But every night with us is like a dream | James&Lyra
Uma tola, era isso que era! Uma tola por guardar em meio as páginas gastas do único livro que possuía as pétalas rubras de uma das rosas que ganhara nos jardins reais. Tola era também por ficar sempre tão desconcertada todas as vezes que acabava por encontrar sua figura masculina acidentalmente enquanto acompanhava a princesa pelos corredores do palácio. E como se apenas isso já não bastasse, a menina ainda se pegara pensando no tal humano enquanto se aprontava para o baile. Imaginando se o veria, se ,uma vez vestida como uma verdadeira nobre, conseguiria atrair a atenção alheia para si mais uma vez. Se permitindo dar vida à uma chama ridícula de esperança sobre algo completamente improvável. E Lyra conseguia ser mais tola ainda por, tantas vezes, se pegar observando o salão em busca dele.
Não importava quantas pessoas estivessem ali, com quantas pessoas dançasse, ao menos duas vezes a menina se distrairia ao correr os olhos pelo lugar em busca dos cabelos claros do rapaz. E cada vez que não o encontrava em meio ao mar de máscaras extravagantes, tinha de disfarçar um olhar desapontado. “Me daria a honra dessa dança, senhorita?” Uma voz desconhecida interrompeu-a, e apesar de não obter uma resposta pronta, a menina naturalmente sorriu e aceitou a companhia do novo mascarado aleatório. Um nobre, provavelmente, mas não aquele que tanto almejava a companhia.
O que estava pensando, afinal? James era um humano, um Liddell e muito provavelmente uma espécie de arma da rainha. Pela menor ligação que ele tivesse com Elizabeth já existia um motivo mais do que apenas plausível para que a criada mantivesse distância do rapaz. Sem contar que qualquer envolvimento, qualquer proximidade, com aquele humano poderia desagradar tanto Anneliz. Mas o que podia fazer a menina se a voz suave do rapaz ainda era uma lembrança viva na sua memória? E sorriu minimamente com esse pensamento ainda que tentasse abandonar seus questionamentos vãos para dar atenção ao seu par, que aparentemente gostava muito de falar sobre a sua própria pessoa. Desculpe senhor, mas sua voz não é a dele, pensou entediada, nem suas palavras são tão atraentes.
O homem com quem a moça que James admirava estava dançando parecia determinado a passar pelo menos metade da noite com ela, no entanto, o rapaz estava ainda mais determinado a se livrar dele. Na quarta música, sua paciência se esgotou. Jem começou a perguntar aos convidados ao seu redor se reconheciam aquele homem. Provavelmente era um nobre, e ele parecia cercado de camponeses desinformados, afinal, após questionar aproximadamente doze pessoas obteve apenas o sobrenome do homem. Estava quase desistindo de não soar como um idiota e indo pedir para o nobre procurar outra parceira para dançar, pois a moça parecia muito entediada e com certeza ficaria mais satisfeita com a companhia dele.
Decidiu tentar uma última vez. Jem escolheu cuidadosamente alguém que parecesse viver no mesmo meio social que aquele homem e perguntou a uma mulher se o conhecia. “Ah, Richard! Sim, claro que o conheço, é meu irmão!” ela contou. Apesar de agora poder obter várias informações a respeito dele, James se contentou com o que já sabia e agradeceu, se afastando. Aguardou o momento em que ela se distraiu com outra coisa novamente e caminhou até onde o chamado Richard Collins dançava com a criada. — Com licença, Lorde Collins? — perguntou, tomando o cuidado de fingir que sua atenção estava voltada mais para o homem do que para sua acompanhante. Esperou ele assentir e prosseguiu: — Estão procurando pelo senhor do lado de fora do castelo, parece que houve um incidente com a sua irmã e alguns cães. — A mentira funcionou perfeitamente. Lorde Collins pediu desculpas à moça com quem dançava, agradeceu o rapaz por avisá-lo e saiu.
Após ver o homem desaparecer de seu campo de visão, Jem deu um sorriso com um quê de malícia, se virando na direção da jovem, enquanto tentava segurar uma risada. — Não há de quê — falou, antes mesmo que ela mostrasse qualquer sinal de agradecimento ou alívio. — Agora que seu par está muito ocupado vagando pelos arredores do castelo, a senhorita aceitaria dançar comigo? — Jem sorriu novamente e estendeu a mão na direção dela.








