Quarta, 6 de maio de 2020, 2h25min
Eu raramente escrevia sobre você.
Você era a certeza que eu tinha "pra sempre".
Perdi a conta das inúmeras brigas que comprei por sua causa. Sempre que me colocavam contra a parede "ou ele ou eu", uma nova pessoa acabava se afastando ou indo embora da minha vida.
E não é que eu não me importava com os outros, é que você importava mais.
Na minha cabeça ingênua, que te via como o cara por quem me apaixonei, você era tipo um "amor da vida".
Eu sabia que o amor tinha mudado, que por questões além do meu controle - e da minha vontade - a gente não daria certo.
Mas pra mim, ele nunca deixaria de existir.
Estaria sempre ali: em cada conselho, em cada desabafo, em cada hora que passávamos juntos, na intimidade que eu acreditava que tínhamos levado quase uma década para criar.
Você nunca me exigiu muito esforço. Primeiro, porque sempre fomos honestos um com o outro. Depois, porque tudo caminhou de uma forma super natural. E, por fim, porque, como eu disse, você era uma das pessoas mais importantes da minha vida, e isso sempre foi claro pra todos que me cercam e todos que "entraram" depois de você.
Então você imagina minha tristeza quando percebi que você estava se afastando.
Quando percebi que você não sabia mais de tudo que acontecia na minha vida e eu tampouco sabia da sua. Ao contrário, me via como uma estranha, como alguém pra quem você não tinha tempo. (E foi exatamente isso que você me disse mais tarde).
Se a situação fosse inversa, eu faria questão de você. Acho que, talvez pelo meu jeito romântica, de quem aparentemente idealiza pessoas, sentimentos e emoções, eu imaginei que você faria o mesmo.
Então, de novo, imagina minha surpresa ao me deparar com essa versão de você que eu nem sabia que existia.
Em quase dez anos, eu nunca pensei que você pudesse ser tão... distante, tão frio, tão... feio.
Eu tentei fazer o que sempre faço com meus relaciomentos, de forma geral, quando chegam num ponto em que eu desconheço a pessoa ou não entendo alguma atitude que ela tomou: tentei rastrear conversas, grupos, etc.
No meio de textos que você escrevia, de fotos que tiramos, vídeos e conversas, eu não consegui perceber como eu deixei passar esse você que eu tô vendo agora.
Eu sequer sei explicar a razão dessa indiferença: se é por alguém que apareceu em sua vida; ou por algum tipo de surto; ou depressão (com esse cenário que vivemos, não sei); ou só porque não gosta mais de mim mesmo.
Só sei que isso tudo machuca.
Eu não sei mais se eu fantasiei tudo que eu tive contigo ou se foi real - e aqui não falo só dos anos que namoramos, que foram a menor parte da nossa "relação".
Não sei nem se foi amor dos dois lados, ou eu só quis que fosse porque você foi o cara que tirou minha virgindade e naquela época eu idealizava estar com "uma pessoa pra sempre".
Não sei se teve amizade depois, ou se teve você fazendo um puta esforço pra passar algumas horas comigo por, sei lá porquê, ao invés de sumir de uma vez, como fez agora.
Eu não sei de mais porra nenhuma.
Só sei que você foi o cara que viveu minha transformação de menina pra mulher. Que passou por todas as etapas importantes da minha vida. A única pessoa que eu fiz questão de manter presente em todos os relacionamentos que tive depois de você.
Só sei que, de verdade, eu raramente escrevia sobre você. (E quando fazia eram, ironicamente, textos de "certeza", "porto seguro", "amor eterno", "admiração" e outras ilusões ridículas nesse nível).
Hoje em dia você é texto frequente.
Uma parada tão linda, que na minha cabeça vinha de outras vidas, virou um poço de dúvidas, mágoas e ressentimentos.
Você me fez acreditar um tantinho menos no amor.
E certamente em mim mesma, e na minha capacidade de escolher e julgar as pessoas e o que elas dizem sentir.
Talvez isso seja bom, porque me faz ficar mais forte pra lidar com pessoas (escrotas) como você, que tem aos montes espalhadas pelo mundo.
Mas uma outra parte de mim lamenta mais do que algum dia vou ser capaz de traduzir em palavras.
Eu te achava um ser humano incrível. Quem me conhece sabe o quanto eu te admirava. Cansei de ouvir do meu próprio namorado, por exemplo, que eu sempre te ouvia dentre todas as pessoas.
Mas sabe, provavelmente você não era tudo isso.
Você se esconde num discurso de pregar o melhor pras pessoas, de pregar o amor em detrimento do ódio, mas você não sabe nem o que é isso. Você é só mais um, igual os milhares que estão aí no governo, que fala o que os outros querem ouvir e, quando cansa, decide mostrar sua cara de verdade, sem se importar com quem vai magoar no processo.
Só mais um que finge: finge discursos, finge se importar, finge sentimento.
Coloca uma máscara pra reproduzir um discurso de "responsabilidade emocional" quando aposto que nunca leu uma linha sobre isso. Você fala porque é bonitinho, tá na moda, provavelmente pra se sentir um pouco menos escroto.
Você pode ser um profissional foda (embora eu não saiba se ainda acredito nisso); pode ser um bom filho ou um bom amigo pra quem realmente você considera amigo.
Pra mim, você escolheu ser um trauma.
Você conseguiu destruir tudo de mais lindo que eu sentia por você, e que fundamentava minhas crenças de que é possível terminar e seguir amando, ser amigo, ser "pra sempre", mesmo separado.
E eu nunca, nunca, nunca mesmo, vou te perdoar por isso. (Não que eu seja idiota de achar que você se importa).
E eu tô falando isso tudo agora porque vendo essa desgraça de coronavírus fodendo com todo mundo, você segue sendo uma preocupação. Mesmo que não queira e muito menos mereça.
Então se acontecer alguma coisa contigo, isso era algo que precisava ser dito.
Quem sabe na próxima vida você evolui :)