Park Jimin
Autora: Agness Saints
Gênero: Romance
Sinopse: Com a nova vaga para monitoria sendo aberta e um projeto obrigatório em dupla sendo lançado, Park Jimin acha que entre vocês só existe dois sentimentos: rivalidade e ódio.
Mal sabe ele que você só guarda amor…
Eram cinco horas da tarde em todos os relógios de Seul quando Park Jimin apareceu em frente a porta do apartamento 423.
E você a abriu.
E se apaixonou.
Contagem de palavras: 3.978
Avisos: +16. A história faz parte da série puerlistae au.
A parte “eram cinco horas da noite em todos os relógios” foi inspirada na poesia A Captura e a Morte de Federico García Lorca. O conteúdo não se relaciona em nada com a história, só gosto muito dessa parte.
Parte: 1 | 2 | 3
Playlist.
Afasto os lençóis das pernas, o farfalhar preguiçoso combina com a fresta de vidro embaçado que a cortina não cobriu. A chuva continua caindo lá fora, mas os pingos que batem contra a janela não são mais tão fortes quanto os de ontem à noite. Acabo ficando um tempo em silêncio, mirando o relógio digital marcando quase uma da tarde sobre minha escrivaninha e o laranja do sensor de movimento do aromatizador de ambiente iluminando meus livros volta e meia.
Meus cabelos ainda estão úmidos do banho que tomei de madrugada, da mesma forma que ainda sinto um desconforto na nuca pela posição que dormi no sofá. Movo-me pouco tempo depois, buscando meu celular embaixo do travesseiro e o trazendo para perto dos meus olhos. A claridade acaba me incomodando, mas não o suficiente para que eu não enxergue a mensagem de Yoongi.
[11:37] yoongi: vou voltar mais cedo pra casa
Largo o aparelho na cômoda ao lado da cama e fico mais um tempo ali. Desde que acordei há dez minutos, parece ser a primeira vez que presto atenção aos sons do lado de fora do meu quarto; sons dos apartamentos vizinhos e dos passos pelo corredor da minha própria casa. Jimin realmente passou a noite aqui, afinal. E isso faz com que eu me lembre de todas as coisas que a minha eu do passado deixou para a minha eu do presente ter de lidar hoje.
Solto um grunhido arrastado, sentindo minha cabeça pesada quando resolvo me sentar na beirada da cama; meus pés tocando o piso de madeira e minha coluna se esticando em um espreguiçar lento. É como se eu tivesse enchido a cara no dia anterior, não sinto o desconforto do enjoo, mas sinto a tortura psicológica das minhas ações. A vulnerabilidade que a tensão de estar sozinha me causou, meu cérebro maquinando formas de lidar com o que estava por vir e a mudança brusca de cenário com a chegada de Jimin. Sinto tudo isso também em forma de rigidez e dor acumulados nos ombros e nas costas.
Quando estou prestes a me levantar da cama e partir em direção ao banheiro, ouço três batidas firmes na porta de meu quarto. O som inesperado faz com que meus olhos corram imediatamente para a marcenaria branca, ficando lá por alguns instantes. Sendo sincera, não penso em absolutamente nada, mesmo que eu devesse pensar no que está por vir ou sobre todos os assuntos pendentes para hoje que precisarei lidar. Mas não penso; em nada. Como também não penso em nada quando me levanto, nem quando caminho até lá e muito menos quando abro a porta de meu quarto em um som abafado. Mas penso — e muito — quando meus olhos encontram a figura de Jimin logo ali em meio ao corredor.
Camiseta branca, jeans claros e os cabelos alaranjados jogados para trás. Sua imagem de agora é diferente da que encontrei quando abri a porta do apartamento no ano passado; ela ainda instiga, ainda é fascinante. Mas, ainda que pareça feroz, não é caótica. Talvez seja a falta do sangue escorrendo pelo queixo, o olho esquerdo inchado e o corte evidente no supercílio.
É... Talvez seja isso.
— Pensei que estivesse morta. — Sua voz vem rouca e me chacoalha um pouco o cérebro. Não digo nada para sua hipótese verbalizada sem hesitação alguma, porque, pensando bem, eu também acreditei que estivesse. — Você vai acordar?
Quando vejo seus olhos desviarem da minha face e mirarem por um instante o alto de minha cabeça, torno-me extremamente consciente da minha aparência. Camiseta larga até as coxas, calça de moletom, rosto amassado e cabelo desgrenhado. O último sendo, possivelmente, o alvo da curiosidade julgadora de Jimin.
Maravilha!
Já não bastasse a bagunça mental, há também a física.
— Acho que já estou acordada.
Seus olhos voltam para meu rosto outra vez. Jimin ainda parece querer incitar uma briga, ainda parece querer dizer coisas que não sabe ao certo se deve ou não dizer. A energia que emana, no entanto, não é pesada; ela é misteriosa, como um segredo nunca contado, como um tesouro nunca encontrado.
— Eu vou embora daqui a pouco, achei melhor avisar. — Seu semblante é impassível, a arrogância ali já me é vista com naturalidade. — Yoongi disse que vai chegar mais cedo do que planejava, decidi ir embora antes também. Você está me ouvindo?
Estou no meio de um bocejo aberto e longo e só entendo agora, quando seu rosto está me olhando com as sobrancelhas franzidas. Pisco os olhos marejados depois que finalizo, assentindo.
— Sim, estou.
O último olhar que me entrega é mortal, quase como um insulto gritado. Eu gostaria de lhe dizer que não foi por mal, mas não há tempo algum. Logo em seguida Jimin vira-se em direção à cozinha, caminhando para longe de mim. Seus movimentos fazem com que o cheiro de patchouli alcance meu nariz com facilidade; a fragrância do sabonete lhe caindo muito melhor do que em mim e — ouso dizer — em qualquer outra pessoa que já tenha usado.
— Eu tomei a liberdade de passar café.
Ele diz por cima do ombro, desaparecendo por detrás da porta do cômodo um segundo depois.
— Tudo bem. — Altero a voz para que ele me ouça, completando em seguida: — Obrigada!
Ao não receber nenhuma resposta sua depois de esperar por alguns instantes ali, entre o corredor e meu quarto, vou ao banheiro para escovar os dentes, prender os cabelos e lavar o rosto. Tento também expulsar a sensação de devaneio que me ronda como o epílogo de uma bebedeira mal intencionada. Não consigo.
A ressaca moral é algo que me incomoda bocados; não é de hoje.
Não gosto da ideia de ter sido pega por Jimin em meio a uma crise de ansiedade ao entardecer passado. Como também não gosto de lembrar que ainda me sentia vulnerável pela sensibilidade emocional quando a surpresa pela sua presença me alcançou. Gosto menos ainda da ideia de não ter me comportado da forma como costumo me comportar. Mesmo que a possibilidade de Jimin ter percebido algo seja pequena — levando em consideração todo seu egocentrismo soberbo e fervoroso —, ainda me incomoda. Assim como a situação com o Yoongi logo depois do ocorrido também me incomoda, mesmo já sendo resolvida.
Inspiro todo o ar que consigo e logo depois o solto gradativamente.
Ontem foi um dia cheio, afinal; atípico e horripilante. Não há nada que possa ser feito em relação a atitudes já tomadas, a sentimentos já sentidos. A única coisa que me é permitido fazer por agora é lidar com o sentimento de invasão sentimental que me toma o peito.
Nada além disso.
Coloco a camiseta longa dentro da calça antes de entrar na cozinha e ver Jimin sentado em um dos bancos da ilha, de costas para a porta. Ele parece concentrado demais em qualquer coisa que esteja lendo em seu celular para me perceber aqui. E, enquanto contorno o móvel principal e paro em frente à cafeteira, penso que sua presença em meu apartamento ainda me deixa atordoada. Ela é como uma peça que não se encaixa em lugar algum do quebra-cabeça.
— Deu tempo das suas roupas secarem? — Pergunto assim que me viro, encostando-me contra os armários embutidos ao que levo minha xícara de café para perto da boca.
Essa é uma tentativa de tentar varrer para longe o sentimento de exposição e o sentimento esquisito que nos ronda, mesmo que só eu saiba sobre a motivação que me incentiva a fazer isso.
A cabeça de Jimin não se mexe, mas seu olhar sobe do aparelho telefônico para me observar assoprando a bebida quente. Ele fica um tempo, portanto, em um silêncio pequeno e conflituoso. Seus olhos afiados me medem com afinco, trazendo-me a memória clara do momento em que nos encaramos na noite passada.
Ele bloqueia a tela do celular e o deixa de lado depois de uns instantes. Jimin parece ponderar sobre dizer algo ou me deixar sem resposta. Talvez ainda esteja ferido pelo bocejo de antes, não sei bem. Seus olhos espelham um tumulto torturante de pensamentos cheios de contras e prós, no segundo seguinte ele vem em um simples e carregado:
— Sim.
Mesmo que sua figura em si não pareça caótica, entendo agora que talvez todo o caos que lhe ronda faça morada em seus pensamentos. Jimin parece carregar consigo opiniões fortes e controversas sobre centenas de coisas; parece uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer instante.
— Você esqueceu as laranjas. — Sua voz surge antes mesmo do que pensei que viria. De imediato não entendo o que fala, até vê-lo indicar o pedaço de papel com anotações à mão perto da fruteira. — Procurei laranjas pra fazer suco, mas não encontrei.
Olho para a lista de mercado feita ontem às presas, lembrando-me do momento exato que decidi que não as levaria.
— Não esqueci. — Tomo um gole do café puro antes de continuar, não me importando em explicar inutilidades sobre a minha vida: — Não sei escolher nada que vem do hortifrutti. Quem compra sempre é o Yoongi, ontem foi meu dia e por isso não comprei.
— Não sabe escolher?
Sua pergunta vem quase violenta, como se questionasse o porquê de estar sendo alvo de uma mentira tão ruim como essa. Por fim, dou de ombros.
— Sempre escolho as frutas podres.
Jimin ergue as sobrancelhas em entendimento, a boca inchada inclinando-se um tanto para baixo. Gosto de ter sua atenção. E, antes que seus olhos se desviem mais uma vez, minha voz salta entre nós dois:
— Dormiu bem?
Sei que continua não sendo inteligente me arriscar dessa forma e ser descoberta de uma maneira vergonhosa sobre minhas verdadeiras intenções, mas ainda carrego comigo um desejo infundado de saber mais sobre ele, de conversar sobre ele.
Sua cabeça meneia; pensante. Os olhos ainda fincados em mim. Quase consigo ver os contras e prós saírem pelos seus ouvidos em uma confusão visual e mental.
Contras e prós.
Contras e prós.
Contras e prós.
— O Yoongi trocou de colchão? — Vem por fim, os olhos desdenhosos se desviando dos meus apenas para que ele agora se concentre nos dedos adornados por anéis prateados. — Parece mais macio que antes...
Nego mesmo que ele não veja, mesmo sem saber se existe uma resposta correta para seu questionamento. Apenas permaneço ali, então, calada. Enquanto beberico um pouco do café da xícara, meus olhos dançam pelos dedos de Jimin também; ele ajeita as pratarias que os enfeitam com destreza, como uma mania que carrega consigo. Os adereços possuem detalhes distintos, mas não raros. O meu favorito sendo o do dedo indicador direito; arco com minudências sucintas e ao meio uma pequena flor delicada.
— Yoongi contou que você está no terceiro período de Arquitetura.
Sua afirmação é quase acusatória e me pega desprevenida pelo tom e pelo assunto abrupto. Desvio meus olhos das suas mãos e o encaro o rosto, não me sentindo surpresa ao descobrir seu olhar já em mim.
Bebo mais um gole de café, levando o tempo necessário para saboreá-lo antes de assentir. Jimin fica mais algum tempo me olhando, como se me estudasse, me analisasse. Por fim, ele se inclina sobre o balcão que nos separada; o movimento escorregando a camiseta branca por sua clavícula e revelando o início de uma de suas tantas tatuagens.
— Sabe? Eu estou num dilema aqui. — Sua mão desliza pelos fios alaranjados, jogando os cabelos para trás. A voz é mansa, mas seus olhos são prepotência pura; um quê de raiva acumulada. — Eu sou alguém que gosta de se dar bem com os outros. Gosto de ser amigável, entende?
Quase me deixo franzir o cenho com o que diz. É inevitável pensar que nem sequer Jimin acredita no significado das suas próprias palavras, mas evito qualquer reação. A mudança repentina do rumo da conversa me faz curiosa e sou toda ouvidos, ainda mais que antes.
— E você é prima do Yoongi, então isso seria um bom motivo pra que a gente conseguisse desenrolar uma conversa. — Pausa, passando a ponta da língua pelos lábios cheios antes de continuar: — Mas o grande problema é que você também cursa Arquitetura e isso pesa no meu peito.
Dessa vez não deixo de me permitir transparecer confusão, até porque ainda não entendo aonde Jimin quer chegar com isso.
— Pesa no seu peito?
— Sim, cursar Arquitetura é um pré-requisito pra que eu não goste de você. — Jimin solta um suspiro teatral, sarcástico, os braços agora se apoiando sobre o balcão e ele descansando o rosto entre as mãos. — Não é nada pessoal, no entanto. É só a vida seguindo seu percurso.
Fico o encarando por um tempo, sentindo uma necessidade grande de rir em descrença. Ele é mesmo competitivo demais e nem sequer esconde. É até bonito de ver todo o seu esforço em ser desagradável, alguém digno de ódio.
Afasto a xícara de meu rosto, apoiando-a na bancada ao meu lado. Percebo que Jimin espera alguma resposta minha ou alguma reação previsível. Cruzo os braços, pigarreando antes de perguntar:
— Caramba, quem partiu seu coração?
Jimin deixa crescer um sorriso nos lábios bonitos, um sorriso sacana e sagaz. Talvez um sorriso de quem percebe agora que não me sinto intimidada, pelo menos não da forma como ele gostaria que eu me sentisse.
— _____? — Ele me chama e sinto-me confusa por um instante. Não me lembro de ter dito meu nome. — Tem outro ponto também.
Informa, me fazendo mover a cabeça interessada no que diz.
— Qual seria?
Seus olhos amolados se agarram aos meus. Jimin é cheio de camadas, fragmentos; juntos e bagunçados em uma harmonia entre cores pesadas e leves, entre contrastes grotescos do suave ao feroz.
É fascinante.
Ele solta um suspiro arrastado, o rosto sendo abandonado pelas duas mãos ao que as usa para jogar os cabelos para trás mais uma vez. Quando percebo os fios outonais caindo pelas laterais do seu rosto em camadas bonitas, sua boca revela o que parece ser a combinação de palavras mais insana que já ousei ouvir algum dia:
— Você é minha dupla na disputa para a vaga de monitoria da disciplina da Sra. Lee. E eu não gosto disso.
Pela primeira vez no dia, sinto meu corpo reagir genuinamente em meio à esse cenário fantasioso. Endureço de tensão, um calafrio me subindo a espinha e meu rosto se tornando impassível pelas palavras ouvidas.
Eu deveria ter imaginado isso vindo, deveria ter esperado esse momento chegar desde que recebi o e-mail. Mas a grande verdade é que ainda não havia conseguido lidar com a primeira etapa, com o momento em que eu aceitaria que a informação era verdade... E, se eu ainda não sabia como lidar com ela, eu sabia muito menos como lidar com o depois.
Ou, melhor, com o agora.
Maldito e-mail.
Maldito.
Meus pensamentos correm desastrados para o correio eletrônico recebido da Sra. Lee durante a tarde de sexta-feira. Os dizeres ainda parecem inconsistentes, irreais. As frases formuladas não fazem sentido mesmo agora, mesmo depois de ter descansado por horas a fio; ele continua a se parecer uma invenção do meu inconsciente.
Ilusório, extremamente delirante.
— Desculpa, — é o que digo, escolhendo o caminho mais fácil. — O quê?
Seus olhos se franzem em minha direção, cheios de desconfiança. Talvez eu seja tão ruim quanto Yoongi em mentir, mas eu preciso tentar ao menos.
— Yoongi me contou que você é do segundo período e que está concorrendo a uma vaga de monitoria. — Sua cabeça se inclina minimamente para o lado. — Alunos do segundo período não podem se candidatar para nenhuma dessas vagas, só se for convidado.
Pigarreio, desviando meus olhos do seu como uma forma de me defender. Busco minha xícara sobre o balcão mais uma vez, tomando um grande gole antes de dizer:
— Eu não estou entendendo o seu ponto.
Ele ergue as sobrancelhas, soltando um riso descrente.
— O meu ponto? — Jimin se ofende, é claro perceber isso pela forma como sua voz se altera minimamente. — O meu ponto aqui é que só existe uma vaga para monitoria aberta e só uma aluna do segundo período concorrendo nela.
Mais um gole de café. E depois mais outro.
Minha mãe sempre me disse que é difícil entender o que se passa dentro de mim, nunca se sabe ao certo se estou triste, feliz ou incomodada. Minha expressão facial não tem lá grandes alterações em frente a eventos importantes e/ou chocantes. Salvando o que me aconteceu há um mês e que me fez frágil diante dos olhos de Yoongi, eu sou vista como alguém apática, impassível. Não é a toa que sempre foi difícil obter amigos durante todo o tempo até aqui.
E não é a toa também que Jimin se sente visivelmente incomodado pela minha falta de reação diante de algo tão revoltante para ele.
— Você não recebeu o e-mail?
Seu cenho se franze consternado, enquanto ele estende seu celular em frente ao meu rosto para que eu leia o que está estampado na tela. Inclino-me minimamente para frente, franzindo os olhos para enxergar as letras miúdas logo ali.
Mesmo eu tendo o lido milhares e milhares de vezes no caminho entre a faculdade e o mercado do bairro, ainda me sinto pouco convencida. Ainda parece fora da realidade para mim e é por isso que o leio outra vez, letra por letra, palavra por palavra.
Boa tarde, meus caros
Parabéns novamente por venceram mais uma etapa eliminatória! Agora falta pouco.
A próxima fase da disputa para a vaga de monitoria em Projetos é a minha favorita. Vocês deverão montar um projeto de urbanização no prazo total de três meses. As áreas a serem trabalhadas serão sorteadas por mim e enviadas por e-mail a vocês no início da semana que vem.
O prazo dado é mais do que o suficiente para que desenvolvam um projeto completo com todas as seis primeiras fases que apresento em aula: briefing, estudo do local, estudo de viabilidade, estudo preliminar, anteprojeto e o projeto de aprovação. Decidi ser boazinha com vocês e tirar a parte do anteprojeto ao qual vocês deveriam pensar nos projetos complementares (estrutural, hidrossanitário e elétrico).
Cada etapa deve ser documentada em um trabalho escrito, relatando ações e conclusões tomadas; esses trabalhos deverão ser entregues ao longo dos três meses em prazos individuais. O primeiro prazo será informado no e-mail da semana que vem, fiquem atentos.
Nessa próxima fase vocês trabalharão em dupla! Não é permitido a troca entre vocês, assim como não existe a menor possibilidade de trabalharem de forma individual, quero ver trabalho em equipe.
Jongsuk (sexto período) x Eunha (sétimo período)
_____ (segundo período) x Jimin (sexto período)
A melhor dupla vai para a fase final. Boa sorte!
Se tiverem alguma dúvida, podem me procurar.
Beijinhos
Ergo as sobrancelhas ao que finalizo a leitura, recolhendo o dedo que usei para deslizar a tela do aparelho. E, enquanto vejo Jimin colocar o celular no bolso da calça, endireito-me no lugar para finalizar o café que ainda resta na xícara.
— Ah, isso. Recebi, — falo depois de um tempo, respondendo sua pergunta de antes. — Mas ainda tinha uma esperança besta de que não fosse verdade.
Vejo seu peito se inflar em descrença, os olhos afiados me olhando com tanta fúria que não me resta mais dúvida de que Jimin quer mesmo incitar uma briga.
— Não acredito que você é mesmo a _____. — Ele solta um riso sem humor. — Me diga, eu vou precisar ensinar você a desenhar? Vou ter que te ensinar topografia? A sua participação é algum teste de paciência? Uma peça que estão pregando em mim?
Não respondo, porque não sinto necessidade alguma. Talvez meu silêncio ainda seja visto como uma forma de incomodá-lo ainda mais, mas não ligo. É um tanto prazeroso ouvi-lo falar tão cheio de si.
Quando percebe que não direi nada em frente a sua tentativa óbvia de me amedrontar, Jimin inclina-se sobre a mesa, os cotovelos apoiados no balcão entre nós dois e os olhos estreitos e perigosos.
— Você já deve saber sobre a minha fama no curso, eu não sou nada amigável e fico pior quando preciso ter de lidar com trabalhos em grupo. Não vou ser diferente com você, mesmo você sendo prima do meu melhor amigo.
Sua voz é tão branda que toda sua intenção parece ambígua. Talvez seja seu lado travesso como o inferno, afinal. Persuasivo, cheio de flertes graves e escorregadios.
— Desde quando você sabe sobre isso?
É o que acabo perguntando. Sinto que com sua atenção voltada para mim, e toda a vulnerabilidade que ele tanto tenta disfarçar, posso tudo. Posso, inclusive, me sentir melhor pelas coisas que aconteceram ontem, pela quase exposição sentimental e pelas ações perturbadas que tive ao ver sua figura tão bonita em meio a minha sala.
— Antes de chegar aqui.
Dessa vez, quem acaba sorrindo sou eu. Parece óbvio agora o motivo de todo o seu comportamento arisco desde que chegou. Talvez ele seja realmente arrogante com todos a sua volta, mas ainda gosto de acreditar que nessa ocasião esse seu lado tenha sido carregado ainda mais por sua descoberta a respeito da vaga de monitoria.
— Como conseguiu que a Sra. Lee te convidasse para a disputa?
É ele quem pergunta dessa vez, o tom competitivo e feroz. Procurando pensar sobre a resposta, reservo um tempo para caminhar até a pia e deixar a porcelana vazia que ainda carrego.
Quando me viro, dou de ombros.
— Fiz uns pactos, subordinei alguns professores. Sabe como é.
Sua boca bonita me dá um sorriso completo, os dentes brancos à mostra e os olhos estreitos. Apesar de ser uma bela visão, seu sorriso não é nada sincero; ele é movido por puro sarcasmo.
Jimin escorrega para fora do banco, ainda sobre a mira dos meus olhos atentos. Ele pega a mochila do chão e a pendura em um dos seus ombros. Não sorri mais quando me olha outra vez.
— Quarta-feira às 16h, no último andar da biblioteca principal. Não se atrase, esse projeto não pode ter erro algum. — Avisa, aprontando-se para ir embora. No entanto, antes de sumir pela porta da cozinha, vira-se para mim: — Tem alguma coisa para dizer?
Pareço pensar. Tento buscar algum possível compromisso na data que disse, mas não existe nada que me impeça de estar lá no horário estipulado. Existe na terça e quinta, mas não na quarta.
Nego silenciosa, abrindo um sorriso aberto como o dele, apenas para dizer:
— Vejo você lá.
Jimin solta um riso, o ar saindo pelo nariz em claro desaforo. A visão dos seus olhos revirando em impaciência é a última que tenho antes dele virar de costas e ir embora de vez.
Quando ouço a porta da sala bater, toda a realidade me acerta como um soco na boca do estômago. Puta merda. É mesmo verdade, afinal. Eu e Jimin fomos selecionados para sermos uma equipe, para trabalharmos juntos por três meses em cima de um projeto de reurbanização.
Ótima forma de iniciar o semestre.
Ótima.
Acabo grunhindo em frustração, vendo-me então sozinha em meio a cozinha com duas certezas; a primeira é que não faço ideia do que está para acontecer nos próximos meses, a segunda é que estou sozinha. De novo.
Olho para o relógio analógico em cima da porta que dá acesso a lavanderia, ainda tenho tempo até que a noite chegue e o terror se instale. Com sorte, Yoongi chegará antes das luzes naturais irem embora, me poupando assim de mais uma crise de ansiedade.
Respiro fundo, girando os ombros para trás e mirando agora um par de meias sobre a máquina de lavar. Não me demoro a perceber que são as mesmas que molhei ontem à noite e que sumiram durante a madrugada.
Jimin as lavou?
Transtornada com a suposição, pego-as, caminhando pesado até meu quarto para, em seguida, enfiá-las no fundo de uma das minhas gavetas. Como se, dessa forma, eu também pudesse enterrar o projeto de monitoria, o cheiro doce de Jimin e seu sorriso ardiloso, perigoso e bonito.
Park Jimin
Autora: Agness Saints
Gênero: Romance
Sinopse: Com a nova vaga para monitoria sendo aberta e um projeto obrigatório em dupla sendo lançado, Park Jimin acha que entre vocês só existe dois sentimentos: rivalidade e ódio.
Mal sabe ele que você só guarda amor…
Eram cinco horas da tarde em todos os relógios de Seul quando Park Jimin apareceu em frente a porta do apartamento 423.
E você a abriu.
E se apaixonou.
Contagem de palavras: 2.436
Avisos: +16. A história faz parte da série puerlistae au.
A parte “eram cinco horas da noite em todos os relógios” foi inspirada na poesia A Captura e a Morte de Federico García Lorca. O conteúdo não se relaciona em nada com a história, só gosto muito dessa parte.
Parte: 1 | 2 | 3
Playlist.
O barulho do chuveiro sendo ligado não demora a chegar aos meus ouvidos. E, por um tempo, fico imóvel. Consigo sentir meu coração bater mais forte do que antes no peito, assim como também consigo sentir meus braços vibrarem pela dose extra de adrenalina. Não sinto mais medo, não sinto mais que estou a ponto de ter um colapso nervoso. De maneira esquisita e breve, sinto-me perdida por sentimentos tão intensos e conflituosos terem sido arrancados de mim de uma hora para outra. Talvez substituídos pela surpresa genuína, afinal.
Vagamente volto a me mexer, juntando as comidas de cima da mesa de jantar e as enfiando nas prateleiras limpas dos armários da cozinha. As tarefas de etiquetá-las e tabelá-las sendo deixadas automaticamente para outro momento; para um momento em que eu consiga pensar nelas e não na pessoa que toma banho em meu banheiro agora.
Tomo meu tempo para sentar sobre um dos bancos da ilha da cozinha, olhando para os armários agora fechados e limpos. Tento pensar em coisas aleatórias, sobre as aulas que assisti pela manhã e sobre a refeição que fiz no horário do almoço, mas existe tanta coisa se passando pela minha cabeça que não consigo me prender em uma só. Não quando se parece ter tantas outras mais importantes do que a matéria nova na aula do Sr. Kim e o frango frito ao molho apimentado.
— I love you like like like like like like...
O toque de meu celular estoura sobre a mesa de centro na sala e, enquanto meu corpo sofre outro susto repentino, penso que não preciso de muito para saber exatamente quem me liga. Meu relógio marca 20h17 passadas e só existe uma pessoa além de mim que sabe sobre todo o tormento que esse horário carrega.
Atrapalhando-me na divisa de cômodos, tropeço nas botas de combate de Jimin em meio à sala e encharco minhas meias nas poças d’água no chão. Lutando para não cair entre o sofá e a mesa de centro, apanho o celular antes que a ligação se encerre.
— Você não atendeu! — Acuso assim que aceito a chamada. A falta de cumprimento entre primos com toda certeza é uma mania familiar. Ou só uma mania minha mesmo. — Eu te liguei mais cedo.
Diferente de antes, o ambiente que Yoongi está agora parece agitado. Julgando pelas vozes e o alto-falante, ele já deve estar na rodoferroviária.
— Estava falando com o Jimin, por isso não vi. — Devolve, paciente. — Ele já chegou?
Sinto minha respiração trancar na garganta. Park Jimin em meio a minha sala não é uma alucinação, portanto. Sento-me com cautela na beirada no sofá, tentando lidar com a recente descoberta e com minhas meias molhadas.
— Chegou.
Minha voz sai como em um sussurro; como em um segredo. Deslizo meu corpo até o encosto, sentindo as almofadas do sofá de couro me receberem com prontidão. Aproveito para arrancar as meias e jogá-las no chão.
— Ótimo! Fiquei com medo que ele não fosse chegar a tempo.
Penso em perguntar de o porquê ele o ter chamado, mas é sem fundamento, porque sei a razão. Ela é simples, nada complicada. Todo o meu ataque de ansiedade de mais cedo me faz ter certeza do motivo. Yoongi sabia também que eu não conseguiria passar por isso sozinha.
— Pensei que Jin seria sua primeira opção.
Não é o que eu realmente penso, mas a frase acaba saindo antes mesmo que eu consiga pensar sobre ela.
— O Jin está resolvendo umas coisas do apartamento, não teria como ir. — Há uma pausa e sua respiração pesada. Parece pensar em algo antes de continuar: — Eu sei que você e Jimin não se conhecem direito, mas você não precisa mais se preocupar, está segura. Ele vai ficar aí até amanhã quando eu voltar.
Penso em lhe dizer em tom de deboche que o único a não conhecer alguém por aqui é Jimin, mas não existe espaço algum para tal. E muito menos existe coerência mental para que eu consiga assimilar tudo o que está acontecendo e ainda fazer uma bela piada sobre. Diferente disso, acabo me questionando a respeito de outra coisa.
— Você... — Antes de continuar, meus olhos correm para a entrada do corredor por precaução. — Contou pra ele?
Yoongi leva um tempo até entender sobre o que me refiro; sobre minha insegurança e o motivo por Jimin estar aqui. Quando entende, explode em um altíssimo “não”, completando:
— E ele também não perguntou.
Solto a respiração de alívio, sentindo meus ombros tensos da semana protestarem pelo movimento.
— Olha, eu sei que o que você ouve sobre ele não é legal.
Franzo o cenho questionando mentalmente o rumo que a conversa pode tomar.
— Sei que no seu curso as pessoas falam sobre como ele é complicado e arrogante. — Continua quando não digo mais nada. — Ele realmente é, não vou mentir. E me atrevo a dizer que nem ele falaria o contrário.
Cansada, fecho os olhos por um instante, enquanto absorvo tudo o que ouço.
É verdade que a fama que Park Jimin leva não é a das mais agradáveis. Apesar de ser mesmo o aluno destaque, ter uma das melhores notas do curso e ter trabalhos notáveis publicados na biblioteca oficial da instituição, ele também é conhecido como um escroto, pau no cu. Não é amigável ou cortês, é competitivo e leva tudo à sério quando se trata de faculdade. Persuasivo ao extremo, usa da sua boa reputação com os professores para se negar a fazer trabalhos em grupo.
Ele é o próprio pesadelo.
No entanto, não há tempo para que eu replique; quando estou prestes a dizer algo sobre como isso não ajuda em nada na reputação de seu amigo e o motivo por tê-lo chamado para nosso apartamento, a porta do banheiro se abre em um baque muito mais sucinto do que quando foi fechada. Minha boca se cala automaticamente. Sem ao menos compreender, meus olhos correm outra vez para a entrada do corredor; e acabo me perguntando quando exatamente a água do chuveiro parou de correr sem que eu percebesse.
A respiração de Yoongi bate em meu ouvido através da ligação e se mescla agora aos passos de Jimin pelo assoalho. Sinto-me subitamente alerta, minha postura ereta e meus olhos atentos. A todo caminhar que se aproxima, percebo cada vez mais que o espero, percebo cada vez mais meu coração aumentando seu ritmo.
— Jimin é muito mais intimidador do que eu. — Yoongi ainda parece tentar se defender da escolha que tomou; e já não sei mais quem ele tenta convencer: eu ou a si mesmo. Parece completamente alheio ao que se passa desse lado da ligação. — Acredito de verdade que você vai se sentir mais protegida com ele aí do que quando está comigo.
De repente, a voz de meu primo se torna um som abafado e sem nexo, ouço-a longe como um grito em um local aberto. Não presto mais atenção alguma.
A figura de Jimin é taciturna, mas imponente.
Quando sua presença invade a sala trazendo o cheiro de patchouli e mel, penso que poderia dizer que o que mais me prende a atenção nele agora é a toalha enrolada na cintura, as tatuagens à mostra, as gotas escorrendo por sua pele ou os cabelos encharcados jogados para trás; mas, caso escolhesse uma delas, eu teria de ignorar seu olhar.
E isso é impossível.
Com olhos afiados, impetuosos e certeiros, ele me encara por todo o caminho que percorre. Do corredor a outra ponta que estou do sofá. Ele me encara da mesma forma que o faço. É como o decreto de um conflito silencioso, temporário e sem objetivo algum. Enquanto a voz de Yoongi continua como um som sem cabimento em meu ouvido, Jimin se abaixa lentamente; seus olhos em uma fresta desafiadora pelo ângulo. Não ouso desviar o olhar e atrevo-me a dizer que nem sequer quero. Há algo em Park que emana tentação e dor, algo que eu não entendo e que me prende a atenção. Talvez seja sua aura autêntica acompanhada por seus olhos que expressam muito, mas que não dizem nada.
Seu corpo esguio se endireita logo em seguida, mas ele toma seu tempo ao ficar alguns segundos ainda ali, parado e me olhando. É como se quisesse dizer algo, como se quisesse incitar uma briga. E tento entender se suas atitudes são de ataque ou defesa.
Não chego à conclusão alguma.
Quando o acompanho até que suma pelo corredor outra vez, percebo que levou consigo a mochila antes ao lado do sofá, mas que deixou para trás o rastro dos aromas do banho e um sentimento agridoce na ponta da minha língua.
Jimin também deixa uma sensação esquisita, curiosa.
A porta do quarto de Yoongi bate alguns instantes depois, tirando-me do transe e de toda a bolha excêntrica que os olhos de Jimin me enfiaram. E, no instante seguinte, a voz ao telefone ganha vida novamente:
— ... É um dos meus melhores amigos e por isso posso dizer também que é um cara legal.
Levo um tempo para retornar ao assunto, minha mente parecendo começar a falhar, a desacelerar. Não sei mais se é pelo cansaço ou pela sensação aérea que o encarar dos olhos de Jimin me deixaram. Deito minha cabeça sobre um dos braços no sofá e miro significativamente o vaso de flores artificiais sobre a mesa de centro.
— Você pode aproveitar para tirar umas dúvidas com ele sobre aquele projeto, olha só. Isso é ótimo! — Yoongi parece terrivelmente animado com sua própria ideia. — Eu tenho certeza que ele não se recusaria a te ajudar nisso, você sabe, ele gosta de ser o centro das atenções. Sei que você é esperta, vai usar isso ao seu favor.
Solto um suspiro longo. Por um mero instante eu esqueci por completo sobre a disputa para a vaga de monitoria de Projetos. Atrevo-me a dizer que, se Yoongi não tivesse falado a respeito, talvez eu tivesse conseguido ignorá-la até amanhã quando acordasse.
O e-mail de mais cedo, com todas as suas palavras delirantes e beirando a alucinação, acaba agora me surgindo em mente. Não sei se estou pronta psicologicamente para tentar distinguir imaginação de realidade, não depois de tudo o que aconteceu hoje e, definitivamente, não depois do lembrete claro de Yoongi sobre toda a fama que Jimin leva.
Todos os assuntos pendentes hoje ficarão para a minha eu do futuro lidar. De novo.
— Hayun, desculpa se te deixei desconfortável, mas eu juro que o Jimin é mesmo legal.
A voz de Yoongi vem outra vez e subitamente meus pensamentos retornam ao presente; sua fala pesada me chama a atenção de imediato e por um tempo tento entender como o clima se arrastou até aqui.
Existe arrependimento, preocupação e desculpas.
E logo entendo.
Todo o meu silêncio em frente as suas tentativas de me convencer sobre a índole de Park Jimin tiveram significados distintos para nós dois.
Inferno.
Não me sinto desconfortável com Jimin ou qualquer coisa que Yoongi esteja pensando agora. Só sinto-me pega desprevenida, porque de todas as pessoas que poderiam aparecer ensopadas em minha sala dizendo que iriam passar a noite, Jimin era a última que imaginaria.
— Não, não é isso. — Nego veementemente, como se ele pudesse ver. Acabo por sentar-me no sofá outra vez, zonza. — Desculpa. Eu só tive um dia cheio, você sabe. Essa semana foi pesada para mim.
E não minto, porque foi mesmo. Sinto que tudo o que estou passando desde o início da semana foi maximizado pela preocupação, ansiedade e cansaço. Hoje sendo o ápice de bizarrices sentimentais e estresse psicológico. Para a maioria das coisas nem sequer me importo de reagir de maneira torta e esquisita, mas nessa situação em específico sinto-me ultrapassada; não só pela interpretação equivocada, mas por correr um risco sem necessidade.
Há algo em Jimin que me faz querer conversar sobre ele sem motivo algum, sem intenção alguma. Ele me intriga e faz com que eu me questione sobre dezenas de certezas que tive e tenho. Esse meu desejo secreto e sem fundamento sendo a razão principal pela qual não interrompi Yoongi em seu monólogo sobre o melhor amigo. Eu queria ouvir mais sobre ele, afinal. Mesmo que não seja nada inteligente fazer isso com meu primo e sua última posição na lista de “pessoas com quem eu gostaria de conversar sobre Park Jimin”.
— Muito obrigada, sério. — Digo sincera, quase de maneira dolorosa. Dessa vez sou eu que tento convencê-lo de algo. — Eu me sinto melhor agora, não me sinto desconfortável ou qualquer outra coisa. Obrigada por ter se preocupado e ter dado um jeito.
A resposta de Yoongi vem em seguida, um suspiro longo e aliviado. E enquanto o ouço se despedir rapidamente para apanhar seu trem, deito-me outra vez no sofá; meu corpo todo parecendo ceder ao estofado macio. Sinto cada músculo meu se render aos poucos quando desligo a ligação e descanso o celular sobre a barriga.
Estou exausta física e psicologicamente.
Resgato minha lista de coisas para se resolver no futuro como uma mania noturna sem cabimento. Sei que não vou resolvê-las agora, mas penso sobre elas da mesma forma; sobre o e-mail, o projeto, a sensação agridoce e Park Jimin. Nada disso fica nos meus pensamentos por muito tempo, no entanto. E finalmente posso descansar dessa semana regada de trabalhos relâmpagos, aulas externas e um caos não habitual.
Meus olhos pesam; se fecham e depois abrem.
Fecham.
Abrem.
Fecham.
Abrem.
Fecham...
Ao se abrirem um tempo depois, deparam-se com os lustres da sala apagados, meu celular caído sobre o tapete e a tempestade batendo contra o vidro da janela. Rolo para fora do sofá, ainda grogue e desajeitada, tateando a parede atrás do interruptor. Quando as luzes se acendem e meus olhos varrem o local, percebo que já passa das duas da manhã; as poças não estão mais ali, assim como minhas meias molhadas.
Por um instante, nos segundos em que existe uma linha tênue entre o dormir e o acordar, acredito que tudo não se passou de um sonho. Uma alucinação, uma invenção. Uma experiência sobrenatural. Tanto faz. Refiro-me a figura encharcada de Jimin, a atitude arrogante, o cabelo outonal e os olhos afiados. Talvez tenha pensado também sobre como a semana exaustiva pode ter sido uma criação bizarra do meu inconsciente ou até mesmo uma viagem para o futuro. Mas logo meus olhos focam nos coturnos pretos ao lado do tapete de entrada e a jaqueta de couro pendurada no chapeleiro.
Todo o enredo hollywoodiano vai-se embora, então.
O que me resta aqui é o desconforto no pescoço pela posição infeliz no sofá e a certeza de que hoje será um longo dia.
Jeon Jungkook
Autora: Agness Saints
Gênero: Comédia, Romance
Sinopse: Parecia piada, quatro anos de um relacionamento frustrante havia chegado ao fim, mas Haneul ainda te atrapalhava a vida. Se ele não tivesse arranjado um namoro relâmpago, você não precisaria demonstrar que está bem também, que não ficou para trás. Você não precisaria, principalmente, contratar aquele maldito acompanhante de aluguel.
Moreno. 1,80 de altura. Porte atlético. Bonito. Inteligente.
Educado. Agradável. Sabe estabelecer uma conversa.
Sem compromisso emocional, apenas financeiro.
Valor sob consulta.
Interessados: [51] 5782-4158
Esquece o “parecia”, a vida é mesmo uma piada pronta.
Contagem de palavras: 11.576
Avisos: +16. A história faz parte da série puerlistae au.
Parte: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16
Playlist. | Playlist 2. | Playlist 3.
Há um amontoado de pessoas perto da porta automática de vidro; o sensor de movimento não para de apitar, mas ninguém se atreve a sair de cima do tapete largo e sintético. É um pequeno caos instalado na loja de conveniência e o atendente tem certa dificuldade em lidar com tanta gente em frente ao caixa. Daqui dos fundos, sentada sozinha em uma das mesas vazias do estabelecimento, consigo enxergar a cena num todo.
A tempestade de verão nos pegou de surpresa no meio da tarde desta quinta-feira, ela veio de repente chacoalhando plantas, árvores, placas e até pessoas. Causou um rebuliço pelo campus inteiro e fez todo mundo correr para se abrigar debaixo de marquises, de toldos sobre os bancos, nas bibliotecas e então em lojas de conveniência.
Sinto meus pés encharcados pela corrida que fiz há pouco tempo, meus tênis estão mais pesados que o de costume e minhas meias começam a esfriar perto dos calcanhares. Sinto também o tecido de minha camiseta colado ao meu tronco e alguns pingos escorrerem pelas minhas costas. O calor lá fora continua o mesmo, mas dessa vez abafado e grudento.
Olho ao meu redor, pensando se adianto o jantar ou se invisto em algum café gelado. Tento calcular o tempo que tenho até a reunião do meu curso — que descobri ter ontem — e o que gastaria em cada uma das opções. Mas antes mesmo que qualquer decisão pareça crescer, um trovão estoura lá fora, fazendo meu corpo e o pequeno tumulto na porta se contraírem de susto.
Suspiro alto, o ar saindo por minha boca quando remexo-me sobre o banco redondo. Sucumbo. Enfio minhas mãos nos bolsos da calça jeans e os esvazio sobre a mesa. Algumas moedas dançam, meus fones quicam e as notas de dinheiro amassadas ameaçam voar pelo vento do ar condicionado. A superfície vermelha é tomada pelos meus pertences, alguns deles levando pingos aleatórios de chuva, outros secos iguais ao meu celular.
O aparelho agora está em minha frente, em meio à moedas e aos fios do meu fone. Olho-o por algum tempo, é como um peso que preciso me livrar; e gostaria de estar falando do físico. O avião no topo da tela me lembra que bloqueei qualquer sinal telefônico há dois dias quando minha mãe ligou três vezes em uma mesma tarde e enviou mais de quatro pretendentes para encontros às cegas por sms. Não que isso me cause algum tipo de pressão matrimonial como causava antigamente, como também não é como se isso me deixasse ansiosa ou angustiada, só é chato e cansativo. Mesmo eu lhe dizendo que não tenho interesse em nada disso, ela continua insistindo incansavelmente. Pelo menos, tentando olhar por um lado positivo, ela não envia mais suas antigas e rotineiras mensagens listando todas as qualidades de Haneul...
Haneul.
É um tanto engraçado pensar sobre ele agora. Parece ter existido em uma vida distante, passada, mesmo que tenha sido a razão por tantas coisas que fiz e me enfiei. Ele não me afeta mais como me afetava há um tempo, é como se a cotovelada em seu nariz tivesse me libertado de vez.
Algumas coisas mudaram, outras continuaram as mesmas; mas ele parece se encaixar nas duas opções.
Haneul continua sendo Haneul. Os mesmos pensamentos, as mesmas atitudes e seu temperamento difícil de lidar. Mas não mais me procura, não mais me manda mensagens. E isso ainda me parece um mistério. Até porque não acho que as palavras que falei ou as mensagens que não respondi tenham tido tanto poder a ponto de fazê-lo se afastar. Por um instante, entre minhas pelúcias antigas em meu quarto em Naju, acabei pensando que talvez minha mãe tenha tomado a frente da situação. Num pensamento utópico e contraditório, ela teria me defendido, teria o feito se afastar de mim. Mas a ideia parece fantasiosa demais e não me permiti pensar muito sobre, nem sequer alimentá-la mais do que já alimentei. Gosto de pensar então que talvez a vida tenha agido finalmente ao meu favor e o feito se afastar assim, como mágica.
O amontoado de pessoas continua intacto perto da porta, igual à tempestade lá fora. Ela parece varrer cada parte da cidade como uma limpeza física e emocional. E gostaria que ela varresse meu celular também. A chuva é tão forte que a música que costuma preencher o ambiente é só um ruído sonso.
O aparelho agora parece me encarar de volta, parece me cobrar um retorno à vida social. Ainda com ele repousado sobre a mesa, penso que de fato eu precisava me organizar, como também precisava respirar em paz. Mas agora que todos os meus pertences estão no lugar, meu bullet journal está atualizado e consigo ver uma vida universitária mais organizada, sei que não existe mais desculpa alguma para continuar com ele em modo avião. Como também sei que não faz muito sentido continuar dessa forma, até porque não posso mais me privar de coisas por causa dos meus pais, muito menos por causa da minha mãe.
Respiro fundo, finalmente habilitando meu celular a receber todos os sinais telefônicos antes bloqueados. Tento me concentrar no céu cinza do lado de fora, tento não me prender às inúmeras vibrações vindas dele. Por fim, giro meus ombros para trás como um aquecimento. Não consigo desviar a atenção auditiva, eu acompanho cada vibração que chega. Respiro fundo mais uma vez quando percebo que elas se encerraram. Antes de encará-lo tento então focar no que realmente importa. É como um mantra: qualquer coisa que aparecer ali não pode me afetar.
Assim que o encaro, as cores parecem criar vida em frente aos meus olhos, elas moldam toneladas de notificações de uma antiga conta do Twitter que nunca nem sequer usei, outras tantas do Instagram e o restante notificações de mensagens da operadora, de Sorn, do grupo do curso, de minha mãe e de… Espera.
O quê?
Jungkook?
Sinto minha garganta falhar e meu corpo todo se transformar em geleia. Olho para seu nome em minha tela; tão diferente e ao mesmo tempo tão habitual. As cores aparecem agora em um tom mais intenso e vivo, exclusivamente para ele; elas dançam como um sonho distante e nada real.
J-u-n-g-k-o-o-k.
É realmente seu nome; com todas as letras, cores e sentimentos. Está ali, exatamente ali, não está? Seu nome identificando o número novo que recebi de Sorn no início da semana; que salvei com tanto apreço e ansiedade. Está ali; em uma explosão de cores, brilhando muito mais do que qualquer outra notificação.
Pisco algumas vezes. Uma, duas, três… Talvez dez.
[13:17] jungkook: os encontros com a minju acabaram
[13:31] jungkook: é o jungkook
As mensagens continuam ali; a data de ontem encabeçando-as como um lembrete.
Meus dedos apertam meu celular com certo receio de que o momento me escape, quase achando graça de Jungkook sentir a necessidade de se identificar. Quase. Porque não tenho espaço para um riso frouxo ou leveza por agora. Meu corpo parece perder completamente a noção de tempo e espaço, é um trem desgovernado que acaba de passar por cima de toda a minha calmaria.
Todas as outras notificações continuam ali, mas pouco me importo. Meu mantra parece nem sequer existir mais, porque de fato estou afetada. Estou muito afetada.
Por todo o período de férias e por todos os dias em que sucederam minha chegada até aqui, eu planejei tudo o que gostaria de dizer à Jungkook. Com sinceridade e genuinamente. Precisei me policiar para não entrar em contato antes do tempo — do meu tempo —, antes de eu entender o que acontecia na minha vida, dentro de mim. Porque, caso eu fizesse, as atitudes seriam impensadas e os sentimentos verdadeiros sufocados por frases ansiosas e confusas.
Desde que Sorn me entregou o anúncio de designer gráfico, eu pensei em dezenas de formas de aparecer nas notificações de Jungkook. Não vou mentir, pensei mais do que me lembro. Pensei em dezenas de desculpas para conversar com ele, abri e fechei nossa conversa, digitei e apaguei mensagens. Mesmo com o celular em modo avião, não houve um dia desde que botei meus pés aqui que não ensaiei uma aproximação.
Pensando agora, chega até ser um tanto patético perceber que, nas últimas 24 horas, enquanto eu listava modos de chegar em Jungkook e me remoía com poucas ideias, a mensagem dele já estava ali: pronta para ser respondida.
Olhando para suas mensagens agora, penso que parece que todos os assuntos que eu gostaria de dizer simplesmente desapareceram no ar. Meus dedos dançam ansiosos sobre a tela, mas só dançam e não digitam nada por um longo tempo.
Por fim, envio a única coisa que consigo pensar por agora.
[15:40] eu: e eu quebrei o nariz do haneul
Não faço ideia do que eu quis dizer com isso, muito menos o que ele quis dizer com suas mensagens. Os encontros com Minju acabaram. É uma informação nova ou é uma antiga? Ou Jungkook só não sabia o que me mandar também?
Fecho os olhos e respiro fundo, dessa vez não como um mantra, mas como um momento para eu tentar me organizar. A informação que Sorn me trouxe de que Jungkook perguntou sobre mim nem sequer pareceu existir. Ela retoma meu cérebro agora como um tornado, uma tarefa de casa do ensino fundamental que esqueci por completo. Penso então que me afundei tanto no nervosismo de me aproximar dele que nem sequer lembrei que, talvez, ele quisesse falar comigo também.
A cada minuto que passa, sinto-me apreensiva. Meus olhos não deixam um instante sequer a conversa com Jungkook. Eu poderia ter falado sobre várias coisas. Poderia ter resgatado o dia das catracas, poderia lhe dizer que estou melhorando e mudando comigo. Poderia lhe contar que não o procurei, porque precisei me encontrar antes; que não achei justo tentar resolver algo no meio de todo meu conflito interno. Não achei justo comigo e nem com ele. Eu poderia lhe dizer que estou pronta agora, que estou pronta para qualquer coisa, porque estou sendo verdadeira comigo mesma e que eu estou finalmente livre.
Mas não, dentre todas as coisas que poderia lhe dizer, eu escolhi a que citava meu ex-namorado.
Inacreditável.
— Dumb dumb dumb dumb dumb...
Meu corpo sofre um solavanco surpreso ao som de Red Velvet, meus olhos crescendo em pavor quando eu finalmente entendo o que está acontecendo.
É uma ligação.
Uma ligação de Jungkook.
Sinto vontade de gritar, sair correndo em direção ao amontoado de pessoas e os chacoalhar enquanto solto frases sem cabimento algum. Sinto-me eufórica, a flor da pele. O nome estampado na tela grande e brilhosa em minha frente parece um alerta.
Quase caio na tentação de pensar em algo para lhe dizer ao atender, de tentar consertar a frase sem cabimento que lhe enviei, mas acabo pensando que a dele também não foi lá a mais incrível do mundo. Foi? Estamos quites nessa, afinal.
— Oi! Oi!
Minha voz sai alta e urgente, a loja de conveniência parecendo ter sido preenchida por ela como um alto falante. Ela não se parece em nada com as formas que planejei falar. Séria, madura e determinada.
— Oi, é o Jungkook.
— É, eu sei.
E, por um instante, ficamos assim; dividindo uma expectativa sem cabimento, porque eu espero com que ele fale e ele espera com que eu fale. Nossas respirações batendo no bocal e a certeza de que somos péssimos em lidar com esse tipo de situação pairando no ar.
— É... Hm. — Ouço seu pigarrear desconcertado do outro lado da linha. Aonde quer que ele esteja, parece silencioso e calmo. — Você quebrou o nariz do Haneul?
— É. — Respondo, nervosa. É pela lembrança e por ele. — Foi uma confusão tremenda.
— Como assim? O que aconteceu?
A voz de Jungkook é como eu sempre me lembrei e fico feliz por não tê-la esquecido.
Chacoalho-me sobre o banco, pensando em lhe narrar todo o episódio com Haneul em um dos portões do campus. Penso em lhe dizer com precisão, ato por ato, mas percebo que não vale a pena. Não agora. Não quando meu coração bate tão forte no peito que o sinto em meus ouvidos.
— Foi só uma vingança genuína, — falo sem pensar muito — quebrei sem querer.
Ouço um riso descrente e abafado vindo dele e imagino seu nariz se enrugando com o ato. Por alguma razão, meu peito se espreme pela lembrança de seu rosto e todos os seus detalhes.
— Sem querer?
— É, — chio, porque sei que parece suspeito. — Sem querer.
Seu riso se estende por mais um tempo, ele é baixo e leve. E me pergunto se toda essa angústia nostálgica que sinto, Jungkook também consegue sentir.
— Você tá na universidade?
Sua voz me faz sair do transe e, por um instante, não entendo sua pergunta.
— É, sim... — Venho aérea de início, mas tentando me recompor ao repetir: — Sim, eu to. E você?
— Também. — Solta ligeiro, como se já esperasse pela pergunta. — Voltei mais cedo pra fazer a mudança.
Lembro então de seus planos de sair dos dormitórios e se instalar em uma república. Balanço a cabeça em uma afirmação fervorosa, esquecendo que Jungkook não pode ver.
— Deu tudo certo? — Pergunto, meus dedos apertando o celular com tanta força contra meu ouvido que machuca.
— Deu.
O silêncio que vem a seguir parece errado, porque sinto que as coisas estão bagunçadas, fora de ordem. É um silêncio e vários pensamentos brigando entre si em meu cérebro. Giro os ombros para trás mais uma vez, apesar do ar condicionado, me sinto quente.
— E deu tudo certo na sua vinda pra cá?
Dessa vez é ele quem pergunta.
— Deu.
E mais silêncio.
É um jogo de perguntas e respostas. Um programa de auditório no fim da tarde de domingo.
Começo a me sentir aflita, agitada. Não entendo a ligação de Jungkook, não entendo o porquê de eu precisar encontrar uma razão para ela e não entendo o porquê de eu ficar nessa luta interna entre justificador e não justificar.
Remexo-me na cadeira, a chuva parece ter diminuído e, com isso, o pequeno tumulto na porta começa a se dispersar. Olho para as prateleiras de produtos ao meu lado, mas não presto atenção nelas.
— Vai ter uma festa amanhã à noite. — Jungkook anuncia de repente, por trás de sua voz eu ouço uma porta bater. — Não sei… É… Você quer vir? É a despedida do Taehyung.
Meu peito parece trepidar. Flutuo sobre as palavras por pouco tempo, tentando encontrar coesão a todo o meu caos repentino, até sua voz tomar a ligação outra vez:
— É porque eu preciso te entregar uma coisa! — Seu tom é urgente, como se precisasse se justificar pelo seu convite inusitado. — Eu vendi o notebook que você me deu.
Franzo o cenho, perdida em toda a mudança brusca de cenário. Tento ir e vir, tento entender aonde meus pensamentos estavam me levando e aonde de fato eles me trouxeram. Talvez essa não tenha sido a justificativa que eu esperava pelo convite.
— Quer dizer, — ele volta a falar — o notebook que o Haneul pagou.
— Erm... Vendeu? — Minha voz é incerta, surpresa. Ainda me sinto perdida, mas não me deixo chatear pela notícia. Pelo menos, não da forma que me faz acreditar que Jungkook se desfez de um presente meu. Porque, de fato, não era meu; era de Haneul. — O que aconteceu?
Do outro lado da linha, Jungkook parece ponderar por um instante. Ouço sua voz soltar murmúrios sem sentido e sua respiração se intensificar. Enquanto o espero, penso em como as coisas parecem de fato fora dos eixos. Essa não é a conversa que gostaria de estar tendo com ele, esse não é o clima que eu esperava achar.
— Eu contei para os meus pais sobre eu ter sido acompanhante de aluguel. — Solta depois de um tempo e sinto meus olhos se arregalarem pela nova informação. — Meu castigo foi trabalhar com eles na panificadora o verão inteiro, mas não foi bem um castigo, porque eu acabei recebendo por isso.
— Você contou aos seus pais?
Minha voz vem sem eu ao menos perceber, ainda estou absorta por toda a sua coragem. Um tanto surpresa e, completamente, embasbacada. Como também ainda me sinto perdida com o ritmo da conversa em si. Jungkook parece frenético, à mil por hora, enquanto eu sou uma formiga minúscula dando passos pequeninos.
— É! Foi meio doido, a reação deles não foi muito boa, mas foi bem melhor do que eu pensava. — Ri, como se a situação em si tivesse alguma graça. — Pelo menos minha mãe não quis me tirar da universidade.
Minha respiração parece trancar na garganta. É esquisito perceber que nos últimos meses eu e Jungkook passávamos quase pela mesma coisa. Libertação de mentiras e um novo relacionamento com os pais. A única diferença aqui é que ele parece ter tirado proveito financeiro disso, enquanto eu estou tendo que me virar com o que restou da última mesada de dois meses atrás.
— Depois de todo esse tempo, eu decidi vender o notebook, juntar com o que eu ganhei na panificadora e devolver o dinheiro de todo mundo. — Jungkook conclui, mas então retoma: — Quer dizer, não de todo mundo. Eu não quis devolver o dinheiro do Taehyung, porque ele me contratou pra jogar vídeo game com ele e ele é muito ruim mesmo... Isso me irritava um pouco, fiquei com o dinheiro pela paciência que gastei.
Solto um riso nervoso, me lembrando de como eu fui introduzida na vida de Jungkook pela primeira vez. É bom perceber que agora ele mesmo a apresenta, mas é ruim perceber agora também que não soube sobre ela por quase dois meses inteiros.
— E é isso... — Diz, parecendo ficar sem graça quando meu riso desaparece. — Eu comprei um notebook mais em conta. Não é tão bom quanto aquele, mas tem tudo o que eu preciso. Eu comprei um celular também...
— Eu vi. — Apresso em dizer, ainda sou agito, não tenho controle algum sobre o que o nervosismo causa em meu corpo. — Mudou de número, não é?
— Mudei. — Algo do seu lado da ligação cai no chão e o ouço xingar baixo. — Eu perdi o meu a caminho de Busan, no início das férias.
Início das férias.
Foi o último dia em que nos vimos, não foi? Era início das férias...
Sinto uma necessidade esquisita de querer falar sobre nós, de tentar entender o que aconteceu e o que pode acontecer. De tentar entender o que está acontecendo. Esse seria o momento certo, não seria? O momento certo para tirar esse sufoco repentino da garganta, esse incômodo ruim do peito.
— Eu te liguei por isso! — Revela de repente e não o entendo. Tenho dificuldade em lhe acompanhar. — Eu queria te entregar a sua parte amanhã, na festa do Taehyung.
Sinto minha testa vincar e meus neurônios trabalharem em dobro. Uma dúvida antiga e secreta surgindo dentre tanto nervosismo. Será que nós podemos ser alguma coisa ainda? Será que Jungkook quer que sejamos?
— Claro! Claro. — Quase gaguejo. — Certo… Eu vou, então.
Eu fiquei tanto tempo tentando arranjar um jeito de conversar com ele, fiquei tanto tempo tentando organizar meus sentimentos e pensamentos, que acabei esquecendo que existia uma chance grande de nosso tempo ter passado. Apesar de cogitar isso, apesar de saber que essa era uma possibilidade, eu ainda nutria uma certa esperança de que nós ainda pudéssemos existir e que existiríamos então de forma real e sincera.
— Eu não vou negar, to precisando da grana. — Digo, tentando fugir do que posso sentir com o rumo que nós dois pegamos. — Vai ser de grande ajuda.
Mas em meio ao meu riso falso, há o silêncio de Jungkook.
Eu só quero desligar a ligação.
— Ajuda? — Sua voz vem depois de um tempo, mais baixa que o normal, como se soubesse que o terreno a se pisar é delicado demais. — Por quê?
— É, bem... — Começo, meus planos não eram trazer a conversa até aqui, na verdade, a conversa em si seria completamente diferente do que estamos tendo agora. Mas a vontade é válida e real, ela veio de súbito e não quero me frear. Até porque eu ainda sinto uma necessidade bizarra de querer contar as coisas para Jungkook. — Meus pais ficaram sabendo das mentiras por Haneul, foi um completo caos e, no fim, um dos meus castigos foi o corte da mesada.
— Isso… Porra. Espera. — Jungkook não sabe o que dizer e não o culpo por isso. Nas últimas semanas, nem eu sequer consegui entender a situação como um todo. — Um dos?
— Eu fiquei sem celular por um tempo, mas em dois dias eles me devolveram. — Ajeito-me na cadeira, meus olhos fixos sobre o tampo vermelho da mesa. — Acho que o castigo maior foi o clima que ficou na casa dos meus avós.
Suspiro.
Eu sinto saudade do cheiro de verão dele.
— Seus avós não falaram nada?
— Nada. — Dou de ombros, desanimada. — Minha família é muito boa em fingir que nada aconteceu, é tipo como um dom que vem com o gene.
Não é engraçado e por isso nenhum riso vem. Mas mesmo assim sinto vontade de rir, uma risada exagerada e sem cabimento algum, porque ainda estou pensando em como a vida pode ser cretina com a gente.
O nosso tempo realmente passou?
— Pelo menos, você não vai mais precisar gastar grana com um acompanhante de aluguel.
Sua voz vem séria, ainda baixa. É como um pensamento intenso, mas engraçado. Ele não se atreve a rir, mas eu me atrevo a achar graça. Ainda. Acho graça até certo ponto, porque essa é mais uma oportunidade de falar sobre nós dois, não é? Mas a cada minuto que passa, o assunto parece cada vez mais ultrapassado.
— Eu vi seu novo anúncio! — Exclamo, uma animação falsa na voz. — Designer gráfico, gostei. Os anúncios estão cada vez melhores, de post-it verde pra papel couchê com laminação fosca? Wow, uma evolução!
O tempo que Jungkook leva para responder me faz pensar. Talvez ele esteja questionando minha tagarelice incomum ou só esteja tentando entender aonde o assunto nos levou. Ele sente que todo esse papo abrupto também parece esquisito demais? Ao fim, sua voz surge com certo humor:
— Acho que meu anúncio de designer não teria lá muita credibilidade se fosse feito em um post-it com uma letra feia...
— Agora você admite que era ruim?
Essa é mais uma oportunidade de falar sobre nós dois. E sinto fundo no peito.
Ouço a risada controlada de Jungkook ecoar junto a alguns objetos caindo no chão de madeira. Tento acompanhar seu ritmo, mas acabo me prendendo em toda uma amargura nova que se instala em mim.
Isso não parece certo.
Uma aflição estranha, um vazio imenso. Talvez as coisas com Jungkook não façam mais sentido... Sinto angústia e preocupação. Uma angústia por não ter falado tudo o que queria ter falado e uma preocupação por perceber que talvez não haja mais espaço para isso.
Eu e Jungkook acontecemos, mas agora não mais. Tudo o que nós tínhamos pra ser vivido, foi e pronto.
— Eu preciso desligar. — Ele reaparece, a voz calma e regulada. É um tom sincero. — Tenho que terminar de arrumar meu quarto.
— Tudo bem. — Digo, automaticamente olhando para meu relógio de pulso. — Eu também preciso, logo eu tenho um reunião do curso e...
Não termino, porque não vejo necessidade alguma. Empoleiro minhas pernas no banco da loja de conveniência e pressiono meu corpo contra a mesa. O clima é esquisito, tanto lá fora quanto aqui.
— Você vai amanhã, certo?
Pondero por um instante.
Sim…
Não...
— Sim, vou.
— Até amanhã, então. — Fala apressado e logo ouço vozes do seu lado da linha. — Preciso ir agora. Tchau.
Minha despedida é um muxoxo esquisito e sem nexo; o som da ligação muda é um tormento extravagante no meio de toda a minha aflição.
Nesse meio tempo em que levo para bloquear a tela do celular, eu me perco na nuvem fantasiosa que toda essa conversa emergiu. Como também me perco nos fantasmas de todas as palavras que morreram em minha garganta. Todas as palavras que ensaiei e organizei para lhe dizer, todas as palavras não ditas.
A recente conversa parece vaga, esquisita. Não parece verdadeira, não parece se encaixar em todas as outras que já tivemos. É como se existisse algo que sufoca, que me sufoca. Não sei explicar se a pendência que sinto é de todos os assuntos não resolvidos ou do recente questionamento sobre nós dois.
Deito minha cabeça sobre a mesa, pressionando minha testa contra a madeira enquanto tento buscar respostas, explicações. Talvez não haja nenhuma, ao fim de tudo. Talvez as coisas sejam só isso, sem teorias ou roteiros mirabolantes. Luto também com a ideia de que talvez essa não seja a hora, que talvez eu precise de mais um tempo para entender; a situação, eu. Talvez eu precise de mais tempo para me decidir, de mais tempo para que eu entenda o que eu realmente quero.
Há uma infinidade de possibilidades ou até mesmo de incertezas.
Talvez. Talvez. Talvez.
Talvez essa seja a nossa história.
Talvez esse seja nosso fim, sem términos ou inícios.
[...]
Estou absorta em um mundo paralelo, enquanto a voz de Sorn é como uma trilha sonora abafada igual a um filme de suspense. Não consigo prestar atenção no que fala, mas acredito que o assunto tratado seja o novo menu do refeitório. Não sei bem. Ela comenta sobre lasanhas, mas também sobre cadeiras e persianas.
A grande verdade é que não prestei atenção em nada do que fiz até aqui e agora. Desde o fim da ligação com Jungkook, me sinto assim: aérea, esquisita, ultrapassada. Para ser sincera, não me concentrei na reunião do meu curso de verão de ontem à tarde. Como também não prestei atenção quando organizei minha primeira semana de aulas no bullet journal, nem quando caminhava pelo campus com Sorn para visitarmos os animais resgatados hoje pela manhã. E muito menos quando derrubava boa parte do lámen sobre a mesa do refeitório e minha mochila.
Franzo o cenho, incomodada com toda a situação. Minha colega de quarto está estirada sobre a cama, enquanto eu estou apoiada no parapeito da janela, olhando como a luz do fim do dia toca as árvores do bosque e percebendo como ainda não consegui encontrar um meio de lidar com o que sinto dentro de mim.
Desde ontem, tentei ocupar minha mente com jogos no computador, filmes adolescentes, Bukowski e Sherlock Holmes. Também tentei a ocupar com uma nova organização para minha estante de livros, mas nada. A única coisa que tenho em mente é o rumo da conversa com Jungkook e do que um dia pareceu ter existido entre nós dois.
Tentei arranjar uma explicação, um sentido, um motivo. Não sei exatamente pelo quê; se pela situação em si ou se para o que sinto. Não achei nada, mesmo que eu tenha desistido assim que pensei em procurar. Estou parada no meio do caminho e sinto que essa sensação não é nova. As palavras não ditas ainda estão presas na garganta, a sensação de assuntos pendentes ainda me agarra os braços. Sinto-me aflita, chateada.
Demorei a dormir na noite passada e, quando consegui, acordei por vários momentos do meu sono leve e superficial. Acabei me colocando em dúvida sobre dezenas de coisas que antes eu parecia ter certeza. Resgatei o questionamento sobre o meu tempo. Será que esse seria o momento certo para nós dois acontecermos? Talvez seja um aviso do universo, não é? Talvez seja ele dizendo que as coisas devam se encerrar dessa forma antes mesmo que elas sequer comecem.
— Que horas você vai?
A voz de Sorn parece receber uma injeção de energia, minha atenção sendo pega de prontidão quando o assunto envolve ele. E é um tanto vergonhoso perceber que ela não precisa explicar sobre o que se refere, porque eu simplesmente sei. Abandono a paisagem, cambaleando pelo quarto e sentando na beirada de minha cama.
— Acho que lá pelas oito. Não sei. — Dou de ombros, indecisa. — Ele não falou o horário.
— Você vai mesmo só buscar o dinheiro?
Ela gira sobre a cama, o livro que lia antes de iniciar seu quase monólogo sobre o refeitório está fechado sobre a barriga. Olho para o relógio por um instante, assim como venho fazendo nas últimas duas horas. É 19h17. Quando percebo faltar pouco para o horário estipulado, remexo-me no lugar, agitada.
— Não sei bem, talvez eu fique mais um pouco… Beba algo.
Mas sei que é mentira, falo apenas por dizer — minha ansiedade parecendo aflorar brutalmente em mim —, porque não pretendo ficar mais do que o necessário, não pretendo passar da porta de entrada. Quero pegar o que Jungkook tem a me dar, gravar todos os seus detalhes como reza e desaparecer, enfiar-me em algum restaurante barato no caminho e gastar o pouco do dinheiro que ainda me resta. Talvez dessa forma eu consiga entender toda a bagunça que ele causou dentro de mim.
Ainda parece complicado me entender, mesmo depois de dois meses lutando e aprendendo. Sei que as coisas mudam gradativamente, aos poucos, mas eu gostaria que fosse mais fácil. Pelo menos, dentro da minha cabeça. Eu sou caos de sentimentos, incertezas e memórias vívidas de um passado que não quero relembrar. Mas parece que sempre retorno, parece que sempre estou lutando para não cometer os mesmos erros outra vez. É um conflito longo e duradouro. Um passo errado e estou confundindo meus sentimentos e os de outrem. Certas vezes não consigo distinguir, certas vezes sou só um emaranhado de soluções inacabadas, conclusões pela metade. Certas vezes não chego a lugar algum. Como agora.
E, pensando bem, talvez o meu karma seja me enfiar nessa luta incessante, porque só desse jeito eu consigo me achar em meio a tantas segundas intenções, pensamentos paralelos e desejos que não são meus.
— É só que... — Começo, meu peito inflando pelo ar sugado com violência. É como se estivesse segurando o fôlego para mergulhar em um oceano imenso e sem terras ao redor. — É tão confuso, tão confuso. Você entende? Não sei se Jungkook tá na mesma página que eu, não sei se devo insistir, não sei se essa é a coisa certa a se fazer. É tudo tão... Urgh.
Sinto-me sugada emocionalmente. Ainda é esquisito falar sobre meus sentimentos por ele em voz alta depois de tanto tempo os guardando para mim. Mas caso eu não fale para Sorn, sinto que a qualquer instante posso explodi-los para todos os lados sem escrúpulo algum e para qualquer um.
— Você já... Sabe? — Seus olhos atentos estão sobre mim, seus ombros erguendo-se antes de completar: — Perguntou pra ele?
Fico em silêncio. Meus sentimentos são tão caóticos que sinceramente não consigo entender aonde ela quer chegar. Parece simples e prático, mas em minha cabeça é um código binário longo e complexo.
— Perguntou se ele quer tentar. — Sorn se ajeita na cama, explicando como se eu fosse uma criança. Ela agora tem o livro sobre a manta bagunçada e seu corpo sentado sobre a beirada do colchão, como eu. — Você disse que não sabe se ele tá na mesma página que você. Bem, você já perguntou isso pra ele?
Abro minha boca para responder, mas a fecho logo em seguida. Porque parece fácil, objetivo. E talvez realmente seja, não é? Então porque eu continuo achando que o assunto nós dois parece ultrapassado demais para ser relembrado? Foram quase dois meses, afinal.
Muita coisa muda em dois meses.
— Não, não perguntei, mas é que... Argh. — Caio de costas na cama, tampando o rosto com os braços. — Não sei se to pronta. Quer dizer, eu nem sequer consigo definir as coisas dentro de mim. Acho que pode ser medo? Ou só ansiedade? Não sei, não consigo definir.
Por algum tempo, não ouço nenhum barulho vindo da outra cama. Só consigo ouvir ao fundo vozes nos corredores e portas batendo. Pareço incompleta, é como se nada do que eu diga faz jus ao que eu realmente sinto.
— Quando eu me sinto irritada com a faculdade e me pergunto se o curso foi a decisão certa... — A voz de Sorn vem de repente, como se ela estivesse pensando no que dizer por todo esse tempo. — Eu fecho os olhos e me faço a pergunta: aonde você gostaria de estar exatamente agora, Sorn?
Tiro meus braços de cima do meu rosto e a olho, um pedido silencioso para que continue.
— A maioria das vezes eu me vejo em alguma praia paradisíaca. — Ri e a acompanho, mesmo não entendendo exatamente seu raciocínio. Sorn me olha, o riso sumindo quando continua: — Mas então eu me concentro na parte profissional... Logo eu desejo estar nos bastidores de um filme ou em um café escrevendo roteiros. São nesses instantes que eu percebo que o curso foi a decisão certa. — Dá de ombros, um tanto tímida por revelar algo tão pessoal. — Você deveria tentar.
Viro-me sobre a cama, apoiando meu corpo nos cotovelos. Penso seriamente no que me disse e, então, penso mais uma vez. Existe um pensamento rondando minha cabeça há um bom tempo, um pensamento que tento sufocar, porque me angustia de certa forma.
Se estou com tanta dúvida assim, então quer dizer que ir até Jungkook não é a coisa certa a se fazer.
Esse pensamento me amedronta, porque não quero que seja verdade. Ele é linkado aos tantos filmes que já assisti na vida, sobre amor próprio e relacionamentos abusivos. Acabo sempre me lembrando dos finais sem casais e pessoas solteiras felizes. É isso que se espera, não é? É dessa forma que deveria ser?
Mas ele também se linka a todo um universo novo, aonde eu tomo minhas decisões. Ele passa a não fazer sentido quando penso sobre tudo o que já vivi até agora. Talvez seja mais um conflito interno, não é? Talvez ele seja o limite que separa o ponto aonde me permito viver e o ponto que me impeço de seguir em frente por vontades e crenças que não são minhas.
— Foi esquisito conversar com ele depois de tanto tempo. — Digo, sabendo da mudança brusca de assunto. Fico na esperança de Sorn acompanhar minha lógica quebrada, mas caso não acompanhe, não vai ser tão ruim assim. — Eu queria dizer tanta coisa e queria ouvir tanta coisa... Mas nada aconteceu. Eu tenho a impressão de que a gente tá em cima de um muro que separa nós dois de sermos conhecidos ou íntimos.
Minha voz sai alta e clara, mas não busco explicar nada para minha colega de quarto, eu busco me entender. Eu preciso falar sobre a situação em si, preciso falar sobre Jungkook também.
Preciso falar.
Porque eu parecia estar indo tão bem, não parecia? Por todo esse tempo me encontrando e me organizando sentimentalmente... Foi só uma conversa esquisita de telefone acontecer que me baguncei por inteira.
Preciso falar, porque parece que somente dessa forma eu vou conseguir organizar meus medos dentro de mim de novo. Minhas inseguranças. E, então assim, resolvê-las.
— A minha vontade é de sentar com ele, frente a frente, entende? E dizer tudo, contar tudo, falar tudo o que tenho pra dizer. Quero tirar esse incômodo de mim! — Acabo soando irritada. — Mesmo que eu seja muito ruim nisso e que fale mil coisas antes de chegar ao ponto.
Meus olhos correm até o rosto de Sorn, ela me olha atentamente, mas não parece que dirá algo tão cedo. Talvez ela realmente não tenha acompanhado minha lógica falha, meu raciocínio de linkar seu conselho com meus medos profundos.
Quer dizer, existe lógica no que falo?
— Eu acho que a gente merece mais uma chance, — volto a falar, sem nem sequer pensar direito. É como se eu tentasse justificar a próxima ação que pretendo tomar. — Porque nós dois somos ruins demais nisso. Somos ruins demais!
É uma luta incessante de fato. Uma luta agora entre meu passado cheio de inseguranças, futuros que não sonhei e argumentos para me impedir de viver da forma que quero viver contra meu presente comandado por mim, ainda com inseguranças, mas com a certeza de que são somente minhas e de mais ninguém.
A linha tênue entre o medo e a ânsia pela liberdade.
Vou viver me enfiando nela, nessa guerra de erros do passado e acertos do presente, mas é importante que eu a lute.
— E, sabe? — Aumento a voz. — Sendo duas pessoas ruins demais em lidar com esse tipo de situação, o que eu esperava que a nossa conversa no telefone fosse ser? Por Deus! Eu não posso me dar por vencida.
Aonde eu gostaria de estar exatamente agora?
Com Jungkook.
Eu gostaria de estar com Jungkook lhe dizendo tudo o que planejei dizer por todo esse tempo. Perguntando se sua página é a mesma que a minha, me arriscando e vendo aonde tudo isso pode me levar.
Porque, inferno, é o tempo certo. É o tempo certo porque eu quero que seja.
Sei disso, sei disso há boas semanas agora. Sei disso porque finalmente sinto que posso construir algo verdadeiro, algo sincero. Profissionalmente, pessoalmente e romanticamente. Posso construir algo com sentimentos, com vontades reais. Porque eu finalmente me encontrei e estou me libertando.
Ergo-me da cama sorrateiramente. Tenho ciência dos olhos de Sorn sobre cada movimento meu, mas não me importo muito com isso. Como também tenho completo conhecimento agora de que terei que lidar melhor com esses momentos em que o medo toma a minha frente.
É um processo gradual, não é?
Mas não posso me deixar vencer.
Enfio no bolso de minha calça a carteira e o novo anúncio de Jungkook por motivo algum, colocando os sapatos antes de seguir pelo corredor vazio. O prédio dos dormitórios femininos não está deserto, mas não prendo a atenção em ninguém. Existe um nervosismo instalado na boca de meu estômago, exatamente como da primeira vez que fui atrás dele. Ainda me lembro do barulho dos sapatos no piso frio, como ainda me lembro da sua figura abrindo a porta de repente.
Será que gostar de alguém de forma sincera é assim mesmo? Esse caos de sentimentos à flor da pele, essa ânsia, esse desejo? Penso quando entro no elevador e espero pacientemente até que ele chegue ao primeiro andar. Os números no painel eletrônico parecem se arrastar, mas eu não me encolho no canto da caixa de metal. Todos os contras e prós que levantei durante o dia ainda existem, mas me permito ouvir a minha única certeza.
Mesmo que Jungkook não esteja na mesma página que eu, quero que ele saiba tudo o que guardo dentro de mim.
Desço do elevador sentindo as pernas andarem depressa, urgente, meu corpo todo parece reagir para que eu siga em frente. E, assim que passo pelas catracas do dormitório feminino, eu sinto toda a minha adrenalina balançar cada canto meu. É uma sensação nova, libertina e avassaladora. Porque enquanto caminho em direção à saída do prédio entendo que por mais que tenha vindo no horário estipulado desde o início, vim agora com um objetivo traçado, vim com uma intenção explícita e clara.
Sinto-me diferente.
O vento atinge minha face com astúcia, quando passo pelas portas de vidro. Meus passos ainda são rápidos e longos, apressados. O crepúsculo que pinta o céu cobre agora o campus inteiro em um laranja-rosado nostálgico. Mas antes mesmo que eu consiga alcançar as escadas, vejo-me parada sobre o caminho de cimento e plantas novas; não porque eu simplesmente desisti do plano, mas sim pelo simples fato de encontrar Jungkook logo ali também.
Sua imagem como uma miragem oblíqua, extravagante.
E ele ainda é caos; um caos de cheiros, gostos, sensações e sentimentos.
Me desperta e me chacoalha.
Sou sensível em cada centímetro de pele, sou incandescente.
Quando nossos olhares se encontram por debaixo das luzes naturais do céu e das artificiais vindas dos postes, é como dois planetas se colidindo no espaço. É gigantesco, mas silencioso. Meu corpo todo é torpor e no meu peito tenho somente uma batida dissimulada. Parece irreal vê-lo ali depois de tanto tempo, como um sonho confuso, como um devaneio esperançoso.
Sua presença logo ali me faz pensar em milhões de hipóteses, em milhões de incertezas. Todas elas se mesclando em fios de cores similares e não me deixando chegar à conclusão alguma.
E eu logo entendo que, muito provavelmente, gostar de alguém com sinceridade seja realmente isso. Coração a mil, sentimentos vasculhados no peito e reações patéticas.
Jungkook está parado no último degrau da escada de concreto, seu cabelo ganhou um novo corte e em suas orelhas há argolas mais grossas. Sua boca está entreaberta para recuperar o fôlego, enquanto o topo de suas bochechas recebe um tom leve de rosa. A imensidão escura de seus olhos caem sobre mim em surpresa e confusão. E logo sou rendida pela óbvia constatação repentina de que senti sua falta.
— Jungkook. — Sou eu quem chamo, a voz falha pelo tanto que sinto, pelo tanto de sentimentos que saltam dentro de mim. — Oi.
Não ouso sair do lugar, não ouso sequer me mover. Tenho medo que o momento me escape, que o sentimento voe para longe e eu volte a me enfiar em um buraco de angústia e incertezas, que eu volte a ter que lutar contra meu passado. Mesmo que eu ainda me sinta angustiada, mesmo que eu ainda seja dúvida.
Jungkook nem sequer me responde, e me faz pensar por um instante se não estou o imaginando ali de fato. Ao contrário do que espero, sua reação é franzir o cenho consideravelmente enquanto ainda me olha. Ele parece lutar contra seus pensamentos, da mesma forma que luto contra os meus. Tento entender o que acontece ou o que pode acontecer, mas quando ele decide por diminuir a distância entre nós dois, percebo que não faço ideia do que ele pode estar pensando.
Ainda estou desnorteada pela sua presença quando ele para em minha frente.
Somos agora separados por poucos passos de distância. Meus olhos fincados em seu rosto, decorando cada detalhe como prometi que faria. A boca, os olhos, as sobrancelhas, as pintinhas como estrelas no céu. A brisa do fim de tarde se aninhando ao meu capricho e me entregando seu perfume tropical em cócegas na ponta de meu nariz.
Eu precisei ficar pensando em ti, Jungkook, te lembrando e te traçando a todo instante. E não pude me descuidar um segundo sequer. Porque tive medo de esquecer teu rosto, teu gosto, teu cheiro. Tive medo de perder tudo o que ainda tinha e tudo o que ainda restava de ti.
— Erm... Eu... — Sua voz vem depois de certo tempo. Ela é como um megafone em meio ao silêncio que nos cerca. Seu corpo se remexe de um lado a outro e, num instante, Jungkook me estica um envelope que nem sequer reparei que segurava. — Eu quero te entregar isso. É o dinheiro que te devo.
Meus olhos passam de sua mão esticada até seu rosto consternado, ainda me tenho perdida em vê-lo depois de tanto tempo. Ainda me tenho perdida pelo encontro antecipado, pelo tanto que preciso dizer.
Ajeito a mecha que teima em voar com o vento, prendendo-a atrás da orelha antes de pegar o que Jungkook me estende.
— Obrigada, — ergo os ombros, um riso sem graça escapando pelo canto da boca — mas você não me deve nada.
Seus olhos desviam dos meus com rapidez, o cenho sempre franzido em aflição. Parece ainda lutar com o que pensa, parece ainda lutar com o que quer dizer. E acabo pensando se Jungkook precisa também lutar guerras internas com o seu passado e com o seu presente, como eu.
— Eu to indo pros dormitórios, — ele se afasta um passo, as mãos agora se afundando nos bolsos dianteiros da calça jeans escura. A camiseta amarela balança com o vento, uma dança em conjunto com a minha blusa. — Decidi te entregar isso logo... Já q-que eu to indo pros dormitórios.
Seus olhos acabam procurando meu rosto abruptamente quando percebe que tudo o que sente transparece em falas repetidas e nem nexo. Eles ficam por pouco tempo em mim, no entanto, logo procurando outro lugar para prestarem atenção.
— Eu tentei te ligar! — Ele fala de repente. — Várias vezes. Tentei te ligar.
Hesito em responder, buscando na memória alguma notificação de chamada não atendida, mas nada.
— Desculpa, — peço duvidosa. — Meu celular ficou em modo avião nesses dois últimos dias, talve-
— Não. — Ele me interrompe abruptamente, percebendo em seguida sua explosão repentina. Jungkook completa então em um quase sussurro: — Foi antes, nas... Nas férias, mas eu não tinha seu número e só fiquei digitando números aleatórios pensando que poderia me lembrar.
Há um silêncio por aqui, enquanto Jungkook se remexe de um lado a outro, desconcertado pelo assunto recente. Penso em lhe dizer algo, mas não sei o que dizer. Ele joga os cabelos para trás, mira os coturnos escuros e depois as plantas ao lado do caminho de cimento.
— Onde você estava indo?
Ele vem outra vez, parecendo tentar trazer coesão a tudo o que sente, a tudo o que acontece aqui. Sua mão sobe até sua nuca, os dedos bagunçando os cabelos da região em um sinal claro de desconforto.
Abro a boca algumas vezes para lhe responder, mas sou confusão intensa e nova. Quero tentar entender o que acontece com Jungkook, mas nem sequer sei por onde começar. Nem sequer sei me entender.
Somos dois caos ambulantes em colisão.
— Eu... Eu tava indo para... — Começo, pensando em arranjar alguma desculpa, pensando em dizer qualquer coisa que não a verdade. Mas isso não faria o menor sentido; com o que sinto, com o que vim fazer e com o que quero. — Eu estava indo atrás de você... Na festa do seu amigo.
A expressão de Jungkook parece noticiar sua completa negligência à festa de despedida de Taehyung e, por um instante, me pergunto se existe alguma festa para ir. Ele assente, entendido, apesar de seu rosto não demonstrar nenhum entendimento.
— Você tava indo pegar o dinheiro?
Encolho-me entre os ombros, respondendo:
— E talvez beber alguma coisa...
Ele assente de novo, embora não exista nada a se concordar por aqui. Jungkook se afasta mais uma vez, girando os ombros para trás e respirando fundo. Enquanto permaneço parada, o envelope em uma das mãos e seu novo anúncio no bolso dianteiro da calça, penso que somos mesmo ruins em lidar com isso.
Jungkook vai agora de um lado para outro, lentamente, conflituoso. Faz com que eu me pergunte se devo esperar ele decidir o que fazer ou falar. Ou se devo segurar-lhe pelos ombros e tentar entender o que se passa. Sua figura não é agitada, mas eu sou. Ao fim, seus olhos tão escuros e bonitos se voltam para mim com mais atenção. Ele mira cada canto da minha face com cuidado, como se procurasse alguma resposta, algum sinal.
— Junkook, — começo, subitamente lembrando-me de algo — por que você tava indo para os dormitórios se você agora mora na república?
E dessa forma todo o seu rosto se transforma em incredulidade. Seus olhos miram os meus por poucos segundos antes da sua postura se ajeitar e mais uma vez seu perfume dançar por entre nós. Ele aparenta estar desconcertado de certa forma, mas não vira as costas ou se afasta, parece apenas ter dificuldades em explicar.
— É porque eu... Eu... Porra. — Jungkook ergue os braços para cima, contrariado. E enquanto suas mãos cobrem seu rosto em frustração, ele completa com a voz abafada no que parece um lampejo repentino de coragem: — Eu menti, eu tava vindo atrás de você.
Franzo o cenho, sem entender.
— Mas por quê?
Vejo-o afastar seus dedos até que eu consiga enxergar seus olhos, parece agora analisar minha pergunta através da minha expressão facial. O que eu não entendo até ele surgir com um questionamento esquisito:
— Por que eu menti ou por que eu tava indo atrás de você?
Minha cabeça titubeia e dou de ombros.
— Faz diferença?
Jungkook infla o peito, ofendido com o que acabei de dizer. As mãos já não cobrem mais seu rosto e ele agora me olha de forma crua, sem desvios ou cenhos franzidos.
— Bem... Não sei.
Meus ombros caem por não entender sua resposta ambígua.
— Não sabe o porquê mentiu ou não sabe o porquê de ter ido atrás de mim?
Sua cabeça também titubeia e sei que esse assunto já não faz mais sentido algum. Ele ergue os ombros também, mas logo sucumbe. Endireita a postura e suspira, rendido.
— Eu menti porque não quis soar patético, mas agora me sinto por ter dito isso em voz alta. — Gira os olhos, impaciente. — E eu vim atrás de você porque... Porque...
Será que agora mesmo Jungkook esteja se questionando da mesma forma que me questionei mais cedo? Talvez ele esteja pensando se vale a pena contar a verdade ou insistir em mais uma mentira. E aqui, olhando-o ir e vir emocionalmente, só peço para que ele escolha a resposta com o maior nível de sinceridade, a resposta que condiz com o que sente.
Porque talvez Jungkook funcione como uma sequência de drinks alcoólicos na minha corrente sanguínea. Sou entorpecida pela sua presença, pelo seu cheiro e pelas lembranças. Mas não quero ser entorpecida por palavras que não gostaria de me dizer.
— Era pra eu ter dito tudo isso na ligação de ontem, mas eu simplesmente não consegui. Ela foi tão esquisita. Você não achou? — Revela em uma pergunta retórica, a voz mais séria e baixa. A menção sobre a ligação me faz alerta. Então ele sentiu o que eu senti também. — Sinto que posso ficar maluco. Eu sou muito ruim com sentimentos e em falar deles em voz alta e eu… Eu fiz uma lista.
Demoro um tempo para associar a nova informação passada, porque ainda estou perdida em Jungkook e nos sentimentos compartilhados, nas palavras não ditas e na urgência em livrar a garganta de frases mortas. Fico entretida por certo tempo na sensação de não estar sozinha, fico entretida em seu semblante ao me olhar, fico entretida então com a novidade recém dita.
— Uma lista?
Ele balança a cabeça positivamente, como se não tivesse mais o que esconder.
— É, meu amigo cursa psicologia e ele disse que pra gente não esquecer o que quer falar, podemos fazer listas. — Explica, um tanto envergonhado pela confissão. — E então eu fiz uma. Eu sempre pensei que tivesse sendo claro, mas eu sou tão reservado que qualquer demonstração mínima já me parece extravagância demais. Eu esqueço que pras outras pessoas um gesto grande pra mim pode ser só um gesto simples e nada mais.
Vejo-o observar com cautela a palma da mão esquerda, sua lista contendo três itens com números ao lado e palavras chaves. De repente, toda a sua agitação incomum, sua tagarelice pelo telefone e sua pressa fazem todo o sentido.
Jungkook está nervoso, tanto quanto eu.
Deixo que tome seu tempo, então, sem perguntas ou movimentos bruscos. Porque sei o quanto isso é importante, sei o quanto quero ouvir tudo o que ele tem para me dizer. Enquanto ainda tento processar a nova descoberta e lidar com tudo o que acontece dentro de mim, deixo que gire os ombros mais uma vez para trás para então assim dizer:
— To feliz que voltou. — Ele ergue a mão para cima, indicando o número um. Dessa vez ele parece agitado. — Esse é o primeiro tópico da lista.
Assinto como se quisesse lhe dizer que a mensagem foi recebida, que a entendi por completo, mas meus pensamentos ainda estão sobre a notícia de como suas demonstrações de afeto são cautelosas e quase secretas. De como está nervoso por precisar me contar coisas. De como está nervoso por minha causa.
Seu cenho se franze ainda mais do que antes e ele não parece contente com a resposta que dou.
— Eu to feliz de verdade, entende? — Repete e me concentro em prestar atenção no que me diz agora, porque começo a perceber que a mensagem também é mais uma demonstração de afeto. Uma confissão pequena para mim, mas grande para Jungkook. — Eu fiquei essas últimas semanas tentando entender se eu queria que você voltasse porque eu me senti culpado por te deixar pra trás ou se… — Pausa por um momento, a língua passeando pelo lábio em apreensão. — Ou se eu só não queria que você… Não queria que você desaparecesse da minha vida.
Sinto meu coração vacilar traiçoeiramente, sem aviso ou preparo. Penso em pedir para que ele repita da mesma forma que me disse, com as pausas, com os medos, com os gestos. Porque é desse jeito que percebo que das duas opções listadas por ele, a última era a certa.
Agora percebo que não me movo não porque não quero, mas porque não consigo. Jungkook está aqui em minha frente agora com uma lista de coisas para me dizer, dizendo que não quer que eu desapareça de sua vida.
E, pela primeira vez, eu finalmente reparo em novos detalhes de Jungkook. Eles são detalhes minuciosos e sutis, mas que carregam uma importância maior do que qualquer outro. A sutileza de demonstrar se importar, de demonstrar sentimento. Em cada ato e palavra. Na forma como fala, na forma como se porta. Na forma como tentou se organizar para me dizer o que gostaria de me dizer, na forma como digitou números aleatórios atrás do meu e na forma como me abraçou no banheiro daquela última festa.
Detalhes pegos no ar, detalhes preciosos que merecem tanto destaque quanto o nariz enrugado quando sorri, quanto a pintinha debaixo da boca.
E tudo parece fazer sentido agora.
Jungkook me olha e entende que eu entendo.
Quando seus olhos baixam para que ele leia o segundo tópico, sinto meus dedos formigarem de vontade de lhe puxar a camiseta e buscar conforto no seu abraço mais uma vez.
— A segunda coisa que quero falar é sobre o que aconteceu na última vez que a gente se viu. Eu queria me desculpar. — Ele não tira os olhos da palma da mão. Todas as informações que recebo agora ganham uma nova tonalidade de detalhes. Agora mesmo percebo que o assunto atual é crítico tanto para mim, quanto para ele. Jungkook se demora ali, como se demora a encontrar palavras para continuar. — Eu não deveria ter ido embora, eu deveria ter ficado e te ajudado. Na época eu fiquei com raiva, mas depois eu entendi que acabei sendo egoísta. Eu poderia ter te dado ideias, poderia ter te dado mais opções.
Seus olhos ainda se concentram na única palavra escrita no tópico dois, e penso se eu deveria lhe responder agora, mesmo que a ideia seja com que eu o responda ao fim de todos os assuntos listados.
Quero lhe dizer coisas e preciso lhe dizer coisas.
Mas respeito seu tempo, seu momento.
Os seus cabelos escuros agora chacoalham com a leve brisa da noite recém-chegada, o crepúsculo é como uma memória antiga e quase inexistente. Por um instante, Jungkook é uma galáxia inteira. As pintinhas e seus olhos. Todos os seus detalhes logo ali, a poucos passos de mim. Seus detalhes antigos e novos. O conjunto lhe transformando em uma canção, um filme completo. Por debaixo da luz dos postes, Jungkook é a minha lembrança favorita de uma noite de verão.
Seus dedos se fecham contra a palma da mão depois de um tempo, os instantes em silêncio, enquanto mirava o que havia escrito, parecendo terem sido usados para repassar tudo o que precisava dizer.
Não preciso me forçar a prestar atenção nele, porque não a desviei a partir do momento que o encontrei no topo da escadaria.
— Na verdade, eu... Para o tópico três, eu... — Ele então suspira, as mãos em punhos ao lado do corpo. — Eu vendi o notebook porque não acho certo você ter perdido tanto. Você gastou dinheiro demais com ele. Você me contratou, mas você sabe que foi por causa dele e... — Nega avidamente. — Não quero mais que você conviva com isso, também não quero mais ser conectado a isso.
Meu cérebro tenta trabalhar da forma mais rápida que consegue, coletando informações e tentando as organizar em meio ao caos que acontece bem em meu peito. Tento associar cada palavra dita, cada frase lançada ao ar, cada sentimento exposto. É demais. Penso em lhe responder dessa vez, começar em ordem crescente ou decrescente. Mas Jungkook ainda tem coisas a dizer, porque talvez o que tenha dito não tenha feito jus ao que realmente sente.
— Não quero correr o risco de a lembrança que deixei em você se mesclar com a dele de alguma forma. — Ele umedece os lábios com a ponta da língua, seu olhar é determinado. É quase como se eu pudesse ver sua garganta se livrar de todos os fantasmas de palavras não ditas. — Não quero te trazer angústia, não quero remeter a isso nem mesmo por lembrança. Você perdeu muita coisa até aqui, espero que você perceba que não precisa mais perder nada por causa dele ou de ninguém.
Fico em silêncio por um tempo. Sentindo meu coração bater contra o peito de forma desgovernada. Penso por um instante que todos os sentimentos por Jungkook estão sendo maximizados. Estão sendo intensos demais e não existe outra causa que não ele.
E eu finalmente posso sentir tudo. De forma verdadeira, genuína, sincera. Posso me doar sem medo, sem mentiras, sem namoros falsos. Posso escolher ir, posso escolher ficar. Posso escolher entre viver e não viver. É a minha escolha. O sentimento que tenho dentro de mim agora é grande, intenso e interminável. Ele toma conta de cada canto meu, cada pensamento solto, cada lembrança vivida; ele é a própria liberdade de poder sentir o que quero sentir sem culpa, sem ressentimento, sem cobrança.
Acabo umedecendo os lábios também, enquanto Jungkook tem sua expectativa em cima de mim. Seus ombros não estão tão tensos como antes, mas seus olhos agora parecem cansados de toda a descarga emocional.
Sinto-me entorpecida, de fato. Tento selecionar palavras, tendo buscá-las na organização mental de todas as coisas que gostaria de lhe dizer quando tivesse a chance de lhe dizer.
— Eu deveria ter feito uma lista também. — Rio, sem graça, encolhida entre os ombros. — Eu tentei organizar o que te dizer durante as férias inteiras, teria sido mais fácil se eu tivesse separado em tópicos.
O silêncio que nos ronda é de expectativa também. Em meio as árvores do caminho de concreto, estamos eu e Jungkook, frente a frente. Caos ambulante. Entre nós dois há uma infinidade de sentimentos expostos e momentos que quero lembrar. Momentos futuros que quero ter nas memórias.
— Você pode responder em tópicos também. — Jungkook sugere, apreensivo, a voz mansa e cuidadosa. — Só, por favor, não me deixa sem resposta.
Seu pedido faz com que eu perceba. Eu também achava que fosse explícita com tudo o que sentia por ele. Sempre pensando ser extravagante nas demonstrações, nos olhares, nos sorrisos. Pelo visto, somos ruins nisso juntos também.
Involuntariamente, dou um passo em sua direção. Seu cheiro ficando ainda mais acentuado pela aproximação e tudo ao meu redor sendo coberto pela bolha tropical que emana de Jungkook.
— No dia das catracas, eu te responsabilizei por algo que não era a sua responsabilidade. — Digo sinceramente, meus olhos fixados no logo de sua camiseta. Concentrados no ponto como se ele pudesse me trazer respostas que não entendo o porquê procuro. — Desculpa por fazer você acreditar que aquele problema era seu, quando ele sempre foi só meu.
Mordo as laterais de minhas bochechas, pensativa. Dando mais um passo à frente, a ponta dos meus tênis encontrando a de suas botas. É um momento reservado para que Jungkook entenda o que disse e para que eu entenda o que acabei de dizer.
— Acho que estamos quites nessa. — Dou de ombros, olhando para seu rosto por um instante, somente para que o veja com os olhos cravados em mim. Quando volto a atenção para o logo de sua camiseta, continuo: — Eu precisei que as coisas acontecessem daquele jeito pra conseguir me livrar do que tanto me prendia. Não tenho mais nada que me prenda ou me impeça de viver da forma como quero viver. Eu posso fazer as coisas do meu jeito agora, no meu tempo, independente dos meus pais, de namoros falsos e Haneul. Se foi ruim ter que passar por tudo aquilo? Foi, mas eu não mudaria nada.
E, embora eu já soubesse sobre toda essa realização de atos e sentimentos, sinto que ouvir minha voz dizer em alto e bom tom me faz feliz.
Suspiro alto, atrevendo-me a erguer a mão e tocar o logo da camisa em seu peito. Sinto seu corpo tencionar com meu toque, mas não me afasto. Contorno o desenho com paciência, buscando tempo para organizar o que pretendo dizer a seguir. Mas, principalmente, tomando tempo para saciar um pouco da vontade que tenho de tocar em Jungkook.
— Eu não me arrependo de ter contratado você e eu não... — Minha voz é como um sussurro, porque não é preciso que eu fale mais alto do que já falo. Somos separados por centímetros de distância e um fiapo de vento que transborda seu perfume tropical. — Você não me remete a nada de ruim, Jungkook. A verdade é que você foi a única coisa boa de toda essa bagunça.
Meus dedos agora tilintam sobre o tecido de algodão de sua camiseta, minhas duas mãos agarrando-lhe a gola para que eu me aproxime mais dele. Meu corpo erguendo-se gradativamente a medida que meus calcanhares deixam o chão. Passo meu nariz por sua bochecha, sentindo seus braços agora me tomarem a cintura. Não sei de onde arranjo coragem, como também não sei para onde foi toda a minha insegurança. Mas penso que talvez seja pela recente descoberta de que somos confusão juntos.
Demoro-me um tempo, sentindo seu cheiro e seu peito contra o meu. É talvez o toque mais íntimo que já tivemos, mesmo que nossas mãos já tenham explorado cada parte do corpo um do outro. Inspiro com vontade seu perfume como se pudesse gravá-lo em mim, como se a qualquer instante, longe dele, eu pudesse senti-lo pela memória.
Deixo um beijo demorado em sua têmpora, soltando um suspiro suave antes de dizer o que esperei todo esse tempo para falar:
— Eu gosto de você e eu finalmente consigo dizer isso de forma verdadeira e sincera, sem mentiras ou namoros falsos. — Minha voz é baixa, um segredo contato no pé de seu ouvido. A reação imediata que recebo é seus braços me apertando contra seu corpo, seu rosto aproximando-se mais do meu. — Eu gosto de você e, se você quiser, a gente pode tentar tudo de novo.
Tudo o que sinto dentro de mim é uma sensação que não consigo muito bem explicar. Sempre pensei que ela fosse ser como a de se livrar das mentiras contadas aos meus pais, sempre acreditei que me sentiria leve, porque, em um pensamento prematuro, as palavras que tenho para dizer a ele me pesavam. Mas agora percebo que não sinto que fui abandonada por elas, sinto que elas ainda divagam dentro de mim. Porque meus sentimentos por ele nunca foram peso sobre meus ombros, nunca foram culpa ou arrependimento. Eles sempre me transbordaram para todos os lados.
Meus lábios tocam mais uma vez sua pele em um beijo, a brisa no início da noite nos acolhendo com zelo.
— Dessa vez no nosso tempo, do nosso jeito. Sem almoço em famílias, notebooks quebrados, ex-namorados histéricos ou cobranças matrimoniais. — Continuo suave, sentindo que de fato transbordo pelo que sinto, pelo seu toque, pelo seu coração batendo acelerado junto ao meu. — Só nós dois. A gente pode ir devagar, entende?
Consigo sentir sua respiração densa, enquanto seu peito sobe e desce lentamente.
É um mundo só nosso.
Seus dedos agora dançam pelo final de minha coluna, moldados em um carinho terno e delicado na pele exposta de minhas costas.
— Eu sou bom em ir devagar. — Ele finalmente vem, o tom de voz baixo assim como o meu. E eu percebo que não senti medo algum à espera de sua resposta. Somos segredos compartilhados, sentimentos que transbordam. — E eu também gosto de você, se isso ainda não ficou claro o suficiente.
Seu nariz acaricia meu rosto, um toque sutil que logo faz com que eu me afaste de forma lenta para finalmente olhar em seus olhos. Daqui, com poucos milímetros nos separando, consigo enxergar tudo o que preciso enxergar. A cicatriz na bochecha, a pintinha debaixo do lábio e os olhos tão negros como o céu sem estrelas. Também enxergo sua sinceridade e todos os sentimentos bons que nos cercam.
Todos os seus detalhes.
E quando nossos lábios se encontram em um beijo só saudade e sentimentos recíprocos, percebo que agora é no nosso tempo; temos a chance de vivermos tudo isso da forma como deve ser. Da nossa forma. Não precisamos nos forçar a ideais que não são nossos. Não precisamos mais de contratos e mentiras, podemos ser nós mesmos, no nosso tempo com os nossos sentimentos.
A vida não é perfeita e, provavelmente, nunca vai ser. Não entendo qual é o seu real sentido ou se existe um. Também sei que descobrir sobre isso é mais uma coisa que não vai acontecer. Mas o que me resta, ao fim de tudo, é compreender que apesar das coisas não estarem nos lugares que deveriam estar, eu ainda posso me sentir bem. Ainda posso acreditar que ela vale a pena, porque vale.
O mundo é muito vasto, cheio de possibilidades e vidas distintas.
Sei que ainda vou enfrentar batalhas internas, dúvidas severas e retornos cruéis ao passado. Mas tenho liberdade agora. Para tudo. Tenho liberdade para acelerar e para frear; tenho meu próprio tempo. Minha vida não precisa caminhar na mesma intensidade que a de outro alguém, porque ela não é de outra pessoa, ela é minha.
Não busco felicidade duradoura, não busco felicidade que viva em mim a todo instante. O que eu busco é só aquele sentimento de querer estar na minha própria pele, de querer estar onde eu estou, aqui e agora. Busco não me sentir mais ansiando por outras vidas que não a minha. Busco tomar minhas próprias decisões, assumir as rédeas de toda a minha existência.
Não sei se vou querer continuar no mesmo lugar que estou agora, como também não sei o que vai acontecer no futuro. Não tenho planos concretos, reais. Não tenho planos para casamentos, vida a dois ou qualquer coisa antes programada pelos meus pais.
Só sei que aqui, beijando alguém que gosto e que escolhi por inteiro, é exatamente aonde eu gostaria de estar.
Jeon Jungkook
Autora: Agness Saints
Gênero: Comédia, Romance
Sinopse: Parecia piada, quatro anos de um relacionamento frustrante havia chegado ao fim, mas Haneul ainda te atrapalhava a vida. Se ele não tivesse arranjado um namoro relâmpago, você não precisaria demonstrar que está bem também, que não ficou para trás. Você não precisaria, principalmente, contratar aquele maldito acompanhante de aluguel.
Moreno. 1,80 de altura. Porte atlético. Bonito. Inteligente.
Educado. Agradável. Sabe estabelecer uma conversa.
Sem compromisso emocional, apenas financeiro.
Valor sob consulta.
Interessados: [51] 5782-4158
Esquece o “parecia”, a vida é mesmo uma piada pronta.
Contagem de palavras: 11.576
Avisos: +16. A história faz parte da série puerlistae au.
Parte: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16
Playlist. | Playlist 2. | Playlist 3.
É meados de julho e o verão vive seus dias mais quentes e brilhantes. O sol cobre cada superfície de Seoul; ele é forte, potente e nada piedoso. Ele também cai sobre as escadarias de pedras e os bancos de madeira do campus, assim como por todo o restante do caminho que nos leva até o prédio dos dormitórios. O cimento que cobre o percurso parece expulsar todo o calor direto para as nossas pernas e o único vento que balança nossas vestes é um bafo quente e pedante.
É como o inferno, mas é muito melhor do que o lugar em que estive nas últimas semanas.
Desvio de universitários destrambelhados e caminho vagarosamente ao encalço de Sorn, meus ombros ardem e meus olhos são dois fiapos de vista insossos. Penso em parar no meio do caminho, entre uma escadaria e outra, como também penso em sentar aqui mesmo, nos degraus de passagem. Mas o pensamento vem e vai embora, se pararmos agora, talvez não consigamos reunir coragem e força o suficiente para continuarmos depois.
— Tem certeza que não quer trocar? — Tento pelo que deva ser a quarta vez. Sorn insistiu em me ajudar com as malas assim que me viu descer do táxi, mas acho que não esperava que a escolhida fosse tão pesada assim. — Você pode ficar com a mochila.
— Não! — Ela brada, as bochechas repuxadas em um sorriso alegre e determinado, mas terrivelmente exausto. Seu ritmo é muito mais lento do que o inicial. — Já estamos quase lá, só mais um pouquinho.
— Se mudar de ideia, fale.
— Não vou. Estou ótima! — Ela se vira por um instante, só para que eu veja seus cabelos curtos bagunçarem com o movimento. — Hoje o dia está bonito, você finalmente voltou, nossos cursos de verão estão prestes a começar... Eu me sinto revitalizada. Sério, me sinto imbatível!
Acabo rindo, mesmo que o riso saia arrastado, quase sem energia. O discurso otimista e perseverante de Sorn tem a ver com todos os cursos de desenvolvimento pessoal que fez nas férias. Parece que esse foi o único jeito que ela encontrou de despistar a maioria dos convites de reuniões familiares.
— Mudou tanta coisa no campus, você precisa ver. — Diz entre lufadas depois de um tempo, enquanto suas pernas quase trançam com os passos bambos. Sua chegada foi há dois dias, antes da maioria dos estudantes. — Reformaram o refeitório, pintaram as paredes dos dormitórios, abriram um novo café e agora tem uma máquina de biscoitos na biblioteca.
Não consigo lhe responder, estou cansada, mesmo que o que diga seja realmente impressionante. Quer dizer, é como se uma vida inteira tivesse se passado até eu chegar aqui outra vez.
— Também fizeram um espaço reservado para animais de rua, sabia? — Seu rosto está virado para frente e, por conta disso, sua voz é um tanto abafada agora, ouça-a longe. — Quem cuida é o pessoal de Medicina Veterinária.
Assinto, mesmo que ela não veja. Começo a sentir meus joelhos vacilarem e tento então prestar atenção nos passos que dou, um de cada vez. É como se a qualquer instante eu possa tropeçar de graça. Sorn engata em mais uma enumeração de mudanças pela universidade; há novas plantas nos corredores e um anfiteatro especial para as apresentações dos estudantes de Teatro. Existe também alguma coisa sobre a entrada principal do campus e distribuição de brindes aos alunos, mas não consegui absorver muito bem a informação.
— Eu fui lá ontem e é tipo um kit com canetas gel e cadernetas de anotações. Eu estava esperando alguma camiseta, sabe? Eu adoro essas camisetas grátis, porque sempre são grandes e ótimas para usar de pijama.
O caminho não é mais tão longo, mas o sol continua a nos castigar. E enquanto caminhamos em meio às explicações robustas de Sorn e sua voz alegre e distante, caio em devaneio; um devaneio um tanto torto e de um sentimentalismo fora de hora.
Acabo pensando que a vida em si — pensamentos, conflitos e certezas — poderia mudar com tamanha facilidade também, não poderia? Mudar assim como a tinta nas paredes, os móveis no refeitório e as plantas nos corredores; poderia mudar com graciosidade e subitamente. Inseguranças poderiam ser lavadas para longe como as sujeiras nas calçadas, assim como pensamentos que reprimem poderiam ser repaginados como móveis antigos.
Puxo o ar com força, o vento quente quase me fazendo sufocar. Sei que é um pensamento imaturo e irreal, mas não deixo de me frustrar um tanto. Também sei que se aplicado em situações diferentes, talvez o resultado não fosse tão positivo como o que eu espero em casos como o meu. Quase sufoco também com a constatação óbvia, com a certeza que sempre tive: a vida não é tão simples assim, minha querida; ela precisa de tempo para mudar e a gente também.
— Finalmente! — A voz de Sorn é ouvida depois que caminhamos exaustas para fora do elevador e paramos em frente à porta do nosso dormitório. — Achava que a gente nunca ia chegar.
Ela reserva certo tempo para encontrar sua carteirinha de estudante, como também se atrapalha ao derrubá-la duas vezes seguidas. Ao fim, Sorn finalmente se organiza e a porta se abre em um ranger típico e saudoso.
Inflo os pulmões quase que de imediato, porque tento capturar qualquer cheiro característico; o desodorante de Sorn, o incenso rotineiro na janela ou o creme de baunilha que passo nas pernas depois do banho. Nenhum deles chega até mim. No entanto, mesmo depois de todo esse tempo, ainda me sinto em casa, ainda me sinto no lugar certo.
Dentre tantas mudanças listadas por Sorn, ainda existem coisas intocadas pela novidade.
As boas e as ruins.
As cortinas abertas permitem que o sol do início da tarde entre no cômodo sem serventia alguma, mas não traz o calor que nos banhou pelo caminho inteiro. Em cima da escrivaninha de Sorn há livros e sua tão habitual mochila surrada. Em cima da minha há seu bilhete de boas-vindas e dois pacotes de balas Haribo.
— Sabe? — Ela diz, se desfazendo dos sapatos e largando minha mala perto das camas. — Estou feliz que voltou.
Levo um tempo para assimilar suas palavras, o sol quente de antes me fez ficar mole e lenta. Quando entendo, sorrio sincera.
— Eu também.
Olho-a por alguns instantes, Sorn ergue os ombros enquanto sorri também. Foram dois meses longe daqui, quase todo o período de férias; é fácil perceber do que senti falta e é mais fácil ainda perceber que o que defendi por todo esse tempo valeu a pena.
Quando minha colega de quarto se joga sobre seu colchão já coberto por roupas desdobradas, respiro fundo. Parada ainda perto da porta, aproveito para mirar o dormitório que abandonei às presas. Aproveito para buscar cada detalhe daqui. As fotos coladas com durex nas paredes, o tapete que Sorn comprou em um brechó e o cabideiro rosa atrás da porta do banheiro. Durante todo esse tempo extenso e conflituoso, senti medo de esquecê-los e senti mais medo ainda por pensar o que seria caso eu tivesse voltado atrás.
Agora que estou em frente a uma nova oportunidade que tive e que eu mesma criei, passo os olhos com mais cautela por todos os adornos esquecidos, pelo tom da madeira do piso e pelo lustre que nunca havia me prendido a atenção até então.
— Ainda bem que você decidiu chegar antes, sabe? — Sorn vem outra vez e eu a olho imediatamente. Ela tem agora seu corpo apoiado nos cotovelos. — A gente ainda vai ter um tempo pra beber, conversar e descansar antes que os cursos comecem.
Concordo de forma lenta e aérea, ouvindo o farfalhar dos seus lençóis quando decido me desfazer dos meus tênis e largar minha mochila sobre a cadeira da escrivaninha.
A grande verdade é que eu gostaria de ter vindo antes, muito antes, mas o preço das passagens de trem só baixou na semana passada. E com toda a ajuda financeira tendo sido cortada pelos meus pais, qualquer economia parece de extrema importância.
Guardo meu bullet journal em uma das gavetas e aproveito para abrir um dos pacotes de bala. Sinto minhas pernas coçarem pela caminhada extensa e uma gota de suor escorrer por minhas costas até morrer no cós da calça. Depois de ingerir três cerejas artificiais, suspiro.
Agora que pensei sobre, talvez eu devesse ser um tantinho mais gentil com a vida — por mais que ela não tenha sido gentil comigo por várias e várias vezes. Até porque as coisas podem não ter mudado drasticamente como eu queria, mas elas de fato estão mudando, aos poucos, gradativamente. Não depender do dinheiro dos meus pais — mesmo que a decisão inicial tenha sido tomada por eles — me fez perceber uma liberdade que eu nunca tinha tido antes. A liberdade de escolher.
Um trem para Seoul às 10h30. Eu comprei, eu escolhi.
Foi uma mudança, não foi? Uma das boas.
— Preciso montar um currículo. — Falo de repente, lembrando do plano que lhe contei na semana passada. De repente, tenho vontade de sorrir; é por ele e pelo que acabei de descobrir. — Não acho que eu consigo um estágio na área, mas talvez em algum café aqui por perto, não sei.
Enquanto ouço Sorn se remexer atrás de uma posição confortável, penso o quão mais fácil a vida parece pela minha melhor amiga agora saber de tudo. Mesmo que a vida também tenha se tornado mais fácil por outras dezenas de fatores, esse ponto parece crucial agora.
— Não fala assim, é óbvio que consegue. — Sua voz é um tanto sonolenta. — Eu ajudo você. Tenho alguns modelos salvos no computador, to precisando montar um também.
Sorn se ajeita na cama, sentando-se agora na beirada do colchão. Nós somos envolvidas por preguiça. Vejo-a se erguer por completo e buscar sua toalha presa ao armário. Mando ver mais um punhado de balas de gelatina, desistindo temporariamente de organizar meus pertences por agora.
— Eu tenho uma reunião com a turma do curso de verão daqui a pouco, — Sorn rouba algumas balas que me deu. — Parece que esse ano o projeto vai ser diferente. Eu cheguei a falar?
— Não, não falou.
Ela dá de ombros, terminando de mastigar as cerejas.
— Também não sei direito, na verdade. — Revela, afastando-se para se esgueirar pela porta do banheiro. A cabeça um instante para fora ao completar: — Vou tomar banho rapidinho, já volto.
O barulho do chuveiro logo aparece e, então, estou sozinha.
Suspiro de forma longa e arrastada, o plano de tirar um cochilo se esvaiu da mesma forma que surgiu. As cortinas balançam minimamente e o dia parece ser infinito. Sinto-me inquieta apesar do cansaço. Acho que é o sentimento do retorno; o retorno que esperei depois de tanto tempo longe.
Dois meses, afinal.
Não foi fácil.
Sendo honesta, as férias na presença dos meus pais foi um show de horrores, uma montanha russa invertida repleta de loopings e túneis. Os primeiros dias foram esquisitos e desconexos, eles foram regados de retornos e medos. A adrenalina que eu sentia se dissipou aos poucos e por vários instantes, no silêncio do meu quarto, sugada por toda a realidade familiar que me cercava ali, pensei que aquela era a única vida que poderia ter, que foi ousadia demais pensar que pudesse ser diferente.
Foi turbulento tentar me encontrar no meio de tudo isso, mas os episódios que antecederam as férias me deram coragem para lutar até o fim. Eu sabia que seria difícil, sabia que seria testada a todo o instante — ainda mais com tantos sermões repetidos de minha mãe —, sabia disso desde o início. Mas eu também sabia que precisava acreditar no que carrego dentro de mim, na minha verdade; sabia que eu só precisava dar o primeiro passo.
E eu dei.
Ainda estou tentando me achar em fragmentos soltos pelo caminho, porque não quero retroceder, não quero voltar a viver o que eu vivia antes. Não vou. Quero me sentir livre, porque eu sou livre. Ainda estou tentando entender o que eu realmente quero, ainda estou tentando fazer as coisas no tempo certo. No meu tempo. Ainda estou tentando me ouvir e me respeitar. Minhas vontades e meus sonhos; eles ainda se mesclam com o desejo dos outros, ainda se chocam e se balançam sobre a linha tênue do que quero sentir e de como quero ser vista.
O processo é lento, quase arrastado, mas eu acho que a vida é isso, afinal. Ela realmente não muda como a cor de uma parede.
Tudo ao meu redor continua igual. Meu pai continua sem querer se envolver, minha mãe continua horrorizada com todas as mentiras e juntos eles ainda insistem em casamentos. Os dois meses nem sequer fizeram cócegas em suas atitudes. Mas não me sinto mais sufocada como antes, não me sinto mais encurralada. Não sinto mais o desespero de ser descoberta, não sinto mais a necessidade de tentar fazer com que eles pensem que sou do jeito que querem que eu seja. Eu vivi uma catarse. E, com isso, acabo pensando que tudo ao meu redor continua igual, é. Talvez o que realmente tenha mudado, afinal, tenham sido as coisas dentro de mim.
A porta do banheiro se abre depois de um tempo, revelando uma Sorn com cabelos úmidos e o corpo envolvido em uma toalha. Olha-a por pouco tempo, até cair de costas sobre a cama.
— Acho que não vou demorar muito na reunião... — Minha colega de quarto fala em meio ao quase silêncio. Quase, porque agora se ouve alguns pássaros cantando nas árvores próximas à janela. — A gente podia pedir cerveja e frango frito mais tarde, o que você acha?
Em meio a uma súbita preocupação sobre possíveis reuniões do meu curso de verão que não fui atrás de saber, eu aceito os planos com um aceno de cabeça.
Sorn então passa a perambular pelo quarto, penteando os cabelos e se enfiando em roupas limpas. Fico a observando sem dizer nada, a cabeça quase pendendo da cama.
— Eu sinto como se estivesse acordando de um pesadelo ruim.
Antes mesmo de pensar sobre, ouço minha voz dizer em um quase sussurro. Os olhos de Sorn me alcançam com tanta rapidez que não tenho dúvidas que me ouviu.
— Sabe? — Começo, tentando me explicar melhor. — Eu sai daqui tão desesperada, o sentimento era tão diferente do que eu sinto agora.
— Como você se sente agora?
Sua voz é cuidadosa e seus olhos atenciosos, consigo perceber mesmo de longe. Por mais que nosso contato nas férias tenha sido regular, eu nunca soube lhe explicar a forma como eu me sentia e, portanto, nunca nem sequer tentei. Pergunto-me agora se ela esperou que eu tocasse no assunto; esperou mesmo que estivesse com vontade dela mesma tocá-lo.
— Eu sinto que esqueci alguma coisa.
Ela se vira para mim, confusa. Vejo-a caminhar para a escrivaninha com uma bolsa em mãos.
— Esqueceu alguma coisa?
— É, acho que vivi por tanto tempo com uma angústia em cima de mim que acabei me acostumando. — Percebo logo que continuo sem saber como lhe explicar. — É como se fosse um pertence meu.
— Não é um pertence seu.
Sorn rebate certeira.
— Eu sei. — Dou de ombros. — Não é um sentimento ruim, ele é bom. Só é esquisito porque faz muito tempo que não me sinto assim.
Livre.
Ela me olha por um tempo, talvez tentando me entender.
— Acho que é normal. — Diz por fim, sincera. — Você ficou muito tempo com seus pais, foi difícil. Não sei como você conseguiu, inclusive. Eu teria surtado!
Rio e ela me acompanha, mas me acompanha apenas por alguns instantes. Em seguida, continua:
— A sua vida aqui é completamente diferente. Logo você vai lembrar que ela é muito mais do que eles fizeram você acreditar.
Não a respondo, pensando agora que é bom estar de volta. Em meio ao meu silêncio, Sorn continua a se organizar. Ela separa alguns livros e guarda seu tablet no case.
A vida é muito mais. Ela é muito mais.
O que tem dentro de mim, o que eu sinto e desejo é real, afinal.
É a minha verdade.
Em uma das tantas noites na casa dos meus avós, acabei me perguntando aonde exatamente eu havia me perdido no caminho, qual foi o ponto crucial para que eu parasse aonde parei. Não falo sobre o anúncio furreca ou as tantas mentiras prolongadas, falo sobre quando eu deixei de me priorizar, me ouvir. Quando foi que me perdi no caminho de ser e sentir o que eu quero.
Acabei percebendo que, na verdade, eu nunca nem sequer havia me encontrado.
E bem... Deitada aqui e agora, olhando para o teto branco e sentindo tudo o que sinto, penso também que foi um longo caminho até aqui, muito mais mental do que físico.
Não quero voltar.
E não vou.
Sento-me na cama, esticando minhas pernas ao olhar agora para a mala que Sorn carregou pelo caminho inteiro. Penso em todo o trabalho que tive para montá-la e penso agora também em todo o trabalho que terei para desfazê-la. Enquanto minha colega de quarto vai de um lado a outro, pegando o que precisa pegar e enfiando mochila adentro, penso que talvez aquele cochilo adiado não seja uma má ideia.
— Meu Deus.
A voz de Sorn vem surpresa e de repente, o som quase estridente em meio a minha sonolência e meus devaneios. Ela se vira para mim de súbito, os olhos arregalados e um sorriso surpreso. Quando penso em perguntar algo, ela volta sua atenção para a mochila novamente.
— Quase esqueci! — Ela diz depois de um tempo, virando-se agora com um panfleto em mãos. — Ontem eu vi Jungkook no hall dos dormitórios, ele estava fixando isso no edital.
Sinto meus olhos se arregalarem e meu coração trepidar no peito. Olho de seu rosto ao folheto que me estica agora. O nome saindo com tanta naturalidade de sua boca que me sinto vacilar. O que mais me assusta, no entanto, é a vontade que sinto de pronunciá-lo também.
Jungkook. Jungkook. Jungkook.
— Ele perguntou de você. — Diz, chacoalhando o papel couchê para que eu o pegue. — Pediu seu número de novo, parece que trocou de aparelho, não sei bem.
O mundo inteiro parece parar.
Sinto todas as minhas palavras trancarem na garganta, um sentimento me chacoalhando por dentro e explodindo nas bochechas. Não sinto mais sono, nem sequer me lembro do cochilo ou das malas para organizar.
Sorn me olha de cima, parece achar graça. Ao fim, coloca o flyer sobre minhas pernas.
— Perguntou de mim?
Minha voz é grogue e patética. Eu tento focalizar no papel que me entregou, mas não consigo prestar atenção em nada.
— É. — Dá de ombros, voltando a organizar sua mochila. — Queria saber quando você ia voltar. Tudo bem eu ter falado?
Tento raciocinar, tento buscar sentido nas palavras, no que penso. Seu nome veio tão de repente que ainda estou tentando processar a saudade que sinto e que se espalha como ramas dentro do meu peito. Também me sinto aérea, quase em um sonho.
Parece uma outra vida aqui.
— Caramba, — Sorn ri e estou tão absorta que nem sequer me sinto incomodada. — Você não acha engraçado?
Franzo o cenho em sua direção, não entendendo. Eu só consigo me lembrar da última vez que nos vimos no hall dos dormitórios. A dor no meu peito, o seu sorriso desaparecendo e sua partida. As lembranças que tenho dele são em várias camadas. Lembro-me das boas, das indiretas e das ruins. Ainda é complicado de explicar, de entender, e eu poderia fazer o que sempre costumo fazer.
Fugir, despistar.
Mas não quero.
— Sabe? — Ela vem quando percebe que não acompanho seu raciocínio. Sorn acaba colocando a mochila nas costas antes de continuar: — Há uns meses eu trouxe um anúncio de acompanhante de aluguel de Jungkook. Aquele anúncio horroroso, lembra? E agora eu te trago outro. Ele melhorou nisso, inclusive.
Ouça-a com atenção, mas continuo sem entender. Lembro do dia em que o mundo parecia grande demais e eu pequena demais; lembro de não ter mais esperanças e lembro também de toda a angustia que eu sentia com a pressão do aniversário de Eubin se aproximando. E, por fim, me lembro de Sorn deslizando um post-it verde limão com um anúncio completamente duvidoso e furreca.
De fato, as coisas mudaram dentro de mim, mas a única que parece continuar no mesmo lugar, intocável, é ele.
Jeon Jungkook.
Eu ainda tenho a conversa com minha mãe rodopiando minha cabeça, a tenho detrás para frente. Decorada. Tenho sua pergunta sobre o que senti por ele pairando nos meus pensamentos desde então. Como também tenho o não na ponta da língua.
Não era minha intenção mentir mais uma vez, mas naquele instante fez sentido. E ainda faz sentido. Por todo o histórico de cobranças sobre uniões matrimoniais e de uma vida que não quero ter, eu sabia que aquela pergunta não era só uma pergunta. Eu sabia aonde ela me levaria, aonde ela nos levaria. E não quero isso. Não quero para mim e não quero para nós dois.
Mesmo que eu já nem sequer saiba se ainda posso me referir a mim e a Jungkook como nós, não quero seguir o ritmo de outrem que não o tempo que queremos seguir. Não quero cobranças, não quero pressa. Não quero mais que as pessoas sintam por mim, decidam por mim. Não quero nada disso e não quero, principalmente, com ele.
Mesmo que nós não tenhamos nada, mesmo que nunca mais nos vejamos, eu quero que isso parta de nós. Eu quero que seja natural e vindo da gente. Vindo de mim. Quero ter a opção de escolher o que quero fazer, o que quero sentir. Quero fazer as coisas do meu jeito.
Não quero que Jungkook seja considerado um substituto de Haneul pelos meus pais, porque é incoerente, sujo e injusto. São opostos dentro de mim.
Haneul ainda é piche. Jungkook ainda é flores.
— O telefone dele tá aí. — Sorn me chacoalha com sua voz, sorrindo. Quando me dou conta, ela já está parada perto da porta. Tenho certeza que as coisas não acontecem rápido demais, mas é exatamente isso que sinto agora: — Por que não liga?
Ligar? Ligar para Jungkook?
Não tenho tempo de tentar debater isso com minha colega de quarto, porque no instante seguinte ela me deixa só. De novo. O eco da porta se fechando ainda parece reverberar pelo corredor dos dormitórios, os pássaros ainda cantam e as cortinas ainda balançam. Mas eu sou uma imensidão de nada e mãos suadas.
Acabo me perdendo em pensamentos que não me levam a lugar algum, à conclusão alguma quanto a questão levantada. Penso agora, na verdade, em como as coisas seriam se a resposta dada à minha mãe tivesse sido sim. Seria a verdade, afinal, não é? Mas tudo voltaria a se repetir; os sonhos da minha mãe, as cobranças dos meus pais, um desejo que não é meu. Voltaríamos à estaca zero, aos planejamentos e ao matrimônio. Ao controle quase absoluto da minha vida. E mesmo com as melhores intenções dentro de mim, eu arrastaria Jungkook a tudo aquilo que quero afastá-lo. Ainda o arrastaria para aquilo que nunca mais quero conectá-lo.
Não seria meu tempo. Não seria nosso tempo. De novo.
Ainda absorta em hipóteses que não existem, ainda absorta por sentimentos que me chacoalham a alma, meus olhos caem sobre o folheto bonito e sofisticado sobre minhas pernas.
DESIGNER GRÁFICO
Desenvolvimentos de sites, lojas virtuais e trabalhos gráficos. Ilustração e animação. Modelagem 3D. Diagramação e tipografia. HTML, CSS e JavaScript.
Jeon Jungkook
Autora: Agness Saints
Gênero: Comédia, Romance
Sinopse: Parecia piada, quatro anos de um relacionamento frustrante havia chegado ao fim, mas Haneul ainda te atrapalhava a vida. Se ele não tivesse arranjado um namoro relâmpago, você não precisaria demonstrar que está bem também, que não ficou para trás. Você não precisaria, principalmente, contratar aquele maldito acompanhante de aluguel.
Moreno. 1,80 de altura. Porte atlético. Bonito. Inteligente.
Educado. Agradável. Sabe estabelecer uma conversa.
Sem compromisso emocional, apenas financeiro.
Valor sob consulta.
Interessados: [51] 5782-4158
Esquece o “parecia”, a vida é mesmo uma piada pronta.
Contagem de palavras: 11.576
Avisos: +16. A história faz parte da série puerlistae au.
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Eu fiquei pelo caminho; sentada no pequeno degrau que separa a porta de saída e o restante do quarto. Também fiquei por outro caminho, dessa vez estacionada entre a atitude e a consequência, parada em cima do choque.
Eu fiquei pelo caminho. Literalmente e não literalmente.
Não tenho noção do tempo, talvez eu esteja aqui há dois minutos ou há duas horas. Não sei. Minhas pernas estão encolhidas contra meu peito e meus olhos fixados no pequeno tapete de boas-vindas. Ouço meus pensamentos se mesclando com o som da movimentação pelos corredores dos dormitórios. Pessoas riem, portas batem e o silêncio fica por um instante, até tudo começar outra vez. Segue o ritmo das minhas lembranças que se desencadeiam e desaparecem por uma infinidade de segundos, para logo assim retornar. É um vai e vem incessante. Sou calmaria e, num instante depois, sou furacão.
As coisas continuam acontecendo rápido demais e eu continuo perdida entre um ponto e outro. Sinto-me perturbada com toda a cena recente com Haneul, com todas as minhas palavras e com todas as consequências futuras.
De todas as opções que eu tinha, eu nunca pensei que acabaria com essa.
Se antes as possibilidades óbvias para lidar com o problema pareciam se esconder, depois de um possível nariz quebrado do meu ex-namorado elas parecem agora nunca terem existido.
A descrença e pânico me invadem volta e meia; indo ao ponto em que Haneul partiu para cima de mim e voltando ao ponto em que lhe neguei todos os acordos. Sinto-me perdida no que concluir, porque a sensação é diferente de todas as que já senti antes.
Ainda sou pega pelo desespero, ainda me questiono sobre a forma como agi. É possível consertar algo assim? É possível contornar uma situação dessas? Vou e volto de novo e de novo. Incansável. Eu passo pelo mesmo percurso de dois segundos atrás, assim como o mesmo percurso de antes, bem antes; quando a cor rubra pintava o rosto de Haneul. Meus pensamentos são como discos arranhados, se repetem o tempo todo e nunca são concluídos. É um redemoinho de indecisão, nota arranhada e interrupção no refrão.
Acabo por cair de costas no chão, meus olhos fincando no teto do dormitório de forma automática e comum. Por aqui ainda me sinto à flor da pele, ainda me sinto fora de contexto. Sou dividida em me arrepender amargamente pela impulsividade e em me deixar entender toda a falta de peso que tenho nos ombros. A sensação é diferente, já sei disso. Ela é nova, inédita. E acabo pensando que talvez aquele tenha sido o momento perfeito. O momento perfeito pra me libertar de vez de tudo aquilo que queria me libertar e que não tinha coragem.
Respiro fundo, as cenas repassando em frente aos meus olhos como um filme. Meu coração batendo tão forte no meu peito agora que acredito realmente que possa ser o início de uma taquicardia. Talvez nos meus sonhos — tão secretos e inconscientes — eu estivesse mais segura, mais empoderada no confronto com Haneul. Talvez eu tivesse mais certeza e menos medo... Mas acho que tudo bem, não é? Ainda foi um passo dado.
Eu ainda me tenho no meio do caminho — literal e não literalmente — quando a porta do dormitório se abre. Meus olhos encontram os de Sorn ao mesmo tempo em que estou estacionada no limite do arrependimento e da certeza. Porque ainda sou conflito, bagunça e um emaranhado confuso tentando se resolver.
Sei das consequências óbvias, como também sei das que nem sequer imagino. Não posso dizer que não sinto medo do futuro, porque sinto. Mas não ter ignorado minha vontade de me livrar de tudo me fez perceber que talvez essa era a voz que eu procurava ouvir. A minha voz.
— Sorn! — Levanto em um supetão, de repente agitada. Minha colega de quarto larga sua mochila de viagem ao chão, fechando a porta sem ao menos desviar seus olhos dos meus. Ela parece saber que algo acontece. Talvez seja óbvio. — Você chegou.
— Tá tudo bem?
Olho-a por um tempo.
Tenho dois lados para tomar, duas respostas para lhe entregar.
Sim ou não.
Minha respiração se acelera e entendo que a partir do momento que eu verbalizar todos os acontecimentos recentes, eles vão se tornar muito mais reais do que já são. Sei que fiz a coisa certa, da mesma forma que soube quando desisti de arrastar Jungkook até um encontro de famílias em Busan. Eu simplesmente sabia, como sei agora também. A diferença nesse instante é que todo o cenário mudou, está prestes a mudar. Não sei como as coisas vão ser a partir de agora. Não sei como a notícia vai chegar até meus pais; e talvez esse seja o medo que ainda me faz correr até o arrependimento. Que me faz tão confusa e tão resistente a finalmente aceitar que fiz o que deveria ter sido feito...
Respiro fundo, o ar trancando na garganta e quase me fazendo engasgar. Não sei mais se existe movimento no corredor, como também já não sei mais se as portas batem. Só sei que acabo de perceber que preciso dizer muito mais do que me lembro.
Engulo a seco, os olhos da minha colega de quarto não desviando do meu rosto um segundo sequer.
—Sorn... — Começo, indecisa. — Eu quero te contar algo.
Não existe forma de se apagar uma cotovelada no nariz. Como também não existe jeito de voltar no tempo e reconstruir uma cena. A constatação é óbvia e não deixa dúvidas. Mas, quando se trata de Haneul, é sempre bom lembrar o quanto a ciência pode estar errada somente para se encaixar no ponto de vista desejado.
O nariz quebrado — sim, quebrado — se transformou em amor reprimido e o meu não tão audível e difícil de dizer passou a significar uma forma de demonstrar o quanto eu estava arrependida, que não me sentia merecedora de uma chance.
As mais de vinte mensagens de texto, as quinze ligações não atendidas e os textos imensos enviados nas minhas redes sociais um dia após todo o caos feito na entrada do campus estavam ali para provar.
Não acreditei nas palavras de Haneul quando me prometeu não fazer acordo algum após seu nariz quebrado, mesmo que minha esperança tenha sido afagada pela ideia utópica. Mas não pensei que ele fosse dar o braço a torcer de maneira tão rápida e avassaladora. Após vomitar tudo o que eu sentia para Sorn até de madrugada, as mensagens começaram a aparecer na tela de meu celular incessantemente. Elas vinham de diferentes formas: chantagens, xingamentos, pedidos de desculpas, pontos de vista insanos e declarações de amor doentias. Pensei que pudesse ser o efeito da possível anestesia, mas eu logo me lembrei que esse era somente Haneul sendo Haneul.
[21:34] número desconhecido: vc vai se arrepender amargamente do que tá fazendo
[21:41] número desconhecido: vc é uma vaca escrota que vai morrer sozinha pq ninguém quer vc
[21:43] número desconhecido: eu to te dando mais uma chance pq tenho pena de vc
[23:12] número desconhecido: vc mais do que ninguém sabe que fez tudo isso pq ainda gosta de mim... essa não é a hora pra vc se fazer de difícil, já deu. chega!
[22:17] número desconhecido: eu sou o único cara que consegue gostar de vc, ninguém mais consegue. é assim desde sempre, só eu vou conseguir te amar
Por um instante, enquanto eu continuava a receber em forma de mensagens um turbilhão de chances para eu voltar atrás, eu pensei em mudar o rumo das coisas de novo. Levar tudo ao mesmo caminho de antes, quando só existia eu e Haneul. Porque as coisas ainda eram difíceis de lidar, o medo ainda era grande. Com o celular entre meus dedos e o dormitório mergulhado em escuridão, eu fui e voltei tantas outras vezes. Lutei com a vontade de me diminuir, de me sentir insuficiente. Ouvi as palavras de Jungkook, ouvi as palavras de Sorn.
“Você finalmente se libertou do seu maior medo.”
E enquanto eu sentia meus olhos pesarem e meu celular vibrar em mais outra tantas mensagens, entendi que talvez eu nunca mais tivesse coragem de me livrar disso outra vez. Que se eu voltasse atrás agora, talvez eu nunca mais conseguisse me libertar novamente. Entendi que segundas chances existem e aquela era a minha para eu fazer tudo de novo: do não ao nariz quebrado. Porque só existia um significado para eles e eu sabia muito bem qual era.
— Você perdeu completamente o juízo! Qual é a dificuldade de ser como as outras garotas? Qual?
Remexo-me na cama, a frustração querendo pesar no peito. Da mesma forma que não acreditei na promessa falha de Haneul sobre acordos, eu acreditei quando ele me prometeu contar para meus pais. E sei que todo o meu silêncio em frente a todas as suas tentativas de me fazer voltar atrás me trouxeram até aqui, até meu antigo quarto na casa de meus avós em Naju. Mas mesmo que eu soubesse, algo dentro de mim ainda me fazia crer que as coisas podiam ser diferentes; uma mudança brusca do destino, uma piada irônica da vida.
— Não só pagou por um garoto de programa, como quebrou o nariz do Haneul! — Minha mãe vem mais uma vez, mesmo que eu já tenha a corrigido sobre o garoto de programa. Mesmo que ela saiba sobre o garoto de programa. — Você se desvirtuou totalmente, totalmente!
Apesar de sua fúria notória, não foi um completo desastre como eu pensei que seria. Quer dizer, ainda é ruim. Ainda é pesado e eu ainda gostaria que não estivesse acontecendo. Mas quando meus pais apareceram para me buscar no hall dos dormitórios — dois dias depois do ocorrido —, eu achei que a cena toda fosse ser mais complicada, que as consequências imediatas fossem ser mais extremas. Pensei que seria arrastada escada abaixo, que sairia dali direto para um convento ou, quiçá, um casamento feito em cima da hora. Pensei também sobre intercâmbio, internato e passagem só de ida para a Lua... Mas talvez a notícia dos acontecimentos recentes tenha sido um baque e tanto para eles também, não somente para mim. Talvez tudo tenha os deixado atordoados o suficiente para só me privarem do meu aparelho telefônico e do meu direito de passar as férias em Seoul.
Não sei bem o que isso possa significar. Não sei bem o que isso possa desencadear...
— A gente só quer que você seja feliz, em um casamento feliz. Eu e seu pai sabemos o que é melhor pra você, pelo amor de Deus! — Joga suas mãos para cima, exasperada. — Você nos faz parecer uns monstros!
Barro a vontade de respirar fundo, resgatando palavras já ditas e palavras recém ouvidas. É um looping infinito de lições de moral repetidas.
Nós estamos aqui há aproximadamente quarenta minutos; eu sentada sobre a minha cama e ela em pé em cima do meu tapete felpudo. Ela vai e vem de um lado a outro, passa pela cômoda e se aproxima da janela. Vai e vem, vai e vem. Incontáveis vezes. Meu pai, por outro lado, nem sequer se deu ao trabalho de se envolver, ele deu alguns sermões durante o caminho, mas tratou de voltar para Seoul assim que nos largou por aqui.
A porta do meu antigo quarto está fechada, mas sei que meus avós ouvem de alguma forma lá da sala. Ou pelo menos sentem toda a tensão que emana daqui...
Não sei como a notícia chegou até meus pais; quais palavras foram usadas ou por qual meio. Mas sei que meu ponto de vista não foi elucidado, nem sequer citado. Porque mesmo que tudo pareça óbvio demais desse lado de cá da história, eles ainda parecem se negar a me entender.
Durante todo esse tempo, desde o momento em que os vi no hall dos dormitórios até agora, eu lutei com a vontade de lhes entregar desculpas. Lutei com a vontade de tentar reverter a situação, de me enfiar em sacrifícios para o conforto deles. Como também lutei com a vontade de revidar cada desaforo de minha mãe. Porque acabo percebendo que talvez ela nunca me entenda, talvez ela nunca queira me entender.
— Você não acha que tá velha demais pra ter fases rebeldes? — Seu tom de voz é debochado, mas ainda beira exagero e irritação. — Eu tenho certeza que foi a faculdade que te fez mudar tanto assim. Você enlouqueceu! O que acha que vai acontecer agora?
Quem sabe seja muito complicado de aceitar que todos os seus planos para meu casamento não serão mais usados, que não quero mais os usar; que todos os planos que traçou para minha vida não serão seguidos. Quando eu disse que só contratei um acompanhante de aluguel para me ver livre de todas as suas cobranças — quando ainda tentei lhe dar alguma explicação —, ela também reverteu a situação.
Monstros.
Eu os faço parecer uns monstros.
Significados substituídos, pontos de vista invertidos.
Exatamente igual a Haneul.
Por todos esses dias, semanas, meses eu tive medo do agora, do que poderia vir. Tive medo das reações e das consequências. Ainda tenho medo das consequências, de fato. Mas a maneira como eles estão lidando com isso não me parece mais tão assustadora como eu pensava que seria.
E isso me faz entender que talvez o que precisasse mudar era eu, a forma como encarava e encaro tudo isso.
Talvez seja os efeitos de ter percebido tudo recentemente, a adrenalina ainda ser fresca em mim; nos meus atos, nos meus pensamentos e nas minhas palavras. Talvez seja pela coragem incomum, pelo desejo anormal que me toma de seguir com isso, mesmo ainda vestida pela insegurança e medo. Talvez seja passageiro, uma força que não existe em mim de verdade... Mas não quero voltar atrás, não quero desistir. Essa coragem me faz também simplesmente sucumbir a todos os sermões que recebo, porque talvez não valha a pena eu tentar mudar algo na cabeça de minha mãe.
— Chega de mesada, mais nada pra você! — Diz pela primeira vez. Meus olhos estão cravados em cada gesto que faz e ela parece usar isso a seu favor, remexendo-se com agressividade e carregando nas expressões faciais. — A gente não é palhaço pra te dar dinheiro pra você mentir desse jeito pra gente depois. Chega disso, chega dessa pouca vergonha! Se quer dinheiro, vai ter que andar na linha!
Ela para por um instante, parecendo prolongar o efeito do aviso com seu silêncio repentino. Mas quando parece entender que não existe reação alguma vindo de mim, remexe-se no lugar, jogando os cabelos para trás e respirando fundo. Eu quase consigo ouvir sua cabeça maquinar todas as palavras que quer dizer, reforçar.
— Eu quero tanto te tirar dessa universidade. — Vira-se para mim outra vez. Sua voz é raivosa, estridente. — Arrancar da tua cabeça essa ideia imbecil de independência!
Engulo a seco, meus olhos ainda cravados nela desde o início. Não é a primeira vez que ouço isso, mas é algo que me atinge em cheio. Eu vi esse momento vindo. Pensei sobre ele dezenas de vezes, incessantemente. A pior consequência que imaginei, a pior consequência que pode acontecer. E mesmo que eu tenha pensado em diferentes formas e jeitos de eu continuar na universidade, eu ainda me pego fragilizada pela ameaça. Porque acabo entendendo que ter iniciado o curso que quero, ter me mantido firme ali, me fez encontrar um lado meu que nunca havia achado antes.
É significativo, é importante, e não quero nunca abrir mão disso.
— Eu só não te tiro dessa droga porque não quero ter que explicar ao diretor Song o porquê da desistência da bolsa que eles te deram. — Aponta o dedo para mim. — É vergonhoso demais!
Eu também já ouvi isso. Não é novo. Suas palavras se repetem o tempo todo... Mas não ouso me sentir grata por isso. Porque não deveria caber a ela essa decisão, deveria caber à mim e somente à mim, não é?
Nesse momento eu não me sinto pequena e insignificante, não me sinto errada e suja. Não me sinto pegando um caminho tortuoso e ilegal. É a mesma sensação diferente que venho sentindo desde que disse não a Haneul. Estou conectando pontos, estou me ouvindo e tentando entender. Não parece ter espaço algum para mãos trêmulas, falas quebradas e tentativas humilhantes de tentar me moldar ao que meus pais desejam. Porque já entendi que não posso mais usar isso como desculpa, já entendi que não posso mais tentar me convencer de que faço isso para tentar viver em paz.
Não sinto mais necessidade de me fazer entendida, porque eu já me entendo e isso parece o suficiente por agora.
— Você tem sorte de Haneul não ter te denunciado à polícia. — Fala depois de um tempo, as mãos cravadas na cintura. — Depois de tudo o que você fez ele passar, toda essa humilhação, ele ainda foi bondoso com você.
Olho-a por alguns instantes, chocada. Penso que o mundo que vivemos é muito diferente um do outro. O meu, o dela. Acabo passando por pensamentos que me levam à carência de apoio materno, contorno o momento em que a decepcionei e estaciono aqui. Queria que ela me entendesse, queria que ela quisesse me entender. Não sei se as coisas seriam fáceis, mas talvez o caminho percorrido até aqui tivesse sido menos doloroso do que foi.
— Você pelo menos tá me ouvindo? — Minha mãe explode outra vez. — Fala alguma coisa, garota!
— Bondoso?
Minha voz resurge pela primeira vez depois de muito tempo sem aparecer.
— É, — responde atordoada — bondoso.
Ficamos um tempo em silêncio. Sua respiração acelerada e a minha tão regulada que se torna inaudível. Por entre as cortinas de voal rosa o sol ilumina o ambiente como iluminava há cinco anos, quando minhas férias de verão eram sempre passadas por aqui; quando meu maior sonho era me casar com um vestido rodado e cheio.
As coisas faziam sentido. O vestido, o casamento. Elas faziam sentido.
Mas ela não precisam mais fazer. E se eu consegui entender isso, minha mãe também deveria. Porque tudo bem eu ter desejado tudo o que desejei; e tudo bem se eu tivesse mantido esse desejo. Mas esse não foi o caso... E tudo bem também ter mudado.
— Não quebrei o nariz dele de propósito. Ele veio para cima de mim. — Digo, lembrando do quão absurdo a situação foi. Explico mais para mim do que para ela. Porque eu ainda preciso entender o que aconteceu e, não menos importante, preciso me lembrar sempre do que me livrei. — Se alguém tivesse que denunciar alguém, esse alguém seria eu.
Há um silêncio e um momento. Um momento novo e que não consigo acompanhar. Ele se estende por todo o silêncio longo entre nós duas. Não sei dizer sobre a conclusão que minha mãe toma, nem sequer sei dizer se ela entendeu o que eu disse. Mas suas mãos na cintura não parecem mais tão firmes como antes.
— Ele foi pra cima de você?
Não consigo a responder, também não sei dizer se quero. Ficamos então por mais um tempo ali, nos encarando em meu antigo quarto em Naju. Sendo observadas por pelúcias, quadros de paisagens que nunca vi pessoalmente e fantasmas de momentos vividos.
Consigo enxergar dezenas de reações passarem por seus olhos que tanto me medem. A primeira que encontro é duvida, e ela se estende tempo o bastante para eu crer que ela será a única. Mas a segunda é descrença e a terceira é pavor; duas novidades no meio de tanta reação que já veio contra mim.
Penso que ela falará algo e gostaria que falasse... Gostaria de entender um pouco da sua cabeça, mesmo que ela não faça questão alguma de entender a minha. Mas no instante seguinte ela joga seus cabelos para trás outra vez, quebrando nosso contato visual e parecendo sair de toda a órbita que nos cerca. Cria uma cena inteira apenas para me dar as costas e me deixar sozinha pela primeira vez desde que chegamos.
É um vazio esquisito e bem-vindo.
As cortinas chacoalham pelo vento e o sol entra sem convite. O mundo lá fora não está nem aí para o que acontece aqui dentro.
E enquanto ainda tenho a lembrança recente do som da porta se fechando, penso que isso é só o início. Que há muito ainda por vir. Ainda vão existir momentos em que minha mãe gritará e repetirá tudo o que já me disse. Usará palavras ainda mais baixas e ameaças ainda mais sujas. Sei disso. E, para ser sincera, já me sinto sugada emocionalmente; com o agora e com o que está por vir.
Mas não posso deixar de me sentir em paz pela primeira vez em meses também.
Tudo ainda parece um sonho distante e esquisito. Não falo somente da mudança brusca de cenário; não falo sobre como pela manhã eu estava em Seoul e ao fim da tarde já estava em Naju. Falo de toda a irrealidade que paira pela situação inteira. Nunca pensei que chegaria aqui, nunca pensei que um dia teria coragem o suficiente para encarar tudo isso da forma como ousei encarar.
É verdade que acabei passando a responsabilidade de contar aos meus pais à Haneul e que isso fez as coisas mais simples do que elas eram antes. Mas acho que pelo histórico isso era o mínimo que ele poderia fazer por mim. Mesmo que indiretamente e com uma intenção muito diferente da minha.
Tomo um susto ao que a porta se abre em um solavanco mais uma vez. O corpo de minha mãe aparece pela fresta ampla e o barulho do rádio de meu avô na sala vira uma trilha sonora desconexa.
— Quero saber uma única coisa e espero que dessa vez você fale a verdade. — Ela não me olha, tem os olhos cravados no chão como se fosse difícil demais manter contato. — No meio de toda essa palhaçada que você fez, em algum momento... Em algum momento você gostou de Jungkook?
Sua pergunta me pega desprevenida e não a entendo de imediato. Meus olhos a medem enquanto vou e volto por vários caminhos sem saída. O tempo parece parar e no meio de todo um labirinto confuso, acabo encontrando a única resposta que poderia lhe entregar:
Bom dia, boa tarde e boa noite!
Como estão as coisas com vocês? Apesar do nosso chá de sumiço, continuamos vivas e vivendo!
Hoje viemos através deste post conversar com vocês sobre algo de extremo importância e amor:
O JK Appa Meme vai estar na Speak Yourself Tour!
Sim, o momento chegou. Os planetas finalmente se alinharam para trazer o BTS de volta ao Brasil e nós duas estaremos no show do dia 25/05, em São Paulo!
Ok, não era exatamente esse o recado... Mas existe uma ligação!
Com o show do BTS no Brasil e o JK Appa Meme presente por lá... Bem, isso significa que a lenda da reunião entre as escritoras e leitoras desse nosso cantinho memeático incrível é real!!!!
Queríamos saber o que vocês acham da ideia de nos darem um oizinho por lá? A gente tá muito animada pra conhecer vocês, então seria incrível se pudesse rolar um encontrinho, mesmo que rápido e na confusão de filas, nesse dia tão legal pra todo mundo.
Quem tiver de acordo com a ideia, manda um recadinho por aqui. Vamos tornar esse sonho uma realidade!
Jeon Jungkook
Autora: Agness Saints
Gênero: Comédia, Romance
Sinopse: Parecia piada, quatro anos de um relacionamento frustrante havia chegado ao fim, mas Haneul ainda te atrapalhava a vida. Se ele não tivesse arranjado um namoro relâmpago, você não precisaria demonstrar que está bem também, que não ficou para trás. Você não precisaria, principalmente, contratar aquele maldito acompanhante de aluguel.
Moreno. 1,80 de altura. Porte atlético. Bonito. Inteligente.
Educado. Agradável. Sabe estabelecer uma conversa.
Sem compromisso emocional, apenas financeiro.
Valor sob consulta.
Interessados: [51] 5782-4158
Esquece o “parecia”, a vida é mesmo uma piada pronta.
Contagem de palavras: 11.576
Avisos: +16. A história faz parte da série puerlistae au.
Parte: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16
Playlist. | Playlist 2. | Playlist 3.
Tropeço nos últimos degraus. Meu corpo se perdendo no meio do caminho e indo de encontro à parede; o corrimão me acerta o quadril e minha bochecha se esmaga contra a superfície gelada. E por um instante, no meio tempo em que tranço meus pés e sofro as consequências, eu tenho um pensamento súbito e organizado. Ele é diferente de qualquer outro que tive até agora, até chegar aqui, porque ele é único no meio de uma imensidão bagunçada e angustiante demais.
Aonde é que eu vim parar?
Eu estaria mentindo se dissesse que nunca imaginei que as coisas chegariam a esse ponto. Porque pensei que fosse ser descoberta diversas vezes em diversos momentos. No aniversário de Eubin, no almoço com meus pais, no jogo de basquete, no jantar de negócios... Em várias situações eu consegui enxergar a verdade vindo à tona de um jeito sujo e imoral.
Mas eu não estaria mentindo se dissesse que nunca imaginei como. Nem que as coisas chegariam tão longe como chegaram. Tentando analisar a situação como um todo, mesmo que seja difícil agora, o caminho percorrido até aqui foi extenso demais para uma mentira curta demais.
Tudo o que eu nunca imaginei posto bem diante dos meus olhos.
Afasto-me da parede. Meu quadril doendo pelo impacto e minha bochecha ainda gelada pela superfície. O pensamento bem alinhado e de uma realidade cruel já não mais existe, ele se juntou aos outros tantos complicados, como fumaça branca em meio às nuvens. Em menos de dois segundos, volto a descer um novo lance de escada do dormitório feminino.
À medida que o caminho diminui, as luzes se acendem por sensores. A cada grupo de degraus que elimino, uma luz se acende pelo corredor. Não evito pensar em como isso é uma ironia esquisita, porque não me sinto iluminada; não me sinto clara, com pensamentos claros. O ambiente é frio e acendido, mas me sinto quente e no escuro.
É discordância pura.
Tento pensar outra vez de maneira coerente e objetiva, enquanto vejo meus pés se movimentarem em desespero e aflição. Tento também enxergar uma solução, uma saída. Mas nada, sou cheia de curvas. Minha lucidez veio e foi embora. Meu coração é uma bomba relógio no peito e meus ouvidos zonem de pavor, o maldito anúncio no fórum da faculdade é como um outdoor chamativo em frente a todos os pensamentos equilibrados que tento ter por agora. O post é de fevereiro e ainda constam os dizeres originais... O fundo azul claro, as letras garrafais em preto, duas curtidas e nenhum comentário. O nome de Jeon Jungkook encabeçando a postagem como o autor de toda aquela pequena imensidão.
Não deixa dúvida alguma sobre nada.
Inferno!
Sinto meu estômago se apertar consternado quando meus pés encontram o piso do térreo e meu cérebro encontra uma consequência extrema. Se eu não conseguir reverter essa situação, meus pais seriam capazes de me fazer voltar para casa? Meus dedos seguram com força meu celular contra o peito quando o pensamento me invade. Permaneço aqui, na divisa de cômodos, no fim da escada e no início do corredor principal. Sinto-me enjoada e fora da sequência. É como se o mundo estivesse perdido. Talvez ele esteja, não é?
Não sei exatamente o que fazer. Eu sou uma vastidão confusa, sou vulnerável, não sei o que é certo sentir. Sinto-me absurda, porque me tenho em meio a sentimentos demais. Não consigo enxergar o óbvio, não consigo enxergar de maneira unitária. Tudo vem como um emaranhado de angústia e frustração. E sei que me machuco de graça. Que vou e volto, me arranho duas vezes. Eu sei que existe uma solução bem pensada, uma solução prática e certa, mas não sou capaz de vê-la, pelo menos não agora. Eu sou tomada pelo desespero e pela urgência. Não tenho tempo, não posso esperar. Acabo caindo na questão... Poderia existir jeito certo de lidar com isso, afinal?
Como um choque, aperto o passo e contorno um grupo de garotas pelo corredor. Não entendo se corro ou ando rápido. Eu perdi completamente a noção dos meus movimentos, percebo isso quando meu corpo sofre um solavanco e meu quadril outra vez recebe um impacto não planejado; ele vai de encontro agora à catraca não liberada. Olho por um instante o metal em contato com o tecido do vestido e demoro um tempo para entender o que preciso fazer. No meio tempo em que pego minha carteirinha e a libero, meus joelhos enfraquecem e a única sensação que carrego comigo é de puro pânico.
Há um incomum tumulto no hall dos dormitórios que me deixa confusa por um tempo, mas que não me forço a tentar compreender agora. Caminho por ali, passos incertos, imprecisos. As solas dos meus tênis dificultando todo o processo por, volta e meia, trancar no piso frio e me fazer tropicar em meio ao caos. Desvio de estudantes e funcionários, ouço sobre o fim do semestre e sobre o início das férias. Penso em me prender em um pensamento fútil e singular, em um pensamento aleatório que me tire do que sinto só por um instante. Tento resgatar então o motivo do movimento, lutando para alcançar a obviedade na ponta da minha língua. Foi me dado todos os dados, mas não consigo interligá-los. Desvio de mais um grupo. De pessoas e de pensamentos extremos tentando me desvirtuar do entretenimento que tento ter. Vou e volto.
Paro.
No meio de todo o alvoroço — interno e externo —, eu enxergo Jungkook; de costas, próximo à saída.
Por uma fração pequenina de segundo, eu sou nada e, no instante seguinte, eu sou tudo.
Desisto facilmente de tentar qualquer coisa que tenha pensado em tentar. Porque sou pega desprevenida por não entender o que sinto de repente; vejo-me à flor da pele. Ainda mais do que antes. Meu peito trepida e eu sou soluços de coragem. Vou e volto. De novo. Abrupto. Sou ultrapassada pelo acontecimento, sentimentos e palavras. Caminho em círculos e mais círculos dentro da minha cabeça, não vejo alternativas óbvias. Sinto-me exposta mesmo que ninguém me veja, sou indefesa, magoável, derrotável. Não entendo o que acontece de verdade e mesmo que eu tente ir de pouco a pouco, tentando perceber aonde vim parar, eu me perco no meio do caminho.
E por todas as vezes que fui caos, sou caos de novo.
Há tantas coisas em risco agora mesmo... Há centenas delas.
Não ouço mais nada além de vozes desconexas e as batidas no meu próprio coração. Estou parada em meio ao hall e não mais desvio; agora desviam de mim. O cenário de poucos instantes atrás não existe mais. Eu e Jungkook somos separados por meros minutos cretinos, uma descoberta filha da puta e a distância física no salão estudantil.
Penso em retomar o movimento das minhas pernas, um passo de cada vez. Reverter a situação e voltar a ser quem desvia e não quem é desviada. Mas continuo parada aqui. Sendo ultrapassada física e emocionalmente. E antes mesmo que outro pensamento prepotente me encontre em uma falsa coragem repentina, Jungkook se vira diretamente para mim.
Seus olhos são como dois céus estrelados em meio ao sol do início da tarde. Contraste puro e excepcional. Eles me encontram com tanta facilidade que por um instante sou convencida de que Jungkook sabe. Do início ao fim. Tudo acontece cedo demais, antes da hora. Mas sinto que minha preparação nunca foi uma prioridade da vida. Temo que ele entenda tudo o que se passa dentro de mim, mesmo que de longe. Temo ser transparente a esse nível, mas também anseio para que eu seja. Verbalizar parece tornar tudo isso ainda mais real do que já é. E não quero.
Não consigo respirar fundo como desejo fazer. Seus cabelos estão caídos sobre a testa vincada e sua boca abre um sorriso confuso. Penso em dar um passo, mas não o faço. Eu sou desordem e rancor. Um rancor crescente, doloroso e feio. A lembrança das mensagens de Haneul me tomam os pensamentos em dor em meio ao riso bonito de Jungkook; e não consigo repelir a raiva que sinto ao perceber que a situação escapa pelos meus dedos. É como grãos de areia, é como sentir. Num instante tenho tudo, no outro já não tenho nada.
Vejo Jungkook vir até mim, desviando de pessoas e me medindo com ainda mais curiosidade. Não consigo retribuir nenhuma versão do seu sorriso, porque a cada passo que ele dá em minha direção é como se a realidade fosse ainda mais clara. Isso me enfurece; enfurece porque ainda estou aqui, ainda estou enfiada nisso até o pescoço.
— Não quis me responder por mensagem?
Eu me perco no tempo, não pego mais detalhes ou sinais. Sua voz vem desconexa no ar e eu levo um tempo para entender que ele está parado em minha frente, finalmente. Por um instante, esqueço-me que antes conversávamos por mensagens de texto. Nego com um remexer de cabeça raso, quase imperceptível. Talvez eu devesse me considerar sortuda por ainda encontrá-lo aqui, mas não sou atrevida a esse ponto.
— Você... — Jungkook umedece os lábios com a ponta da língua, seus olhos estão atentos sobre mim. — Vai querer fazer algo depois?
Abro a boca por um instante, mas a fecho frustrada. Meu coração bate tão forte no peito que penso que posso morrer. O fato de ele nem sequer suspeitar de toda a bagunça dentro de mim agora me atordoa. É verdade que estamos em situações diferentes, mas sinto inveja por ele não sentir o que sinto. Puxo o ar com força, enfim; seu perfume tropical não me alcança, mesmo que essa vontade de senti-lo tenha sido percebida só agora.
— Tá tudo bem?
Com isso fico mais um tempo o olhando, enquanto suas palavras dançam sobre nós dois. Sua pele parece mais radiante, assim como seu sorriso aberto. Ele está lindo como sempre, mas não consigo me concentrar nele mais do que isso. Não consigo focar em suas particularidades ou seu cheiro que não vem. Passo meus olhos por suas roupas, mas não me prendo nelas.
Fecho os olhos por um instante, de maneira forte e irritada. Eu me sinto avulsa, fora de cenário. É uma sensação ruim e incomum, porque tento e tento entender em que ponto cheguei e em que ponto estou; da situação e do que sinto. Mas tudo é um emaranhado de fios da mesma cor, é praticamente impossível ver as coisas de maneira clara.
Abro os olhos depois de um tempo, há um zunido chato em meu ouvido e uma irritação mais forte do que antes. Aperto as mãos em punhos e travo meu maxilar por instinto.
— Jungkook, — Começo, impaciente. Tudo está errado! Não consigo me dosar, eu sou extremo, à flor da pele. — Você fez um post no fórum da faculdade?
Agora o que dança sobre nós dois é o silêncio; seus olhos me medem por certo tempo, parecendo perdidos na mudança de assunto. Ele se remexe no lugar, ajeitando a mochila em um dos ombros quando solta um riso esquisito antes de falar:
— Quê? Não fiz. Por quê? — Suas argolas balançam em suas orelhas e seus olhos se espremem em mais um sorriso. Ele espera um tempo e, quando percebe que não direi nada, volta a falar: — Hoje saiu as notas e os resultados do curso de verão. A gente achou que seria só na quarta, mas deu que liberou antes. O campus tá uma bagunça hoje porque todo mundo tá se preparando pro início das fé-
— Não to falando de hoje. — Interrompo-o sem rodeios, resgatando o que vim falar. Não me importa mais o tumulto pelos dormitórios ou o que quer que seja. Eu quero me livrar desse incômodo dentro de mim. — Eu to falando...
Paro, ficando ainda mais alvoroçada ao perceber que é inútil tentar explicar ou protelar. Desbloqueio a tela de meu celular e encontro a página logo ali. Eu a verifiquei dezenas e dezenas de vezes, li e reli como um karma. Analisei cada detalhe na esperança de encontrar uma falha que me dissesse que não era verdade. Mas infelizmente era. Ainda é. Solto um suspiro, erguendo o aparelho em sua frente.
— To falando disso.
Jungkook tem seu olhar fixo em meu rosto por um instante, o sorriso se esvaindo gradativamente. Talvez ele entenda agora que algo está errado por aqui. Talvez pelo meu tom de voz, pela minha postura, pela minha falta de sorrisos ou rubores nas bochechas. Talvez ele finalmente tenha entendido que nossos climas não são compatíveis. Não agora. Ele me olha por mais algum tempo, como se tentasse arrancar uma explicação no modo como o olho, mas logo desiste. Quando sua atenção é finalmente voltada para o que lhe apresento, sinto algo esquisito no peito. Penso em recuar e abaixar o celular, mas não o faço. Seus olhos parecendo correr por cada informação exposta na tela do meu aparelho, enquanto eu tento lidar com tudo o que tenho dentro de mim.
Quando parece entender, Jungkook se afasta um passo.
— Como você achou isso? — Parece incrédulo, mas envergonhado. — Já faz um tempo, eu nem lembrava mais.
Franzo o cenho consideravelmente, abaixando o telefone de imediato. Então ele ainda não entendeu? O questionamento vem como raio nos meus pensamentos. A informação pega pela metade me faz pensar que preciso verbalizar. E isso é o fim. O fim. A forma como ele não parece ligar os pontos me deixa desestabilizada. É tão difícil assim? Fico presa no desconforto e raiva por Jungkook não entender onde é que quero chegar; por não entender todo o peso que carrego agora mesmo.
Penso em mostrar as mensagens, mas eu as deletei num impulso de atordoamento e medo.
— O Haneul viu! — Solto, brava. — Ele viu seu post no fórum e me mandou. Ele sabe que você é acompanhante de aluguel!
Minha voz sai mais alta do que planejava sair, mas não me importo realmente com isso. Eu finalmente começo a sentir meu corpo inteiro reagir a toda essa situação. Sinto-me tremer da cabeça aos pés. Tudo parece sair ainda mais do meu controle, é algo que não consigo dirigir ou prever. Estou sendo ultrapassada o tempo todo, me perco no que é certo e no que é errado.
De novo.Existe o certo?
Não consigo organizar, sou posta zonza em meio a uma guerra. Não queria me comportar dessa forma, mas eu simplesmente soo, me movo, penso desse jeito. É como se eu estivesse escapando junto à situação inteira.
— Ele... — Jungkook começa, parece ainda enfrentar dificuldades para entender. — Ele o quê?
— Foi isso que você ouviu! — Rebato. O sol vindo da porta de vidro incomoda meus olhos por um instante e isso entra para a lista dos desconfortos do dia. — Haneul me mandou uma mensagem agora pouco com o link desse post.
Jungkook tem os olhos arregalados, atônitos. Ele me mede como se não conseguisse compreender. Como se eu estivesse falando algo completamente aleatório e ilógico. E talvez seja, não é? Talvez seja absurdo demais nós ainda precisarmos enfrentar toda essa porcaria depois de todo esse tempo. Depois de todas as coisas que já precisamos enfrentar.
— Ele mandou isso pra você?
Toda a sua aura leve vai embora como num passe de mágica.
— Mandou! — Respondo esganiçado. Vendo-o agora se remexer no lugar involuntariamente. — Mandou por um número novo, porque eu tinha... — Pauso, me perdendo no que quero falar outra vez. —Isso não vem ao caso agora!
Ficamos mais uma vez em silêncio, meus olhos fincados em seu rosto.
Eu preciso de uma solução, algo palpável que eu possa me segurar.
Jungkook parece se esforçar para ligar todos os pontos jogados tão de repente entre nós. Penso em tentar lhe explicar, mas não há muito que se falar. Está aqui, óbvio e certeiro. Também não é como se eu conseguisse dizer algo que faça sentido. Portanto fico aqui, observando Jeon ir e voltar. Literal e não literal. Seu corpo se remexendo de um lado a outro. Vejo-o pensar e repensar.
No fim, ele se volta para mim, a mandíbula marcada pela tensão e os olhos fincados e espremidos.
— Você acha que ele pode fazer algo? — Sua voz vem potente, furiosa. Por um momento, me prendo nisso, na sua reação. Mas só por um momento. — Acha que ele pode falar pros seus pais? Acha que ele pode... Falar para os meus?
Eu já havia pensado nisso antes. Para ser sincera, foi a primeira coisa que consegui concluir. Mas perceber que essa atitude é realmente uma possibilidade, que ela não é algo somente arquitetado pela minha cabeça insegura, me faz vacilar para valer. Nada é dito para suas perguntas, até porque não consigo verbalizar uma palavra sequer sobre isso. O choque por saber que essa também é uma dúvida de Jungkook me pega sem cautela. Mas basta nossos olhares se sustentarem por pouco mais de cinco segundos para ele entender minha resposta.
É sim para todas elas.
Ele se afasta alguns passos, vai e volta outra vez. Eu permaneço parada em meio ao hall dos dormitórios, vendo-o caminhar de um lado para o outro em minha frente. Não entendo o que acontece. Comigo, com ele, com a situação.
Jungkook passa as mãos pelos cabelos, mira o relógio, a porta escancarada e a mim. Ele faz isso por mais duas vezes seguidas. Respiro fundo o mesmo tanto de vezes, as mãos suadas e meu aparelho telefônico sendo pressionado contra a minha perna. Não sei o que fazer agora. Não sei o que fazer desde o início. Tudo parece turvo e sem sentido. Não entendo o porquê corri até aqui, não entendo o porquê de continuar aqui.
— Não... Não, a gente vai conseguir resolver isso. — A voz de Jungkook me desperta do transe. Ele está novamente em minha frente. Sua feição atordoada não passa confiança alguma, mas ele parece determinado. — É só a gente se acalmar e buscar uma solução, é fácil.
Levo um tempo para entender o que me fala. E levo mais outro para ligar com as informações que já tenho. Assinto sem perceber, revelando em seguida a única jogada que tenho na manga:
— Haneul aceitou conversar comigo, to esperando ele agora. — Minha voz é urgente, inquieta. — Posso tentar convencer ele a não contar.
Quando meus olhos se erguem até seu rosto, vejo que Jungkook fica um tempo ali, parado. E não entendo de início. Não entendo sua perplexidade de repente. Talvez ele esteja percebendo a gravidade só agora? É isso? Sinto-me incomodada por não conseguir acompanhá-lo, por não conseguir o alertar de toda a urgência que essa situação precisa ser tratada. Jungkook precisa entender que isso é muito mais do que-
— O quê? — Ele vem horrorizado em meio aos meus pensamentos irritadiços, fazendo-me com que eu me perca na linha de raciocínio. — Você vai se encontrar com ele?
Seus olhos me medem em pavor e, por mais que eu me sinta exposta por sua atitude, chacoalho-me inteira por dentro.
— Sim, — respondo atravessada. — Foi a melhor maneira que encontrei pra resolver esse problema.
Ele vem em uma risada nasalada irônica e debochada. Seus cabelos se movendo pela testa quando ele nega veementemente. O que não faz sentido. Não faz. O que ele espera que eu faça? Que eu espere o circo pegar fogo? Que eu seja mandada de volta para casa? Que eu bote tudo a perder?
É verdade que eu, mais do que ninguém, gostaria de me libertar de toda essa parafernalha de namoro falso, porque isso me esgota de todas as maneiras possíveis. Mas não existe a menor possibilidade disso ser feito agora, muito menos nessas condições. Se antes eu já me via apavorada de contar a verdade, imagine agora no meio de tudo isso? Imagine tudo sendo contato pela boca sujo de Haneul? Jungkook deveria entender, não deveria? Eu não me sinto preparada, não me sinto pronta para dar esse passo.
— Ele infernizou a sua vida e agora você vai se colocar nessa posição? — Ele vem sem cuidado algum. — Você vai pedir um favor pra esse cara? Pra Haneul?
Sem perceber, estou hiperventilando. Meu peito sobe e desce de raiva e frustração. Porque entendo onde ele quer chegar e entendo ainda mais o quão certo ele está. Mas não me dou por vencida, não posso.
Eu não consigo enxergar outra solução que não seja tentar convencer Haneul a não contar. Então seria de bom grado se Jungkook simplesmente falasse outra opção que não envolvesse contar a verdade, porque as minhas são escassas e desesperadas.
— Então tenta resolver você! — Jogo contra ele. — Hackeia o celular dele, não sei. Você mexe com isso!
— Eu faço design gráfico, não sei hackear computador!
Ele gira os olhos irritado e eu aperto minhas mãos em uma resposta silenciosa e secreta.
— Então o que você quer que eu faça? — Pergunto, fula. — Se você tivesse excluído esse post, nada disso ia tá acontecendo!
Jungkook é ofensa pura.
— Você tá dizendo que agora a culpa é minha?
— E a culpa é de quem? — Vocifero. — Fui eu que me esqueci de excluir aquele anúncio? Fui eu que postei ele?
Sua risada vem mais uma vez e eu sinto meu corpo todo tremer de raiva. Sua zombaria morre pouco tempo depois num silêncio ridículo e frio, no entanto. Eu tenho muito a dizer, mas não sei por onde começar. Sinto que eu deveria ser sincera com o que sinto, mas é muito mais complicado do que penso.
Gostaria de explicar que estou perdida, por mais que seja óbvio. Que me sinto sufocada e sem saída, que preciso de sua ajuda para entender o que acontece.
Jungkook ajeita a mochila nos ombros, mira o relógio, a porta e a mim. De novo. Meu peito está inflado, cheio de ar, mas sinto-o apertado, pequeno. Num relance involuntário, acabo olhando em volta. E não entendo quando exatamente aconteceu ou como aconteceu, mas todas as pessoas que antes aqui estavam, desapareceram. Pego-me na vontade de sumir também, do nada.
Só existe duas pessoas no hall dos dormitórios, nós, mas quando me viro para Jungkook novamente, percebo que logo restará apenas uma.
— Aonde você vai?
Minha voz vem em choque ao vê-lo caminhando em direção à porta. Penso que talvez ele tenha anunciado sua atitude, mas logo me convenço de que é muito provável que não.
Ele para então, virando-se para mim ainda distante.
— Eu preciso resolver uma coisa.
Pisco uma, duas, talvez três vezes. Atônita. Sinto-me vibrar internamente, talvez seja meu nervosismo ultrapassando meu estado físico e atingindo de vez meu estado mental., porque sinto-me brava fervorosamente.
— E vai me deixar sozinha aqui?
Jungkook solta a respiração de forma impaciente. E nesse instante, quando o vejo remexer os cabelos e dar mais um passo para trás, questiono-me se esse problema é dele também. Se toda essa situação só é grave para mim e somente para mim.
— A Minju tá me esperando. — Fala por fim, a voz não é mais tão afiada quanto antes. Mas não é isso que detém minha atenção. — É o último encontro que ela pagou, preciso-
— O quê? — Exalto, meus pés tomando vida e dando passos largos em sua direção, mas me freio involuntariamente antes de alcançá-lo. — Você vai encontrar a Minju? Aquela Minju?
Mas Jungkook não responde de prontidão. Talvez eu precise desenhar, montar um Power Point ou até mesmo a porcaria de um seminário para Jungkook entender o que se passa por aqui.
Ou quem sabe a situação seja grave somente para mim, de fato.
— Você vai se encontrar com ela? — Venho de novo. Minha voz é fina de descrença. — Vai se encontrar com a Minju e vai me deixar aqui?
— Qual o problema? — Jungkook volta até minha frente, o cenho franzido de ultraje. — Ao contrário de você, eu não to muito afim de olhar pra cara do Haneul.
— O que você quer que eu faça? — Solto outra vez, sou exaspero puro. — Eu não tava muito afim de ver a porra do seu anúncio no fórum da faculdade, mas a gente não pode ter tudo o que a gente quer, não é?
Eu venho em um humor ácido, venho rasgando todos os limites que nós estabelecemos em um contrato silencioso. Sei disso. Mas não consigo voltar atrás, sinto-me no limite, a ponto de ultrapassar meu próprio ser e explodir para todos os lados.
É o fim.
E não entendo, não consigo entender. Sei que nunca precisei me preocupar com Minju, sei que desde o início nunca houve um problema de verdade. Mas parece demais ter que aturar tudo isso agora, exatamente agora. É tão importante assim esse encontro?
Quero gritar de frustração, minha cabeça é um emaranhado imbecil e cheio de armadilhas. Não consigo me entender, não consigo entender o que sinto. É tudo ao mesmo tempo, mas também é nada. São dois extremos de uma mesma superfície. É ridículo. Ridículo.
Jungkook esfrega seu rosto com ambas as mãos, como se também não estivesse obtendo sucesso para se autoentender. Solta a respiração em uma lufada forte e, por fim, me olha. Sua boca se abre por um instante, logo se fechando; é como se buscasse palavras para dizer o que precisa dizer.
Penso em ignorá-lo, em desviar de seu corpo e marchar em direção à porta; resolver esse problema sozinha e mandá-lo para o raio que o parta, mas não consigo me mover.
— Nós dois estamos aqui agora, — Começa depois de um tempo. — Você tendo que contratar um acompanhante de aluguel e eu sendo um acompanhante de aluguel. Tudo, absolutamente tudo por causa dessa merda e você ainda vai tentar explicar pra ele? Vai tentar mudar a cabeça dele? — Há um resquício de um sorriso nada humorado no canto de sua boca, enquanto dentro de mim há um farelo de liberdade se remexendo de pavor. — Ele nos fodeu de formas diferentes e você ainda vai jogar conforme as regras dele? Você não percebe? Tudo isso aqui não estaria acontecendo se ele não fosse o maior babaca do mundo, se ele soubesse perder.
Jungkook pausa por um instante e, nesse meio tempo, meu celular vibra silencioso em minha mão. Penso em olhar para a tela, penso em sanar uma curiosidade que nem sequer existe, mas não consigo tirar meus olhos do rosto do cara em minha frente. Porque ontem nós éramos tudo — assim como eu, assim como os grãos de areia — e hoje nós parecemos uma imensidão de entulhos de desespero e problemas não resolvidos.
— Eu não vou ficar aqui pra ter que passar por isso de novo. — Ele retoma. Seu tom de voz é uma mistura de muitas coisas e quero acreditar que uma delas seja desculpa. — Eu não to indo embora por causa da Minju, eu to indo embora por causa de mim.
Abro a boca para retrucar, abro a boca para mal criações e discórdia. Mas abro e a fecho. Na minha garganta, enquanto o vejo virar as costas e andar para longe, está entalado coisas que ainda não consigo entender. Eu sinto raiva, mas também me sinto frustrada e triste. Queria gritar para Jungkook ir se foder. Queria gritar que se ele não se importa, eu também não me importarei. Mas eu nem sequer sei explicar sobre o quê.
No fim, só resta uma pessoa no hall dos dormitórios.
[...]
O sol brilha por todos os lados; alcança o topo das árvores, os pedregulhos do chão, os bancos de madeira. É forte e potente, um lembrete claro e objetivo de que as férias de verão estão logo aí. No entanto, eu não me sinto mais quente como antes; sinto-me fria, gelada igualmente as paredes do dormitório feminino. Sou peso sobre meus próprios ombros, sou arrependimento imediato.
Eu me sinto mal, pior do que antes. Pesada e errada. Porque continuo me lembrando do sorriso aberto de Jungkook, de seus olhos intergalácticos e de seu cabelo negro sobre a testa. Continuo me lembrando de nosso contraste grotesco e de como eu nos arrastei para o limbo rápido demais; de como seu sorriso diminuiu e seus olhos se tornaram opacos. Eu me sinto mal, porque, por mais que no fundo — mesmo que de forma involuntária e não proposital — a culpa tenha sido dele, o rumo que as coisas tomaram passaram longe do caminho que eu havia traçado mentalmente.
Só agora consigo encontrar as palavras certas para dizer, só agora consigo imaginar um contexto e uma explicação melhor antes de lhe erguer o celular; antes de despejar todo meu desespero e urgência de maneira tão crua e imatura. Não é como se eu já conseguisse me policiar, nem mesmo como se eu entendesse o que venho sentindo ou o que vem acontecendo. Eu ainda sou bagunça, um amontoado tenebroso de problemas jogados uns sobre os outros. Ainda sou desordem. Mas pelo menos sei o que eu não deveria ter feito.
Não quero mais gritar atrocidades para Jungkook. Não quero mais mandá-lo ir se foder. Não quando suas últimas palavras continuam me assolando a alma, continuam a gritar comigo no meio de todo o meu silêncio. Ouvi-las não me fez encontrar uma direção ou esclarecimentos, me fez erguer mais questionamentos do que antes.
Jungkook abriu mão de tudo, afinal?
Aperto meus braços em volta de meu corpo, enquanto meus olhos são fixos no portão de entrada da faculdade. A mensagem de mais cedo era de Haneul avisando que estava a caminho. Pressiono os lábios e solto um suspiro longo. Meu corpo já não mais treme, mas minha cabeça continua viajando por hipóteses e pensamentos na velocidade da luz.
Seria possível eu abrir mão de tudo também?
Eu caminho vagamente pelos pensamentos, volta e meia escalando as letras de todas as palavras ditas mais cedo. Minhas, de Jungkook. Queria poder ter controlado minhas emoções, mas continuo escapando de mim assim como a situação inteira. Sinto-me deturpada e agora assombrada pelo que foi entregue a mim.
A figura de meu ex-namorado surge como um fantasma agourento e macabro do outro lado da rua. Consigo enxergá-los entre as pessoas e carros, como também consigo me lembrar das palavras que Jungkook me disse. Não as de hoje, mas daquela festa de república; sobre minhas verdades e sobre como é importante eu acreditar nelas.
Qual é a minha verdade agora? Nesse exato momento?
Eu queria poder discordar de cada palavra que Jungkook me disse mais cedo, hoje. Gostaria de poder dizer de maneira rápida e óbvia de que ele está errado, de que não é assim que as coisas funcionam. Mas a cada passo que Haneul dá em minha direção, mais eu percebo o quão tudo é verdadeiramente real.
Talvez eu sempre soubesse disso... Nos meus pensamentos secundários, nos meus sentimentos secundários. Porque sempre foi mais complicado ter que viver em função de driblar problemas que envolvam meu ex-namorado do que entender para onde tudo isso estava me levando. Eu sempre entendi o caos que estava me enfiando, sempre entendi a teia horrorosa de mentiras que fiz e que eu própria me embolei. Mas nunca mergulhei a fundo sobre as consequências, sobre as amarras e sobre como eu ainda estava — estou — terrivelmente interligada a tudo aquilo que eu queria evitar.
— Quanto você pagou por aquele merda? — Haneul vem raivoso assim que para em minha frente. — Hã?
Olho-o por um instante, sem a intenção de respondê-lo. Minha vontade é de apenas ouvi-lo falar e falar, apesar de ter muito que dizer. Meus pensamentos ainda são idas e vindas; e agora, pensando sobre as consequências que nunca tirei conclusão alguma, entendo que talvez tenha sido só meu subconsciente tentando me proteger de algo difícil demais de lidar.
— Deve ter sido uma mixaria... Ha, eu sempre soube que eu tava certo. — Ele passa a língua pelos lábios e sorri. Um sorriso vitorioso e arrogante. — Você contratou um cara só pra me fazer ciúmes, incrível!
Engulo a seco, lembrando-me agora também da última vez que estivemos frente a frente. Foi naquele corredor, com suas palavras imbecis e eu me sentindo tão pequena e insuficiente. Tem sido assim há um bom tempo agora, não é? Haneul impondo sua verdade, seus pensamentos, seus ideais. Impondo uma vida e uma visão, enquanto eu só sigo as regras do jogo.
Vai continuar sendo dessa forma por mais quantas primaveras?
— Não vai dizer nada? Eu acabei de pegar você no pulo, descobri que você enganou todo mundo. — Vem cheio de segundas intenções, a boca proferindo palavras ridículas e meu peito crescendo em descrença. — Você não tem vergonha?
— Você não tem vergonha? — Tento, eu sou tremedeira por inteira. Minha voz é incerta e vacila. — Eu contratei um cara pra tentar me ver livre de você e a única coisa que você consegue pensar é no seu umbigo egocêntrico e inútil.
As palavras saem sem qualquer agressividade, num tom de voz de pouca credibilidade. E me sinto mal, injustiçada pela vida e por tudo o que venho enfrentando. Tudo é mais fácil atrás de uma tela de celular. Foi mais fácil quando o bloqueei a primeira vez, foi mais fácil hoje. Mesmo que a última tenha sido regada em desesperação.
— Eu já tava em outra, pelo amor de Deus! Eu tava namorando e você contratou um cara pra me fazer ciúmes, só admita! — Haneul nem sequer titubeia em dizer, ele vem decidido. — Você tá querendo virar o jogo, sério? Nessas condições? Não pense que vai dar certo, porque eu tenho tudo na palma da minha mão.
Puxo o ar com força, horrorizada. Porque sei que existem falhas em seu discurso, sei que suas palavras podem ser revertidas facilmente e postas contra ele. Sei que tenho brechas pra contra-argumentar, pra me pôr em primeiro nessa discussão. Mas meu raciocínio lógico e certeiro é uma carta fora do baralho, não segue a frequência de todo o meu ser. O restante de mim, meu corpo, não me permite agir.
— Você é maluco! — É o que consigo dizer. Meu peito é um rebuliço de ódio e frustração. É um inferno. — Um petulante de merda!
— Você não tá ajudando muito na sua situação... — Haneul gira os olhos, debochado. — Sabia disso, né? Eu posso agora mesmo ligar pros seus pais, contar tudo o que eu sei.
— Vai contar também que se enfiou em um time de basquete só pra me observar?
Reacendo um questionamento interno e antigo, mas não sei o que fazer por agora. Com seu rosto me olhado incrédulo por um tempo e a oportunidade que tenho de dizer tudo o que preciso dizer. Porque ainda sou presa em mim, nele e nessa situação de merda.
Ele tem tudo na palma da mão, de fato.
— Caramba, — começa, atordoado. — Você foi atrás dele exatamente porque nós jogávamos juntos? Foi tipo uma vingança em dose dupla? Você é muito baixa!
Meus ombros murcham. Sinto-me apavorada. Haneul pegou o caminho que mais lhe valoriza, que mais lhe beneficia. Mesmo que não seja a verdade, mesmo que não seja o que eu quis ter dito; mesmo que passe longe de qualquer palavra que tenha saído de minha boca. O ego inflado de meu ex-namorado é um inimigo poderoso e inabalável.
— Vocês são inacreditáveis. — Ele ainda parece desacreditado, enquanto eu continuo aqui, parada em sua frente tentando engolir aonde tudo isso chegou. — Até diria que se merecem, mas sei que você não tá no seu melhor estado de espírito.
Estado de espírito.
Seu melhor estado de espírito.
— Não foi isso. — Falo, meio esquisita. A acusação é sem cabimento, mas por uma fração de segundos me pergunto se não foi isso mesmo que aconteceu. — Foi uma coincidência.
— E você quer mesmo que eu acredite?
Minhas têmporas se apertam em pavor e eu quero gritar. Isso é ridículo. Eu odeio estar aqui, odeio mais do que qualquer outra situação que já precisei enfrentar. Eu sei de como tudo aconteceu, eu sei como cheguei até Jungkook. Isso não faz sentido!
— O que seus pais vão dizer quando eu contar tudo isso pra eles? — Seu tom de voz é maldoso quando chega em mim com palavras afiadas e chantagistas. — Torça pra eles acreditarem que foi tudo uma coincidência.
Vejo-o se afastar um passo. É quase como a cena em que vi Jungkook ir para longe mais cedo, mas me freio de tentar comparar. Um desespero novo e imediato me toma o peito e, de novo, me vejo perdida, sendo ultrapassada por sentimentos e fatos. Deixo tudo escapar fácil demais. Sou derrotada pela miserável falha de não conseguir ligar os pontos, de não conseguir agir, dizer.
Acabo indo pelo costume, pelo que sempre acabo fazendo.
— Não, espera! — É o que digo, vendo-o parar de prontidão quando dá seu segundo passo para trás. — Vamos fazer um acordo, por favor.
— Um acordo?
— É, um acordo. — Falo sem pensar. — Foi pra isso que você veio, não foi?
Seus olhos se estreitam em minha direção, como se analisasse meu pedido. Isso só faz com que eu me sinta ainda mais inútil e minúscula. Não me sinto satisfeita em dizer, em embarcar mais nessa, mas estou de mãos atadas, não estou? O que mais eu poderia fazer? Qual outra alternativa eu tenho? Não são muitas. Pelo menos, não no caminho que quero pegar.
Depender de Haneul nunca foi tão doloroso quanto agora...
Ele respira fundo e olha para os lados apenas por olhar, talvez queira que eu sofra com a espera, mesmo sabendo da sua resposta. Há pessoas indo e vindo, mas nenhuma parece prestar atenção em nós dois.
— Eu não conto nada pros seus pais. — Fala por fim. — Mas você vai ter que pedir transferência de universidade.
Levo um tempo para associar o que me diz e, quando faço, meu queixo quase cai.
— Pedir transferência?
— É. — Concorda sem rodeios. — E se sinta grata que minha condição não é você desistir do curso.
Pisco algumas vezes, sem acreditar.
— Não... Entendi.
Haneul solta um suspiro impaciente e fico o encarando por algum tempo. Seu cabelo está jogado para trás e as sobrancelhas grossas quase se encontram em meio a sua testa.
— Eu vou finalmente voltar com você, vou te dar outra chance. — Explica como se fosse algo óbvio, escancarado. — Eu só tenho essa condição. Você seguindo essa condição, nós podemos voltar.
A situação se reverte mais uma vez. Minhas atitudes não são compreendidas ou são ignoradas por completo. Não sei ao certo qual de fato é o correto se afirmar. Desconfio que Haneul de fato saiba sobre toda a verdade das minhas atitudes que sempre julguei serem claras. Desconfio que ele saiba, mas que não queira admitir. Ou, quem sabe, perder...
Vai ser assim pra sempre, não vai?
Minhas atitudes distorcidas e sua verdade sempre imposta. Esse ciclo infinito de me querer ver livre, mas continuar presa. De achar que vivo, mas perceber que ainda sou interligada a ele. Porque de fato sou. Continuo fazendo as coisas pensando em Haneul, por causa de Haneul. Mesmo que superficialmente não pareça, no fundo eu sei que é. Nos meus pensamentos secundários, nos meus sentimentos secundários.
Vai existir o momento perfeito para eu me libertar disso?
Eu sempre preferi me boicotar ao invés de rebater a ideia matrimonial dele e de meus pais. Acabei me envolvendo em um contrato com um acompanhante de aluguel só para que eles não soubessem da verdade... E, por mais que isso seja a única coisa feita que me rendeu algo bom, ainda é desconexo. Não deveria ser dessa forma, eu não deveria me desdobrar para caber dentro de crenças que não são minhas. Eu criei dezenas de desculpas esfarrapadas na minha cabeça, porque no fundo eu sabia que era mais complicado, que o buraco era mais embaixo; que era um impasse mental meu. Que me faltava coragem para encarar tudo o que eu era contra, tudo o que eu não concordava. Talvez nesse meio tempo, eu acabei caindo na tentação inútil de pensar que a errada era eu, porque era mais fácil dessa forma. Preferi me afundar, me enrolar em mentiras — internas e externas — e acabar parando aqui.
Não posso mais usar Haneul como justificativa, não posso mais usá-lo para guiar minhas decisões e minhas preocupações. Nem ele e nem minha família.
Quero me desconectar da minha eu do passado, não quero mais me sentir como antes. Nunca mais. Não quero me sentir pequena e insuficiente. Entendo agora, entendo perfeitamente que essa não é minha verdade e nunca foi. Não quero retroceder, quero ir além.
Não quero mais me sufocar num pesadelo real.
Eu sou livre. Eu sou! Essa é a minha verdade, afinal. E quero me sentir assim.
Contra meus dedos, sinto meu celular vibrar e cantar com uma nova mensagem. E percebo que a sensação é realmente verdade quando Haneul volta sua atenção para o aparelho em minhas mãos. De maneira involuntária e sem pensar, meus olhos se voltam para a tela acesa, para a pré-visualização da recente sms.
Minha mente ainda é vaga e desconexa, ainda é um turbilhão de coragem e medo. Vou e volto pelo que deva ser a milésima vez nos últimos minutos. Ainda interligo pontos e me atordoo fácil pela constatação óbvia. Sou bagunça, mas não deixo de percorrer cada letra escrita ali.
— E então? — Haneul me tira do transe temporário, sua voz é mais alta do que antes. Parece urgente. — Vai pedir transferência ou não?
Respiro fundo, mirando seu rosto agora de uma forma diferente como media há dois minutos. Perceber o que vim fazendo nos últimos meses me fez enxergá-lo com outros olhos, numa outra perspectiva. Consigo entender agora. Ele foi um inferno por tanto tempo... E por tanto tempo lhe dei importância demais.
— Não.
Minha voz sai clara e espontânea. Ainda me sinto incerta sobre o futuro, mas pelo menos agora sei aonde não quero chegar.
— Não? — Ele vem em choque depois de um tempo. — Não vai pedir transferência?
— Também.
Seus olhos se apertam para mim, ele parece ultrajado e confuso. Meu coração bate forte contra meu peito e a sensação que tenho é que posso explodir outra vez. Mas o sentimento é diferente agora, é como explorar o novo.
— O que você quer dizer com também?
Meneio a cabeça, puxando todo o ar que consigo para meus pulmões, só para assim soltá-lo com as palavras que consigo dizer:
— Não vou voltar com você e nem pedir transferência.
Haneul parece não ter ouvido no primeiro instante. Seus olhos são fincados em meu rosto como se tivéssemos parado no tempo e seu entendimento tenha sido interrompido. Como um pause em uma cena que só funcionou para ele.
— O quê? — Ele finalmente fala. — Você tá se ouvindo? Você entendeu o que falei? Se você não pedir transferência, eu vou contar pros seus pais.
Luto comigo mesma, com o sentimento de me sentir pequena e estúpida mais uma vez. Não posso deixar isso acontecer, não posso. Remexo-me no lugar, uma rajada de vento nos atingindo e arrastando meus cabelos para trás. Ela também parece varrer, por um pequeno instante, meu medo.
— Eu entendi o que me disse. E a resposta é não.
A resposta imediata que recebo é um riso desacreditado, a primeira sílaba vindo ímpia e alta. Haneul vai de um lado para outro. Retorna. Quase consigo ouvir as engrenagens de seu cérebro trabalhando para entender o que digo.
— Eu to tentando te ajudar! — Ele agarra os fios de cabelo de sua nuca, parece transtornado com o rumo que as coisas tomaram. — Qual é o problema?
Não quero ter tempo para pensar. Não quero ter tempo para desistir e voltar atrás. Quero seguir com isso, porque, de repente, talvez essa seja minha única oportunidade de enfrentá-lo de verdade.
— Ok, ok. Caramba... — Haneul parece viver um confronto interno. — Não precisa pedir transferência, então. A gente vai vendo isso com o tempo, tudo bem?
— Haneul, — começo, quase em choque por ele ainda não ter entendido ou continuar fingindo que não entendeu. — Eu não vou voltar com você.
Finco meus pés no chão, inflando o peito. Quero e vou me manter aqui, determinada.
Haneul passa seus olhos mais uma vez pelo meu rosto, analisando cada mínimo detalhe. Quem sabe tentando captar alguma mensagem que não passei ou alguma brecha para reverter o que acabei de dizer. Ele gira os ombros para trás, seu semblante agora mudando para desconfiança e desafio. E acabo me perguntando como sua mente trabalha, se em algum momento ele acaba caindo nas suas próprias armadilhas.
— Quem te enviou a mensagem? — Ele vem cheio de suspeita suja. — Foi Jungkook?
A mudança repentina de assunto me pega desprevenida. Sinto algo ruim no fundo do peito, não o respondo. Aperto o aparelho entre os dedos e o pressiono contra mim. De repente, sinto-me amedrontada.
— Foi ele? — Seu tom é acusatório. — Vocês tão tendo um caso?
— O quê? — Quase engasgo. Isso é novo e não combina em nada com seu discurso. — Você mesmo disse que nos unimos por vingan-
— Eu quero ver seu telefone. — Diz, interrompendo-me. Olho para sua mão estendida em minha frente. É fora da realidade. — Anda, quero ver!
Demoro um tempo para entender o que se passa, para entender que tudo de fato está acontecendo.
— Não! — Falo finalmente, espantada pelo pedido. — Não vai ver!
Mas antes que qualquer outra palavra seja dita, Haneul parte para cima de mim. Sinto meu corpo todo se eriçar de pavor e me encolho o que posso. Suas mãos tentam alcançar o aparelho telefônico preso entre as minhas e recuo um passo. Ele se aproxima dois. É tudo fora da realidade, absurdo. Sinto-me encurralada, no limite de uma situação que foi longe demais. Viro sobre meu próprio eixo, dando-lhe as costas. Penso em empurrá-lo e correr para longe, mas seu corpo todo está sobre o meu.
Meu coração se espreme dentro de mim e sinto-me sufocada de pavor, remexo-me para tentar me ver livre dele, mas não consigo. Ele continua me puxando pelos braços, agarrando minha pele.
Num instante de pavor, sinto seus dedos finalmente alcançarem os meus. Meu celular logo ali. Ele nos chacoalha para os lados na intenção de me fazer soltar. Seu peso sobre o meu e minha mente à mil. Vejo-me sem saída, vencida de vez. Começo a me debater, nos engatando em uma luta corporal esquisita e imatura. Meus braços se movimentando em desordem e desespero, de um lado para outro. De um lado para outro.
No meio do caminho, acerto algo.
— Não acredito!
Como num passe de mágica, os braços se Haneul desaparecem da minha volta. Sua voz reverberando alta e horrorizada. Viro-me assustada, ainda sem entender o que aconteceu por aqui. Quando o faço, no entanto, encontro o nariz de Haneul escorrendo sangue.
— Você me acertou! — Acusa. Fazendo-me com que eu tente entender como. — Você enlouqueceu de vez! Você é completamente pirada!
Sua voz é abafada pela mão que cobre seu nariz, mas consigo ouvi-lo claramente quando fala outra vez:
— Pode esquecer qualquer acordo entre a gente!
E, num instante absorto e delirante, sinto vontade de rir; é surreal demais para acreditar.
Vejo meu ex-namorado marchar em direção à saída do campus, levando meus problemas e todas as minhas consequências. Eu deveria fazer algo agora, não deveria? Não sei ao certo o que, mas acredito que sim. O problema é que ainda há muito coisa para se absorver por aqui...
O caminho tomado é completamente diferente do que eu havia traçado mais cedo.
E enquanto Haneul desaparece entre as pessoas do outro lado da rua, abaixo meus olhos novamente para a mensagem que recebi.
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Jeon Jungkook
Autora: Agness Saints
Gênero: Comédia, Romance
Sinopse: Parecia piada, quatro anos de um relacionamento frustrante havia chegado ao fim, mas Haneul ainda te atrapalhava a vida. Se ele não tivesse arranjado um namoro relâmpago, você não precisaria demonstrar que está bem também, que não ficou para trás. Você não precisaria, principalmente, contratar aquele maldito acompanhante de aluguel.
Moreno. 1,80 de altura. Porte atlético. Bonito. Inteligente.
Educado. Agradável. Sabe estabelecer uma conversa.
Sem compromisso emocional, apenas financeiro.
Valor sob consulta.
Interessados: [51] 5782-4158
Esquece o “parecia”, a vida é mesmo uma piada pronta.
Contagem de palavras: 11.576
Avisos: +16. A história faz parte da série puerlistae au.
Parte: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16
Playlist. | Playlist 2. | Playlist 3.
— Dumb, dumb, dumb, dumb, dumb, dumb.
Salto na cama de maneira súbita, meu corpo tencionando pelo susto e meus olhos varrendo o dormitório por puro instinto. Tento achar sentido nos meus pensamentos e atos; levo dez segundos para me encontrar. Outros cinco para entender que o que toca estridente é meu celular. A luz do sol entra pelas frestas da cortina sem cerimônia alguma e — numa conclusão esquisita e extremamente grogue — percebo que me deitei ao contrário na cama noite passada.
Tento esticar minhas pernas, mas desisto ao sentir meus músculos das coxas doerem pelo movimento mínimo. Meus olhos ainda pesados de sono lutam para se manterem abertos e, com minha lucidez frágil e torta, cogito ignorar quem quer que esteja me ligando. Arrancada de um sonho esquisito envolvendo borboletas, eu ainda me sinto perdida no momento. Meu corpo voltando a se acomodar entre as cobertas de forma genuína, o farfalhar do lençol soando calmo no meio de todo o caos que Red Velvet traz ao ambiente. Sentindo meu rosto se encostar ao colchão outra vez, meu coração se desacelera aos poucos e todo meu ritmo começa involuntariamente a seguir meu plano recém-criado.
Talvez não seja tão importante assim, não é?
O celular para de tocar e eu fecho os olhos com facilidade, quase os ouvindo me agradecer pela bondade. Sinto meu travesseiro em meus pés e a parede gelada acalentar minha bochecha quando mudo de posição. Meu corpo se acalmando do sobressalto recente lentamente, como uma cantiga de ninar.
É um momento de paz.
Mas que se encerra tão rápido quanto começou.
—Dumb, dumb, dumb, dumb, dumb, dumb.
Meu celular volta a tocar irritante e, outra vez, meu corpo reage ao susto. Quando me sento de supetão no colchão, eu estou atordoada e frouxa. Ainda. O quarto girando lentamente ao meu redor. Num segundo de sentido turvo, questiono-me se essa tontura toda é o efeito prolongado da bebida ou se já é o início da ressaca. Em uma busca conturbada feita somente com os olhos, encontro o aparelho repousando sobre a cama arrumada de Sorn, percebendo só agora que estou completamente sozinha por aqui.
Aos tropeços, alcanço o celular que ainda toca. Minhas pernas doendo pelo esforço e meus ombros ganhando um peso a mais quando encontro o nome na tela. Não é como se eu pensasse que poderia ser outra pessoa, mas encontrar o nome de minha mãe ali e ter certeza faz com que eu bote em duvida todas as escolhas que eu já tomei na vida. Inclusive nascer. Sento-me no chão mesmo, as costas apoiadas à cama de Sorn e minhas pernas esticadas pelo carpete do quarto. Vagando por um instante na ideia de que eu poderia simplesmente ter silenciado o aparelho pelo restante do ano.
— Hmm, bom dia.
— Bom dia? — A voz estridente de minha mãe me faz dar outro pulo. — Já passou da uma da tarde!
Quero rosnar, mas me limito em ronronar em resposta. Minha cabeça doendo nas têmporas e um arrependimento crescendo no peito. Eu não deveria ter bebido tanto assim ontem. E, de fato, ter atendido a ligação também.
— Quero saber quando vem para casa. — Parece agitada e um tanto irritada também. Talvez seja comigo. Os sons secundários de sua ligação me fazem pensar que ela procura por algo nas gavetas da sala. É um abre e fecha maldito. — Hoje ou amanhã?
Sinto meu estômago reagir em ânsia. A pergunta parece complexa demais para o ninho de informações que rondam meu cérebro. E sinto que nem as palavras mais básicas conseguiriam fazer sentido de maneira rápida. Respiro fundo, fechando os olhos com a intenção de descansar uns segundos. Mas os abrindo logo em seguida quando percebo a tontura tomando conta de mim. De repente, todo o plano de voltar a dormir depois disso vai por água abaixo.
— Ainda não sei. — Falo, aérea. — Acho que semana que vem.
Um fechar de gaveta explode do outro lado da ligação, é raivoso e irritante.
— Semana que vem? Como? Não podemos chegar em Busan separados, precisamos chegar juntos!
Busan.
Fim de semana.
Encontro de famílias.
Puta que pariu.
E é então que todas as minhas decisões da noite anterior me atingem como um cometa. A lembrança súbita do encontro de famílias faz meu estômago rodar dentro de mim de novo. Dessa vez de uma forma mais agitada e violenta. Completamente emocional. E quero vomitar. Quero e preciso. Sinto meu maxilar travar, um choque perto das têmporas e um amargor na ponta da língua. Penso mesmo em correr até o banheiro, mas meu corpo não comanda. Minhas pernas continuam a doer e minha tontura agora funciona como uma espécie de karma imbecil. Tudo ainda gira, tudo ainda é amargor no paladar. E aos poucos vou sentindo meu corpo derreter sobre o chão, se esparramando como ramas de batata.
Eu sei que peguei o caminho certo ontem à noite, como sei também que toda a responsabilidade que botei na minha eu do futuro, na minha eu de agora, é pesada e intricada. É uma dualidade de sentimentos que faz com que eu me sinta assombrada. Talvez eu me sinta tentada a encontrar outra opção, talvez eu me sinta tentada a desejar que eu tivesse tomado coragem de decidir isso mais cedo, me dando assim tempo o suficiente para buscar alternativas. Mas não me sinto tentada a voltar no tempo e pedir esse favor a Jungkook. Porque não me arrependo; não me arrependo da decisão de deixá-lo fora disso.
Respiro fundo, sentindo minhas costas se apertarem contra o chão.
Entretanto, por mais que eu esteja certa do que decidi, eu ainda preciso lidar com as consequências. Eu ainda preciso lidar com tudo isso aqui. E essa é, de longe, a pior parte. A que me chateia e me faz tontear.
A eu que precisa lidar com isso não é mais a do futuro, é a do presente.
— Já falou com Jungkook? — Minha mãe parece adivinhar; vindo cheia de malícia e pedras na mão. E não respondo. — _____, já é quinta-feira! Nós vamos de qualquer forma, então você trate de-
— Ele tá ocupado com o curso de verão, — falo me sentindo subitamente pesada, interrompendo-a. — Não consegui falar com ele ainda. Mas vou conversar. Vou conversar hoje, ok?
Por um curto momento — tão curto quanto o tempo em que se leva para um raio começar e terminar no céu —, eu me vejo em duvida. Uma duvida intensa e genuína. Eu me boto em cima do muro.
Eu conto a verdade ou eu permaneço nessa teia de mentiras?
A angústia me alcançando a garganta com maestria e me fazendo recuar abruptamente. Não existe a menor possibilidade de uma verdade sair pela minha boca. Não agora. E talvez não nos próximos dez anos.
— Como não conseguiu falar com ele ainda? — Solta raivosa, logo repetindo: — Hoje já é quinta-feira!
— Eu sei, eu sei... — Fecho os olhos com força, sentindo minha cabeça latejar de dor. — Vou conversar hoje.
Há um silêncio. Um silêncio absoluto.
— Vou ligar mais tarde de novo. — Avisa. E sinto pelo seu tom de voz que é uma ameaça. Pura e simples. — Mas quero que você venha pra cá amanhã antes do almoço.
Sinto um amargor na língua outra vez, meu maxilar travando e eu me sentindo zonza de novo. Não sei o que fazer agora. Física e psicologicamente. Eu me sinto em um universo paralelo esquisito e sem cabimento. E isso me deixa um tanto frustrada também. Eu já me senti assim tantas vezes nessa situação de merda... Eu deveria estar acostumada, não deveria? Mas as coisas parecem diferentes. Iguais, mas diferentes. O problema é o mesmo, sempre é, mas eu me sinto agora no meio do fogo cruzado. Em uma rua bifurcada, na beira do precipício sendo perseguida por lobos. Pulo ou fico? Eu sinto que agora as coisas se tornaram mais extremas e urgentes, enquanto eu sou só uma mistura imbecil de indecisão e covardia.
As gavetas do outro lado da linha voltam a serem exploradas, nesse meio tempo, ouço o barulho da porta se abrindo desse lado aqui. De canto dos olhos, vejo Sorn me olhar curiosa quando entra no dormitório. Torno-me, então, subitamente consciente dos meus cabelos desgrenhados, maquiagem borrada, roupa da noite anterior e meu corpo cobrindo metade do tapete entre as camas. Penso em sair do lugar outra vez, mas nem sequer me forço a fazer isso.
Solto um suspiro rendido.
— Tudo bem. — A frase saindo solta no ar, desconexa. — Preciso ir agora.
— Hm. — Chia em resposta. — Trate de falar com ele.
No instante seguinte, a ligação se encerra. E sinto-me ainda mais vazia. A certeza de que esse tormento só acabará quando eu contar a verdade me toma de novo e em cheio. Mas a ideia é tão utópica... Não consigo ver um futuro em que eu consiga ganhar coragem e contar. Não parece existir a possibilidade de isso acontecer. É algo tão irreal que parece um sonho ou um devaneio fantasioso. Eu queria que fosse possível, queria que as coisas pudessem ser diferentes dentro de mim. Menos insegurança, mais coragem. Mas quanto mais eu insisto em pensar nessa pedra gigantesca em cima dos meus ombros, mais certeza eu tenho de que nem em outra vida eu conseguiria cumprir a tarefa de confessar.
— Tá tudo bem?
Minha visão do teto é bloqueada por Sorn. Seus pés moldurando minha cabeça no chão e suas pernas parecendo mais longas que o normal vendo desse ângulo. Seu cabelo curto cai sobre a testa vincada em confusão e ela tem uma aura quase celestial com o sol batendo ao corpo.
Penso sobre a pergunta. As palavras ainda parecem desconexas por conta da tontura e da possível ressaca. Ou ainda é o efeito da bebida?
Eu realmente não sei.
— Acho que sim. — Minha voz é rouca. — Por quê?
Ela abre um sorriso como se soubesse de algo.
— Você chegou ontem derrubando metade do quarto, — começa e meu rosto se enruga em uma careta constrangida. — Grunhiu todas as respostas das perguntas que eu te fiz e agora tá jogada no chão.
Olho para ela com mais atenção, me sentindo de repente assustada. Percebo que poderia lhe contar todas as coisas, das menores até as grandes, até agora. Me pergunto se essa seria a hora certa. Como me pergunto também se existe momento para isso. Contar para ela parece fácil demais, as palavras rolando pela minha língua e sendo soltas no ar. É fácil e prático, é objetivo. Sorn já sabe sobre boa parte do que me aconteceu, não é? Seria complementar, aumentar um pouquinho a história.
Mas não consigo. De novo.
Eu ligo esse momento ao fato anterior, a ideia de contar toda a verdade aos meus pais, e me sinto empacar. É um tormento sem fim, um vendaval que me joga de um lado para o outro. E isso me pega em cheio, porque Sorn é minha melhor amiga e queria ter coragem para me abrir com ela.
— To com dor no corpo. — Falo qualquer coisa quando ela me ajuda a levantar.
— Tem remédio no banheiro, — aponta para trás. — Quer que eu pegue?
Nego de súbito, passando por ela e indo até lá. Meu corpo se arrastando até o pequeno espaço gelado enquanto ouço o barulho das cortinas sendo abertas. O reflexo no espelho do banheiro mostrando um dormitório claro e pacato assim que paro em frente à porta.
Não sei o que viria depois, não sei o que aconteceria se eu contasse sobre o contrato ou sobre um possível término de namoro com Jungkook aos meus pais. Mas sei que as coisas mudariam, não entre eu e eles, mas em mim. Mudariam aqui dentro. E eu queria poder um dia fazer isso, me libertar de verdade.
Antes que eu possa abrir o armário do banheiro e me embaralhar em cremes, remédios e fios-dentais, meu celular apita indicando novas mensagens. Cambaleio no lugar e caio sentada sobre a privada, Sorn derrubando algo no chão e reclamando ao fundo. Quando meus olhos param sobre meu celular em meio as minhas mãos então, meu coração se acelera em resposta imediata.
Caramba, é como se ele soubesse...
[13:37] jungkook: ei
[13:37] jungkook: já almoçou?
Pisco algumas vezes enquanto olho para a tela, sentindo-me nervosa. De repente, ridiculamente nervosa. A noite passada foi regada de sentimentos pesados e decisões tomadas sem planejamento prévio, um completo desastre emocional, não existe a menor possibilidade de negar essa lembrança. Mas ainda existiu nós dois. Por mais que tenha me rendido angustia e aflição, ainda existiu eu e Jungkook.
E ele continua sendo a única coisa boa de toda essa baderna.
[13:38] eu: é quase duas
[13:38] jungkook: e?
[13:38] eu: ainda não
[13:38] eu: e você?
[13:38] jungkook: também não
Não consigo não me sentir surpresa por vê-lo ali, não só por vir mais cedo do que pensava que viria, mas por vir justamente agora. É como se ele soubesse sobre a ligação de minha mãe, como se ele soubesse que preciso me lembrar de que a decisão que tomei ontem foi a melhor que fiz.
Meus pés se enroscam no tapete sem que eu perceba e suspiro arrastado em seguida. A sensação de um calor subindo pelo meu peito e esticando minhas bochechas em um sorriso me alcança, me sinto uma verdadeira adolescente. Olho para Sorn de relance num impulso sóbrio, mas ela nem sequer parece prestar atenção no que faço.
[13:39] jungkook: tá afim de comer?
[13:39] eu: agora?
[13:39] jungkook: daqui uns 40 min
[13:39] eu: onde?
[13:40] jungkook: naquele lugar que a gente comeu aquela vez
[13:40] eu: pode ser
[13:39] jungkook: vou pagar um almoço digno pra gente
[13:40] eu: hahaha
[13:40] eu: digno?
[13:40] jungkook: lámen
Olho para a tela em silêncio, ainda sorrindo. E isso é um caos completo, sei disso. Porque entendo que minha situação não é a mais confortável do mundo; que ela, na verdade, é a pior em que já estive, mas não consigo me sentir medíocre como antes. Pelo menos, não agora. Pego-me, na realidade, genuinamente aliviada por ter tomado o caminho que tomei. Sinto que esse foi meu único e grande acerto. Porque mesmo que a situação não seja perfeita, mesmo que para meus pais eu e Jungkook já somos de fato um casal, a minha decisão de deixá-lo de fora disso nos deu a oportunidade de sermos só nós dois. Aos poucos, no nosso tempo. Porque não quero que as coisas sejam forçadas entre nós, eu quero algo de verdade, sem interrupções ou opiniões alheias.
Eu quero eu e Jungkook, sós.
Não há muito o quê pensar agora. Quer dizer, não é como se eu conseguisse pensar em algo bem elaborado e complexo. Também não consigo me prender em detalhes minuciosos. Quiçá em detalhes num geral. Sei que o dia está ensolarado com uma brisa mínima que nos refresca, como sei também que estou usando um vestido. Mas não consigo lembrar se vi alguém pelo caminho até aqui, não consigo me lembrar se o sino tocou ou não quando entrei nessa loja de conveniência; como acabei escolhendo essa roupa, muito menos. Só me lembro do agora, dos meus dedos entrelaçados sobre a mesa e eu me sentir tão ansiosa a ponto de acreditar que posso cair dura no chão a qualquer instante.
Sobre o som dos meus pés batendo contra o ferro do banco, meu coração dança no peito. É a primeira vez que estou vendo Jungkook de maneira sincera e aberta. É a primeira vez que não estou escondendo algo. É a primeira vez que estou livre para me concentrar em nós dois, sem medo e um pedido impertinente para atrapalhar as sensações de um sentimento novo e inusitado.
E isso me deixa a beira de um ataque de nervos.
Tento pensar sobre a inscrição que fiz mais cedo para Psicologia da Justiça Criminal. Como também tento me focar no fato de ter me inscrito não só porque o curso de verão estava na minha lista de coisas a se fazer antes de sair da faculdade, mas porque isso me daria a última semana de férias livre dos meus pais; livre de ter de encarar meu antigo quarto, olhando pras pelúcias que Haneul me deu e tendo que responder perguntas sobre meu estado civil.
Mas não consigo pensar nisso de maneira mais intensa, nem sequer por muito tempo. Porque enquanto meus olhos rodeiam a vitrine da loja de conveniência em nervosismo, eu o vejo. Os cabelos escuros caídos sobre a testa, brincos mais espessos e maiores nas orelhas e um sorriso contido quando me nota.
Jungkook parece refrescante e suave quando passa pela porta. O sino de fato toca, mas eu não consigo nem mais me lembrar do som feito. Seu perfume tropical já me alcançando o nariz, dançando livre e fresco. É como se o aroma fosse feito exclusivamente para o dia de hoje, para agora. E realmente não consigo pensar em nada além dele e de todos os seus detalhes...
Vejo seu corpo deslizar entre prateleiras até me alcançar e, num movimento desengonçado e súbito, meu corpo resvala pelo banco de forma vergonhosa.
— Pensava que não tinha aula.
Falo sem pensar, endireitando-me no lugar e apontando para a mochila caída em um de seus ombros.
— E não tive, fui revisar um projeto.
Abro a boca para perguntar mais detalhes por puro impulso, mas a fecho logo em seguida. Porque estou nervosa e não é como se eu conseguisse disfarçar. O que vem agora exatamente? Nós somos péssimos em lidar com isso quando sóbrios e pioramos quando estamos à luz do dia. O cumprimento da noite passada me vem à cabeça, então. Dois beijos desengonçados no rosto. Deveria ser igual agora? Mesmo depois de falarmos tudo o que falamos?
Dentro de mim acontece um rebuliço esquisito e minha cabeça é uma imensidão de nada e tudo. Resgato a ideia de perguntá-lo sobre o projeto, mas é tão supérflua que mais parece uma fumaça desaparecendo com o vento. Jungkook dá um passo à frente e eu o respondo com outro num impulso, sentindo-me elétrica de repente. Nós nos olhamos por um tempo, esquisitos. De maneira desconexa me questiono se ele consegue ver o chupão que deixou no meu pescoço ontem à noite. Sem pensar, recuo alguns centímetros no mesmo momento em que ele se inclina para mim. Tento consertar depressa, meu coração batendo nos ouvidos e me deixando surda por uns instantes; inclinando-me em sua direção também. Péssimo. Ele já se endireitou de novo.
Argh. Isso é horrível.
— Vamos comer!
Sua voz vem alta, exasperada, e não demoro nem meio segundo para concordar. Vejo-o largar suas coisas embaixo da mesa antes de pararmos em frente à prateleira de lámens. E enquanto focalizo em uma embalagem aleatória, sem prestar atenção de fato, concluo que somos uma bagunça completa. Uma confusão só, um vai e vem sem cabimento. Somos como dois tolos em meio a espertos. Somos fora de órbita num ambiente terrestre demais. De novo.
— Viu que o sistema da universidade tá fora do ar?
Fala de maneira aleatória, fazendo com que eu me vire para ele de prontidão.
— Não vi...
Ele pega um dos lámens de queijo.
— Eles deixaram um aviso no edital, — explica, analisando os ingredientes na parte detrás da embalagem. — As notas, assim como os trabalhos finais pra entregar e pegar, ficaram todos pra semana que vem.
— Então nada vai sair essa semana?
Jungkook nega, me olhando outra vez. Bem, talvez eu possa usar isso como desculpa para não ir para casa esse fim de semana, mesmo que eu possa conferir minhas notas online...
— Até o resultado do curso de verão não conseguiram soltar, o trabalho que eu ia entregar hoje também não deu certo.
Voltamos a ficar em silêncio.
— Não vai para a casa esse fim de semana então? — Pergunto depois de um tempo, escolhendo um sabor sem pensar demais. — Sabe, por conta do trabalho...
— Eu vou, — responde, enquanto o sigo até a máquina de água quente. — Mas vou voltar na segunda. Já ia fazer isso antes pra resolver as coisas do dormitório, então meus planos não mudaram muito.
Balanço a cabeça em afirmativa.
Depois de despejarmos água nos copos plásticos, voltamos para nossa mesa ao fundo. Sentados um de frente pro outro, nossos joelhos se encostando volta e meia pelo pouco espaço e nossas mãos lado a lado. A primeira vez que viemos aqui Jungkook decidia que trinta e cinco encontros era um número bom para cobrir o valor do seu novo notebook; e a lembrança me faz querer rir em nervosismo, porque o antes e depois é discrepância pura.
— Já conversou com a sua mãe?
Olho-o por alguns instantes, perdida na pergunta inusitada solta no meio dos meus devaneios. Sou pega desprevenida e o riso que antes eu pensava em dar morre na garganta. Meu corpo sucumbe no assento e me sinto esquisita. Eu tinha esquecido sobre isso. Apesar de ser uma preocupação séria e urgente, ela parecia simplesmente não existir por agora.
— Ela ligou mais cedo... — Falo, vendo-o misturar os temperos ao seu macarrão. — Falei que não tinha conversado com você ainda, ela falou que vai me ligar mais tarde.
Jungkook me olha por um tempo e logo assente, parecendo entender algo que não foi verbalizado.
— Um dos meus projetos desse semestre recebeu destaque na turma e vai servir como modelo na disciplina. — Solta de repente, seus olhos fixos na mistura que faço em meu lámen agora. — Precisava fazer umas correções que o professor pediu, fui hoje de manhã fazer.
A mudança brusca de assunto me faz pensar. Talvez ele ache que eu não queira falar sobre meu mais novo e velho problema. E não sei como me sentir sobre. Porque sei que o problema existe, mesmo sendo ignorado por ser angústia e confusão, sei que ele ocupa uma boa parte da minha vida.
Fico o olhando por mais tempo, dialogando nos pensamentos sobre o que falar agora exatamente. Parabenizá-lo ou não. Mudar de assunto ou resgatar. Uma luta de palavras e sentimentos controversos.
— Jungkook, — começo de forma abrupta, fazendo-o me olhar de imediato. — Eu acho que eu vou ter que matar alguém da sua família.
Sua expressão é nada, nossos olhos cravados um no outro.
— Ok... Isso é novo. — Sua voz vem confusa. — E um tanto extremo e macabro também.
Ergo os braços em desespero quando percebo a colocação da frase, tentando arrumar o que falei logo em seguida:
— Não literalmente!
— Que bom que especificou...
Solto um suspiro longo, percebendo que não tem como fugir por muito tempo desse assunto. Quer dizer, isso também o envolve, não é? Uma frase solta, um pedido inconsequente e ele estaria afundado até os ouvidos. Não é também como se eu conseguisse não contar, acontece algo que me espreme até que eu conte tudo para ele. Remexo-me no lugar, procurando uma posição mais confortável; pensando agora que a ideia que tive enquanto esperava as aspirinas fazerem efeito talvez não tenha sido a mais genial do mundo.
— Eu preciso de algo trágico pra impedir essa maluquice dos meus pais, entende? — Explico, amuada. — Só consegui pensar nisso. Pensei em você quebrar uma perna, mas não saberia como explicar caso eles vissem você caminhando normal um dia.
Jungkook inclina sua cabeça para o lado e sei que ele quer rir, porque vejo sua boca se espremer enquanto me olha.
— Eu posso me curar tipo o Jacob de Crepúsculo.
— Infelizmente minha mãe não acreditaria nisso. — Apoio meu rosto entre as mãos. Essa situação é ridícula. — E talvez ela ainda veria uma saída, sei lá, um jantar no hospital...
— Pode rolar um jantar no cemitério ainda.
E ele finalmente ri, uma risada alta e bem dada. Mas não consigo o acompanhar, não consigo me permitir rir disso.
— Isso é horrível!
— Não me olha assim, — ele estala a língua, sua risada diminuindo aos poucos. — Foi você que veio com esse papo de querer matar alguém da minha família.
Encolho-me entre os ombros, vendo-o colocar uma quantia significativa de macarrão na boca finalmente. Faço o mesmo então, tentando pensar em algo mais elaborado do que a típica desculpa para trabalhos não feitos no ensino fundamental. Uma típica desculpa horrorosa e de mal gosto, por sinal. Reconheço isso.
— Não pode ser uma alternativa feliz? — Tenta depois de um tempo. — Sei lá... O nascimento de um bebê?
— Não, — balanço a cabeça, o respondendo enquanto assopro outro amontoado de massa. — Minha mãe só se retrai com tragédia.
Ele assente, a boca já vermelha pela pimenta.
— Você não precisa necessariamente matar alguém que existe, sabe? — Sugere, apoiando os cotovelos na mesa, concentrado no assunto. — Você pode inventar alguém. Eu me sentiria melhor, inclusive.
— Inventar um parente seu?
Pergunto, cogitando a possibilidade. Eu também me sentiria melhor.
— É, tipo um tio em Ilsan. Não tenho tio nenhum em Ilsan, é menos agourento.
— Tio em Ilsan... Tá bem...
Jungkook me vê comer por mais um tempo, parecendo pensar em algo a mais. E de fato pensa, já que em seguida sua voz vem como um estouro:
— Meu tio Hyunsik!
— Tipo o ator?
Há um silêncio. Nós dois nos olhando por um momento até que ele volta a falar:
— Vou precisar mudar o nome, to me sentindo mal por ele agora.
— Não conheço nenhum Hyunsuk.
Ele olha por um tempo para as prateleiras ao nosso lado, os olhos indo e vindo pelos produtos, parecendo tentar se lembrar de algo, buscar na memória alguma informação importante.
— Eu também não. — Fala finalmente. — Hyunsuk é perfeito.
Seu sorriso grande faz seus olhos encolherem e seu nariz enrugar, como também me faz amolecer sobre o banco nada confortável. Ver Jungkook desse jeito quase faz eu me esquecer do que realmente me atormenta. Quase. Quase me faz esquecer que o problema foi resolvido só por agora. Quase, quase, quase. Porque no instante seguinte tenho a certeza de que meus pais não vão esquecer ou sequer desistir desse encontro entre famílias, que toda essa situação só foi adiada e que ela só tende a agravar. Quanto mais as coisas se desenrolam, quanto mais elas acontecem, pior fica. Em algum momento, eu não vou mais poder usar mentiras como desculpas. E isso é o que mais me preocupa.
— Vai ligar quando pra ela?
Jungkook vem depois de um tempo, enquanto abocanho um punhado de macarrão.
— Não vou, — falo terminando de engolir. Sentindo-me triste pelos pensamentos recentes. — Vou esperar ela me ligar.
— Você não pode esperar ela ligar, tem que ser o contrário. — Rebate cheio de obviedade. — Assim parece que você tá esperando pra mentir.
— Bom... — Ergo as sobrancelhas em um deboche miserável. — Eu to, então...
— Não. — Insiste, colocando os jeotgarak na mesa para dar ênfase ao que fala. — Liga agora ou manda uma mensagem de texto.
— Não vou falar sobre alguém que morreu por mensagem de texto com a minha mãe.
Mas não o olho por muito tempo, porque sei que ele está certo e não quero admitir isso. Nem sequer olhar pro seu rosto bonito e ter que admitir isso.
— Mensagem de texto foi criada pra isso.
— Mas ela é quase tão ruim quanto você com mensagens de texto.
Não pensei quando falei. Obviamente. E o silêncio súbito entre nós me faz ter certeza que seus olhos me medem com mais intensidade do que antes, porque os sinto queimando por onde passam. E não consigo não me questionar se isso inclui também o chupão que ele deixou em meu pescoço noite passada.
— Isso foi tipo uma indireta pra mim?
Dou de ombros, não sabendo ao certo o porquê quero rir.
( ) Desespero;
( ) Graça;
( ) Os dois juntos.
— É bom você não basear nosso relacionamento num chat do Kakao.
Meu riso morre de novo ao ouvi-lo e dessa vez não consigo não o olhar, porque veio sem malícia ou segunda intenção, veio natural demais para que eu conseguisse ignorar. Nossos olhos se fincam um no outro por um longo tempo, estamos chocados e sem graça pelo assunto ter chegado aonde chegou, porque nunca citamos a palavra relacionamento antes. Nunca. A vergonha é palpável no ar e nas bochechas de Jungkook ganhando uma nova coloração, o tom rosado as atingindo no topo. Somos mesmo uma confusão de tudo e nada, não é?
Abro a boca algumas vezes, mas desisto todas elas. E Jungkook faz o mesmo.
Vamos e voltamos. Voltamos, paramos e ficamos.
E somos esse impasse por não sei quanto tempo exatamente, voltando a comer de forma mais concentrada e silenciosa do que antes. Engato um pensamento sobre a possibilidade das coisas se tornarem sérias, oficiais. Engato e logo desengato, porque antes mesmo que as coisas vinguem em meu cérebro, meu celular explode em Red Velvet pela segunda vez no dia.
— Finge que tá desesperada!
Jungkook solta, elétrico, assim que nos inclinamos sobre a mesa para lermos o nome no display. Mãe. E quero genuinamente sumir. Vomitar e sumir. Ou sumir e vomitar. Tanto faz.
— Mas eu to desesperada!
Pego o aparelho em minhas mãos, a forma como ele vibra parece muito mais intensa do que costuma ser. E sei que preciso atendê-lo. Todo o clima de antes é arruinado, cortando pela metade, jogado ao fogo; todas as minhas inseguranças me atingindo como um trem desgovernado. E, num ato de coragem súbito, eu atendo a ligação sobre os olhos arregalados e urgentes de Jungkook. Não preciso fingir uma voz esganiçada ou um choro entalado na garganta, porque eu já estou assim.
— Mãe, aconteceu uma coisa horrível!
Remexo-me na cadeira, o tecido do meu vestido dançando com o movimento enquanto me espreguiço de forma lenta e displicente. As cortinas estão inteiramente abertas e dão uma visão ampla das árvores ao fundo do prédio dos dormitórios. O vento que passa por entre elas é o suficiente para refrescar o ambiente das altas temperaturas do quase início do verão.
Sorn ainda não voltou da viagem que fez no fim de semana e eu permaneci por aqui. Até porque, de alguma maneira mágica e surreal, as coisas deram certo. Minha mãe pareceu engolir a trágica história sobre o tio Hyunsuk de Ilsan e eu não precisei ir para casa. Não houve perguntas sobre detalhes e nem ligações posteriores; meu desespero parecendo ter sido o suficiente para convencê-la. E, apesar de saber que meu problema está longe de ser aniquilado, eu me senti melhor. Talvez não da maneira como eu queria me sentir realmente, mas, mesmo assim, me senti.
Puxo meu celular para perto do rosto quando o ouço vibrar sobre a escrivaninha. Desde que Jungkook voltou de Busan estamos conversando por mensagens de texto. Assuntos supérfluos e sem fundamento, só com a intenção se conversar. E gosto disso. Gosto de verdade disso.
[15:03] jungkook: to saindo agora pra resolver um negócio
[15:03] jungkook: quer fazer alguma coisa mais tarde?
Tenho a lembrança vívida de nossos dedos mínimos se enlaçando na volta para os dormitórios na quinta. Como tenho também a recordação de seus lábios alcançando o canto dos meus em um beijo de despedida. É novo e inédito. E somos só nós dois da forma como deveria ser.
Eu e Jungkook. De novo. Sós.
E acabo sorrindo.
Penso por um instante sobre algum lugar que poderíamos ir aqui por perto. Uma loja de conveniência nova, a praça atrás dos dormitórios ou as escadarias do campus. Mas antes que eu possa digitar sobre as minhas ideias, uma nova mensagem aparece em meu visor.
E ela, com toda a certeza, não é de Jungkook.
[15:05] número desconhecido: não acredito que vc me bloqueou
Meu coração alcança os ouvidos de forma rápida e intensa. E tudo muda num segundo. Sinto vindo, sinto vindo a angústia, o arrependimento e o amargor na ponta da língua. E não preciso resgatar lembranças ou vasculhar na memória, porque eu simplesmente sei quem é do outro lado da tela.
Ergo-me da cadeira por puro instinto, minhas pernas parecendo pesadas de repente e o quarto mais abafado que o usual.
[15:05] número desconhecido: precisei comprar a porra de um outro chip por sua causa
Respiro fundo, fechando os olhos com força. Haneul é mesmo como uma sanguessuga cretina e incansável. Não é como se haja um momento adequado para que sua presença ressurja na minha vida, mas ele sempre parece escolher o pior.
Abro os olhos quando sinto o aparelho sinalizar mais mensagens.
[15:06] número desconhecido: eu sei que vc tá lendo
[15:06] número desconhecido: e antes que você me bloqueie de novo
[15:06] número desconhecido: eu quero saber que porra é essa aqui
Franzo o cenho quando a próxima mensagem é um link extenso do fórum de um dos grupos universidade. E não entendo. Por um minuto inteiro me vejo completamente perdida. Passo a mão na testa e mudo o peso do meu corpo de uma perna para outra. Talvez eu devesse só bloqueá-lo outra vez e esquecer isso, não é?
Talvez eu devesse simplesmente excluí-lo de novo.
Do celular, da caixa de mensagens, da minha vida.
Mas é então que meu celular apita outra vez. E é como um pesadelo desconexo que acontece mais rápido do que eu consiga entender.
[15:08] número desconhecido: acompanhante de aluguel? sério?
Antes que eu consiga raciocinar de forma clara, meus dedos deslizam sobre a tela, abrindo o link em uma nova janela. E lá está. Não somente a página de um dos fóruns da universidade como soube que era, nem somente meu coração batendo tão forte no peito que espero explodir. Mas também um anúncio de fevereiro. Um anúncio tão conhecido por mim.
Amiga... Eu não sei me expressar muito bem, nem por palavras que eu não consigo formular frases coerentes, nem por carta que eu repito o mesmo assunto sempre, mas eu to muito grata de você ter escrito esse cap. com um final tão doce apesar das circunstâncias, um final que aqueceu o coração e uma lágrima escorreu, e principalmente por você ter incluído o liCOR DE AMEIXA AUDNSUNSBS SERIOO DESDE QUE EU LI A FRASE EU PRECISEI MUITO ESCREVER ISSO AQUI!!! OBRIGADA DEMAIS POR ESSE MOMENTO!!! #borahae💜
Olha… Desde que li seu comentário eu venho pensando que de fato você ficou mesmo muito molinha de amor, porque, em nenhum momento, você me ameaçou de morte ou me dar um soco quando a gente se visse. E isso é lindo!!!! Eu to muito feliz de ter finalmente escrito esse capítulo de AdA e to feliz por você ter ficado também. To me sentindo assim também porque consegui, por um tempinho, te livrar do peso do semestre da faculdade. Você se sentir bem foi essencial, Bea bebezinha! <3
E sobre o licor: eu precisei botar pela minha HONRA! KDLJASDKAJGS Pelo menos alguém riu com essa história, né? HAHAHAHAHHA
olá!!! queria dizer que vim aqui pelo spirit e droga, eu achava que já era apaixonada por vocês por causa de lá. resultado? me apaixonei em hipérboles e superlativos. vim aqui pra fazer um pedido humilde: vocês poderiam por favor me indicar autores/livros, ou musicistas? o gosto de ambas é ótimo e eu sinceramente admiro muito vocês. obrigada💜 [agness! meus olhos já estão brilhantes como o post-it ^^]
Oi, anjo!!! Obrigada pela mensagem, ficamos muito felizes mesmo de saber disso!!! É muito fofo da sua parte nos dizer isso aqui mesmo já nos acompanhando pelo Spirit. Isso significa muito pra gente e nos sentimos gratas de verdade <3
E então, que conseguimos pensar agora, nossas sugestões conjuntas de escritores são Sophie Kinsella, Edgar Allan Poe, Agatha Christie e Charles Bukowski. De livros em específico, recentemente a Florence leu “Homens Sem Mulheres” do Haruki Murakami e “Call Me By Your Name” do André Aciman, e gostou bastante de ambos. Já a Agness gosta de “Fiquei Com Seu Número” da Sophie Kinsella e “A Casa Torta” da Agatha Christie.
De musicistas, a gente não sabe que estilo ou gênero específico de música você gosta, então vamos dar sugestões diferentes. De música de concerto, Erik Satie, Heitor Villa-Lobos, Debussy, Liszt, Rachmaninoff e Dvořák. De k-hip hop/k-r&b, Offonoff, Crush, G.Soul, DPR Live, Rad Museum, Hoody, Heize, Dynamic Duo, Bloo, Jooyoung, Loco e pH-1. De indie, pop e afins, Catfish and the Bottlemen, George Ezra, Hozier, Banks, Børns, Léon, City and Colour, Chase Atlantic, One Night Only, Jaymes Young, Mumford & Sons, Alabama Shakes, Kodaline e EDEN.
Acho que já tem bastante coisa, esperamos que você goste e que ainda ache nosso gosto musical muito bom depois disso tudo hahaha.
Jeon Jungkook
Autora: Agness Saints
Gênero: Comédia, Romance
Sinopse: Parecia piada, quatro anos de um relacionamento frustrante havia chegado ao fim, mas Haneul ainda te atrapalhava a vida. Se ele não tivesse arranjado um namoro relâmpago, você não precisaria demonstrar que está bem também, que não ficou para trás. Você não precisaria, principalmente, contratar aquele maldito acompanhante de aluguel.
Moreno. 1,80 de altura. Porte atlético. Bonito. Inteligente.
Educado. Agradável. Sabe estabelecer uma conversa.
Sem compromisso emocional, apenas financeiro.
Valor sob consulta.
Interessados: [51] 5782-4158
Esquece o “parecia”, a vida é mesmo uma piada pronta.
Contagem de palavras: 11.576
Avisos: +16. A história faz parte da série puerlistae au.
Parte: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16
Playlist. | Playlist 2. | Playlist 3.
A iluminação proveniente da tela do celular faz parte de um grupo pequeno de luzes que nos guiam pelo caminho; junto de postes espalhados esporadicamente e casas com luzes acesas. Não há lua no céu ou carros por aqui. A noite é quente, nublada e úmida. E enquanto tento administrar todas as sensações e sentimentos que me rondam, tenho Jungkook bem em minha frente. Seu aroma tropical invadindo a noite e sua imagem invadindo meu cérebro, se mesclando com a tentativa de arranjar respostas aos tantos porquês.
Depois do meu fracasso explícito na biblioteca ontem, minha noite foi assombrada por pesadelos e devaneios ruins. O cansaço me pegando os ombros agora como um lembrete da angústia vivida. Que ainda vivo. Desde então retomei minha busca desenfreada por um caminho alternativo. Um caminho seguro e bem planejado. Uma solução que me faça mudar o rumo dessa noite. Mesmo que eu já tenha analisado todas as minhas opções ontem, mesmo que eu já tenha ido e vindo por todas as alternativas existentes. Eu preciso continuar tentando. Porque não quero colocar o que quer que tenhamos aqui em risco. Não quero ser vencida pela ideia estapafúrdia de mamãe.
Não quero.
Até porque ainda é a família de Jungkook. Pai, mãe e a irmã mais velha. A família toda. É como invadir uma morada sem permissão, invadir mais uma parte da sua vida. E não é como se eu não quisesse saber de cada pedaço dela, eu quero. Mas da forma justa e não por conta de um anúncio de acompanhante de aluguel furreca.
Pensei em uma viagem da família Jeon para o Chile. Alaska. Madagascar. Júpiter. Para qualquer lugar longe o bastante para dar fim a esse encontro desastroso no fim de semana. Um lugar longe o suficiente para meus pais não solucionarem a questão com passagens compradas em cima da hora, sem planejamento algum.
Mas quanto mais eu pensava sobre, mais certeza eu tinha que a ideia era tão ruim quanto contar toda a verdade para eles.
Tentei então enumerar minhas preocupações, tentei enumerar meus problemas, organizá-los em uma lista para que, pelo menos, meu caos estivesse em ordem. E consegui por uns pares de horas cretinas. Só uns pares de horas. Porque pouco depois tudo desandou quando vi Jungkook atravessando as catracas da ala masculina. 20 minutos atrasado. A calça jeans clara e a camisa xadrez o acompanhando em um caminhar apressado. Toda a listagem feita se embaralhou tragicamente e ele a encabeçou sem esforço algum.
Porque aqui, agora, enquanto entendo que nenhum caminho alternativo de fato existe nesse cenário coberto de teias mentirosas, percebo que não é só Haneul que me ronda a vida inteira. Jungkook também é o início, o meio e o fim. Ele vem como contraste no piche grotesco que é meu ex-namorado, que é meu karma e inconsequência. Ele se esparrama como ramos e flores rastejantes, minha solução. Os dois em volta de mim, interligados de uma forma imunda e injusta.
E o “e se” passando a ser agora a maior das minhas lamentações.
E se eu tivesse encontrado Jungkook muito antes de ter encontrado Haneul?
— Vire à direita em 100 metros.
A voz feminina que salta entre nós é a de seu celular. E é a única que vem sendo ouvida há dez minutos, quando saímos da estação de metrô. Não que antes nossas vozes estivessem vindo com facilidade numa conversa despretensiosa. Porque nunca fomos assim e não seríamos agora. Principalmente agora. Tirando meu transtorno interno e secreto, nós ainda estamos afogados no que podemos e o que não podemos fazer. O fantasma de um beijo que não aconteceu ainda pairando sobre nós. Um cumprimentar esquisito de dois beijos seguidos no rosto e olhares que não conseguem se sustentar. E tudo se parece incerto. E até que seria engraçada essa situação toda se eu não estivesse a ponto de acabar com tudo isso.
Apresso o passo ao atravessarmos mais uma rua esquisita e sem movimentação, o aplicativo de mapas em seu celular vibra volta e meia com uma nova instrução e nós seguimos. Seus olhos ainda plantados na tela e seu aroma tropical ainda invadindo a noite inteira. E não deixo de pensar que as coisas poderiam ser fáceis só por hoje.
Mesmo sabendo que não existe escapatória, tento vasculhar cada canto do meu cérebro a procura de um desvio; de uma resposta milagrosa que salve o que o destino reserva para essa noite. Mas o nervosismo borbulha tanto em mim, que não consigo sequer pensar direito. E a única coisa que arranjo é um emaranhado de problemas e soluções pela metade.
Sinto-me melancólica e derrotada; sinto-me um disco arranhado que repete sempre o mesmo trecho da música.
A rua de paralelepípedos é coberta por pontos de luz aleatórios. Um aqui e outro ali. Postes que funcionam e que não funcionam distribuídos pela calçada de maneira descuidada. Casas de um piso só com muros baixos. Na esquina um terreno baldio repleto de árvores e arbustos sem forma alguma. E, por um milésimo de segundo, me permito pensar sobre como o cenário é muito diferente dos que me acostumei. De uma rua paralela a da universidade para uma outra perdida na zona leste da cidade. Conexões de metrô que nunca me aventurei em pegar antes. É uma festa em um lugar esquisito.
— Falta muito?
Minha voz vem em eco numa rua estreita, fazendo-me perceber agora a vontade desesperada de fugir de mim, dos meus pensamentos. Cada canto do meu corpo vibra e eu me sinto nausear.
— Aqui diz que vamos chegar em uns dois minutos. — Fala sem me olhar. A voz saindo aérea enquanto ele faz uma menção rápida ao sacudir o celular. — Precisamos andar mais uma quadra e então virar a esquerda.
Faço uma careta de desgosto, mesmo sabendo que ele não me olha. Meu estômago se embrulha mais uma vez. Não há comida ou certeza nele. Só há uma imensidão de nada misturada com o cair da realidade me pegando aos poucos.
Jungkook para de caminhar por um tempo e depois retoma, os olhos mirando a rua e depois retornando à tela do celular. Caminhamos e caminhamos. Limpo o suor da palma de minhas mãos no tecido da saia e estralo os dedos logo em seguida.
E talvez minha inquietude repentina seja pela certeza de que assim que chegarmos à festa, eu não vou ter mais desculpa alguma. Também não vou mais ter tempo algum. Porque nada mais vai me impedir de puxar Jungkook para um canto e pedir para que ele faça seu papel de acompanhante de aluguel mais uma vez.
Um fim de semana em família em Busan.
E então, qualquer coisa que tenhamos aqui, vai desaparecer como a merda de um passe de mágica.
— Jungkook!
Eu saio estridente, mais irritada do que gostaria de soar. Sinto que posso explodir a qualquer instante por pensar em absurdos, estar prestes a fazer um absurdo e por eu me sentir um absurdo. Sinto-me a mil por hora de repente. Um desespero errado, desconexo. É quase uma realidade paralela.
Tenho vontade de dar pontapés e socos no ar. Porque merda. Merda. Merda. Merda. Essa situação é ridícula. Minha família com a família dele. Uma ideia imbecil que coloca as coisas em risco. Isso é... Argh!
E quando penso em engatar mais alguma frase em tom malcriado e sem sentido, Jungkook para, me fazendo parar abruptamente também. Um passo de distância entre nós e um universo inteiro de distância no que pensamos. Sei disso. Seus olhos se erguem depois de certo tempo, talvez segundos, minutos. Tudo parece intenso demais no universo explosivo que criei dentro de mim. Dois segundos para seus olhos se adaptarem e um girar de pulso para me iluminar com a luz artificial. Perco seu rosto no breu. Mas sinto que só agora percebeu que estou aqui também. E, apesar de me sentir exposta e envergonhada por dezenas de razões explícitas e secretas, me sinto um pouquinho melhor.
— O que foi? — Ele pergunta confuso. — Aconteceu alguma coisa?
— Esse lugar não é longe demais?
— Não, é virando essa esquina agora.
Meus olhos estão fixados nele, esperando que ele entenda que a pergunta não foi essa. Mas a verdade é que eu nem sei onde quero chegar com isso. Eu só preciso falar, falar e falar. Mesmo que não faça sentido algum. Quero fugir de tudo como uma boa covarde que sou. De mim, dele. Do que vim fazer.
— O que aconteceu pra ser tão longe? — Tento de novo. Minhas mãos apertando o tecido da saia em nervosismo. Um pedido silencioso de isenção de responsabilidade. — Não quiseram fazer na república da última vez?
Meu coração bate forte no peito por todos os finais ruins que imaginei para hoje. Em um devaneio positivo e minúsculo, ele aceitava toda essa ideia. Mas o pensamento foi tão rápido quanto veio. Porque sei que mesmo que ele aceite, as coisas nunca mais vão voltar a ser como antes. Como agora. E percebo que ainda que eu inicie uma briga raivosa com Jungkook nesse dado momento, nada vai conseguir tirar isso de mim.
Ele abaixa o celular, seus pés agora sendo iluminados pela luz artificial. Levo um tempo para lhe encontrar na escuridão da noite, uma varanda e um poste acesos me ajudando a encontrar suas feições. E fico presa ali por um tempo, nas pintinhas, nos segredos e nos seus etcéteras.
— _____, tá tudo bem?
Sofro um baque esquisito. Minha raiva ainda me toma o peito, mas não escapa pela boca. Pisco uma, duas, três vezes. Demoro um tempo para entender a pergunta.
— Por que tá me perguntando isso?
— Você tá estranha desde ontem. — Dá de ombros, mas não parece indiferente. — Tem alguma coisa que você quer me contar?
E então eu travo. Pernas, braços, mente e fala. Já não conseguia sair daqui, agora que não saio mesmo. Mental e fisicamente. Existe alguma possibilidade dele já saber? Existe alguma possibilidade de estar escancarado e só eu não perceber isso?
Tento engolir a saliva, mas ela tranca na garganta. Penso em cuspir ou vomitar. Nenhuma de fato é uma boa ideia. E continuo então só olhando Jungkook me encarar. A feição se tornando cada vez mais curiosa à medida que demoro a responder.
— Por que você... — Minha voz sai esganiçada. E ela sai antes mesmo que eu perceba. — Acha isso?
— Você parece nervosa. — Fala, e por um instante me parece chateado. — É o lugar? Juro que não é perigoso.
Contorço meu rosto em uma careta dolorosa. Não era pra ser assim.
— Não é isso.
Seu suspiro vem e junto ele sai em um sussurro:
— Então é diarreia?
— O quê?
Minha voz é alta em ofensa. Repito a pergunta em pensamentos para ter certeza do que ouvi. E não posso mesmo acreditar. Vejo Jungkook erguer os braços em defesa.
— Você tá toda encolhida!
E, de repente, me torno ciente de cada parte minha. Apesar de me sentir a ponto de explodir, meus braços estão enrolados ao peito, tão presos que quase me impedem de respirar. Meus olhos esbugalhados e minha boca em uma linha fina de apreensão. Eu pareço mais uma criança medrosa do que um personagem do GTA.
— Não é diarreia, Jungkook! — Quase grito frustrada, soltando meus braços. Por que ele é desse jeito? — Não é... Isso. Que saco!
Engatamos em silêncio outra vez. Mas ainda assim não me movo. Apesar da história da disenteria ter mesmo me pegado de guarda baixa, ela não consegue fazer com que eu me sinta menos miserável que antes. Ainda me sinto covarde e arrependida. Mesmo que nenhum pedido tenha sido feito até agora. Nervosa, mas não mais irritada.
— Você quer voltar?
— Voltar?
Não entendo.
— Você quer voltar para os dormitórios? Tá arrependida de ter vindo? Eu vou entender.
Quero sufocar um gemido doloroso de entendimento. Porque estou finalmente percebendo. Ele interpretou minha reação esquisita do jeito mais torto e cruel possível. É claro que sim. Até porque é Jungkook e ele nunca realmente escolhe a interpretação mais coerente. E me sinto mal. Porque quero estar aqui com ele. Apesar de toda a imundice que me ronda, Jungkook ainda é Jungkook.
— Não, — falo depressa. — Não é isso.
Penso num instante curto que preciso ser sincera, que precisa ser agora. Sinto uma necessidade extrema de cortar pela raiz todas as interpretações errôneas que ele está prestes a ter essa noite. Num impulso esdrúxulo e desleal, as palavras dançam na ponta de minha língua. Meu cérebro correndo pelos prós inexistentes e contras tão vastos. Mas assim como a coragem me veio, ela vai embora. Como aquele devaneio positivo. Quase não existiu.
— Tem a ver com Haneul?
Sua voz me vem certeira e meu cérebro se toma incolor. Não penso em nada e não sinto nada. Um, dois, três minutos. Quatro horas. Cinco dias. Sou vazio por uma eternidade de tempo enfiada em dez segundos de silêncio. Não existe mais resquício de ódio inconsequente, sem sentido, dentro de mim. Acredito agora que todo meu ser é de fácil acesso. Meu queixo caído e meus olhos arregalados. E com isso não consigo balbuciar nada além da verdade:
— É.
Não sei se respiro ou se todo o ar está trancado dentro dos pulmões. O cenário todo ao nosso redor é desconexo, como toda a noite que se seguiu até agora. Não tenho a mesma passageira coragem que tive há poucos segundos. Ela se esvaiu por completo. Um fervor começa arder em meu peito quando Jungkook dá um passo a frente. Ele suspira, sua feição moldada por sombras.
— Eu já sei que quem comprou o notebook foi Haneul, não você. — Revela. — Ele me contou.
O quê?
Pego-me submergindo na quebra do roteiro que criei. Sou interrompida na metade. Minha linha de raciocínio se perdendo e voltando sem saber ao certo o caminho que fez. Ainda é um vai e vem esquisito de sentimentos e sensações. Mas não existe mais ardor no peito ou mãos suando. Existe só a mescla ínfima de confusão e vergonha.
Levo um instante para recapitular, voltar no tempo e tentar pensar de forma coerente. Mesmo que essa tarefa esteja sendo difícil desde ontem. Apesar de me sentir aliviada pela mudança repentina de cenário, não deixo de me encolher em embaraço pelo que acabei de ouvir. Porque Jungkook realmente acha que esse é o motivo certo.
Eu não planejava manter segredo ou muito menos contar para ele sobre a origem do notebook de última geração. Porque, na verdade, nunca me pareceu um tópico problemático, nunca me pareceu um tópico necessário para se trazer à tona. Mas por todas as coisas que vem acontecendo, pela totalidade dos fatos e angústias reunidas, parece que a descoberta é muito mais importante e delicada agora.
— Quando você ficou sabendo disso?
Vejo-o cruzar os braços, a cabeça se movendo para olhar para os lados por alguns instantes. Ele parece desconcertado. E quando a explicação vem, eu entendo o porquê.
— Ele me contou assim que você foi ajudar Sorn.
E logo percebo que Jungkook se sente tão desconfortável quanto eu ao se lembrar daquele fatídico momento cretino. E, por um momento, eu me sinto grata pela empatia.
— Desculpa por você ficar sabendo desse jeito.
Ainda me tenho perdida com a pedra no meio do caminho. Ainda me tenho perdida no problema impensável que me caiu como um pedregulho preso no sapato. Mas não quero não me preocupar com o que tenho bem aqui. Não quero fazer pouco caso de algo que Jungkook pensa ser grande. Tento administrar então esse pequeno problema com o enorme que ainda pesa nos meus ombros.
E quanto mais o tempo passa, mais eu tenho certeza que preciso beber para encarar tudo o que é e tudo o que vem pela frente. Depois desse alarme falso, foi comprovado que não consigo passar por isso sem estar completamente alcoolizada.
— Eu não me importo. — Fala alheio a tudo o que se passa dentro de mim. — Até porque foi ele quem quebrou e era ele quem deveria pagar. Nada mais justo.
— É, mas... — Falo incerta, ainda me sentindo incoerente. — Eu deveria ter te contado. Você não ficou chateado?
— Não. É por isso que você tá assim? — Mas não respondo e ele entende do jeito que quer entender. Da forma errada. De novo. — Bem, eu já disse que não me importo.
Seu tom de voz vem firme, cheio de certeza. E há um silêncio. Um silêncio comprido em que ninguém se mexe. Eu aqui e ele lá. Três a cinco metros. Nossas vozes como megafones no meio da escuridão. E, nesse meio tempo, sinto que ele quer dizer algo a mais, mas que não diz. E penso por um instante no que mais pareço transparecer. É sobre isso o que ele pensa em dizer?
Penso de novo também que agora seria uma boa hora para lhe contar a verdade. E como seria uma ótima hora para se ter coragem. Mas é só um pensamento solto outra vez. Sem intenção alguma de se tornar um plano abrupto. Puxo o ar com força para dentro de mim, a luz do celular de Jungkook ainda ligada, iluminando agora parte de seu braço. Remexo-me no lugar, de repente, me sentindo presa não só emocionalmente, mas fisicamente também.
— Acho que tá na hora da gente entrar. — Fala sem graça, apontando para uma casa com luzes acesas que se pode ver aqui da esquina. — É ali.
A morada é de um piso só e não há muito que se ver daqui além de janelas com luzes intensas e o portão de ferro branco aberto.
— A-ah... — Volto meu olhar para ele. E entendo que não sou a única desconfortável. — É. Aqui é muito escuro.
Ele acinte, a luz do celular sendo desligada e o aparelho guardado no bolso traseiro da calça.
— O bairro é residencial e a maioria é da terceira idade, eles dormem cedo. — Fala vagamente. — É por isso.
A informação vem desconexa no ar, assim como nosso pequeno silêncio. A mudança de clima já era óbvia, mas agora se parece extremamente palpável. Meu suspiro vem acompanhado de seu pigarreio.
— Acho que é mesmo hora da gente entrar.
[...]
Duas.
Não.
Três doses e meia de licor de lichia.
É. Foi isso. E uma cerveja. Duas. Não. Foi uma só.
Aperto os olhos e enterro meu rosto em minhas mãos. Estou sentada em um dos bancos na divisa da cozinha americana com a sala; um cômodo aberto com visão ampla para o jardim do fundo. E não sei se tenho dor de cabeça ou é só a fumaça excessiva que irrita meu nariz. Como também não sei se o enjoo repentino é da bebida ou da imbecil constatação de que, mesmo com o nível altíssimo de álcool rodando minha corrente sanguínea, o nervosismo não me abandonou. Pelo contrário, ele só se embebedou junto comigo. O que o deixa um pouco dramático demais. E um tanto quanto desesperado demais também.
Sinto uma necessidade de rosnar de raiva. Porque é frustrante. Eu não me sinto nada preparada, mesmo afundada em drinks e intoxicada com gelo seco de tutti-frutti. Não me sinto pronta para chegar em Jungkook e despejar meu drama familiar em forma de um pedido absurdo para estender esse lance de acompanhante de aluguel. Não que eu acreditasse realmente que em algum momento eu fosse me sentir preparada para isso. Mas eu tinha uma pontinha de esperança de que, pelo menos, agora a ideia de contar não fosse tão aterrorizante assim.
Solto um suspiro sofrido, a música alta buzinando nos meus ouvidos e eu tentando me manter equilibrada nesse banquinho de madeira. A cozinha é clara, com móveis populares e uma atrocidade de bebidas sortidas amontoadas no balcão que imita mármore. E enquanto tenho Jungkook na minha visão periférica, eu fito insistentemente a divisa de ambientes.
Toda a minha esperança depositada em destilados foi por água abaixo.
E eu não tenho um plano B.
A não ser que fugir seja considerado um plano. Se sim, então eu tenho um.
Meu cérebro é como uma máquina quebrada, eu tenho ciência disso. Mas não consigo não pensar. Não consigo não buscar um motivo para desaparecer daqui. Qualquer coisa que me tire do agora, que me tire do que eu vim fazer e que não fiz. Entretanto, quanto mais tento achar a saída, mais me perco. Eu poderia simplesmente sair correndo agora, não é? Mas o que eu diria para Jungkook amanhã?
É um labirinto cretino que me leva ainda mais ao centro do problema.
Não sei há quanto tempo chegamos, como também não sei exatamente como paramos aqui. Assim que passamos pela porta da república, eu só me lembro de nós dois agarrarmos copos de Soju e mandar ver em três segundos. Talvez por motivos distintos, talvez pelos mesmos motivos. Quem sabe a conversa de mais cedo tenha deixado Jungkook desconfortável a ponto de se embebedar nos quinze primeiros minutos. Quem sabe ele só tenha feito isso para sobreviver a essa noite. Como um pressentimento ruim.
E eu não o culpo em acreditar em um pressentimento, a propósito. Até porque ele não estaria errado, estaria?
Passo as palmas das mãos contra o tecido de minha saia, elas continuam suando de maneira vergonhosa e infantil. Na ponta da minha língua não existe nada além do gosto da mistura horrenda entre licor de lichia e cerveja. Não existem palavras, muito menos coragem. Não existe inclusive algo que me torne consciente das minhas ações.
Resvalo pelo banco e caio em pé, minha saia se demorando pelo assento até encontrar minhas coxas outra vez. Apoio-me no balcão ao meu lado, as frutas de plástico ali remexendo pela minha atrapalhação. Não sei o que pretendo fazer, só faço. Como num reflexo longo e duradouro.
Há uma música ao fundo, a mesma de antes ainda forte e alta. A batida não me é esquisita, talvez eu a conheça. Não sei bem. Talvez seja só meu cérebro me enganando pela repetição do refrão. Eu o ouvi há poucos segundos, não foi? Respiro fundo com a intenção de inspirar um ar sem que tenha aroma de tutti-frutti. Não tenho sucesso. Tateio o balcão por mais um tempo e, num vislumbre, ainda na divisa dos cômodos, caço Jungkook com o olhar.
E não demoro a encontrá-lo.
Lá está ele, ao fundo da cozinha. Suas costas em display e sua calça marcando bem a bunda quando ele se empina para alcançar sabe-se lá o que no armário aberto em sua frente. Um pedacinho de pele exposta da cintura e um suspiro escapando pela minha boca. Um misto de sensações e o desvio do meu objetivo. Ele é campeão de fazer isso.
Para piorar ainda mais meu nervosismo. Ou melhorar? A óbvia constatação de mais cedo foi que Jungkook está irresistível. Ridiculamente irresistível. Cabelos, piercings e a boca rosada pela bebida. Ele me tem na palma da mão, sabe-se lá desde quando.
Sinto uma fisgada do lado direito da minha cabeça; tento equilibrar os sentimentos. Dois tipos de nervosismo. E eu estou e sou fodida. E não faço ideia de como sair dessa situação toda. Até porque Jungkook nunca foi mestre em me ajudar nessas horas. Ele parece só dificultar a minha vida. Eu deveria saber disso. Já não bastasse eu ter que lidar com todo o meu caos interno, eu ainda preciso lidar com ele. Jeon poderia ser um cara não incrível, um cara sem coxas bonitas ou sem um nariz que enruga quando ri. Poderia, principalmente, ser alguém que não usa camisa xadrez de flanela e calça clara justa. E essa não é uma tarefa difícil, você sabe. Só agora consigo pensar em pelo menos três combinações de roupas incríveis e diferentes:
1) Um sobretudo até os calcanhares;
2) Três casacos grossos;
3) Um cobertor de microfibra.
Dane-se a chegada do verão. Quem se importa com isso quando minha sanidade está salva?
Dou meu primeiro passo em sua direção e sinto meu estômago rodopiar dentro de mim. Sou tomada por dezenas de sentimentos; não sei ao certo o que faz minhas pernas quererem travar no caminho. É o pedido ainda não feito, a minha bebedeira extravagante e a realização tardia de como Jungkook está bonito essa noite. É a certeza da ressaca moral sendo muito mais forte e presente do que a ressaca física. Mas não sei decidir. Porque não me parece mais óbvio qual delas me faz querer desaparecer e qual delas me faz dar mais um passo.
A música ainda toca. Talvez a mesma, talvez uma nova. Cambaleio na direção de Jungkook, desviando de algumas pessoas pelo caminho estreito e o alcançando em poucos passos bambos. Meu cérebro temporariamente danificado achando uma boa ideia parar por aqui.
— Preciso falar com você!
É um quase grito. Meu corpo correndo pelo armário e meus olhos focando em sua figura. Recebo então seu olhar de canto, surpreso. Os cabelos negros são uma bagunça completa e o topo das bochechas tem uma coloração avermelhada. E me pergunto se é pelo tanto de Soju ingerido ou se pelo calor terrível aqui dentro.
— Eu tava procurando por copos. — Fala, os braços ainda levantados no alto. — Não achei. Se importa?
Ele tira então duas xícaras brancas e pequenas do armário. Xícaras de chá. E levo uns segundos para lembrar de que ele está aqui para pegar bebidas. Nego avidamente, não focando muito na consequência. Na verdade, nem sequer pensando de fato sobre a pergunta. Eu estou esperando ele ter alguma reação sobre o que acabei de falar, porque só me sinto a beira de uma gastrite nervosa.
Jungkook despeja um vinho frisante em uma das xícaras. Parecendo não ligar muito para minha urgência; na minha voz ou em meus olhos o fitando.
— Então amanhã você não tem aula? — Ouço-o perguntar e então me perco. Ele não me ouviu? Fingiu não ouvir? Lembro-me vagamente que esse era o assunto antes dele vir para cá, mas não quero continuá-lo. Assinto aérea, confusa. — Só vai ter o fechamento na sexta?
— Mais ou menos. — Minha voz sai bamba e não sei se vejo essa desconversa proposital ou não como um sinal divino para interromper meu propósito. — Não é bem um fechamento, as notas vão sair no mural...
Eu sou fora de órbita em um cômodo terrestre demais. E não sei se prossigo com qualquer plano que tenha se formado no meu inconsciente. Eu conseguiria prosseguir agora?
— Odeio quando as notas saem no mural, todo mundo vê a de todo mundo.
Não falo nada por uns instantes. Não que eu pudesse afirmar que minha coragem surgiria do nada e me fizesse falar de vez o quê vim falar. Mas eu tive uma pontinha dela para iniciar tudo isso, uma minúscula que agora se foi por completo. Talvez eu... Quem sabe, eu possa tentar daqui um tempo, não é? Não precisa ser agora. Precisa?
— E você?
De novo minha voz vem em inconstância.
— Vou amanhã só pra ver se passei para a seletiva do curso de verão.
Remexo-me desconfortável no lugar. Porque da última vez que esse assunto surgiu, ele veio juntamente ao de sua ida para Busan no fim de semana. E me sinto a beira do início de uma crise horrorosa. De novo. Em sequência! Porque meu problema ainda está aqui e não foi solucionado.
O maldito encontro em família.
Eu queria que fosse fácil, que Jungkook de repente lesse mentes. Que soubesse genuinamente o que quero falar. Mas não sei mais o que de fato é pior. O verbalizar ou sua reação a tudo isso. Pigarreio e contorno seu corpo, minhas pernas batendo no armário quando paro do seu outro lado.
— O resultado saiu rápido, não é? — Solto uma risada nervosa, agarrando sem pensar uma das garrafas pequenas em sua frente. — Pensava que fosse demorar.
Ele não me responde e limito-me então a focar toda a minha atenção na bebida que agora seguro. Abro e a cheiro, não guardando característica alguma do licor em si. Meus olhos passeiam pelo rótulo como numa espécie de leitura dinâmica, quando resolvo tatear o balcão a procura da xícara vazia que vi logo ali de relance. Tateio e tateio numa busca cega, meu corpo se inclinando sobre o balcão para um maior alcance e meu cérebro captando palavras soltas das informações no verso.
Volume. Porcentagem. Licor.
— _____?
— Hm?
Meus dedos ainda tateiam a superfície gelada em busca do recipiente, mas não o encontro de jeito algum. Olho então para o que faço, a xícara que antes estava logo ali, está longe. Bem longe. Debaixo de uma das mãos de Jungkook. Arrisco um olhar em sua direção e logo encontro seus olhos me medindo curiosos. Não entendo. Inclino-me mais um pouco, meus dedos alcançando a borda da porcelana, mas ele a afastando com facilidade. Percebo então que ele vem fazendo isso desde o início.
— O que foi? — Solto aflita, de repente me dando conta de nossos corpos colados, sua cabeça acima na minha e nossas cinturas encaixadas. — Jungkook...
Ele meneia a cabeça, contrariado. E me pergunto se só agora ele se deu conta da minha urgência de antes. Eu espero, por tudo o que é mais sagrado, que não.
— Vai beber isso?
Pisco algumas vezes antes de correr meus olhos até a garrafa que seguro.
— Vou.
Tento de novo alcançar a xícara e dessa vez Jungkook nem se move. O objeto está bem longe do meu alcance.
— Argh, Jungkook... O que foi?
Sinto-me irritada, aflita. Eu só quero beber, sem essa de censura sobre a quantidade de álcool que ingeri. Não foi tanta, foi? Só quero beber e esquecer sobre o que vim fazer.
— Não é uma boa ideia.
Meu corpo se remexe e eu me ajeito no lugar. Minha pele esfriando assim que me afasto de seu corpo. Não existe a possibilidade de não ser uma boa ideia. É uma excelente ideia. Beber para tentar esquecer o quão doloroso é ser manipulada indiretamente pela minha própria mãe.
Viu? Uma excelente ideia!
— Por quê?
Jungkook suspira e tira a garrafa de minhas mãos com praticidade, virando o rótulo para mim sem rodeio. Seu dedo indicador sugerindo algo que eu deveria ler, mas que não faço questão.
— É licor de ameixa.
Dou de ombros.
— E qual o problema nisso?
Ele estala a língua, impaciente. E eu quase me sinto ofendida por isso.
— Ameixa solta o intestino, com álcool piora. Vai piorar sua diarreia.
Um, dois, três. Quatro segundos. E logo então entendo.
— De novo! — Quase grito, o empurrando pelo ombro. — Eu não to com diarreia!
Mas é tarde demais e sua risada já vem toda cheia de energia. Me trazendo a chance de presenciar seu nariz enrugando e seus olhos se fechando em divertimento. E percebo que mesmo que a quantidade de álcool que ingeri tenha sido mesmo alta demais, a dele não deve estar muito atrás da minha. E, no fim, acabo sorrindo também. Dando-me ao luxo de ter esse momento com ele só por agora.
— Pelo menos eu fiz você dar uma relaxada. — Ergue os ombros, cheio de si. O cabelo se movendo minimamente na testa e um sorrisinho de escárnio crescendo no canto da boca. — Me agradeça mais tarde.
Encolho-me ao seu lado, vendo-o tomar um gole gordo de sua xícara cheia e logo trazendo para perto a minha. E por mais que eu goste de vê-lo preparar drinks para mim, eu só consigo enxergar sua boca brilhosa pelo frisante recém ingerido. Porque sinto, verdadeiramente, que seu beijo poderia tirar tudo de ruim que tenho em mim.
— Aqui, bebe esse.
Ele arrasta a porcelana em minha direção e me olha. A bebida que me fez é rosa clara e doce na ponta da língua. E eu até tentaria identificar o cheiro senão tivesse acabado de perceber que o perfume tropical de Jungkook destoa dentre todos daqui. Inclusive do maldito gelo seco de tutti-frutti. E quero que fique assim. Essa bolha invisível feita pelo seu aroma.
Sucumbo entre os ombros em conforto, meus pensamentos me levando para a primeira vez que paramos no meio de uma cozinha entre músicas e bebidas. Vivemos um flashback tortuoso e injusto, porque escondo coisas e minto. E me perco, enquanto sua atenção agora é voltada para uma garrafa bonita marrom. Termino minha bebida em silêncio, vendo pessoas indo e vindo. Ouvindo músicas começando e terminando. Sinto-me esquisita e pesada e não sei como me livrar disso. De novo. Respiro fundo, largando cautelosamente a xícara vazia no balcão antes de olhar para Jungkook.
— Sua família... — Começo, vendo-o se virar para mim de repente. — Sua família sabe sobre esse lance de acompanhante de aluguel?
Ele me olha por um instante, parecendo não entender aonde quero chegar. E, para ser sincera, eu também não. A pergunta surgiu assim que abri a boca e agora não sei bem se foi uma boa ideia. Jungkook parece ponderar por um segundo. Demora-se em dobrar as mangas da camisa até os cotovelos, depois em terminar com a bebida que acaba de se servir. E me pergunto se o que está por vir tem mais a ver comigo ou com ele mesmo.
— Não. — Responde encostando-se de costas ao balcão. — Eles provavelmente não aceitariam muito bem.
Sinto um incomodo no peito.
— Por que você acha isso?
— Quem aceitaria bem o filho ser acompanhante de aluguel? — Ele dá uma risada sem humor e um rebuliço esquisito acontece no meu estômago. — E minha família não é ruim financeiramente falando, a gente tem uma vida confortável. Mas eles já arcam com todas as minhas despesas aqui, não queria que eles tivessem um gasto extra com o notebook.
Sou inserida em uma partezinha da sua vida. Não mais de maneira intrusa. Mas isso não me deixa mais confortável aqui. A realização de que enfiaria Jungkook em uma saia justa com seus pais me pega de jeito. Não cogitei a hipótese de ele contar a verdade para eles, mas, dessa forma, ele teria que mentir igual a mim, não é? E só eu sei que mentiras sempre se enrolam em mais mentiras. A sensação desse lado da história não é nada boa. Eu bem sei.
— Não tem explicação pra eu fazer isso, entende? — Umedece os lábios e me encara. — Eu poderia simplesmente pedir e pronto. Acho que isso é o que pioraria a situação.
— O que você acha... — Não consigo controlar minha voz. Não consigo fazê-la parar ou sair de maneira clara e direta. Ela continua em falhas e parecendo agir por impulso. — O que aconteceria se eles descobrissem?
Jungkook parece pensar por um segundo mais uma vez. E me pergunto se ele mesmo já se fez essa pergunta em outra ocasião. Como também me questiono se esse é um daqueles assuntos em que não se deve tocar. Será que o deixa tão desconfortável quanto o assunto Haneul me deixa?
— Eles me fariam voltar pra Busan na hora. — Responde, mas não me olha mais. O seu cenho é franzido e não sei se ele se incomoda por falar sobre ou por perceber o campo minado que estamos caminhando aqui. — Eu provavelmente não conseguiria nem ter tempo de fazer a transferência para alguma universidade de lá. Eu teria que começar tudo do zero.
Quero vomitar. Talvez pela bebida, talvez por perceber que mais coisas estão ameaçadas além da minha própria mentira deslavada. E me tenho em cima do muro, entre pedir e não pedir. Porque agora a decisão não me parece óbvia. E por mais que tenha sido comprovado por mim mesma que não existam alternativas, eu me sinto tentada a pensar que não escolher caminho nenhum seja uma opção também.
— Eles não são compreensíveis?
— Não é isso. Eles são. Eles me apoiam em todas as decisões que eu tomo, mas... Acho que isso foge. — Seu peito infla e ele se vira para o balcão. — Minha mãe passou por muita coisa ruim quando menor, ela não quer que eu ou minha irmã passemos por dificuldades também. Eles trabalharam demais pra nos dar tudo. Isso seria visto como um fracasso, entende?
Balanço a cabeça em afirmação, mas não sei o que isso quer dizer. Meu estômago ainda é bagunça em forma de nervosismo.
— Se eles são compreensíveis, você acha que se você expli-
— Não, sem chance.
Jungkook me interrompe sem rodeios. E quem sabe esse seja mesmo um assunto que o deixa desconfortável. Vejo-o completar sua xícara mais uma vez e, antes que eu perceba, estou falando de novo:
— Sua intenção é boa, talvez eles entendam.
— Sua intenção também é boa, por que não tenta com seus pais?
A rasteira vem certeira e eu caio de cabeça em cima do muro imaginário que criei. E enquanto o vejo beber mais um pouco, entendo que não fico chateada com o que me disse. Ou, quem sabe, irritada. Até porque concretizo que o encontro de famílias coloca em risco não só as mentiras em que me meti, mas também bota em risco coisas que eu não deveria ter o poder de controlar. E, num instante, o que me preocupa não é mais contar para Jungkook ou fazer o pedido. O que me preocupa é o que vem depois. O que me preocupa é o que vai vir depois que ele aceitar. Porque eu deveria ser a única a correr riscos. Eu gerei o problema e eu deveria ser a única a arcar com as consequências dele. A imagem que tenho dele é ligada à minha solução e não é justo.
— Desculpa. — Sua voz me tira do transe e corro meus olhos para ele. Sua respiração é pesada antes de continuar. — Eu fui um babaca, desculpa. Não deveria ter falado assim, nossas situações são diferentes.
— Tudo bem. — Dou de ombros, pegando a xícara de suas mãos e dando um gole ali. — Não deveria ter insistido.
— Não é isso. — Estala a língua em contradição, virando-se para mim outra vez. — É um assunto que...
Ficamos em silêncio. Porque não é preciso que Jungkook se explique, porque entendo. Nossos olhares se sustentam por alguns segundos e me permito nos enxergar.
Não sei exatamente quando me apaixonei por Jungkook. Só sei que sinto. Sensações e sentimentos. Talvez tenha sido naquela resposta à pergunta de minha mãe. Quem sabe tenha sido quando me preparou o primeiro drink. Quiçá sobre o diálogo sobre a minha verdade. Não sei bem. E, para ser sincera, isso não é lá muito importante. Porque Jungkook ainda é a melhor parte de toda essa baderna que eu me enfiei. E eu não tenho a menor duvida disso. E como em um romance de época coberto por drama, aqui e agora, olhando-o sob luzes brancas claras demais, eu sinto que a qualquer momento posso deixá-lo ir. E não quero.
— Eu vou me mudar no próximo mês.
Ele diz por fim, um sorriso crescendo no canto da boca e ele alcançando a xícara vazia carregando meu olhar confuso.
— Se mudar? Pra onde?
— Pra república. — Responde e a pergunta seguinte parece estar estampada em meu rosto. — É, aquela república.
Lembro-me então das festas em que fomos lá. Os cômodos quase sem móveis e os poucos parecendo terem sido escolhidos aleatoriamente para ocuparem os lugares. Sem cortinas nas janelas ou tapetes no chão.
— Achava que não tinha mais espaço.
— Não tem, mas vai abrir uma vaga. — Ele preenche tanto a porcelana sobre o balcão, quanto a que seguro. — Taehyung vai pra um intercâmbio no meio de julho, vai ficar um ano fora e quando ele voltar, mais uma vaga já vai ter sido aberta também.
Assinto aérea, o cara de óculos azul e sua bebida horrorosa me tomando os pensamentos por uns instantes em uma lembrança vaga.
— Qual o problema dos dormitórios?
— São meio caros, a república vai sair mais em conta. — Explica. — Fico me sentindo mal de ficar nos dormitórios sabendo que fora deles o preço é melhor. Meus pais não reclamam, mas não que-.
Ele mesmo se interrompe e eu entendo o porquê. É o assunto de novo, de uma forma indireta. Jungkook não gosta de depender tanto assim dos pais e logo paramos, outra vez, no assunto de acompanhante de aluguel. E sinto-me pesada e culpada novamente. Porque ainda não sei o que fazer. Eu tenho um pedido, um encontro entre famílias e uma mentira. Posso fazer tudo o que eu quiser com elas, inclusive ignorá-las. Eu vivo em dualidade. Por dentro e por fora. Sei o que fazer. Não sei o que fazer. Sigo e não sigo.
Vejo Jungkook respirar fundo e olhar para os lados. Penso em tentar dizer outra vez, mas agora é diferente. Porque sei mais do que sabia no início. E soa egoísta e injusto demais trazer a tona esse assunto outra vez justamente agora.
Beberico o vinho frisante na minha xícara e olho em volta também. A angústia sendo companheira de todo o meu nervosismo. Vejo pessoas ao nosso redor indo e vindo, rostos novos, diferentes. E acabo me perdendo nisso, me permito pensar sobre algo que não envolva toda a lama que me rodeia. E me foco. E me concentro.
Reparo, então, que diferente das festas de república da Chung-Ang que fui, essa é um tanto diferente. Desde a existência de cortinas nas janelas aos tapetes no chão. Os móveis podem ser populares, mas são bonitos. Ainda existe a presença de gelo seco, irritante e meio fedorento, mas ainda assim. Ninguém mais se amontoa nos sofás da sala ou interdita a entrada da cozinha, as pessoas aqui têm seu próprio espaço. Porque existe espaço.
Alguém acaba de quebrar um copo na divisa de cômodos, perto do banco onde antes eu estava sentada. E há uma movimentação, tanto dos outros quanto nossa. Sinto uma mão espalmar em minhas costas e quando me movimento, percebo que é Jungkook quem me conduz para longe dali. Atravessamos a sala, a música alta bombeando nos ouvidos. Há pessoas por todos os lados e nenhuma me parece conhecida. Ou rostos que já vi de relance pelo campus da universidade. E me foco nisso. De novo. Talvez para não surtar de vez, talvez para não agir por impulso, talvez para tentar me convencer de que a opção de não falar seja mesmo a melhor alternativa.
— Jungkook?
Chamo-o assim que paramos em um corredor. O trânsito por aqui parecendo ainda mais tranquilo do que o que vem sendo o restante da festa. Há algumas portas por aqui e o aviso de banheiro em uma delas. Não existe mais cheiro de tutti-frutti, porque penso que a saída para o jardim do fundo seja logo ali depois da porta branca de vidro aberta.
Ele se vira para mim, o corpo encostando-se a parede e a boca brilhando outra vez pela bebida recém ingerida. Aqui a luz é amarela e logo percebo que ele consegue ficar ainda mais bonito por debaixo dela.
— O que foi?
Estou pé em sua frente, porque não consigo me sentir relaxada para me encostar a paredes e fingir que dentro de mim não é um carvanal de emoções cretinas e não cretinas. Eu já desisti de tentar separá-las, numerá-las, botá-las em ordem em uma lista. Porque elas se enlaçam e eu me torno caos. Como sempre é.
— Cadê o Jimin?
Minha pergunta sai como um pedido silencioso de escape. Não me sinto realmente interessada na resposta ou no porquê a festa parece diferente das demais. Ela só veio como uma tentativa de me distrair por uns instantes.
Jungkook, no entanto, não me responde de imediato. Ele me olha do alto por um tempo, tomando um, talvez dois goles da xícara que segura. Ao fim, tem as sobrancelhas arqueadas e uma atitude prepotente que não entendo, mas que gosto de olhar.
— Por quê? — Seu tom é debochado. — Você era meio que afim dele no início, não era?
Sou lavada em choque, pega desprevenida pelo extremismo. Quase engasgo.
— O quê? — Fico perdida na acusação e um tanto envergonhada também. Porque, bem, é verdade, mas nunca vou dizer. — Nunca fui. De onde tirou isso?
Ri e me tenho 100% presa no que vem a seguir.
— Você perguntou se ele era solteiro.
— Você falou que ele era comprometido. — Bebo o que seguro um tanto ofendida pelo que ouço. Sinto-me traída o tempo todo por sentimentos extremos e drásticos. — Não perguntei nada.
Seu corpo desliza de maneira natural para frente, seu quadril na altura da minha cintura. Dois centímetros de distância. E não sei se é apenas coincidência ou se tudo isso foi proposital. Mas já começo a me sentir quente. Balanço os joelhos por puro instinto. Deve ser o álcool. Ou essa bolha tropical.
— O Jimin é um babaca. — Solta prático, voltando ao lugar. — Eu sou também, mas ele é mais. Um dia você vai entender.
Seu olhar é ainda de prepotência e fico o encarando por alguns instantes outra vez. A boca úmida, os olhos negros e sua aura intimista. É aquele lance dos detalhes. Sempre é. E me deixo perder entre eles por um momento.
Pisco uma ou cinco vezes, não sei mais contar direito.
— Você não respondeu minha pergunta. — Falo, percebendo enfim. E, talvez, as não semelhanças dessa festa não sejam só invenções da minha cabeça para eu ter algo ao que me prender, afinal. — Cadê o Jimin?
Jungkook parece pensar, depois termina o que tem em sua xícara em um gole certeiro.
— Não veio.
Ele esfrega a boca com as costas de uma das mãos e me olha. Seu olhar vem em fresta, como se me intimasse para uma briga. E Jungkook me contraria inteira, como sempre faz.
— Como assim não veio?
— Não veio.
E há um silêncio para que eu tente entender; tanto o que acontece aqui, quanto o que ocasionou toda essa postura desconfiada repentina de Jeon.
— Tá, mas e o resto?
— Que resto?
Mais silêncio. Porque de fato me pego perdida em sua pergunta. Que resto eu esperava ver? Seus amigos ou os amigos de Haneul? E enquanto o vejo pegar a xícara das minhas mãos e tomar mais um gole de bebida, olho em volta. Pessoas diferentes, lugares diferentes. Música diferente. Tudo de fato é diferente. E algo me toma os pensamentos de repente.
— Jungkook... — Começo, recebendo seu olhar por cima da xícara. — Existe alguém nessa festa que você conheça?
E é aí que ele quase engasga. A porcelana escapando por um instante e ele a alcançando ligeiro antes que seja tarde demais. A bebida escorrendo por seu queixo e um caos instalado. E sei que existe algo de errado aqui. Jeon parece ponderar, pensar em algo a dizer, mas não diz. Fita o fundo da xícara por um tempo, limpa a bebida pelo rosto e depois respira profundo. Quando penso que algo vai sair de sua boca, nada sai.
— Jungkook?
— Não. — Responde abruptamente. — Não existe.
Meus olhos crescem de pavor, mas não consigo acompanhar o sentimento ou o que essa notícia realmente quer dizer.
— Jungkook!
Sua cabeça meneia e ele estala a língua em contradição, depois se remexe no lugar. Parece alvoroçado e, por conta disso, fico também.
— O que foi?
— Como assim o que foi? — Dou um passo em sua direção, minha voz saindo mais baixa em seguida. — O que a gente tá fazendo aqui?
Ele me olha. Seus olhos correndo meu rosto inteiro.
— É uma festa.
— Eu sei que é uma festa, mas... — Olho para os lados, ninguém parece prestar atenção em nós. — Como você ficou sabendo dela?
— O Jimin descobriu e me falou.
Afasto-me desconfiada.
— Então o Jimin conhece essas pessoas?
Ele não responde e isso é o bastante para eu entender que não, Jimin também não conhece ninguém.
— Jungkook! Por que vo-
— Era a única festa antes das férias começarem! — Me interrompe. Seus olhos estão em mim e ele parece um tanto impaciente por eu não ter entendido. — Foi a única oportunidade que achei pra gente ficar sozinhos de novo, só nós dois, porque da última vez você foi acompanhada e é... A próxima festa da república vai ser só mês que vem.
Jeon puxa o ar forte pros pulmões, me lança um olhar esquisito e logo se concentra em beber mais do vinho frisante. E quero rir, uma risada alta e sincera, mas não consigo. Meu coração parece ter crescido tanto no peito que posso jurar que a qualquer instante pode explodir. E agora tenho certeza. Absoluta certeza. Não quero colocar em risco qualquer coisa que tenhamos aqui ou qualquer coisa que seja importante pra ele. Mais do que nunca sei que não quero pedir o que vim pedir e que não vou. Porque me importo e sou ridiculamente apaixonada por Jungkook.
— Tipo um encontro?
Minha voz vem mansa dessa vez e ele ergue os ombros, agora um tanto sem graça.
— É meio longe? Sim, com certeza. A galera é estranha? Também. Mas tá aí.
E fico o olhando por um tempo. O ar faltando quando tento suspirar. Sua camisa xadrez um tanto aberta, sua pele exposta, seu cheiro, seu cabelo, sua boca e todos os seus etcéteras. Uma combinação de detalhes, uma coletânea do que mais gosto nele. Tudo isso pensando em uma oportunidade para ficarmos a sós mais uma vez. De novo. Como ele me contou naquele corredor a última vez.
O pensamento de que seu beijo pode me tirar as coisas mais ruins que carrego me encontra de novo. E num passo dado em sua direção e num puxar de gola, eu faço nossos lábios se encontrarem sem cerimônia alguma.
Sua boca é gelada e traz o sabor doce de vinho presa entre a minha. Meu corpo se alinha ao seu e minhas mãos sobem até seu rosto. É um beijo surpresa e singelo, que logo termina quando me afasto minimamente para olhar Jungkook de perto. Seus olhos se demoram a abrir e, assim que encontro a imensidão negra deles, tenho certeza que peguei o caminho certo.
— Eu gosto quando você toma a atitude.
Ele sussurra só pra mim, um sorriso no canto da boca rosada e um suspiro solto. Não parece mais envergonhado ou agitado como antes. Somos agora, juntos, fora de órbita em um ambiente terrestre demais.
E antes que mais alguém fale algo, Jungkook pressiona sua boca na minha mais uma vez. A sensação me invade de imediato e meu peito aperta de uma saudade que não percebi sentir tanto quanto agora. Sua língua deslizando pela minha como da primeira vez que se encontraram, seus braços me apertando contra seu corpo e um sufoco de desejo me tomando a garganta. Enrolo-me em seu pescoço e nos tornamos um emaranhado de beijos, apertos e mordidas.
Tudo parece insuficiente, no entanto; porque quero mais perto, mais envolvimento, mais tudo.
Mais Jungkook.
Suas pernas batem contra as minhas e, em passos incertos e destrambelhados, atravessamos uma porta antes entreaberta. Nossos corpos se afastando um instante para Jungkook se desfazer das xícaras num cesto de roupas e eu perceber que nos enfiamos em um banheiro minúsculo com luz amarela. E quando o vejo se virar para mim outra vez, eu me sinto ferver por inteira. Porque aqui e agora, com a luz encostando sua pele exposta e sua boca vermelha por minha causa, eu sinto que nunca vi algo tão bonito quanto ele.
Vejo a porta se fechar com seu toque sutil e o baque é o incentivo que faltava para Jungkook voltar para mim. Em forma de dedos se embrenhando pelos meus cabelos, beijos em meu pescoço e carícias pelas minhas coxas. Ele é suave e lento, uma melodia lasciva que me envolve por inteira. Cada centímetro do seu corpo encosta-se a cada centímetro do meu, mas ainda parece não ser o suficiente, porque o quero mais, mais, mais perto de mim. Passeio minhas mãos por seu peito, procurando a abertura da camisa xadrez, puxando-o e puxando-o. Desço eles pelos botões e alcanço o cós da calça. Eu sinto sua pele quente nas articulações dos meus dedos e não sei o que fazer com tudo isso.
Porque Jungkook ainda é caos de cheiros, gostos, sensações e sentimentos.
Como numa dança lenta e íntima, nossos corpos se balançam, suas mãos alcançando meus quadris e me fazendo girar sobre meus próprios pés. Seu corpo agora me alcançando por trás, me segurando contra o balcão da pia. Nosso reflexo no espelho quase me deixa envergonhada, seus olhos nos meus e sua boca distribuindo beijos molhados pela minha orelha, pescoço e nuca. Espalmo minhas mãos no mármore e sinto Jungkook se inclinar sobre mim. Seu quadril pressionando minha bunda e suas mãos subindo minha saia.
Fecho os olhos por um momento, me concentrando na sua língua e em toda a sua presença imperial sobre mim. É uma sensação maluca, num ambiente maluco. Entretanto, quando volto a abrir meus olhos, algo me chama a atenção no canto do balcão da pia. Uma embalagem branca de enxaguante bucal, a mesma marca que minha mãe compra religiosamente todo o mês. E, como num passe de mágica, toda a angustia que antes pensei ter dispersado em decisões antes tomadas, reaparece como fogo em mata.
Os dedos de Jungkook tamborilam pela minha pele com graça e sutileza, mas não consigo mais me focar direito. Ainda quero me sentir imensa, infinita. Mas a droga do aperto no peito começa a reaparecer, a culpa começa a se tornar tão pesada quanto antes. E mesmo que eu queira que não exista nada mais na minha cabeça que não seja Jungkook nesse pequeno instante, eu só consigo pensar no meu objetivo quando botei meus pés nessa festa. E sou pesada de arrependimento.
Quando sinto sua mão puxando minimamente a barra de minha calcinha para baixo e a outra subindo em direção ao meu seio esquerdo, num vislumbre cretino de lucidez então, eu entendo que não consigo. Que não consigo levar adiante sem finalmente falar o que vim dizer. Mesmo já tendo estabelecido minha decisão de dar fim a esse lance de acompanhante de aluguel. Mesmo que eu já esteja decidida a arcar com minhas próprias consequências. Eu não consigo levar adiante sem contar para ele. E isso é ridículo, sei que é.
E, antes que suas mãos invistam em mais uma puxada ou em um toque certeiro e eu perca todos os sentidos, eu o empurro para trás de maneira súbita e seca. Minha saia flutuando por milésimos de segundo entre nós e suas mãos agarrando o nada. Seu rosto no reflexo é retorcido em alarde e confusão e seu perfume tropical faz tudo ficar um pouco mais difícil do que tecnicamente já é.
— Jungkook... Não dá. — Falo, minha respiração pesada. Minhas pernas trepidando ainda por todos os seus toques em mim. — Eu não to relaxada.
Tenho seus olhos cravados nos meus, ainda perdido no que deveria ter sido e que não foi. Meu seio esquerdo formiga pela falta de seu possível toque e me remexo no lugar, desconcertada pelo que acabou de acontecer. Viro-me finalmente para ele, respirando fundo e o encontrando ali. Seu peito subindo e descendo e sua boca ainda mais vermelha pelos beijos. A camisa completamente torta no seu corpo e o cabelo apontando para todos os lados.
É difícil de tentar construir uma linha de raciocínio clara e complexa. Eu só consigo pensar em palavras chaves que logo se mesclam a boca, beijos e Jungkook. E tudo se torna bagunça de novo.
— Ok... — Sua voz é uma lufada de ar e não precisa de muito para entender o quão perdido ele ainda está. — Você quer ir pra... Outro lugar? Ou... Eu fiz alguma coisa que você não gostou?
— Não. — Falo abruptamente, percebendo que é agora ou nunca. — Não é o lugar ou... Não é isso. Eu preciso te falar uma coisa antes da gente continuar.
Jungkook parece levar um tempo para entender o que lhe digo. Seu rosto se molda em atormento, enquanto ele dá um giro no próprio corpo e depois me olha de novo.
— Tudo bem, — sua voz é cautelosa. — O que é?
Umedeço os lábios e fecho os olhos com força. Mas logo depois os abro. Meu corpo é quente e não posso me descuidar por um segundo sequer. Porque a sensação da língua de Jungkook deslizando pela minha nuca ainda é muito clara e quase a sinto em mim.
— Tá. — Descolo-me do armário por puro impulso. Vou de um lado a outro, minhas mãos tentando ajeitar meu cabelo inutilmente. — Você pode... Você pode se sentar, por favor?
Puxo o ar com força e percebo que Jeon nem sequer se moveu. A forma como seu cenho se vinca me deixa nervosa, meu coração apertando no peito quando paro abruptamente de me mover.
— Espera. — Pede, as mãos no ar. Ele parece tentar se situar. — Isso tem a ver com Haneul de novo?
E meus olhos se perdem. Caço o lustre em formato antigo, o vaso sanitário bege e o cesto artesanal com mais de quatro rolos de papel higiênico dentro. Tento buscar algo que me diga que não voltei ao passado, para o início da festa aonde ele me fazia a mesma pergunta. Volto a olhá-lo, as argolas prateadas se movendo nas orelhas quando sua cabeça meneia.
— Como assim?
— Porque eu também tenho uma coisa pra falar.
Encaro-o por um tempo, o que acabou de dizer não faz sentido. A informação não se liga a nenhuma lembrança que esteja circulando e que já circulou o meu cérebro. Ela é completamente inédita como um filme recém lançado nos cinemas. E fico perdida no momento, olhando Jungkook passar a língua pelos lábios e respirar fundo.
— Que coisa?
— Eu deveria ter dito algo aquela noite. — Sua voz agora vem quebrada e percebo todo o esforço que Jungkook faz para falar sobre isso. — Deveria ter dito algo pra impedir que ele falasse aquelas coisas pra você.
Demoro um tempo, pensando e resgatando memórias. Não preciso perguntar para ele sobre que noite ele fala, porque agora tudo parece claro como água cristalina. A noite em que conversamos no corredor, a noite em que Sorn passou mal, a noite em que voltei a ser conectada a Haneul de uma maneira que me amedronta e que me faz recuar. Lembro-me de tê-lo visto me olhar o tempo inteiro, como me lembro também de ter pensado que ele esperava por uma reação minha. Mas talvez Jungkook só não soubesse o que falar, assim como eu. Penso que deveria me sentir pesada agora, me sentir ultrapassada e humilhada pela lembrança, mas a verdade é que a única coisa que tenho em mim é a certeza de que preciso resolver esse problema.
— Não deveria. — Digo, apoiando-me no balcão e o vendo, finalmente, se sentar na privada em minha frente. — Quem deveria ter dito algo era eu. Esse problema é meu e não seu.
Há um clima no ar, mas que não pego. Não é algo pesado ou esquisito. É só um clima diferente de todos os outros. Logo lembro, então, de nós dois conversando no meio da rua, antes de entrarmos na festa. Talvez tenha sido isso que ficou trancado na garganta de Jungkook e que ele não conseguiu falar.
— Era sobre isso que você queria conversar?
Sua pergunta vem, enquanto eu me tenho tentando organizar o que falar em seguida. Mas eu sou só bagunça e não faço ideia por onde começar. Jungkook me olha debaixo, as mãos espalmadas nos joelhos sobre a calça jeans clara e a camisa xadrez ainda torta em seu corpo. Conto até três mentalmente e balanço a cabeça em negação.
— Então o que é?
Eu sinto meu corpo todo ser tremedeira. E por mais que eu saiba que meu objetivo já mudou, continuo aflita por sua reação. Eu sou tomada por nervosismo e posso jurar que a qualquer momento vou explodir. E não aguento mais viver essa tensão pela noite inteira. Não aguento mais guardar para mim.
Puxo o ar com força e o solto aos poucos. Tudo isso sob o olhar cauteloso de Jungkook. Quando abro a boca, todas as palavras parecem sumir.
— Busan! — Quase grito, fechando os olhos com força mais uma vez e reunindo as mãos em frente ao meu rosto. — Tem a ver com Busan! Eu tentei não ir, mas não faz sentido eu não ir e...
Silêncio.
— _____? — Ele solta um riso, encostando minimamente em minha perna para que eu o olhe. E eu o olho. — Do que você tá falando?
Engulo a seco, de repente achando uma péssima ideia contar isso para ele. Porque, por mais que eu tenha desistido de todo esse encontro de famílias, eu cogitei seguir em frente, não foi? Ele ainda pode se chatear, não pode?
Jungkook está me olhando e parece ter toda a paciência do mundo. Respiro fundo, não sabendo se existe um jeito de voltar no tempo ou se existe alguma maneira de desconversar algo que eu mesma iniciei.
— Minha mãe me ligou na segunda. — Falo incerta. — Ela quer que nossas famílias se encontrem em Busan esse final de semana. Disse que não existe desculpa alguma, que eles vão com ou sem mim.
Arrisco um olhar em sua direção, Jungkook parece absorto demais. Não existe mais resquício da risada que soltou há pouco tempo, nem sequer um resquício de um toque em minha perna. Ele é contradição pura.
— Você tá me dizen-
— Mas eu já desisti! — Apresso em dizer, lembrando subitamente que não falei o ponto mais importante. — Eu desisti! Ok? Eu já desisti de pedir a sua ajuda. Eu ia te pedir na biblioteca, mas não tive coragem. Pensei em pedir hoje, mas...
— Mas...?
— Eu não quero, não quero mesmo, porque eu me importo. — Minhas mãos estão fechadas em punhos e nenhuma das palavras que eu falo parecem fazer sentido. — Eu me importo com você e não quero, não... Não quero que arrisque a faculdade por um problema que não é seu. É um problema meu e não é justo eu pedir pra você fazer isso. Não quero mais você como acompanhante de aluguel ou... Eu desisti.
Sinto-me sem ar, como se tivesse acabado de correr uma maratona inteira até chegar aqui. Tento repassar o que acabei de dizer, mas nem sequer lembro mais. Existe algo em mim, algo certo e grande, que me diz que não estou me fazendo entender. E isso me aflige e me deixa angustiada.
— Se você desistiu, — começa, as palavras vindo aos poucos e pausadamente como se estivesse resolvendo uma questão lógica em uma aula de marketing. — Se você desistiu, então por que tá me contando isso agora?
Por um momento me preocupo com o que dizer, com qual explicação dar. Porque talvez eu tenha mentido por tanto tempo, sobre tantas coisas, que eu já não saiba mais ser sincera de maneira natural.
— Porque eu não sei o que acontece que eu sinto essa necessidade ridícula de te falar as coisas. — Falo verdadeira, meu coração bombeando nos ouvidos. Não existe música por detrás da porta ou pessoas no mundo. Só existe nós dois e esse banheiro pequeno em algum lugar no leste da cidade. — Mas eu não quero te assustar, tudo bem? Com nada. Com o que eu sinto ou com o pedido que não quero mais fazer. Eu já desisti. Entenda que eu já desisti e só to te contando porque não consigo guardar isso pra mim.
Sinto uma necessidade extrema de repetir por mais um milhão de vezes que desisti. Que essa ideia foi imbecil e que eu nunca deveria ter sequer cogitado pedir isso a ele. Sinto uma necessidade imensa de frisar, desenhar, explicar de maneira didática de que não, eu não o quero mais como meu acompanhante de aluguel. Nunca mais como acompanhante de aluguel. Eu o quero como Jungkook e somente Jungkook. Mas minha voz tranca e não consigo mais dizer nada. Vejo-o fixar seus olhos no piso gelado por um tempo e penso em contar os segundos, minutos ou horas que se passam. Mas só consigo repassar seus detalhes como reza nos pensamentos.
A cicatriz na bochecha, a pintinha debaixo do lábio e os olhos tão negros como o céu sem estrelas.
— Sabe? — Sua voz vem depois de um tempo, lúcida. — Eu sinto que deveria tá muito bravo com você agora. Eu tinha era que levantar e sair daqui, porque não é a primeira vez que você faz isso comigo.
Minha respiração para e minha garganta se aperta. Porque vacilei com ele. Mesmo com todas as minhas intenções e inseguranças, eu continuei errando com ele. Tento engolir a seco, mas meu maxilar está travado. E anseio pelo que está por vir. E anseio pelo mas, porque precisa ser algo bom. Precisa ser algo que me garanta que tomei a decisão certa ao contar sobre isso para Jungkook.
— Normalmente eu ficaria realmente bravo, mas não me sinto assim agora. — Fala e o ar volta aos meus pulmões. Ele respira fundo e ergue seu olhar até o meu. — Você sempre faz eu me sentir esquisito por não agir do jeito que eu deveria agir. É assim o tempo todo, porque também não consigo te tirar da cabeça tem semanas e isso não é normal pra mim... Acho que é um problema, não sei. Mas eu me sinto aliviado de saber que você desistiu, porque eu também me importo com você.
Demoro um tempo para raciocinar, tentando desvencilhar as palavras das frases e logo então as repetindo de forma pausada pelo meu cérebro. E quando entendo, não sei o que dizer por primeiro, nem sei se preciso dizer algo. Sinto meu rosto completamente imóvel por uns instantes.
— Eu... Desculpa.
Minha voz é um fiapo imbecil, mas sinto a urgência de fazer o pedido, pelo menos. Vejo um riso no canto de sua boca e ele dando de ombros em seguida.
— Por eu me importar com você? — Vem debochado. — É, eu me peço desculpas o tempo todo por isso também.
— Não foi po-
Jungkook ri.
— É, eu sei.
Passo as mãos pelo meu rosto, desconcertada. Isso é horrível. Quer dizer, a sensação que tenho agora, a sensação de perceber em todas as enrascadas que o enfiei e em todos os problemas que ocasionei na sua vida. Essa sensação é ruim e ultrapassada, porque me faz perceber que eu deveria ter entendido muito antes. Que eu deveria ter entendido que aquele post-it furreca não traria solução alguma para ninguém. Pelo menos, não a que eu procurava encontrar.
— Isso não vai mais acontecer.
Falo, tirando minhas mãos do rosto para encontrá-lo me olhando outra vez.
— Era por isso que você tava estranha na biblioteca e no caminho até aqui? — Assinto. — O que você vai fazer, então? Agora que não me quer mais como acompanhante de aluguel.
— Eu não faço a menor ideia.
Jungkook se remexe na privada, ele estrala os dedos e depois os passa pelos cabelos. Os fios se alinham para trás por uns instantes, mas logo caem em mechas por sua testa.
— Eu poderia dar um jeito, falar pros meus pais que eu tenho uma namorada e... — Ergue os ombros. — Não sei, convencer eles de que esse encontro de famílias não é bizarro, mas... Eu preferiria não fazer isso.
— Não vai precisar fazer, é sério. — Digo rápido, porque é verdade. — Não vai. Eu... Vou arranjar um jeito! Não sei como, mas vou. Eu não deveria nem ter cogitado te pedir isso, porque não quero, não quero mesmo te chatear de novo.
Ele assente entendido, um sorriso bonito e seu nariz se enrugando. E sinto meu coração bater descompassado no peito, mas ele não alcança mais meus ouvidos em desespero ou nervosismo, ele só dança conforme a música. Conforme nós dois. E me sinto bem agora, me sinto bem por ainda ter Jungkook aqui.
— Você se sente melhor agora que me contou?
— Sim.
Ele alcança uma das minhas mãos e enrosca seus dedos aos meus. Meu corpo, de maneira involuntária, se move até o dele sentado, só parando quando minhas pernas batem às suas.
— Senta aqui.
Jungkook pede, seus dedos agora dedilhando minhas coxas e suas mãos se espalmando por detrás delas para me puxar em direção ao seu colo. Nossos quadris se encaixam e eu enrolo meus braços em seu pescoço. E seu cheiro é tão natural que, por um instante, esqueço que esse de fato não é o perfume que sempre senti na vida.
— O que você quer com isso?
— Te consolar.
Rio e nossos olhares correm diretamente para nossos quadris encaixados.
— Era pra ser um abraço.
— Um abraço erótico?
Seus braços envolvem minha cintura e ele sorri.
— Não, nada de erótico.
Aperto-me contra ele, então, em um abraço. Aproveitando para afundar meu rosto contra seu pescoço, sentindo seu cheiro e seu calor. E me sinto bem aqui, por mais que eu saiba que amanhã as coisas não serão nada fáceis.
— Não é pra dormir.
Ouço-o falar e, sem me mover, pergunto:
— Por que eu dormiria?
— Porque na primeira festa você dormiu na poltrona enquanto eu jogava videogame.
Ergo minha cabeça abruptamente, só para que eu consiga encará-lo direito.
— Eu fiz o quê?
— Dormiu. Depois da cozinha a gente foi pra sala e em dez minutos você dormiu por sei lá quanto tempo. Você não lembra?
A lembrança vaga me toma a cabeça, ela é distorcida, esquisita. E toda a lembrança que eu tinha de beijos e amassos por seis horas seguidas em Jungkook é substituída pelo toque do tecido áspero da poltrona e suas tentativas de me fazer acordar. E fico um pouco perdida por ter acreditado durante tanto tempo em algo sem fundamento.
— Mais ou menos.
Mio e o vejo rir. Decidindo, por agora, deixar para lidar com essa nova lembrança amanhã ao acordar. Ou hoje ao acordar, não sei bem. Enfio meu rosto em seu pescoço outra vez e sabe-se lá por quanto tempo ficamos ali. Se por seis minutos ou por seis horas.
E o “e se” passando a ser agora um desejo utópico.
E se eu tivesse encontrado Jungkook muito antes de ter encontrado Haneul?
Acompanhante de Aluguel | Party Version (playlist)
01. loopy x kid milli x ph-1 (feat. paloalto) - good day | 02. hyolyn feat. gray - dally 달리 | 03. g.soul feat. hoody - tequila | 04. nct dream - drippin’ | 05. bigbang - sober | 06. monsta x - tropical night | 07. sik-k x ph-1 x jay park - iffy | 08. dpr live - martini blue | 09. jay park - v | 10. loona x kim lip - eclipse
playlist: spotify | youtube
história original: acompanhante de aluguel
A música ainda toca. Talvez a mesma, talvez uma nova. Cambaleio na direção de Jungkook, desviando de algumas pessoas pelo caminho estreito e o alcançando em poucos passos bambos. Meu cérebro temporariamente danificado achando uma boa ideia parar por aqui.
— Precisa de ajuda?
É um quase grito. Meu corpo correndo pelo armário e meus olhos focando em sua figura. Recebo então seu olhar de canto, surpreso. Os cabelos negros são uma bagunça completa e o topo das bochechas tem uma coloração avermelhada. E me pergunto se é pelo tanto de Soju ingerido ou se pelo calor terrível aqui dentro.
— Não. — Responde, os braços ainda levantados no alto. — Eu tava procurando por copos, mas não achei. Se importa?
Ele tira então duas xícaras brancas e pequenas do armário. Xícaras de café. E levo uns segundos para lembrar de que ele está aqui para pegar bebidas. Nego avidamente, não focando muito na consequência. Na verdade, nem sequer pensando de fato sobre a pergunta.
— Então amanhã você não tem aula? — Ouço-o perguntar quando despeja um vinho frisante em uma das xícaras. E me recordo logo que esse era o assunto antes dele vir para cá. Assinto. — Só vai ter o fechamento na sexta?
— Mais ou menos. — Digo aérea, o nervosismo não me fazendo pensar direito. — Não é bem um fechamento, as notas vão sair no mural e é isso.
— Odeio quando as notas saem no mural.
Não falo nada por uns instantes. Eu deveria estar feliz pelo fim das aulas, deveria estar aliviada pelo fim do semestre. Mas a verdade é que o nervosismo que encarei pelas provas finais não chega nem aos pés do que encaro agora. Dou um suspiro contido, focando por um momento em sua figura olhando rótulos e dispensando bebidas. As argolas grossas de prata se remexendo nas orelhas e suas pintinhas se destacando na luz fluorescente.
— E você?
— Vou amanhã só pra ver se passei para a seletiva do curso de verão.
Remexo-me desconfortável no lugar. Porque da última vez que esse assunto surgiu, ele veio juntamente ao de sua ida para Busan no fim de semana. E me sinto a beira do início de uma crise horrorosa. Porque meu problema ainda está aqui e não foi solucionado. Pigarreio e contorno seu corpo, minhas pernas batendo no armário quando paro do seu outro lado.
— O resultado saiu rápido, não é? — Solto uma risada nervosa, agarrando sem pensar uma das garrafas pequenas em sua frente. — Pensava que fosse demorar.
Ele não me responde e limito-me então a focar toda a minha atenção na bebida que agora seguro. Abro e a cheiro, não guardando característica alguma do licor em si. Meus olhos passeiam pelo rótulo como numa espécie de leitura dinâmica, quando resolvo tatear o balcão a procura da xícara vazia que vi logo ali de relance. Tateio e tateio numa busca cega, meu corpo se inclinando sobre o balcão para um maior alcance e meu cérebro captando palavras soltas das informações no verso.
Volume. Porcentagem. Licor.
— _____?
— Hm?
Meus dedos ainda tateiam a superfície gelada em busca do recipiente, mas não o encontro de jeito algum. Olho então para o que faço, a xícara que antes estava logo ali, está longe. Bem longe. Debaixo de uma das mãos de Jungkook. Arrisco um olhar em sua direção e logo encontro seus olhos me medindo curiosos. Não entendo. Inclino-me mais um pouco, meus dedos alcançando a borda da porcelana, mas ele a afastando com facilidade. Percebo então que ele vem fazendo isso desde o início.
— O que foi? — Solto aflita, de repente me dando conta de nossos corpos colados, sua cabeça acima na minha e nossas cinturas encaixadas. — Jungkook...