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@jaz-solidao
Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu.
Caio Fernando Abreu. (via versificar)
Nunca, jamais, por hipótese nenhuma nos deixe dormir brigados. Mesmo que você já esteja discutindo de olhos fechados pelo sono, precisa me prometer que irá me abraçar e dizer algo do tipo: “amanhã podemos continuar brigados, mas agora quero que você saiba que é o amor da minha vida.”
Luara Quaresma.
É totalmente exaustivo lidar com a verdade e completamente destrutivo ficar se enganando com mentiras.
tudo me sufocava. tinha a sensação de falta de ar em meus pulmões, me permite ir lentamente até o chão, sentindo minhas costas arderem ao contato do concreto. tinha esquecido como era chorar, como era sofrer, esquecerá até como respirar. o ar que entrava me causava uma morte lenta. fui me arrastando até o banheiro. liguei o chuveiro (não me pergunte como) e fiquei sentada enquanto a água atingia meu corpo, enquanto encharcava a blusa que agora estava colada ao meu corpo magérrimo. tudo sufocava depois da sua morte em mim. tudo tirava meu ar pois essa necessidade por ti (pelos seus abraços) era tanta que eu esqueci como trabalham minhas células.
tudo era nada comparado a dor que meu corpo sentia por saber que você nunca voltaria.
Você espera o telefone tocar três vezes para não incomodar. Você não se seca direito depois do banho, como se a casa fosse sua praia. Você aponta o caminho com o queixo. Você sopra meus olhos para acordar. Minha escrivaninha está vazia porque você é meu livro de férias. Eu fico lendo seus movimentos, folheando o nosso romance. Não compreendo onde quero chegar, minha duração é ler a próxima frase, e a próxima, e a próxima. E assim a noite se dobra em sol e o sol em noite e os seus lábios são lombadas de amora.
Fabrício Carpinejar.
Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito, são suas obras completas.
Paulo Leminski.
você merece o céu te abraçando em tons irreais de azul. merece toda a felicidade quentinha que se adormece em sorrisos e sonha. você merece sonhar. muito. todos os dias. eu desejo que a poesia te guarde do mal do mundo. e que você sinta a luz do sol caindo na sua pele quando seus dias pesarem. e veja o sol como algo que atravessa. e veja a palavra como algo que constrói. porque você merece que todas as flores te amem no caminho de volta pra casa. e que a cidade pare só pra te ver passar. você merece sentimentos calmos te fazendo de casa. e merece sentir que amor também é alegria amena, dessas que descansam a nossa alma dos medos e desesperos do mundo. e é um pouco de silêncio e é um pouco de riso. e é tudo de amor. porque você merece a paz ao alcance dos olhos. e tudo de bom que aqui houver. porque ainda seria pouco. quando você merece muito mais.
Ah, quer saber o que eu penso? Você aguentaria conhecer minha verdade? Pois tome. Prove. Sinta. Eu tenho preguiça de quem não comete erros. Tenho profundo sono de quem prefere o morno. Eu gosto do risco. Dos que arriscam. Tenho admiração nata por quem segue o coração. Eu acredito nas pessoas livres. Liberdade de ser. Coragem boa de se mostrar. Dar a cara a tapa! Ser louca, estranha, linda, chata! Eu sou assim. Tenho um milhão de defeitos. Sou volúvel. Tenho uma tpm horrível. Sou viciada em gente. Adoro ficar sozinha. Mas eu vivo para sentir. Por isso, eu te peço. Me provoque. Me beije a boca. Me desafie. Me tire do sério. Me tire do tédio.Vire meu mundo do avesso!. Mas, pelo amor de Deus, me faça sentir… Um beliscãozinho que for, me dê. Eu quero rir até a barriga doer. Chorar e ficar com cara de sapo. Este é o meu alimento: palavras para uma alma com fome. Te pergunto: você aguentaria viver na montanha-russa que é meu coração? Me desculpe. Nada é pouco quando o mundo é meu.
Clarisse Lispector
(…) Eu precisava de alguém para estar ao meu lado quando ninguém pudesse estar. Alguém que olhasse e realmente me visse. Alguém sem cantos escuros, lugares distantes, alma vazia. Eu precisava de alguém sem pressa pra levantar, alguém que gostasse de sorrir, que brigasse e perdoasse sem precisar fingir. Alguém para andar na chuva, correr descalço… Alguém para dividir as moedas, usar o mesmo casaco. Alguém para esperar, para sentar do outro lado da mesa, para bagunçar a gaveta. Eu precisava de alguém que precisasse de mim, que criasse metáforas com os meus olhos, que dissesse que adora me ver sorrir. Alguém que abaixasse os olhos com qualquer elogio, que me emudecesse com qualquer prece. Eu precisava de alguém que aceitasse minha mão, meu abraço, alguém que precisasse chegar logo onde eu estou, que se incomodasse com a minha demora. Eu precisava de alguém que mesmo sabendo quem eu sou, aprendesse a buscar todo dia um jeito novo de se doar. Alguém que transforma tristeza em beleza, que decora a vida com momentos inesquecíveis. Eu precisava de alguém que vale a pena precisar.
Cinzentos, trecho.
Uns vão, uns tão, uns são, uns dão, uns não, uns hão de. Uns pés, uns mãos, uns cabeça, uns só coração.
Caetano Veloso.
Ele não sabe mais nada sobre mim. Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos. Ele não sabe quantos livros pude ler em algumas semanas. Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos. Ele não sabe quantos amigos desapareceram desde que me desvencilhei da minha vida social intensa. Ele não sabe que eu nunca mais me atentei pra saudade. Que simplesmente deixei de pensar em tudo que me parecia instável. Que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre. Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha. Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria.
Caio Fernando Abreu.
Perguntaram pra mim: “Por que eu não tenho namorado? Algo em mim repele os homens? Sou uma mulher embargada? Há uma placa de ‘proibido estacionar’ em minhas costas? Me diga!”. Olha, eu não sei por que não tem namorado. Honestamente. Poxa, come batata frita, torta de limão, churrasco e trufa de leite condensado. Ok, a alcunha de magricela, cabo de vassoura ou Olívia Palito nunca lhe serviram, talvez. Urros sobre sua suposta suculência não têm advindo de prédios em construção, quiçá. Quem sabe não fica bem de “tomara-que-caia”, tropica no salto agulha, não combina numa minissaia. Mas desbanca a miss Venezuela num vestido primaveril, pisando numa rasteirinha prateada, com o cabelo preso naquele lápis cor-de-rosa, soprando a franja pra cima no calor. Não vai me acreditar, mas tu é bonita. Tu passa longe de uma Fernanda Young, uma Lya Luft, uma Sandra Werneck. Mas tu é inteligente à sua maneira. Assiste novela, mas não comenta a vida dos personagens. Gosta da Clarice, da Cecília, da Martha. Curte o Tom, a Adriana, o Nando, a Zizi, o Cazuza. Trabalha, suspira, trabalha, checa as unhas, trabalha, sonha, trabalha, belisca uma água-e-sal, trabalha e um colega te olha. E te acha bonita idem. E também se intriga com tua solteirice. Tem princípios iguais os da mãe. Mas se acha careta, às vezes. Não cede, mesmo só. Adora sexo, embora não faça com a mesma frequência do desejo. Se faz não vibra na mesma frequência que o parceiro. Sente raiva por ser secretamente boba, romântica e demodê. Se derrete mais rápido que o sorvete napolitano na xícara de sopão quando a mocinha diz “você me fez acordar com um sorrisão no meu rosto”. Chora na frente de ninguém, ai de ti se mais alguém souber. E você não vê a hora de um príncipe encantado por ti libertar esse riso largo atrofiado, mas sabidamente bonito. Tem suas esquisitices. Dorme de edredon e ventilador. Coleciona esmaltes. Cerra as pernas quando sentada e fica coçando o joelho com uma das mãos enquanto a outra segura a cabeça pelo queixo. Ensaia dança do ventre pro espelho do banheiro. Faz duas vezes antes de pensar e tem uns “nhe-nhe-nhê” de mulherzinha. Mas qual não tem? É até bem charmoso. Nada tão relevante quanto sua forma meiga e carinhosa de perguntar “tu tá bem?”. Nada mais importante que teu ímpeto de cuidar dos outros. Nada que mude minha convicção de que tu é bonita. O que te falta? Falta tu mesma se convencer do que te falo com certeza. Tu merece alguém que abra os olhos diariamente e pense: “cara, eu tô com ela, eu sou o namorado dela!”. Que goste da tua boca, do teu ombro, do teu cabelo bagunçado, do teu calcanhar, da tua cintura, das tuas mãos, do cheiro da tua pele, das sardas do teu rosto. E isso vai acontecer naturalmente ao você se dar conta de que tu é bonita, no âmago e na lata. Eu acho, teu ginecologista também, o colega de trabalho assina embaixo. Um dia serás o amor da vida de alguém, do jeitinho que tu é. Falta tu. Acorde hoje e repita: “eu sou bonita”.”
Gabito Nunes.
Traga tua casa, vem me habitar, vem me ver. Pra você sempre estou, deixe a vergonha e vem dançar.
O Teatro Mágico.
O ser humano não tem um coração como o meu. O coração humano é uma linha, ao passo que o meu é um círculo, e tenho a capacidade interminável de estar no lugar certo, na hora certa. A consequência disso é que estou sempre achando seres humanos no que eles têm de melhor e de pior. Vejo a feiura e sua beleza, e me pergunto como uma mesma coisa pode ser as duas.
A menina que roubava livros.
Se eu soubesse Teu nome verdadeiro Te tomaria Úmida, tênue E então descansarias. Se sussurrares Teu nome secreto Nos meus caminhos Entre a vida e o sono Te prometo, morte, A vida de um poeta. A minha: Palavras vivas, fogo, fonte. Se me tocares, Amantíssima, branda Como fui tocada pelos homens Ao invés de Morte Te chamo Poesia Fogo, fonte, Palavra viva Sorte.
Hilda Hilst.
enquanto você dormia liguei os pontos sardentos das suas costas na esperança de que a caneta esferográfica revelasse a imagem de algum ser mitológico de nome proparoxítono o mapa detalhado de algum tesouro submerso formasse quem sabe alguma constelação ruiva oculta na epiderme e me deparei com o contorno de um polígono arbitrário que não me fornecia metáforas não apontava direções simplesmente dizia: você está aqui.
Gregório Duvivier, ligue os pontos.