios macios deixaram os seus e Zero imediatamente abriu os olhos para lhe fitar a face… mesmo com tudo aquilo, Kyou ainda conseguia expressar tal reação. Ele queria que ela avançasse com a presa também. Mas antes que pudesse perceber, o indicador estava acariciando a bochecha corada da menor, afastando apenas com as palavras dela novamente. Zero piscou, olhando por sobre o ombro da ruiva, ele mesmo adquirindo certo tom avermelhado com a onda de críticas.
Ele pigarreou, não baixando a guarda sobre a situação mesmo com tudo aquilo, a testa se enrugou e estava prestes a iniciar as perguntas para Kyou quando ouviu o barulho antes de perceber que havia sido um tapa, piscando por um momento sem entender o que tinha acabado de acontecer. Antes que desviasse o olhar o do rosto vermelho da ruiva e do sangue que havia escorrido, as sobrancelhas se uniram e o olhar escureceu, furioso. Zero rapidamente identificou quem havia desferido a agressão mas conseguiu apenas arregalar os olhos ao fitar Yuuki. Não tinha certeza do que pronunciar mas engoliu as palavras quando Yuuki iniciou. ❝ —– Yuuki.❞ Ele chamou no intuito de pará-la mas sendo prontamente ignorado. A pergunta que foi direcionada a si o pegou totalmente despreparado, como se houvesse levado um tapa ele mesmo. Zero só conseguiu acompanhar os movimentos com o olhar, genuinamente perplexo quando ela se aproximou, logo as novas palavras de Yuuki o fazendo abrir os lábios diversas vezes mas sem conseguir sequer responder. Minimamente, a cabeça acenou em negativa em meio ao que ela dizia mas Yuuki não recuou e ele apenas a encarou ao final. De repente tudo havia parado, até o mínimo suspiro de pensamento em sua cabeça - vazio. Uma grande interrogação.
O olhar não acompanhou quando a Kuran se afastou, permanecendo fixo em algum ponto a frente mas, ainda assim, conseguindo ouvir as palavras dela agora direcionadas a Kyou. As palavras de Yuuki se misturavam as palavras de Momo ditas anteriormente a toda aquela confusão, quando compartilhou consigo partes da infância de ambas. O olhar só se voltou para as duas quando Yuuki pronunciou seu nome, Zero encarando os olhos de Kyou mesmo que estes estivessem presos ao que a morena lhe dizia. Naquele aspecto, Zero podia interferir por ela, tirá-la dali, mas o que fez foi apenas esperar pela resposta. Quando esta não veio e o desespero alcançou o olhar da ruiva, ele suspirou baixo, se movendo para próximo mas vendo-a se afastar. Logo Ichiru a estava levando dali e antes de também se retirar, Zero se virou para Yuuki ❝ —– Isso não era necessário.❞ A voz estava neutra, mas não esperou por uma resposta quando lhe deu as costas, a face da morena visivelmente abalada com a reação que lhe dera. Mas um segundo depois Momo passou por si retornando e, mais uma vez, Zero ouviu o impacto, dessa vez suspirando pesadamente mas sem se virar. Apenas quando percebeu a aproximação que rapidamente se virou já direcionando BloodRose na direção do Kuran, parado atrás de Momo.
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Assim que saíram do local, se afastando cada vez mais da construção, Zero livrou o pulso do toque da mais nova, se antecipando em guiar ambos pelo caminho oposto ao qual podia sentir que Ichiru seguia com Kyou. Queria apenas tirar proveito das habilidades para se afastar e ficar sozinho, seus ferimentos agora já o permitiam que conseguisse avançar e andar normalmente. Entretanto, por outro lado, sabia que precisaria da presença de Momo para evitar que os próprios pensamentos o levasse a caminhos que não poderia seguir. O vampiro estava lutando contra as respostas que sua própria consciência tecia para tudo o que se questionava.
Quando já estava farta do silêncio e convencida de que uma palavra não sairia do maior, Momo adiantou os passos e o puxou pelo braço, fazendo ambos pararem. O olhar estava em chamas e a mais nova claramente o questionava, incentivando que dissesse qualquer coisa, mesmo que não obtivesse nem mesmo um som. ❝ —– Você deixou chegar aquele ponto? Tem noção do quão absurdas são as coisas que Yuuki disse? Como ela pode ousar levantar a mão para minha irmã e julgá-la daquela forma? Me impressiona o fato de você se deixar ser tão atingido pelo que ela diz e faz, Zero.❞ Momo expirou exasperada, virando-se e passando a andar de um lado para o outro. ❝ —– Kyou estava quase… estava tão perto de conseguir... Realmente acreditei que tudo terminaria bem e eu estava com tanto medo quando os vampiros se aproximaram com Rido. Para onde estamos indo?❞
❝ —– Eu a amo, Momo.❞ A garota parou de falar imediatamente, engolindo as palavras pela surpresa. Acontece que não foi o fato que surpreendeu a mais nova, não, isso era evidente demais para surpreender qualquer pessoa. Mas o como aquelas palavras haviam sido ditas. Era um tom quase apático. E era como se carregasse apenas o prelúdio de mágoa e culpa. A ruiva deu um pequeno passo para trás, tentando achar e organizar as palavras certas para a pergunta, mas Zero continuou ❝ —– Mas talvez ambos conseguimos enxergar algum sentido no que Yuuki disse. Só conseguimos sentir dor, perda, raiva e mágoa ao longo de todos esses anos… e eu...❞ Mais uma vez o mais velho desviou o olhar para longe, e Momo queria empurrá-lo por fazer aquilo, pois era algo que odiava. Ela sabia que o que vinha depois era sempre uma besteira sem precedentes. ❝ —– eu mal consegui me conter quando… quando pude senti-la hoje… e da primeira vez...❞ O caçador exalou um som que poderia ser uma risada, mas estava longe disso. ❝ —– O que teria acontecido se eu estivesse fora da catedral naquele instante?❞ O questionamento era real, embora sugestivo. E quando Momo acompanhou a linha de raciocínio do mais velho, só pode deixar o queixo cair, perplexa. ❝ —– O que você está querendo dizer?❞ Ela avançou com as mãos firmementes fechadas, parando alguns centímetros de Zero. ❝ —– Kyou jamais...❞ O olhar que ele lhe direcionou mostrava que se mesmo numa realidade muito distante ela fizesse algo como tentar controlá-lo, bem, Zero não parecia se afetar. Aquilo só fez a frustração da menor aumentar. Que bagunça eles tinham feito com os próprios sentimentos a ponto dele pensar tais coisas?
Mas tudo o que haviam descoberto até então sobre linhagem, submissão, poder… Tudo aquilo só mostrava, para Zero, o quão pouco sabiam sobre instintos e controle. Sabia como a mente podia, mesmo contra o que parecia a própria vontade, traçar estratégias para imaginar as mais absurdas situações a fim de satisfazer aqueles… instintos. Já tinha dito para Kyou tomar cuidado com a autossabotagem. Mas, no fim das contas, cá estava. E aquilo não importava para ele, não no sentido de saber o que de fato era. Se Kyou o tivesse usado… se era obsessão… o quão ruim seria dizer que não se importava - embora, no fundo, doesse? Se era para ser sua fonte de energia, se era para ser algo em que ela poderia se apoiar quando precisasse, se era para aplacar a sede que ela sentia… bem, Zero poderia fazer aquilo.
❝ —– Pare agora mesmo!❞ Ele piscou, voltando a focar na menor que não havia se movido. ❝ —– Você não vai tomar decisões ou… ou pensar em qualquer coisa antes de falar com a onee-sama.❞ Mas Zero se afastou alguns passos ❝ —– Isso não é justo.❞ Ela continuou mesmo quando o viu virar as costas e desaparecer em segundos.
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Ele correu de volta na direção do dormitório, mas antes que alcançasse os jardins, desviou para o lado da construção do prédio da direção, seguindo em frente, norte, beirando o lago congelado até estar longe o suficiente para não sentir mais presença ou sangue algum. Quando parou, estava numa colina, observando a extensão do lago abaixo. Queria ter corrido até onde sabia que poderia encontrar a ruiva, mas tudo o que havia acabado de acontecer pareceu estabelecer uma distância incrível entre ambos - embora Zero já soubesse que aquela relação e aqueles sentimentos ainda iriam feri-los.
A destra foi até onde antes estava o ferimento mais grave, sentindo apenas uma leve ondulação que sabia se tratar de uma cicatriz. Havia se curado incrivelmente rápido depois de ingerir o sangue dela, ao menos nas injúrias causadas na pele. Zero respirou fundo. Kyou estava sob uma nova transformação, aparentemente mais completa e instável - era nisso que precisavam focar naquele momento. Apenas nisso. Se tinha precisado aguentar tudo sozinha quando era apenas uma criança, ele não queria que acontecesse o mesmo agora. E se Kyou precisasse usá-lo para não perder o controle, pra descontar toda aquela carga, bem, ele faria aquilo.
Alguns minutos depois, após se deixar envolver pelo silêncio mórbido da floresta congelada atrás de si, alguns metros a frente, também à beira do lago, o vampiro viu um par de olhos cintilarem num púrpura semelhantes aos seus. A pelugem branca do lobo parecia ajudá-lo a se camuflar em meio a tanta neve, mas o pelo em torno do focinho manchado em sangue conseguia denunciar sua posição. O animal parecia olhar diretamente para si e ergueu a cabeça em um movimento enquanto parecia farejar algo no ar. Na verdade, era como se comunicasse com ele apenas com aqueles olhos. Mas, no momento seguinte, acabou piscando e desviando o olhar quando uma borboleta voou em torno de se, uma leve luminescência sendo emitida pelo bater silencioso das asas e ele observou até que ela se desfizesse em minúsculos pontos de luz. O lobo havia sumido.
❝ —– Você vai partir.❞ Não fora uma pergunta, e Zero não desviou o olhar do lago a frente ao sentir Yuuki se aproximando.
❝ —– Sim, eventualmente.❞ Ela manteve uma certa distância ao parar. ❝ —– Zero… eu...❞
❝ —– Jamais faça aquilo novamente.❞ Começou ríspido, mas a voz se suavizou em seguida: ❝ —– Independente do que esteja sentindo, eu posso lidar com o que tiver que lidar sem você tentando me proteger.❞
Yuuki engoliu em seco ao avançar alguns passos. ❝ —– Você precisa encarar a verdade antes que… se machuque. Não posso permitir isso, desculpa.❞
❝ —– E se eu decidir aceitar essa verdade?❞ Ele a olhou de soslaio, enfatizando a palavra e Yuuki correu até si, parando bem a sua frente, centímetros de distância. ❝ —– Você não percebe?❞ As mãos da menor avançaram e quando os dedos da vampira tocaram o uniforme manchado de sangue do grisalho, seus olhos reluziram em escarlate. Ele conhecia aquela reação. ❝ —– Por que você acha que Kyou foi mantida sob vigília por todo aquele tempo na nossa casa? Por que acha que o sangue dela foi silenciado e esse… esse poder selado dentro dela?❞ Era uma pergunta genuína, embora não tivesse demonstrado que iria responder, fazendo a morena continuar ❝ —– Porque ela é instável e perigosa. Sempre foi, a linhagem dela sempre precisou ser contida para manter o equilíbrio.❞ Ela suspirou exasperada. Não conseguia entender o motivo de não conseguir uma reação por parte dele. ❝ —– O que você quer de mim, Yuuki?❞ A pergunta foi tão direta que a morena recuou, as mãos o soltando para se entrelaçarem em frente ao próprio peito.
❝ —– V-ocê é importante para mim.❞
❝ —– Para continuar sendo uma peça em qualquer que seja o jog-❞
❝ —– NÃO!❞ Ela o cortou, o rosto vermelho de indignação. Se perguntava como ele poderia pensar algo assim.
Mas apesar de estar em pedaços, apesar das recém cicatrizes e apesar de ainda estar lutando internamente com os próprios pensamentos, Zero sorriu de lado. Longe de ser um sorriso carinhoso ou compreensível, era apenas condescendente - a fazendo apertar os lábios em uma linha fina. Não iria conseguir convencer Zero de nada. ❝ —– Mesmo em situações como essa...❞ As cenas lhe retornavam a mente, o fazendo parecer distante. ❝ —– Kyou sempre insiste em ornar um sorriso no rosto… e aquele sorriso nunca a deixou, mesmo quando eu agi de formas imperdoáveis.❞ Mesmo não estando bem, ela sempre lhe oferecia... ❝ —– Eu não me arrependeria em dar minha vida pela dela.❞ Suspirou. Era isso. ❝ —– É o que eu penso.❞
❝ —– … entendo.❞ Yuuki respondeu mesmo não podendo realmente entender aquele sentimento, mas sabia que tinha perdido. Passaram algum momento em silêncio, ouvindo o assobio do vento tocando a água congelada e forçando os galhos secos das árvores na floresta. Yuuki respirou fundo mais uma vez antes de continuar ❝ —– Zero… você sucumbiu ao se tornar um vampiro. E você me pediu para que eu mesma te matasse caso acontecesse. Você lembra?❞ Ele acenou em concordância, não poderia esquecer. ❝ —– Sei que o fez pois assumiu que somente eu poderia fazer tal coisa. Mas e quanto a mim?❞ Ela finalmente conseguiu lhe capturar a atenção total. ❝ —– Eu realmente queria ser útil antes disso tudo, queria te ajudar mesmo que a única forma fosse te oferecendo meu sangue. Mas eu também me tornei isso. E se eu disser que, apesar de tudo, o sangue do Zero para mim é…❞ A garota ficou vermelha quando engoliu as palavras. Os olhos cintilaram mais uma vez em sua direção e o vento se encarregou de lhe trazer o cheiro do sangue de Yuuki. Ainda era sangue, e Zero ainda era um vampiro. Mas era diferente agora.
Ele se virou para a frente novamente. ❝ —– Eu sempre a observei enquanto você seguia ou admirava Kuran Kaname, por todo esse tempo.❞ O olhar de Yuuki se arregalou, confusa com a menção súbita. ❝ —– Isso sempre me incomodou, de alguma forma.❞ O vampiro não sabia o motivo de estar compartilhando tudo aquilo com a puro-sangue ali. Mas a verdade é que ainda estava irritado pelo que Yuuki havia causado a Kyou momentos antes também. ❝ —– Você não vai querer tomar meu sangue agora, Yuuki.❞ A olhou. Podia sentir o sangue da ruiva correndo por suas veias e sobrepondo o próprio sangue fraco no processo, mesmo que houvesse sido pouco. Podia sentir aquele sangue apagando qualquer outro rastro, curando e reivindicando - territorialista. E Zero estava bem com aquilo, mas certamente Yuuki não sentiria o mesmo. A menor mordeu o próprio lábio, desviando o olhar e ele sabia que a conversa havia se encerrado ali. Alguns passos foram dados pelo maior na direção da garota, mas Zero parou e, sem dizer mais nenhuma palavra, saiu de lá.
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Não se demorou muito ao retornar para o dormitório, seguindo para os próprios aposentos e se livrando do uniforme cheio de sangue seco - seu e de tantos outros. Zero se permitiu um banho demorado o suficiente para que sentisse que havia se livrado de todo aquele líquido vermelho, o observando escorrer pelo chão até sumir. A água quente também pareceu servir para permiti-lo respirar e amenizar as tensões pelo corpo resetado. Agora que havia finalmente parado, podia sentir os músculos arderem e as articulações voltando ao normal.
Momo e Ichiru estavam com Kyou. E talvez fosse melhor para ela tomar aquele tempo de todos - incluindo ele mesmo. As mãos percorreram o rosto quando pressionou os olhos. Não conseguia parar de pensar nas palavras de Ophelia para si e, agora que conseguia pensar, nas palavras seguintes de Ichiru a respeito daquilo. Se questionava como havia confiado tão facilmente em Ophelia por todo aquele tempo. Entretanto, a verdade é que aquelas ações não faziam sentido algum, não depois dela tanto ter ajudado Kyou. Qual foi a intenção de Ophelia ao se aproximar deles? O caçador finalizou o banho, vestiu um uniforme limpo, só então conseguindo ver, pelo espelho, as cicatrizes adquiridas no abdômen e nos ombros, resultado de Rido e Ophelia. Após isso, reunindo novamente a coragem que precisava, seguiu para onde sabia que encontraria Kyou.
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Zero entrou no quarto com passos silenciosos. Momo estava lá, ao lado da porta fechada do banheiro privativo daquele dormitório. Ichiru andava de uma ponta a outra do cômodo, e aparentava estar naquele ritmo a algum tempo. Ele suspirou, capturando a atenção dos gêmeos mais novos e viu quando Momo pareceu ceder os ombros, o olhar preocupado. O irmão veio até si, pousando a destra no ombro do mais velho e dando um aceno curto antes de se retirar. Momo o seguiu, mas Zero conseguiu ler no olhar que ela direcionou que a menor estava preocupada com o que ele pretendia dizer, seja o que fosse. Não deu sinal de responder e quando ouviu a porta do quarto se fechar e os passos se afastarem o suficiente, ele colocou as mãos no bolso da calça, se aproximando da outra porta.
❝ —– Não posso imaginar tudo o que você deve ter sentido, quando aguentou o peso… a responsabilidade de toda uma geração. Sem ter quem a guiasse pelo caminho. Se eu fosse capaz de mudar o seu passado e tirar toda dor que você sofreu… Eu o faria…❞ O olhar de Zero desviou por um momento para a janela, um vento frio entrava. Não trazia o cheiro dos jardins como em outras estações. ❝ —– Kyou. O que Yuuki disse… não precisa pensar nisso agora. Temos outras coisas para lidar e…❞ Despendeu de uma grande força para manter a voz firme, embora o peito tivesse apertado. Mas Zero havia decidido, nem de longe aqueles sentimentos seriam prioridade com tanto para lidar naquele momento. ❝ —– Não vou me importar se for verdade. Você pode dividir esse peso comigo. Não precisa se conter pois eu vou aguentar por você.❞ Ele encostou a testa na porta fechada, ouvindo o barulho de água corrente do outro lado. ❝ —– A joia… suas memórias…❞ Naquele ponto a voz falhou. Tinha receio de perguntar e tinha mais receio ainda de dizer qual fora o destino do objeto. Será que ela sabia o que Ophelia tinha feito? ❝ —– Me desculpe, Kyou.❞
Ele permaneceu imóvel por alguns segundos, talvez permitindo algum tempo para que a ruiva absorvesse o que havia dito. Mas, um momento depois, Zero ajustou as mangas do uniforme, dobrando-as até acima dos cotovelos. A destra foi até o colarinho, abrindo os primeiros botões e afastando o tecido um pouco. Os dedos seguiram para o pescoço e, com as unhas, provocou um ferimento profundo ali, instantaneamente o sangue escorreu do pescoço para a frente do uniforme, manchando a camisa branca recém trocada. As mãos foram até a maçaneta da porta e Zero finalmente entrou, os passos lentos enquanto se aproximava de onde Kyou estava. No momento em que os olhos pousaram na ruiva, o olhar do vampiro escureceu de forma evidente e Zero o desviou para baixo ao eliminar o espaço entre eles.
Ainda sem uma palavra, quando estava próximo o suficiente, fixou no rosto dela. O grisalho entrou no box, se abaixando até estar a altura de Kyou e, por fim, sentar-se defronte a ela, a puxando - com calma - para mais perto de si. Cada movimento que tomava deixava claro que não estaria negociando. No fundo, talvez Zero fosse quem mais precisava que Kyou fizesse aquilo, e ele tinha completa consciência do quão perigoso poderia ser uma vez que a ruiva ainda estava instável.
Mas ele não tinha medo, de forma alguma. Zero abraçaria o caos e qualquer reação, qualquer destino que a ruiva lhe impusesse naquele momento. Talvez por amá-la até aquele ponto, talvez para calar a besta dentro de si que insistia em querer satisfazer aquele sangue com o próprio, ou para aplacar o desejo ardente na pele em sentir Kyou. Não importava, na verdade. Os olhos se mantiveram em Kyou conforme ele inclinava o rosto para o lado, as mãos silenciosamente fazendo o trabalho de livrá-la do uniforme molhado, mesmo sabendo que não possuía calor no próprio corpo para transmitir. A última coisa que viu, antes de fechar os olhos e se deixar levar pelo torpor que vinha a seguir, foram as lágrimas, as mãos da menor lhe agarrando a camisa e as presas surgindo para reivindicar o que ela dela.
All this despair... And all this desire... I love you so dangerously
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❛✿∙∙∙໒ inside your memories.
Era inútil a tentativa de tentar controlar a respiração ou os batimentos acelerados - por isso sequer havia tentado. Zero podia sentir o interior vibrar com o peso das palavras proferidas mas, eram tantas coisas, tantos acontecimentos que pareciam uma vida inteira. E por que precisavam carregar toda aquela carga? Ele sabia o motivo de não ter conseguido sustentar o olhar da menor, sabia o motivo dela evitar seu olhar e, por mais que se sentisse culpado por ter jogado todas aquelas palavras para ela, não era como se conseguisse controlar por mais tempo. Eles não tinham tempo. O caçador engoliu o bolo na garganta quando ouviu o pedido de Kyou, só então lembrando-se de respirar.
O toque também fora um movimento que o permitiu manter-se na realidade - embora a respiração não desse sinais de que voltaria ao estado considerado normal. Zero engoliu em seco, fechando os olhos por um breve momento, sentindo o calor emanando das mãos e do rosto da ruiva, próximos a si. Não entendia porquê o corpo de Kyou ainda lhe transmitia aquele calor, afinal, ela era uma vampira, uma puro-sangue. Mas, quando as orbes se mostraram visíveis mais uma vez, uma ansiedade parecia crescer. Podia ouvir o próprio coração dentro do peito como se estivesse lutando contra os ossos. Amor? O que ele havia acabado de admitir poderia ser tão surpreendente para ela quanto estava sendo para si. Zero a amava. Amava Kyou com toda a força e com cada partícula de seu ser, mas...
O que ela faria com suas palavras? Não poderia corresponder. Não poderia.
Só conseguiu observar a menor próxima, parecendo absorver tudo em seu próprio tempo, ao passo que o mantinha tão perto. Mesmo que tivesse convencido a si mesmo que não esperaria uma resposta, seria eufemismo dizer que não estava implorando por dentro para ouvir qualquer coisa que fosse por parte da ruiva. Precisava daquilo, nem que fosse para dizer o quanto era loucura buscar tais sentimentos que só pareciam lhes trazer tragédias. Mas Zero minimamente devaneou que, de alguma forma, também pudesse lhes trazer alguma força.
Mas a menor era tão inclinada a tomar seus fantasmas para si, que tinha receio de que qualquer reação a fizesse ter atitudes as quais ela não quisesse verdadeiramente. Apenas para, mais uma vez, deixar seus próprios fantasmas de lado em prol de outrem. Por hora, tê-la reivindicando sua aproximação, mesmo que minimamente, já era um grande feito para reunir os pedaços de si que haviam se fragmentado. O caçador deslizou as mãos pela extensão dos braços de Kyou até que estivesse segurando seus pulsos e o rosto se afastou alguns centímetros quando esta voltou a falar. Naquele momento, o vampiro não deixou transparecer qualquer sentimento que pudesse estar lhe perturbando, apenas se concentrado no que ela iria lhe dizer…
Até que tudo pareceu se dissipar e antes que pudesse perceber já não a tinha em seus braços. Foi como qualquer possibilidade tivesse virado fumaça e escapado por entre seus dedos. Zero piscou, mal ouvindo a voz de Yuuki e apenas quebrando o momento quando sentiu o impacto de seus corpos atingindo o chão. Rapidamente seu olhar foi até a morena, acima de si, que estava em prantos dolorosos. A primeira coisa que o atingira foi a essência de Yuuki, tão forte e tão… modificada. Era ela, e não era ao mesmo tempo. A crescente mágoa que o havia tomado no momento de sua transição, retornou. Zero se sentia enganado, completamente cego e cercado por tantas mentiras e omissões. No entanto, não durou mais que alguns segundos ao observar a atual situação da guardiã. ❝ —– Yuuki...❞ Sussurrou entre as palavras dela, tentando fazê-la escutar. A verdade é que não estava, ele mesmo, em condições de amparar a outra naquele momento.
Zero tentou buscar Kyou com o olhar mas outras duas silhuetas se fizeram presentes no recinto. Ichiru sendo o primeiro a vir até ambos imediatamente, fazendo Zero suspirar baixo em alívio. Enquanto o gêmeo mais novo tentava confortá-la e Zero tentava, minimamente, ajustar a posição de ambos, o olhar desviava, por vezes, para Kyou. Até que, com um suspiro e certo pesar, Zero deixou que o olhar recaísse para Yuuki, se atentando a segurar em seus ombros para que, pelo menos, conseguissem sentar, mesmo que não tivesse conseguido livrar os braços da outra que permaneciam apertados em torno de si, se recusando a soltá-lo.
Era exatamente como havia sentido, era exatamente como havia pensado momentos antes. E se… e se nunca tivesse sido para ser? E se, de fato, houvesse forças maiores que controlassem o destino de todos mesmo contra a vontade e tentativas inúteis que ele e Kyou tinham em manter-se por perto. Não precisava de uma resposta verbalizada. Algo por dentro lhe apertou o peito enquanto uma sensação de derrota lhe acometia. A expressão devia ter denunciado, pois onda de pedidos de desculpa de Yuuki retornou, impossibilitando o grisalho de escutar a conversa entre as irmãs agora mais afastadas dos três no chão. Sinceramente, em algum lugar dentro de si, uma revolta borbulhava disparando diversas acusações e questionamentos para a Kuran. Kuran.
Dentre todas as possibilidades, Yuuki ser irmã de Kaname, era simplesmente devastador. Não bastasse o interesse que a morena sempre demonstrou em relação ao outro, ainda tinha essa conexão. Lembrava-se bem do momento em que pediu a Yuuki que ela mesmo o matasse caso ele decaísse para um Level E. Naquela época, quando eram muito jovens, Zero tinha decidido se manter afastado de Kyou e com a lembrança ainda muito vívida de quando quase a mordera… pareceu ser a melhor coisa a se fazer. Pouco tempo depois o selo também fora uma solução paliativa. Mas parando para pensar agora, a situação pareceu ocorrer inversamente. Ela havia se tornado… não, Yuuki era, de fato, um deles.
Mas, com um suspiro, Zero percebeu que não podia ser tão hipócrita. Ele sentia mais raiva da situação como um todo do que dela especificamente. Por mais que tentasse buscar um culpado para tudo aquilo, Zero, nem de longe, odiava Yuuki. Assim como não poderia odiar Kyou. Por todo aquele tempo apenas quis protegê-las.
Com algum esforço, haviam se sentado e, logo após, Zero levantou, ajudando a menor no processo. ❝ —– Você não pode me odiar agora…❞ As mãos da morena, agora com os cabelos longos, se uniram em frente ao peito enquanto ela recuava um passo na intenção de olhá-lo. ❝ —– Eu não poderia te odiar… já te disse isso.❞ E embora as palavras fossem dolorosamente verdadeiras e direcionadas a Yuuki, o olhar vagou até a porta por onde Kyou havia saído. Mesmo que ainda estivesse cheio de ódio e vingança dentro de si, Zero sabia que era devido a Kyou, e mesmo Yuuki, que ainda podia continuar vivendo - essa era a verdade. Yuuki arregalou os olhos minimamente ao perceber a reação do grisalho, sabendo exatamente para onde o rumo dos pensamentos alheios tinham seguido.
Agora que podia lembrar-se perfeitamente do passado, Yuuki sentia que ainda tinha sentimentos de forte consideração pela ruiva, mas também sabia que a história de ambas haviam sido marcadas por alguns acontecimentos angustiantes. E, de qualquer forma, simplesmente não podia perder Zero naquele momento. Kyou teria de perdoá-la dessa vez. Além disso, embora não fosse segredo para ninguém a ligação que o caçador tinha com a outra guardiã, sabia que o que ele tinha consigo fazia parte de uma fidelidade que ambos escolheram ter, muito tempo atrás. Foi um relacionamento construído. O destino podia mesmo ter tecido uma história para Zero e Kyou, mas a morena sabia que ficar ao lado de Zero fora uma escolha dela… assim como fora uma escolha dele. Para o próprio bem, precisava ser egoísta a esse ponto.
Zero observou Yuuki tomar fôlego antes de começar a compartilhar consigo inúmeras memórias que havia conseguido recuperar, e tudo o que havia a levado até aquele momento. A angústia na voz dela era quase palpável no ambiente - embora parecesse comover apenas ele mesmo. Ichiru havia se afastado até estar próximo a sacada, os braços cruzados e a expressão evidenciando uma crescente impaciência, enquanto Momo não parecia tão diferente, exceto que havia se recostado na parede ao lado da porta. Em determinado momento do monólogo, quando havia chegado ao momento do encontro de ambos pela primeira vez, Yuuki foi até onde estava BloodRose, no intuito de pegar a arma. Mas como um objeto anti-vampiro, BloodRose reagiu a aproximação da vampira, fazendo-a recuar a mão minimamente e sorrir sem muita emoção. Yuuki tirou o lenço vermelho que adornava o uniforme e, utilizando o pedaço de pano, pegou a arma e depositou novamente na mão do caçador. ❝ —– Posso entender um pouco seu sentimento. Tanto eu, quanto a Kyou-chan… nos tornamos aquilo que você vem alimentando ódio por muitos anos. Não. Nós somos isso.❞ A outra mão da menor seguiu até a marca no pescoço de Zero, fazendo o vampiro imediatamente sentir o selo vibrando do pescoço para todo o corpo. ❝ —– Você é, provavelmente, a pessoa mais afetada, uma vez que ficou no meio de tudo isso. Sinto muito, Zero.❞ A menor lembrou-se das palavras utilizadas por Kaname antes. Todos foram utilizados como peões naquele jogo, principalmente ele. ❝ —– De fato, a Yuuki que você conhece não existe mais. Nem a Kyou.❞ Foi inevitável não recuar. Passos propositalmente fortes foram ouvidos quando Momo se moveu de onde estava para alcançar Thanatos ainda não chão. ❝ —– Não fale pela minha irmã, princesa. Tenho certeza de que ela pode se explicar por si mesma. E que o Zero-nii pode tirar suas próprias conclusões depois de ouví-la.❞ O olhar da mais nova voou até o caçador, como se o lembrasse desse fato.
❝ —– Está muito silencioso.❞ Surpreendentemente, a voz branda de Ichiru foi ouvida, embora ele encarasse o lado de fora do prédio, como se analisasse algo. Zero sentiu novamente uma sensação incômoda percorrendo seu sangue - como se estivesse reagindo. Com muita dificuldade, o caçador virou-se para Yuuki e suspirou antes de perguntar: ❝ —– Onde está Kaname?❞ Seus olhos se estreitaram conforme a impaciência se elevou em alguns níveis por ter deixado Kyou sair sozinha pelo colégio quando sabiam do perigo que se espreitava. ❝ —– E-eu acordei e… estava com Aidou-senpai no dormitório da lua. Acabei correndo até chegar aqui.❞ Não foi exatamente uma resposta direta, mas o grisalho havia entendido. ❝ —– Ichiru tem razão, está tudo muito quieto. Além disso, consigo sentir uma mudança… em meu sangue…❞ Embora não conseguisse dizer se estava ligado a Kyou, ou... ❝ —– Rido ainda está por perto❞ Continuou entredentes, ❝ —– E é melhor que você fique aqui, sob a segurança de Ichiru e… Hanabusa Aido, que logo chegará.❞ Yuuki estava pronta para rebater, e ele sabia exatamente como ela usaria o fato de ainda ser guardiã como um pretexto de sua responsabilidade para proteger. A mão na menor foi até Artemis presa em sua perna esquerda, logo abaixo da saia do uniforme, mas a arma reagiu exatamente como BloodRose e acabou caindo e rolando pelo chão para algum canto do quarto, deixando a vampira em choque.
Yuuki não disse mais nada, abaixando a cabeça e engolindo a frustração. Simplesmente não podia ser a única a não fazer nada. Desde o momento que havia despertado tudo o que ouvia era que tinha de descansar. Ainda está instável e precisa dormir, disse Kaname. Mas haviam pessoas as quais ela também queria proteger na Academia. ❝ —– Eu...❞
Momo bufou de onde estava e gesticulou com a mão ❝ —– Você agora pode… fazer suas coisas de… princesa. Seja lá o que for.❞ Concluiu, não se preocupando em ser simpática ao interferir. As mãos da morena se fecharam em punhos ao lado do corpo, mas o olhar da ruiva se direcionou a Ichiru por um segundo, antes de se desencostar da parede, entendendo que deveria seguir junto de Zero. O que era melhor, de qualquer forma, pois estava a beira de utilizar métodos menos pacíficos para fazer a Kuran se aquietar de uma vez por todas. Tudo aquilo era uma grande perda de tempo para ela e sabia que Ichiru concordava consigo, embora não dissesse nada. O olhar da morena ficou sério na direção de Momo, como se mudasse de semblante rapidamente, e então Zero suspirou. ❝ —– Conversaremos em outro momento.❞ Finalizou a conversa, não podiam se estender ali naquele momento.
Antes que pudesse sair, Yuuki lhe segurou a mão mais uma vez, ela não precisava dizer em palavras para que ele entendesse o aviso de cuidado que lhe transmitiu pelo olhar. Mas o caçador logo se apressou em sair do quarto e, assim que chegaram ao corredor, teve de se conter para não abusar da velocidade e ser acompanhado por Momo - embora esta avançasse rápido para uma humana comum. E ele sabia o motivo. O olhar da mais nova por vezes desviava para e si e não demorou muito - apenas o tempo de virarem um corredor - para que ela adiantasse, o ultrapassando e parando na frente. O olhar da menor estava em chamas e, sem desviar a atenção, pegou a mão de Zero rápido, depositando Thanatos ali com certa força. ❝ —– Não se distraia!❞ E então voltou a andar. Apesar da atitude, Momo nunca o havia tratado com falta de respeito, nem elevado o tom de voz para si como já havia feito até mesmo com Kyou, em frustração. O vampiro imaginava se isso era por conta de Ichiru ou por outro motivo. Silenciosamente ele acompanhou, enquanto ajustava a arma na extensão do pulso até quase próximo ao cotovelo, longe das vistas de alguém.
Quando chegaram a uma das saídas laterais do prédio, mais uma vez Momo se antecipou, fazendo ambos pararem quando ficou de frente para o Kiryuu mais velho. ❝ —– Há algo que quero dizer.❞ Ela tinha pensado em o alertar antes de tudo isso, mas considerando o tempo e a forma como as coisas seguiam, sabia que tinha de ir direto ao ponto. Precisava que ele soubesse tudo que sabia, para ajudar em decisões futuras, pois sabia o quão importante era. A ruiva respirou fundo e trincou os dentes, apertando as mãos em punhos ao lado do corpo. ❝ —– Já é do seu conhecimento… A origem dos vampiros e a constante guerra com os humanos desde o início dos tempos… A hierarquia que se criou e a soberania dos Kurans desde então,❞ A garota o olhou nos olhos, pois Zero precisava prestar atenção em cada palavra dita. ❝ —– mas Zero… Você já se perguntou o motivo dos humanos não serem capazes de lidar com a transformação por conta própria quando transformados por um Puro-sangue?❞ O caçador ergueu as sobrancelhas pois, não, nunca havia se questionado sobre aquele fato. Ela suspirou ao continuar ❝ —– ...o estado de Level E é o estado mais primitivo de um vampiro e embora isso tenha mudado com o passar dos anos, a real essência de um vampiro ainda é muito ligada a sua bestialidade. É tudo uma questão de evolução, Zero. A linhagem Sakurauchi caiu no esquecimento mesmo sendo tão ancestral e monárquica quanto os Kurans… Porque nós servimos a eles.❞
❝ —– Quando o mundo era muito mais hostil do que o que conhecemos hoje, os Kurans surgiram como o equilíbrio perfeito; não havia nada que a racionalidade e elegância que eles carregam não pudessem afetar ou modificar…❞ As mãos da menor se uniram e ela baixou o olhar por um momento ❝ —– Exceto a nossa família.❞ Mas bastou um momento para que Momo erguesse a cabeça novamente, o tom de voz recuperado. ❝ —– Nós éramos orgulhosos, fortes e indomáveis e prejudicamos a balança que estavam tentando estabelecer, pois sempre havia aqueles atrás do nosso poder… do nosso sangue. Para impedir a extinção dos humanos através das guerras que se sucediam, nossa ancestral tirou a vida de todos os Sakurauchi…❞ E ela respirou fundo novamente para continuar ❝ —– Mas não teve forças para dar fim a vida das próprias filhas. Ela então se sacrificou para conter o poder das duas crianças e prometeu que, sob o cuidado dos Kurans, elas ficariam bem.❞ A ancestral era… ❝ —– Desde então, não havia como manter nossa linhagem completamente pura, pois só havia restado duas mulheres e, não importava o quanto tentassem, elas eram incapazes de conceber filhos de outras linhagens de Purosangue. Curiosamente… elas eram capazes de gerar filhos de nobres e até mesmo humanos; caso menino nasceria um humano completo, caso menina… uma Puro-sangue.❞ Momo seguia com a explicação enquanto o olhar parecia levá-la a uma outra época, muito distante. Além de compartilhar consigo, a mais nova parecia reafirmar todas aquelas informações para si mesma. Zero só pode ouvir e assimilar tudo muito rapidamente, o único questionamento, até então, era se Kyou também sabia daquilo.
❝ —– Bem, Kyou e eu fomos o primeiro caso de gêmeas em gerações… talvez por termos nascido de uma Puro-sangue e um Caçador a maldição tenha recaído sobre nós.❞ Naquele ponto, a expressão do grisalho denunciou sua surpresa. ❝ —– Eu nasci como uma humana frágil e Kyou nasceu como uma Puro-sangue impecável. Por conta do nosso dever em manter o equilíbrio entre os dois mundos, mundano e vampírico, mamãe e papai se separaram; eu como humana fiquei com o papai e a mamãe levou Kyou com ela. Foram tempos difíceis, o laço que compartilhamos criava a necessidade de estarmos na presença uma da outra e eu adoecia cada vez mais… Kyou… dizem que ela enlouqueceu aos poucos, mas eu mesma não presenciei isso.❞ Zero podia sentir a dor pelas palavras da mais nova e seu esforço em não fraquejar nas palavras. Sabia muito bem sobre o que ela falava, nesse quesito. Estava surpreso que Momo estivesse compartilhando isso consigo, sabia que haviam entrado em uma parte bem delicada da história. ❝ —– Mamãe se casou com um membro da família Shirabuki e continuou servindo Juuri, a mãe de Yuuki e Kaname. Um dia o papai descobriu que a mamãe tinha fugido para a Mansão dos Kurans, mas ela não conseguiu levar a Kyou com ela. Os Shirabuki se recusaram em deixar a Kyou ir, mesmo quando mamãe prometeu voltar e ficar no lugar dela… Eles a recusaram. Kyou foi mantida na Mansão dos Shirabuki até o dia em que o papai se cansou de esperar. Ele foi sozinho… Eu estava muito doente e ele não podia simplesmente pedir ajuda à Associação, ele queria manter a mamãe segura, então não disse nada para ela também… Ele precisou fazer isso sozinho. Naquela noite apenas a Kyou saiu com vida da Mansão… Sendo carregada por Juuri e Haruka.❞ Momo agarrou os próprios braços como se isso a protegesse daquele passado. Zero havia pressionado o maxilar e respirou fundo. Toda aquela política dos puro-sangues era o mais irritante para ele. Eles eram apenas duas crianças, no meio de tudo aquilo.
❝ —– Nós vivemos juntas na Mansão dos Kurans desde então e ao contrário do que eu esperava depois de tudo que ouvi, Kyou era bastante calma e até enérgica para algumas coisas, mas ela nunca me disse pelo que passou… Absolutamente nada. Com o tempo eu voltei a viver mais com os humanos, mas a mamãe sempre me buscava para que eu pudesse ver a Kyou que continuou com os Kurans… Eles me diziam que ela nunca podia sair por culpa do sol, mas para ser bem sincera eu nunca acreditei muito nisso. Eu queria dizer muito mais sobre ela… Mas… Nem eu mesma sei, toda vez que eu insistia ela chorava tanto que eu desisti. Quanto a noite que nos encontramos em meio a neve, Zero… Eu não sei o que houve também. Tudo que eu me lembro é da Juri me levando junto com Yuuki e provavelmente foi nesse momento em que ela apagou nossas memórias e seguimos por caminhos diferentes.❞ Mesmo com os olhos marejados, ela não permitiu que as lágrimas caíssem, a fúria predominante em seu olhar, as mãos que abaixaram e se fecharam em punhos. Sentia-se imponente como anos atrás e se culpava por não se lembrar do peso que o passado carregava, de todas as coisas que não sabia e do pouco que fora capaz de fazer. ❝ —– Eu não quero perdê-la de novo. Não quero continuar com essa venda em meus olhos, Zero… Quero que ela diga tudo que aconteceu, quero que ela se apoie em mim… Não sei se ela recuperou as memórias referentes a tudo isso… Então, por favor, não desista dela…❞ As mãos voltaram a agarrar os braços do Kiryuu, os dedos se enroscando no uniforme do outro, enquanto finalmente cedia, abaixando o rosto entre soluços, deixando as lágrimas caírem diretamente no chão. Talvez estivesse usando o grisalho de forma egoísta, mas o que poderia fazer se não aquilo? Já não tinha mais a confiança de Kyou, e se fosse o Zero a pessoa que poderia ajudá-la a recuperar isso... ❝ —– Eu não sei o quanto ela pode mudar… Como ela pode reagir… O quanto da Kyou que conhecemos é real? Nós somos tudo que ela tem…❞ O olhar dela seguiu para o dele, como um pedido que não poderia ser recusado. ❝ —– E você se tornou o mundo pra ela… Então eu sei que por sua causa, ela é capaz de superar tudo… Por mais assustador, por mais terrível que aquela essência vampírica seja… Não desista dela, eu te imploro....❞ A boca do grisalho se abriu para negar aquilo. Momo não sabia do que estava falando. Mas sobre aquela preocupação… As mãos seguiram até os pulsos da menor, os soltando de seus braços. ❝ —– Eu não poderia desistir da Kyou, Momo. Eu não sei o quanto você sabe das memórias da Kyou a respeito… de mim. E eu não sei o que isso significa ainda. Mesmo que tenha estado fora do nosso alcance controlar o destino que nos une e nos separa de alguma forma… Mas eu desisti até de mim mesmo e, ainda assim, eu só consegui...❞ … Amá-la. O caçador parou as próprias palavras antes de proferir aquilo. Ele soltou as mãos alheias antes de se virar para a saída novamente e prosseguir, finalizando baixo: ❝ —– Vamos encontrar a Kyou.❞
Eles seguiram em direção ao prédio de residência do diretor, agora mais rapidamente ao prosseguir pelo jardim lateral em direção oeste. Zero refletiu sobre tudo o que a mais nova havia lhe dito, unindo todos os pedaços com memórias que Kyou compartilhava consigo, muitas delas fazendo mais sentido agora - embora parecesse faltar muito mais peças. O histórico da família Sakurauchi e aquele sacrifício, deveriam haver muito mais informações ali para que toda a estrutura vampírica e toda a hierarquia se tornassem o que era até então. E Zero sabia que muitas informações eram mantidas secretamente até mesmo pela Associação. Mas não conseguiu pressionar mais nada de Momo pois sabia que ela havia lhe contado tudo o que sabia, embora se perguntasse em que parte exatamente do futuro aquilo seria importante para que decidisse algo.
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Yagari estalou a língua em resposta ao diretor. ❝ —– Esse não é o seu estilo Kaien. Eu dei um jeito nos caçadores, mas sei que isso não irá durar muito tempo, e você também sabe. Além disso, parece que temos convidados bem rebeldes.❞ O caçador olhou de soslaio para a ponte alguns quilômetros a frente, na saída do dormitório da Day Class, onde estavam todos os alunos. Havia acabado de se reunir novamente com Kaien depois de ameaçar alguns caçadores que haviam sido enviados pela Associação atrás de Zero - muito embora tivesse se certificado de que Zero não estava decadente. Estranhamente. Ele próprio tinha sido encarregado de ir até o Colégio para matar Zero, o qual, segundo informações que lhes fora passado, havia finalmente decaído para um Level E. Tinha sido ordens especificamente superiores. Mas cá estavam, lidando com problemas ainda maiores no meio de toda aquela confusão, e conforme davam alguns passos adiante, ambos pausaram por uma súbita sensação. Kaien foi o primeiro a se pronunciar ❝ —– Essa sensação… Deve ser...❞
❝ —– Sim...❞ Yagari olhou na direção da velha igreja, e em seguida novamente para o caminho a frente. Kaien desembainhou a katana que segurava, avançando mais alguns passos antes de parar. ❝ —– O que você deseja, Presidente da Sociedade?❞ O homem de longos cabelos grisalhos, vestido como um verdadeiro lorde moveu minimamente o canto do lábio, a única reação que poderia dar aos dois hunters.
❝ —– Você mantém algo bem perigoso aqui. Você não havia dito que não era mais sua responsabilidade?❞
❝ —– No momento, só estou protegendo os alunos.❞
❝ —– Pacificamente… entregue Kiryuu Zero...❞ O homem cobriu parcialmente o rosto com o leque que segurava. Foi o suficiente para Yagari também sacar a espada e Kaien dar um passo adiante ❝ —– Desculpe. Não posso fazer isso.❞
❝ —–Entendo. Nesse caso...❞ A aproximação foi rápida, e de algum lugar entre as vestes do Presidente da Sociedade, ele lançou adagas na direção de ambos. Facilmente Yagari e Kaien defenderam o ataque e o diretor seguiu a frente, enterrando a espada no chão com força o suficiente para levantar pedaços de pedra e poeira, formando rachaduras no chão até o alcance do grisalho. Foi a distração para que o caçador avançasse na direção da figura, mas ele conseguiu desviar para o alto de uma árvore, estabelecendo uma distância segura de ambos. ❝ —– Que tolice! Essa era sua última chance. Agora, apodreça no inferno.❞ E com um forte vento lançado entre as folhas, ele sumiu como se nunca houvesse estado ali.
❝ —– Que coincidência. Sou eu quem dita minhas chances.❞ Kaien respondeu para ninguém em específico antes de virar-se para Yagari mais uma vez. Havia muito a ser feito, e o diretor não conseguia parar de pensar não só nos alunos que havia deixado dentro do prédio, mas em Yuuki, Zero e Kyou. Sem mencionar Rido e a sensação que haviam sentido a pouco. Teria que confiar nos três e em Ophelia, por enquanto, por mais que isso não diminuísse sua preocupação. O caçador suspirou, lançando o olhar na direção oposta. Logo, uma legião de vampiros Levels E surgiu do outro lado da ponte que conectava o prédio da Day Class a construção principal, vindo diretamente em direção a eles. Yagari foi o primeiro a mover-se em direção aos vampiros, antes que estes pudessem cruzar o limite da ponte e se aproximarem, embainhando a espada e utilizando a arma que tinha em mãos para alcançá-los a longa distância. E antes que pudesse acompanhar o caçador, Kaien ouviu Yuuki, Ichiru, Aidou, Seiren, Ruka e Akatsuki vindo de uma das saídas do prédio até onde estavam parados. ❝ —–Diretor, Yagari-sensei!!!❞ Yuuki gritou correndo até ele e parando alguns centímetros de distância. ❝ —–O que…?❞
❝ —– São da Sociedade. Levels E criados secretamente.❞ Kaien respondeu. Ouvindo Yagari gritar para alertá-los de alguns vampiros que haviam conseguido se aproximar do grupo. O diretor não esperou mais para saltar e atacar, utilizando a espada para golpear três vampiros a frente. ❝ —–Diretor!❞ Yuuki correu mais uma vez, se aproximando do mais velho, mas ele apenas olhou por cima do ombro, oferecendo a morena um sorriso carinhoso e compreensivo - como sempre fazia. ❝ —–Juuri-san… não… Você se lembra de sua verdadeira mãe?❞ A princesa confirmou com um aceno e Kaien direcionou o olhar para os outros atrás de si. ❝ —–Vocês… protejam a Yuuki. Ruka, preciso que você cuide dos alunos da Day Class que estão dentro do prédio, não podemos deixar que vejam ou escutem tudo o que está acontecendo.❞ A nobre não demonstrou nenhuma satisfação com o pedido, mas, por fim, acabou cedendo e desaparecendo para o interior do prédio rapidamente. O olhar, por um momento, cruzou com o de Ichiru e o diretor soube o que ele pretendia mesmo sem precisar proferir as palavras, acenando rapidamente para que ele seguisse em frente e encontrasse Zero. Também não demorou para que o gêmeo mais novo corresse na direção oposta, de encontro a floresta nos fundos do dormitório. Ele também desconfiava onde o grisalho poderia estar e torcia fortemente para que Zero aguentasse firme. ❝ —– Deixo o Colégio Cross sob a segurança de vocês.❞ Disse olhando para Yuuki brevemente antes de virar-se para onde mais vampiros se aproximavam e seguisse para ajudar Yagari. ❝ —– Não permitirei que vocês passem daqui!❞ Proferiu lado-a-lado com Yagari, já na ponte separando os levels E da entrada do prédio.
❝ —–Vocês… vão enfrentá-los sozinho? É muito perigoso… Diretor!❞ Yuuki gritou alto para que Kaien pudesse ouvir, mas tudo o que o diretor fizera foi sorrir mais uma vez e responder por cima do ombro: ❝ —–Já disse que não é diretor… e sim papai.❞
❝ —–Você é mesmo um cara imprudente.❞ Yagari proferiu para Kaien enquanto guardava a arma agora sem munição e sacava a espada novamente. Ambos mantiveram a posição para bloquear o caminho enquanto atacavam mais e mais vampiros. O caçador sinceramente não achava que poderia ver o diretor da academia em ação depois de tantos anos tendo abdicado sua função como caçador, mas parecia um bom propósito naquele momento - e não podia deixar de admirar a devoção que ele tinha em defender seus ideais. A convivência entre vampiros e humanos.
Yuuki permaneceu alguns segundos observando a cena a frente. ❝ —–Para proteger o colégio...❞ Pensou alto. Todos eles: Zero, Ichiru, Momo, Ruka, Kaname-senpai… Todos estavam em suas próprias batalhas, sem medo, apenas lutando para proteger alguma coisa… ou alguém. Não podia ficar apenas parada. A morena olhou em direção a oeste do Colégio - havia sentido aquela sensação anteriormente e, alguns segundos depois, sentiu o cheiro de sangue. ❝ —– Z-zero!❞ Os outros também pareceram sentir o cheiro que se unia ao cheiro do sangue de… Kyou. Yuuki sabia que o grisalho se alimentava do sangue da ruiva constantemente, mas, agora que sua transformação estava completa, a diferença era clara. E incômoda.
❝ —– Precisamos ir até Kuran Rido. Agora, meu único dever é proteger o Colégio.❞ Mesmo sob uma áurea de resistência, os outros concordaram com a imposição de Yuuki - sabiam que a princesa não cederia pois já haviam passado longos minutos tentando convencê-la a ficar longe do perigo. Sem sucesso. Assim, com a volta de Ruka, seguiram pela lateral do prédio correndo para o lado oeste onde a morena havia sentido o cheiro antes, junto com a sensação incômoda. Antes que pudessem cruzar a pequena ponte abandonada nos limites do jardim e da floresta, encontraram Rima e Shiki.
❝ —– Vocês encontraram o Rido?❞ Akatsuki perguntou sendo o primeiro a se aproximar dos dois, que mantinham o olhar fixo na floresta. Shiki foi o primeiro a responder ❝ —– Não, não é preciso. Aquele cara tem um péssimo gosto...❞ E antes que alguém pudesse perguntar o motivo, todos sentiram o cheiro do sangue e a aproximação das duas garotas a frente.
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… dizem que ela enlouqueceu aos poucos...
… diziam que ela nunca podia sair por culpa do sol, mas para ser bem sincera eu nunca acreditei muito nisso.
As palavras ainda repercutiam na mente enquanto Zero e Momo prosseguiram relativamente rápido, seguindo pela lateral e na intenção de ir, sem chamar a atenção, para a saída do prédio principal. Mas subitamente, com um forte vento, Zero sentiu um cheiro de sangue vindo mais a oeste ainda, pelas florestas além do pequeno rio que delimitava até onde os alunos poderiam se aventurar. ❝ —–O que foi?❞ Momo perguntou ao ver a reação de Zero, mas este não esperou antes de sair rapidamente na direção do que havia chamado sua atenção, forçando a mais nova a correr o mais rápido que pode para acompanhá-lo.
Zero identificou e encontrou Maria Kurenai antes que pudesse ver seu corpo no chão, alguns metros depois da pequena ponte abandonada e quase totalmente destruída que separava um o jardim e que delimitava o início da floresta. Mesmo qualquer funcionário ou a direção da Academia jamais utilizavam aquele caminho e era até mesmo proibido para estudantes que ultrapassarem limites dos jardins ao redor dos prédios - mesmo para os alunos da night class. Principalmente naquela época, em que a neve cobria quase tudo, transformando a floresta, outrora bonita e cheia de vida, em um lugar vazio e morto. Zero parou quando se aproximou, vendo sangue manchando a neve e destacando o corpo da vampira dentre todas as sombras que os cercava. A imagem paralisou o caçador e lhe trouxe memórias antigas e não curadas, somente piscando novamente quando Momo passou por si, esbarrando em seu ombro ao correr e se ajoelhar ao lado do corpo quase sem vida. O que havia acontecido com ela?
❝ —–MARIA-chan! Maria! O-que...❞ O desespero tomou conta da voz da ruiva, que logo em seguida virou para Zero, gritando para que ele se movesse e a ajudasse com a menor. Pelo estado do corpo dela, Zero conseguia imaginar quem poderia ter feito aquilo. ❝ —–K-k...❞ A voz da vampira estava tão desgastada e baixa que mal conseguia forças para completar qualquer frase. Nunca havia simpatizado com qualquer puro-sangue, mas vê-la daquele jeito… Zero apertou o maxilar ao se aproximar, verificando os ferimentos pelo corpo dela. O caçador tirou o grosso sobretudo que usava e ajudou Momo a envolvê-lo, com cuidado, no corpo da vampira - já que o uniforme desta havia sido deixado em farrapos. ❝ —–Momo, leve-a de volta para o dormitório. Não deixe que ninguém as veja.❞ Dividida pela situação, a mais nova claramente estava relutante em deixá-lo, mas não tinham opção. Ela também sabia o que aquilo significava. ❝ —– Me encontre depois de deixá-la lá.❞ Completou para reconforta-la, mas Momo era esperta demais para aquilo e lhe lançou um olhar repleto de julgamento. ❝ —– Falhei com vocês, com todos vocês. Com Ichiru e com você, Momo. Com Kyou, e com Yuuki.❞ Esperava ter resolvido tudo antes de pôr a gêmea mais nova em perigo também. Antes que ela pudesse responder, ele completou: ❝ —– Não vou falhar novamente.❞ E se levantou. Mas a mão de Maria se moveu em sua direção, fazendo-o parar antes de seguir.
❝ —–Z-zero-k-un… A… K-Kyou...❞ Novas lágrimas surgiram no rosto da grisalha e o vampiro sentiu um frio o percorrendo. Não esperou mais nenhum segundo para avançar floresta adentro. Como não havia percebido antes? Agora que estava mais atento, após poucos segundos, o vento cortante lhe atingiu com o cheiro do sangue de Kyou, assim como sua essência, misturado ao cheiro de dezenas de outros sangues.
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Zero sabia que era explosivo e que, muitas vezes, seu temperamento atrapalhava em certas situações que deveriam ser mais racionais, por mais que demandassem urgência. Mas, ao ver toda aquela cena, as íris brilharam em escarlate e havia paralisado, o próprio sangue parecia ter congelado dentro do corpo. Não só todos aqueles corpos, que pareciam vir do pior pesadelo do caçador, mas também o corpo de Kyou ao chão, tão perto de todos aqueles vampiros descontrolados. De onde estava, não conseguia se certificar de que a guardiã estava bem, mas podia sentir o cheiro do sangue dela ainda presente no ar. Por mais que o ódio tivesse subido por sua espinha, era algo congelante que o fez o corpo estabilizar por fora - embora tremesse por dentro. Todo aquele sangue...
O vampiro puro-sangue sequer havia se incomodado em olhar para ele, e mesmo que tivesse trocado para o que parecia ser eu próprio corpo, o grisalho pode reconhecê-lo. BloodRose já estava em sua mão, apontando para o alvo, quando o olhar de Rido recaiu sobre ele e o vampiro sorriu. Não parecia ter passado um segundo quando, no momento antes de puxar o gatilho, algumas rachaduras e cascalhos voaram do chão abaixo de seus pés, liberando fios de sangue que se enroscaram pelo braço estendido de Zero, apertando instantaneamente. O caçador pulou para trás a fim de se afastar, no entanto, o sangue o acompanhou. Zero podia sentir o braço sendo apertado pouco a pouco, rasgando o tecido do uniforme e a pele - sabia que Rido continuaria até que o tivesse em pedaços.
❝ —– Veja… reunidos e lutando entre si…❞ Rido se ergueu, abrindo os braços para contemplar todo aquele cenário enquanto dirigia as palavras a Zero. ❝ —– Essa é a verdadeira natureza dos vampiros!❞ Ele sorriu, fazendo o caçador cerrar os dentes para não esbravejar com ele. Gritar não adiantaria, estava ciente disso. ❝ —– Todos… virão me agradecer. Me pergunto por que ainda não apareceram para se divertir conosco, Zero❞ O caçador se moveu mais uma vez, mas para a direita, desviando de um vampiro que o havia atacado. Facilmente Zero se livrou do vampiro, enquanto as unhas, agora em garras, perfuraram a garganta e o despedaçava, sentindo a criatura virar pó. Num movimento da mão que segurava a arma anti vampiro, conseguiu disparar contra um dos fios de sangue, fazendo-o desfazer pelo instante que precisou para livrar o braço e saltar para mais próximo de Rido. O sangue escorria pelo braço atraindo a atenção de mais Levels E e Zero franziu o cenho. Não conseguiria se aproximar rápido o suficiente de Rido tendo que lidar com todos os vampiros que paravam de se alimentar para atacá-lo. O esforço em não prestar atenção a todo aquele sangue já era grande o suficiente para ele.
Mas antes que pudesse traçar alguma estratégia, de fato, o caçador viu quando o vulto aterrissou por trás de Rido, atravessando a espada pelo flanco do puro-sangue. Os olhos de Zero se arregalaram quando viu Ichiru. Idiota! Enquanto ainda atirava contra os vampiros, o caçador foi encontrando caminho para mais perto, mas não rápido o suficiente para que pudesse impedir Rido de atacar o gêmeo, o jogando contra as escadas. ❝ —– Ichiru!❞ As íris brilharam mais uma vez quando o sangue do mais novo apagado começou a escorrer entre os degraus. ❝ —– O que foi, Kiryuu Zero?❞ Mais uma vez, a risada do puro sangue pode ser ouvida. ❝ —– Rápido… venha, aproveite!❞ Com um rosnar do fundo da garganta, Zero avançou.
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Momo sentiu um grande alívio ao ver os vampiros a frente, sentindo as pernas tremerem ao ver Seiren se aproximar rapidamente, a ajudando a carregar o corpo de Kurenai Maria. Os outros vampiros vieram logo em seguida, acompanhados de Yuuki. Os olhos da ruiva percorreram o grupo novamente em busca de Ichiru, mas não encontrando nada. ❝ —– O que aconteceu?❞ Yuuki perguntou para Momo ao checar o corpo maltratado da outra. Também havia reparado no casaco em torno do corpo dela. ❝ —– Onde está o Zero?❞ Certo medo havia preenchido a voz da morena. Momo apenas balançou a cabeça, organizando as palavras antes de responder a série de perguntas que surgiram de todos, sequer a deixando falar. ❝ —– A encontramos alguns metros floresta adentro. Eu ainda não sei o que aconteceu. E Ichiru?❞ Rebateu enquanto olhava de um por um. Yuuki direcionou o olhar por sobre o ombro de Momo, franzindo a testa ao respirar fundo e arregalar os olhos em seguida. ❝ —– Ele seguiu... você não o encontrou no caminho?❞ Ela fitou Momo novamente, identificando o mesmo medo percorrendo a ruiva. Ichiru havia se separado do grupo quando ainda estavam no dormitório, Yuuki deveria ter previsto que ele seguiria atrás de Zero. E que este tinha ido até onde, provavelmente, Kyou estaria. Mas o cheiro de sangue que ela havia sentido antes. ❝ —– Precisamos correr.❞
❝ —–Vou levá-la de volta ao Dormitório da Day Class. Parece ser o lugar mais seguro, por enquanto.❞ Rima avançou, sendo seguida por Shiki que claramente se posicionou para ajudá-la, pegando o corpo de Maria do suporte de Momo e Seiren. Mesmo que não fosse os planos, ir contra as ordens de Kaname, não podiam simplesmente ignorar o estado em que a outra estava. ❝ —– Iremos ajudar com a segurança do Colégio também.❞ Yuuki concordou em um aceno e, rapidamente, o grupo se moveu de volta para a floresta. Dessa vez, Momo se forçando a seguir além do limite para chegar aonde quer que Zero, Ichiru e Kyou estivessem.
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Quantos já havia conseguido matar, ele não sabia mais exatamente. Mas o olhar permanecia entre Ichiru, que tentava se recuperar depois de alguns momentos inconsciente e Kyou, ainda imóvel. Zero chegou às escadas, e Rido o fitou do topo, o olhar parecendo divertido com todo o esforço do caçador em se aproximar. Para o puro-sangue, aquilo talvez realmente lhe servisse como uma distração até que a última peça principal chegasse… ele já podia senti-la tão perto.
Tudo aconteceu rapidamente conforme Zero seguia em frente, uma das mãos agarrou novamente um vampiro, enquanto o lançava na direção do segundo que se aproximava pela esquerda, a arma disparando mais uma vez e então arfando ao sentir o ataque que o atingiu nas costas, na altura das costelas. Zero tombou para a frente, antes de se virar, um segundo a tempo de se proteger com o braço de outro ataque de um dos vampiros nobres que protegiam Rido. A destra se ergueu em defesa, as garras do vampiro acertando onde Thanatos estava enroscada dessa vez, protegendo-o e ganhando o tempo que o grisalho precisou para perfurar o peito do outro, se livrando de mais um. E estaria satisfeito caso não tivesse precisado virar as costas para seu alvo principal, assim, permitindo que Rido o atingisse de novo, dessa vez no ombro. De onde estava, Zero pode ver quando, da floresta a frente, Yuuki surgiu acompanhada.
Momo fora a única que não havia estancado e corrido diretamente na direção onde estavam. Yuuki encontrou o olhar do caçador e, conforme o fio de sangue se enroscava do ombro passando pelo tronco do vampiro, a puro-sangue gritou ❝ —– Pare! Rido!❞ O olhar de Zero voou para Momo que estava próxima ❝ —– Momo, Ichiru!❞ E não precisou que ele dissesse duas vezes antes dela seguir na direção do mais novo. Os vampiros do grupo também se moveram para atacar Rido, mas com uma risada estrondosa, o Kuran mais velho exalou uma áurea negra que logo cobriu e paralisou todos eles. ❝ —– Finalmente! Vocês chegaram para dançar conosco…❞
❝ —– O que é isso?❞ Ruka esbravejou enquanto tentava se livrar.
❝ —– Por vocês serem vampiros… não conseguem afetar um puro-sangue. E eu não quero que essa atitude malcriada estrague esta noite adorável.❞ Rido olhou mais uma vez para o corpo de Kyou aos seus pés, sorrindo. Mas o olhar voltou para Yuuki que como havia sido a única a não ser parada pelas sombras negras de Rido, chegou até onde Zero estava. A morena colocou as mãos novamente em Artemis e, mesmo com o repentino choque, não desistiu. ❝ —– S-solte-o. Não vou deixar que ponha as mãos em mais ninguém!❞ A sobrancelha do vampiro se ergueu, e um grito por Yuuki pode ser ouvido de Hanabusa, num pedido para que ela se afastasse, mas conforme o puro-sangue avançava com os fios de sangue em Zero e com as sombras nos outros, permitindo que os outros vampiros se aproximassem deles, a menor ergueu a arma anti vampiro, finalmente conseguindo empunhá-la. A lâmina de Artemis, ainda envolta de uma luz incandescente, desceu primeiramente nos fios que prendiam Zero, o ajudando a se soltar e o caçador não esperou antes de se lançar na direção de Rido, sendo seguido pela morena. ❝ —–Sim! Venham até mim! Mas que sorte a minha!❞ Riu insanamente.
Rido se moveu por um segundo, ressurgindo atrás de Yuuki, conforme a segurava por trás, lançando-se para longe de Zero, de volta para onde Kyou estava. ❝ —– Estou realmente grato por você ter vindo Juuri. Não sabia que estava tão ansiosa para se tornar-se uma comigo.❞ Ele riu, a morena se debatendo o máximo de podia para se livrar conforme ele inspirava o cheiro de seu sangue próximo a garganta. ❝ —– Ah, e você Kiryuu Zero, é a peça final para completar esta dança perfeita!❞ O olhar recaiu sobre Kyou e foi a gota d’agua para Zero, que se lançou em direção a ambos e, quando os fios de sangue ressurgiram, finalmente utilizou Thanatos para facilmente se livrar deles e seguir para as mãos do puro-sangue, permitindo que Yuuki lançasse Artemis para trás e acertasse o braço do Kuran, rasgando carne e pano. Quando este cambaleou, Zero aproveitou o segundo que lhe restou para atirar com BloodRose, seguido de um grito gutural. Naquele milésimo de segundo, Zero viu a jóia pendurada no pescoço do vampiro, escondida pela veste, agora rasgada. Os olhos se arregalaram quando Zero sentiu algo tomando conta de seu corpo. Uma força surgindo do fundo da alma, alimentada por algo que estava dentro de si e fazendo a arma BloodRose disparar com um brilho incomum. O caçador arfou quando as íris cintilaram, avançando incrivelmente mais rápido do que o usual na direção do mais velho. Tudo em que conseguia focar agora era no objeto que parecia lhe atrair como um ímã de aço, certeiro e específico nos ataques que passou a trocar com Rido, conforme o afastava o quanto podia de ambas, aproximando-se mais do interior abandonado da construção. Mesmo que estivessem feridos, Zero não abria chances para que o puro-sangue se curasse antes de lhe acertar novamente com as armas. Os fios de sangue se misturavam aos movimentos com os brilhos sutis de Thanatos que se movia como tivesse vida própria. Ele jamais havia empunhado ambas ao mesmo tempo. ❝ —– O que está fazendo? Eu sou sua oponente.❞ Puderam ouvir a voz de Yuuki novamente, ao longe, mas o puro-sangue não deu ouvidos enquanto focava no caçador, lançando novos fios para manter Yuuki no lugar, sem atrapalhar. ❝ —– Há! Você pode senti-la, não pode? Sim, claro que pode! Ela pode sentir em você também!❞ Mesmo que estivesse tão ferido quanto o outro, Rido ainda mantinha o tom divertido na voz. Mas o grisalho não mordeu a isca.
Quando havia decidido recuperar a parte de Kyou que sabia estar na posse de Rido, Zero havia assumido aquilo como uma reparação primordial para todas as outras vezes em que prometeu algo a ruiva e falhou. Independentemente do que isso lhe custasse. Não sabia por que havia sentido aquela sensação desde a primeira vez que vira o puro-sangue, nem como havia percebido que, naquela ocasião o objeto era falso, mas esse… Só de olhar, o caçador sabia mais do que nunca que precisava tirá-lo da posse de Rido. Zero podia jurar que a joia o chamava.
❝ —– Eu disse que jamais deixaria que qualquer um de vocês a tocasse novamente.❞ Zero rugiu entredentes, o rosto a centímetros de distância do vampiro. As presas surgiram enquanto algo dentro de si se movia novamente, aquela sensação que sentiu durante a transformação de Kyou e Yuuki, só que naquele momento intensificada. Quando Zero os impulsionou, ambos atingiram uma pilastra da catedral, fazendo a viga explodir em pedaços de concreto e poeira pelo ar. Ele recuperaria, custe o custar. Em meio aos resquícios que amenizavam no ar, e onde Rido havia parado, no corredor entre o início das longas fileiras de bancos, os movimentos de ataque e defesa retornaram, exceto que um avanço pareceu descuidado e Zero foi atingido pelas garras de Rido, bem acima do estômago, fazendo o vampiro puro-sangue se aproximar conforme enterrava os dedos na pele do caçador, com um sorriso triunfante. Zero cuspiu sangue quando a mão que mantinha Thanatos sob controle foi usada para segurar o pulso livre do Kuran. O deslize e o golpe foram propositais, apenas para que o grisalho conseguisse se aproximar de Rido o suficiente para, largando BloodRose no chão, usasse a mão livre para agarrar a joia do pescoço dele, enterrando as próprias garras na carne no processo, mas arrancando a joia rapidamente do pescoço alheio. Os fios de Thanatos largaram a mão do caçador e ele os usou para lançar bloodrose do chão para cima, e quando Rido se moveu, sumindo mais uma vez, Zero recuperou a arma e atirou na direção de onde o vampiro reapareceu, tentando escapar pelos fundos da construção. Embora Rido fosse poderoso, Zero havia conseguido ferí-lo o suficiente para que o puro-sangue corresse em busca de mais sangue, por isso sabia exatamente por onde ele tentaria escapar.
Estava prestes a segui-lo, no intuito de acabar de vez com aquilo mesmo que estivesse tão ferido quanto. Entretanto, podia sentir o pulsar do objeto em sua mão conforme abriu os dedos para visualizá-lo. Lágrimas vieram aos olhos do grisalho conforme uma série de sensações e imagens borradas tentavam lhe alcançar a mente. Zero mal podia respirar conforme sentia a forma como aquilo realmente fazia parte de Kyou. Precisava entregá-lo para ela. O olhar instantaneamente se direcionou para onde podia, de longe, ver Kyou. Finalmente, finalmente ele poderia…
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O formato oval, os adornos dourados, a forma como reluzia em um escarlate profundo mesmo que minimamente oculta na escuridão, o cintilar da joia com a aproximação de Zero deu a resposta final que Ophelia aguardou durante tanto tempo… Nas sombras. A destra se moveu minimamente, os dedos se fechando no próprio entorno, como se agarrasse algo em pleno ar. Quando se deu conta de que o vampiro não era mais capaz de avançar um único passo sem que o libertasse, a morena caminhou vagarosamente até onde a joia se encontrava, agarrando-a com ambas as mãos dentre os dedos dele. As sobrancelhas de Zero se uniram em confusão conforme os olhos acompanham cada movimento que dava. ❝ —– Eu sinto muito… Zero…❞ O pedido de desculpas era simplório e se julgasse somente por sua voz, era díficil dizer que Ophelia carregava qualquer sentimento de culpa, mas desde de que se fez presente no ambiente, teve a minúcia de caminhar através das sombras, de modo a manter o rosto sempre escondido… Até mesmo de um vampiro. Ao direcionar o olhar para o do grisalho, Ophelia repousou a mão livre no ombro deste, à medida que a destra pressionava a joia entre os dedos. ❝ —– Gostaria que houvesse outra forma… Mas não há...❞ As unhas afundaram na região, perfurando o tecido das vestes que outro trajava até que alcançasse a epiderme. ❝ —– O-phelia...❞ Ophelia ignorou enquanto afundou ainda mais os dedos ali e o ferimento que se originou foi o suficiente para fazer uma quantidade excessiva de sangue escorrer. Assim que o líquido fluiu, a Nobre aproximou a jaia, apenas para banhá-la sobre o sangue dele. O vermelho inicial tornou-se mais intenso, mas a mudança mais perceptível talvez fosse sua luminescência. Depois de livrá-lo de si mesma, Ophelia se afastou, derrubando-o no chão, mas mantendo o controle que exercia apenas para não ter de se preocupar com uma reação exagerada por parte de Zero. ❝ —– O que inferno você está fazendo?❞ O ouviu dizer entredentes.
❝ —– Eu odeio estar entre humanos tão frágeis… Não pedi por nada disso, Kyou nunca foi minha obrigação, não era ela quem eu servia… Foi tudo por ele… E ainda assim, não adiantou de nada, por que eu deveria continuar me importando?❞ As lágrimas que surgiram nos orbes azuis se recusaram a cair, mas permaneceram ali junto a ela. Ele nunca voltaria seu olhar para mim novamente. Ophelia se redirecionou, refazendo o caminho por onde havia entrado em passos lentos. ❝ —– Estou cansada… Mas antes de ir embora definitivamente…❞ Ela o olhou por cima dos ombros uma última vez, fixando o próprio olhar nos orbes púrpuros a fim de não encarar o ferimento que havia causado em Zero. ❝ —– Keiko nunca fugiu, se ela continuasse na mansão dos Shirabuki, Kyou seria morta, o afastamento garantiu que não tirassem a vida dela. Como consequência, ela virou prisioneira deles, porque neste mundo poder é tudo o que importa… E poder é algo que a linhagem dela carrega desde sua origem… Assim como os Kurans.❞ Ophelia comprimiu a joia entre os dedos, até esta deixar de reluzir… Se estilhaçar… Quebrar. ❝ —– Deixe ela morrer, talvez seja melhor assim, nossa única preocupação será os Kurans… O mundo vai estar melhor assim, a existência dela gera desequilíbrio… Pare de querer proteger algo que nem ao menos devia estar aqui, é perda de tempo.❞ Ao separar as palmas, estilhaços de vidro caíram pelo chão, junto com o que havia sobrado do ornamento dourado. ❝ —– Adeus… Zero…❞ A imagem da Nobre se desfez nas sombras, sem deixar um único resquício da própria existência para trás.
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Quando sentiu o corpo livre, Zero tocou o ferimento feito pela outra e se forçou a levantar, apertando a canhota no corte irregular causado por Rido, cambaleando até o que sobrou do objeto, as mãos tremendo e mal conseguindo pensar em algo para dizer quando os joelhos cederam. Não haviam palavras. Após arfar, o olhar buscou desesperadamente qualquer sinal de Ophelia dentro do recinto. ❝ —– OPHELIA!❞ Rugiu em plenos pulmões. A destra fechada em punho acertou o chão e os estilhaços, fazendo o piso ceder centímetros abaixo sob os dedos enquanto o sangue do ombro e dos outros ferimentos ainda respingavam, unindo-se aos do novo causados nos dedos com o impacto. Ele mal podia sentir.
❝ —– Zero!❞ Yuuki entrou correndo, segurando Artemis apenas em forma de bastão novamente. ❝ —– Rido fug-❞ Mas a morena parou passos de distância quando observou o grisalho e o estado em que ele estava. Mesmo para Yuuki, era difícil ignorar o sangue. O vampiro respirava profundamente com os olhos cintilando em escarlate e claramente furioso. Num piscar de olhos, havia passado por Yuuki em direção a entrada por onde a Kuran havia acabado de entrar. Parando apenas quando viu Kyou.
How can I say this without breaking
How can I say this without taking over
How can I put it down into words
When it's almost too much for my soul alone
I loved, and I loved and I lost you, And it hurts like hell
I don't want them to know the secrets
I don't want them to know the way I loved you
♥ A silver haired beauty, dressed up in her Night Class uniform ♥