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Amor, Cactos e Alquimia
Eu amei um cacto.
Primeiro amei tudo que estava do lado de fora:
Amei sua forma e seus espinhos e flores,
Então eu o reguei com água e com palavras mágicas.
Quando fui aprofundar os cuidados, fui espetado.
Mas nem o sangue vermelho a escorrer me fez desistir.
Eu sabia que aquela cor era prelúdio de algo maior.
Eu amei até seus espinhos e então eu fiquei.
Quando meu amor se tornou maior que minha desconfiança,
Me foi permitido ver o cacto por dentro:
Eu espreitei sua fragilidade, e além dela eu vi sua vitalidade,
E vi tudo. Foi quando entendi porque a natureza deu espinhos ao cacto.
Proteção. O que resta a ser protegido? Eu te comi.
Uma onda intensa de imagens primordiais tomou conta de mim
Eu vi o amor, vi a dor. E vi mais. Vi os vivos e os mortos.
A plenitude e o vácuo. Diferença e igualdade. Luz e trevas.
Eu vi a matéria, a anti matéria, e a força. Tempo e espaço.
Vi o bem e o mal dentro de você. Beleza e feiura. O Uno e o Múltiplo.
E no momento em que me tornei consciente, tudo se fez e desfez.
O saber do cacto estava em mim, no fundo, enterrado.
Envergonhado pelo conhecimento, dei o cacto ao primeiro passante. E
segui em frente
O Último Dia do Verão
Nós nos apaixonamos no primeiro dia do verão
A alquimia dessa transição aqueceu meu coração, profundamente,
Neutro há tanto tempo, alheio ao calor da paixão
Vivendo nos oito minutos-luz que separam o sol e a Terra
Nós hesitamos demais
Tiramos o caldeirão do fogo com medo de queimar
Desperdiçando a chama primordial, não renovável
E as retas se encontraram o tanto quanto puderam, se transformando em curvas
Em algum momento, seus dedos brincaram com os meus cachos
Em algum momento, meus dedos pousaram no seu peito, eu acho
Em algum momento nós nos beijamos ao mesmo tempo nas fantasias espontâneas
Em vários momentos não tivemos coragem e agora acabou.
Hoje é o primeiro dia do outono.
Eu rodei e dancei na chuva torrencial, mas não são as mesmas águas que caíram sobre mim enquanto eu esperava por você na estação, não.
São outras águas, novas.
São como as folhas que caem e o dia que nasce.
São a garantia do nosso reencontro, de que ficaremos bem.
Porque agora vamos ter que esperar até o próximo verão para nos apaixonarmos de novo.
O Que Fazer em Caso de Incêndio?
Nós dormimos juntos de novo. Não tinha lugar pra dormir, além de um sofá de três lugares. O dia tinha sido como nos nossos melhores tempos: maconha, cachoeira e os nossos olhares se cruzando de vez em quando, dizendo absolutamente nada. Talvez seja a maneira que você encontrou de compensar a falta de diálogo que tem entre a gente, já que o único assunto que temos em comum é o anarquismo, e pra você ele é bem mais concreto do que pra mim. Pra mim é como o final de Jogos Vorazes ou V de Vingança, em que há lágrimas, dor, mas existe um sentimento desconhecido que supera tudo isso, e só esse sentimento poderia conduzir uma revolução, ao meu ver. Pra você é como Bastardos Inglórios: tacos de beisebol arrebentando cabeças fascistas enquanto Hitler morre queimado em um cinema e seus melhores amigos são arrebatados por circunstâncias alarmantes ou incertas. Nossas pernas estavam entrelaçadas e nossos corpos aqueciam um ao outro, e eu senti o calor. É verdade que durou pouco tempo, mas de alguma maneira foi suficiente. Minha mão deslizou pela sua coxa e ficou lá parada, se esquentando. A outra mão estava na sua canela, e eventualmente eu fazia carinho no seu calcanhar e pés, sentindo o calor. Meu rosto estava do lado do seu pé, e eu não fiz nenhum esforço pra que eles ficassem separados um do outro, num devaneio que só a maconha pode explicar. Você se mexeu, mas não muito, e assim continuou no mesmo lugar, como se quisesse que isso acontecesse, como se tivéssemos planejado. Eu me assustei, como o lobo que se assusta com a presa agindo imprevisivelmente. De dentro de mim, ecoava até a superfície do meu pensamento um texto simples: De novo paramos juntos, fazendo carícias um no outro e isso basta pra nós dois, né? No outro dia, nenhuma palavra sobre o que aconteceu foi proferida. E eu sou obrigado a me ater a memória emocional daquele dia fatídico em que tudo se transformou. Quando o microscópico se tornou colossal e algo finalmente saiu da semente que tínhamos plantado há muito tempo e que não mais tínhamos esperanças de que germinasse. É inexplicável. Talvez por isso não falamos disso: não conseguimos exprimir em palavras o que tem entre a gente, embora aconteça bem diante dos nossos olhos depois do ritual certo, como um feitiço poderoso. O meu predador natural diz que é tudo na minha cabeça, e a única coisa que me impede de acreditar nele são os sinais sutis. Eles ascendem dentro de mim uma pequena luz, e eu sei que não posso deixar que ela cresça muito e nem que se apague. Isso exige de mim mais concentração e jogo de cintura do que eu gostaria, mas acredito que minha técnica tem se aperfeiçoado a cada encontro: consiste em ser selvagem, livre, ousado, sem deixar a pequena luz se transformar em um incêndio. É tão apropriado porque o subtexto das minhas reações e intenções é puro anarquismo: você não me pertence e eu não te pertenço. A única coisa que pertence a nós é o sentimento conflituoso que temos um pelo outro. Em mim reside o amor pacífico e oceânico pela sua liberdade, incapaz de cruza-la. De dentro, ele espreita e consegue ver você beijando outras bocas e ouve revelações agitadoras, que causam tristeza e esperança, respectivamente, numa equação química impossível. De onde vem essas forças? Da mesma fonte que banha o coração ávido por mudanças do revolucionário niilista. Então sigo por esse caminho frágil, tênue, sem garantia, sem promessas, carregando uma luz frágil, pequena, que protejo com as duas mãos enquanto corro no meio da noite de chuva forte. Às vezes, tudo desmorona e eu penso que a luz vai se apagar e quase perco a cabeça. Nesse momento, a única coisa que me conforta é uma imagem mental que surge em várias formas: O reencontro entre os lençóis brancos estendidos em um lugar bonito e esverdeado… A carta como prelúdio da revelação de nossos corações, ou o clima perfeito e sincronizado do qual se originará nosso primeiro beijo. Apesar de todo drama e melancolia contidas nessas imagens, a mais forte é muito mais simbólica e primordial: eu vejo a pequena luz crescer, se tornando cada vez mais quente e ficando cada vez mais parecida com um enorme incêndio que nem a chuva e nem nada são capazes de extinguir. Sou capaz até de sentir o calor crepitando no meu rosto, mais perto do que seria seguro. Encurralado, o corpo sobrevivencial se pergunta: “O que fazer em caso de incêndio?”, e o coração - embrasado, louco, anarquista, pleno e selvagem - responde: “Deixe queimar.” Só neste dia então, o amor terá me feito anarquista.
O Que Fazer em Caso de Incêndio?
Nós dormimos juntos de novo. Não tinha lugar pra dormir, além de um sofá de três lugares. O dia tinha sido como nos nossos melhores tempos: maconha, cachoeira e os nossos olhares se cruzando de vez em quando, dizendo absolutamente nada. Talvez seja a maneira que você encontrou de compensar a falta de diálogo que tem entre a gente, já que o único assunto que temos em comum é o anarquismo, e pra você ele é bem mais concreto do que pra mim. Pra mim é como o final de Jogos Vorazes ou V de Vingança, em que há lágrimas, dor, mas existe um sentimento desconhecido que supera tudo isso, e só esse sentimento poderia conduzir uma revolução, ao meu ver. Pra você é como Bastardos Inglórios: tacos de beisebol arrebentando cabeças fascistas enquanto Hitler morre queimado em um cinema e seus melhores amigos são arrebatados por circunstâncias alarmantes ou incertas. Nossas pernas estavam entrelaçadas e nossos corpos aqueciam um ao outro, e eu senti o calor. É verdade que durou pouco tempo, mas de alguma maneira foi suficiente. Minha mão deslizou pela sua coxa e ficou lá parada, se esquentando. A outra mão estava na sua canela, e eventualmente eu fazia carinho no seu calcanhar e pés, sentindo o calor. Meu rosto estava do lado do seu pé, e eu não fiz nenhum esforço pra que eles ficassem separados um do outro, num devaneio que só a maconha pode explicar. Você se mexeu, mas não muito, e assim continuou no mesmo lugar, como se quisesse que isso acontecesse, como se tivéssemos planejado. Eu me assustei, como o lobo que se assusta com a presa agindo imprevisivelmente. De dentro de mim, ecoava até a superfície do meu pensamento um texto simples: De novo paramos juntos, fazendo carícias um no outro e isso basta pra nós dois, né? No outro dia, nenhuma palavra sobre o que aconteceu foi proferida. E eu sou obrigado a me ater a memória emocional daquele dia fatídico em que tudo se transformou. Quando o microscópico se tornou colossal e algo finalmente saiu da semente que tínhamos plantado há muito tempo e que não mais tínhamos esperanças de que germinasse. É inexplicável. Talvez por isso não falamos disso: não conseguimos exprimir em palavras o que tem entre a gente, embora aconteça bem diante dos nossos olhos depois do ritual certo, como um feitiço poderoso. O meu predador natural diz que é tudo na minha cabeça, e a única coisa que me impede de acreditar nele são os sinais sutis. Eles ascendem dentro de mim uma pequena luz, e eu sei que não posso deixar que ela cresça muito e nem que se apague. Isso exige de mim mais concentração e jogo de cintura do que eu gostaria, mas acredito que minha técnica tem se aperfeiçoado a cada encontro: consiste em ser selvagem, livre, ousado, sem deixar a pequena luz se transformar em um incêndio. É tão apropriado porque o subtexto das minhas reações e intenções é puro anarquismo: você não me pertence e eu não te pertenço. A única coisa que pertence a nós é o sentimento conflituoso que temos um pelo outro. Em mim reside o amor pacífico e oceânico pela sua liberdade, incapaz de cruza-la. De dentro, ele espreita e consegue ver você beijando outras bocas e ouve revelações agitadoras, que causam tristeza e esperança, respectivamente, numa equação química impossível. De onde vem essas forças? Da mesma fonte que banha o coração ávido por mudanças do revolucionário niilista. Então sigo por esse caminho frágil, tênue, sem garantia, sem promessas, carregando uma luz frágil, pequena, que protejo com as duas mãos enquanto corro no meio da noite de chuva forte. Às vezes, tudo desmorona e eu penso que a luz vai se apagar e quase perco a cabeça. Nesse momento, a única coisa que me conforta é uma imagem mental que surge em várias formas: O reencontro entre os lençóis brancos estendidos em um lugar bonito e esverdeado... A carta como prelúdio da revelação de nossos corações, ou o clima perfeito e sincronizado do qual se originará nosso primeiro beijo. Apesar de todo drama e melancolia contidas nessas imagens, a mais forte é muito mais simbólica e primordial: eu vejo a pequena luz crescer, se tornando cada vez mais quente e ficando cada vez mais parecida com um enorme incêndio que nem a chuva e nem nada são capazes de extinguir. Sou capaz até de sentir o calor crepitando no meu rosto, mais perto do que seria seguro. Encurralado, o corpo sobrevivencial se pergunta: "O que fazer em caso de incêndio?", e o coração - embrasado, louco, anarquista, pleno e selvagem - responde: "Deixe queimar." Só neste dia então, o amor terá me feito anarquista.
Conciliando o Partir e o Persistir
O dia doze chegou e já fazem vinte dias desde que tudo aconteceu. Agora, tudo mudou. Tudo simplesmente mudou. Aos poucos fui esquecendo ele e todo aquele sentimento intenso foi adormecendo dentro de mim, e talvez ele durma durante a eternidade. Eu espero que não. Espero que não tenha chegado ao fim. Espero que seja apenas um “até logo”, como no sonho. Mas o que eu entendo dos caminhos tortuosos do universo? Quase nada… Só o que eu já vi, o que eu experimentei. E minha experiência diz que ele vai voltar. É o que quero acreditar, embora isso só alimente sentimentos conflituosos caso não seja verdade. Eu apaguei todas as nossas conversas, mas quando abri o Messenger hoje pelo computador, elas estavam lá. E eu fui relê-las… Parece que ele só não se importa. Ou ele não se importa, ou quer fazer parecer que não se importa. E a última ideia me parece cada vez mais absurda, inverossímil. E isso que me despertou pro fato de que é tempo de deixar ir. Paralelo a esse sentimento, é como se eu estivesse o abandonando. Eu sei que sou capaz de deixá-lo. Eu me ensinei a fazer isso e me tornei realmente bom nisso. Eu sei que vou me ocupar até quase esquecer, se ele se deixar ser esquecido. Oposto a esse sentimento de abandono, sinto uma enorme vontade de ser cem por cento honesto. De dar um sacode nele, segurar na mão dele e sair correndo, nós dois. Se é isso que eu deveria fazer, então eu falhei. Porque talvez meus instintos estejam quebrados ou porque talvez eu ainda seja muito fraco pra cumprir esse tipo de missão, eu não sei. E eu senti isso vinte dias atrás: que eu deveria resgatá-lo daquele mundo, e ajudar quem eu pudesse ajudar. Era nítido, palpável, embora eu mesmo tenha acalmado meus ânimos dizendo que não tinha nada de errado com aquele lugar e com aquelas pessoas. E talvez não tenha. Há lugares que são como o limbo na Terra. Eu o visitei e logo quis voltar pro paraíso que construí. Talvez o lugar dele seja o limbo agora, e eu não seja capaz de tirá-lo de lá, e isso me dói. Talvez ele pertença ao limbo e isso tudo serviu como teste ou sei lá. Quero muito ajudar ele… Queria muito ajudar todos eles, mas é difícil ajudar alguém que não sabe que está em apuros ou não dá sinais de que precisa de ajuda. Preciso de mais do que quatro orações mal terminadas pra entender que alguém precisa de mim. Estou completamente confuso, e embora tudo que veio de dentro de mim reforce a versão mais otimista dessa missão, tudo que é externo me causa incerteza. Sinto que já passei tempo demais tentando resolver esse mistério, e quanto mais eu penso nisso, menos numinoso tudo isso fica. Então vou fazer aquilo que faço quando me falta fé: vou embora. Ainda vou rezar por ele em todas as minhas orações e vou reservar um minuto do meu dia pra enviar amor e proteção pra ele. Espero de verdade que ele esteja bem. Espero que todos fiquem bem, porque eu vou ficar. Vou guardar no meu coração a imagem dele voltando, como num filme da vida dele, não da minha. Eu apareço no começo e no final. Um dia eu vou estar em um lugar bonito, tipo o quintal da minha casa, com grama e o sol vai estar se pondo. Eu mesmo estarei bonito, diferente. Eu vou estar de costas, fazendo alguma coisa, e ele vai chegar, junto com uma música triste. A câmera vai mostrar eu me virando lentamente, como se por instinto eu o sentisse chegando. Eu choraria hoje se acontecesse situação similar, mas acredito que no futuro, terei endurecido um pouco o coração. Então, ao me virar, o máximo que eu me permitiria expressar seria um arrepio, caso essa fantasia um dia se tornasse realidade. É certo que os arrepios que ele me causa não podem ser contidos.
Conciliando o Partir e o Persistir
O dia doze chegou e já fazem vinte dias desde que tudo aconteceu. Agora, tudo mudou. Tudo simplesmente mudou. Aos poucos fui esquecendo ele e todo aquele sentimento intenso foi adormecendo dentro de mim, e talvez ele durma durante a eternidade. Eu espero que não. Espero que não tenha chegado ao fim. Espero que seja apenas um "até logo", como no sonho. Mas o que eu entendo dos caminhos tortuosos do universo? Quase nada... Só o que eu já vi, o que eu experimentei. E minha experiência diz que ele vai voltar. É o que quero acreditar, embora isso só alimente sentimentos conflituosos caso não seja verdade. Eu apaguei todas as nossas conversas, mas quando abri o Messenger hoje pelo computador, elas estavam lá. E eu fui relê-las... Parece que ele só não se importa. Ou ele não se importa, ou quer fazer parecer que não se importa. E a última ideia me parece cada vez mais absurda, inverossímil. E isso que me despertou pro fato de que é tempo de deixar ir. Paralelo a esse sentimento, é como se eu estivesse o abandonando. Eu sei que sou capaz de deixá-lo. Eu me ensinei a fazer isso e me tornei realmente bom nisso. Eu sei que vou me ocupar até quase esquecer, se ele se deixar ser esquecido. Oposto a esse sentimento de abandono, sinto uma enorme vontade de ser cem por cento honesto. De dar um sacode nele, segurar na mão dele e sair correndo, nós dois. Se é isso que eu deveria fazer, então eu falhei. Porque talvez meus instintos estejam quebrados ou porque talvez eu ainda seja muito fraco pra cumprir esse tipo de missão, eu não sei. E eu senti isso vinte dias atrás: que eu deveria resgatá-lo daquele mundo, e ajudar quem eu pudesse ajudar. Era nítido, palpável, embora eu mesmo tenha acalmado meus ânimos dizendo que não tinha nada de errado com aquele lugar e com aquelas pessoas. E talvez não tenha. Há lugares que são como o limbo na Terra. Eu o visitei e logo quis voltar pro paraíso que construí. Talvez o lugar dele seja o limbo agora, e eu não seja capaz de tirá-lo de lá, e isso me dói. Talvez ele pertença ao limbo e isso tudo serviu como teste ou sei lá. Quero muito ajudar ele... Queria muito ajudar todos eles, mas é difícil ajudar alguém que não sabe que está em apuros ou não dá sinais de que precisa de ajuda. Preciso de mais do que quatro orações mal terminadas pra entender que alguém precisa de mim. Estou completamente confuso, e embora tudo que veio de dentro de mim reforce a versão mais otimista dessa missão, tudo que é externo me causa incerteza. Sinto que já passei tempo demais tentando resolver esse mistério, e quanto mais eu penso nisso, menos numinoso tudo isso fica. Então vou fazer aquilo que faço quando me falta fé: vou embora. Ainda vou rezar por ele em todas as minhas orações e vou reservar um minuto do meu dia pra enviar amor e proteção pra ele. Espero de verdade que ele esteja bem. Espero que todos fiquem bem, porque eu vou ficar. Vou guardar no meu coração a imagem dele voltando, como num filme da vida dele, não da minha. Eu apareço no começo e no final. Um dia eu vou estar em um lugar bonito, tipo o quintal da minha casa, com grama e o sol vai estar se pondo. Eu mesmo estarei bonito, diferente. Eu vou estar de costas, fazendo alguma coisa, e ele vai chegar, junto com uma música triste. A câmera vai mostrar eu me virando lentamente, como se por instinto eu o sentisse chegando. Eu choraria hoje se acontecesse situação similar, mas acredito que no futuro, terei endurecido um pouco o coração. Então, ao me virar, o máximo que eu me permitiria expressar seria um arrepio, caso essa fantasia um dia se tornasse realidade. É certo que os arrepios que ele me causa não podem ser contidos.
Marias
Hoje eu conheci uma Maria. Estranhei, logo de início, porque quase não conheço uma Maria jovem. O estranhamento era admiração, eu viria a perceber. Achei singular encontrar uma Maria jovem, porque parece que as jovens Marias ao meu redor decidiram se esconder. Muitas mulheres que se chamam Maria, apresentam-se e usam apenas o segundo nome, pois as mães, por algum motivo, dão nomes compostos aos seus filhos. Refleti que, talvez, inconscientemente, o que essas mulheres pretendem ao não se revelarem Marias, seja justamente se desvincular de toda a santidade que é evocada nos outros pelo nome Maria. É impossível dizer que a santidade deste nome não seja um fator latente no inconsciente coletivo. Quando algum fenômeno impactante nos acomete, geralmente, chamamos primeiro à Ela: Vixe Maria! Fiquei surpreso e encantado com a Maria que conheci. Acredito que o orgulho do nome dê forças à ela: consegue unificar o bem o mal, o lindo e o asqueroso, o que é da terra, e o que é do céu. Maria unifica os opostos, o inconciliável. É uma mulher gentil, que para garantir sua sobrevivência convoca as forças naturais instintivas. É como uma gata que pode se transformar em um tigre. Capacidade inerente, que se confirma pela infância da mesma: brincava com cobras, aranhas e sapos quando era criança, ou seja, A Mãe Selvagem sempre esteve por perto. Equilíbrio é tudo. Muitas vezes, na tentativa de integrar o seu eu mundano, selvagem, o eu divino - com poderes divinos - , é reprimido. Relegado aos lugares mais sombrios da psiquê, o eu divino definha, e com ele, vai morrendo a capacidade de “fazer milagres”. Só que é só através destes pequenos milagres que nossos pontos de vista incomuns são levados em consideração pelas pessoas ao nosso redor. Os pequenos milagres é quando a externidade se desdobra em torno da nossa vantagem ou em vantagem do nosso ponto de vista. Quando a vida empírica começa a se tensionar para provar nosso ponto de vista, um a um, vão caindo os tijolos das barreiras fundamentalistas dos tímidos de coração. É aí que chega ao fim o cansaço do indivíduo que está em farrapos, desgastado pela experiência psicológica de ver seu ponto de vista depreciado e ignorado: quando ele assimila os opostos, re significando todos os aspectos divinos dos quais teve que abdicar para começar sua busca selvagem. Os opostos são tão importantes de serem assimilados por nós porque o mundo é feito de opostos, que parecem inconciliáveis, mas que na verdade se complementam. Maldade, bondade. Feiura e beleza. Espaço e tempo. Plenitude e Vácuo. Luz e trevas. Um não existe sem o outro. Assim é também a consciência. Sempre que uma força psicológica for negada, ela se fortalecerá e se manifestará de uma maneira autônoma, cada vez mais imperceptível para o eu consciente. Ela pode começar a se manifestar através dos sonhos, fantasias, até se tornarem psicoses ou neuroses. Integrem suas Marias. Elas não só podem, como devem coexistir com o lado mais selvagem que você vem tentando trazer à tona. Basta ousadia, e a capacidade de apreciar todas as manifestações e ciclos da vida natural, sejam eles belíssimos como uma flor, ou tão densos e escurecidos como a terra da qual a flor nasceu. É isto que a Maria fez. Tanto a mulher comum, que foi santificada pela igreja católica, quanto a Maria que conheci hoje, também uma mulher comum, mas com um poder especial: o da unificação dos opostos. Ela apenas sabe que a natureza ctônica (que vem do chão, das profundezas, do “diabo”) contém a natureza divina e vice-versa. No lugar de assimilar estas naturezas como opostas, separadas, assimile-as como natureza, ou seja, como uma só, que se complementa. Esta pequena mudança de atitude pode trazer respostas à muitas perguntas.
Este texto é destinado aos inconformados. Àqueles que, muito cedo, descobriram que eram diferentes, e perceberam que o diferente era repudiado pelas pessoas ao redor. Àqueles que escolheram abraçar e ter orgulho desse lado selvagem, mesmo que isso viesse com um custo. Este texto é dedicado àqueles que vêm pagando muito caro apenas por serem diferentes.
Marias
Hoje eu conheci uma Maria. Estranhei, logo de início, porque quase não conheço uma Maria jovem. O estranhamento era admiração, eu viria a perceber. Achei singular encontrar uma Maria jovem, porque parece que as jovens Marias ao meu redor decidiram se esconder. Muitas mulheres que se chamam Maria, apresentam-se e usam apenas o segundo nome, pois as mães, por algum motivo, dão nomes compostos aos seus filhos. Refleti que, talvez, inconscientemente, o que essas mulheres pretendem ao não se revelarem Marias, seja justamente se desvincular de toda a santidade que é evocada nos outros pelo nome Maria. É impossível dizer que a santidade deste nome não seja um fator latente no inconsciente coletivo. Quando algum fenômeno impactante nos acomete, geralmente, chamamos primeiro à Ela: Vixe Maria! Fiquei surpreso e encantado com a Maria que conheci. Acredito que o orgulho do nome dê forças à ela: consegue unificar o bem o mal, o lindo e o asqueroso, o que é da terra, e o que é do céu. Maria unifica os opostos, o inconciliável. É uma mulher gentil, que para garantir sua sobrevivência convoca as forças naturais instintivas. É como uma gata que pode se transformar em um tigre. Capacidade inerente, que se confirma pela infância da mesma: brincava com cobras, aranhas e sapos quando era criança, ou seja, A Mãe Selvagem sempre esteve por perto. Equilíbrio é tudo. Muitas vezes, na tentativa de integrar o seu eu mundano, selvagem, o eu divino - com poderes divinos - , é reprimido. Relegado aos lugares mais sombrios da psiquê, o eu divino definha, e com ele, vai morrendo a capacidade de "fazer milagres". Só que é só através destes pequenos milagres que nossos pontos de vista incomuns são levados em consideração pelas pessoas ao nosso redor. Os pequenos milagres é quando a externidade se desdobra em torno da nossa vantagem ou em vantagem do nosso ponto de vista. Quando a vida empírica começa a se tensionar para provar nosso ponto de vista, um a um, vão caindo os tijolos das barreiras fundamentalistas dos tímidos de coração. É aí que chega ao fim o cansaço do indivíduo que está em farrapos, desgastado pela experiência psicológica de ver seu ponto de vista depreciado e ignorado: quando ele assimila os opostos, re significando todos os aspectos divinos dos quais teve que abdicar para começar sua busca selvagem. Os opostos são tão importantes de serem assimilados por nós porque o mundo é feito de opostos, que parecem inconciliáveis, mas que na verdade se complementam. Maldade, bondade. Feiura e beleza. Espaço e tempo. Plenitude e Vácuo. Luz e trevas. Um não existe sem o outro. Assim é também a consciência. Sempre que uma força psicológica for negada, ela se fortalecerá e se manifestará de uma maneira autônoma, cada vez mais imperceptível para o eu consciente. Ela pode começar a se manifestar através dos sonhos, fantasias, até se tornarem psicoses ou neuroses. Integrem suas Marias. Elas não só podem, como devem coexistir com o lado mais selvagem que você vem tentando trazer à tona. Basta ousadia, e a capacidade de apreciar todas as manifestações e ciclos da vida natural, sejam eles belíssimos como uma flor, ou tão densos e escurecidos como a terra da qual a flor nasceu. É isto que a Maria fez. Tanto a mulher comum, que foi santificada pela igreja católica, quanto a Maria que conheci hoje, também uma mulher comum, mas com um poder especial: o da unificação dos opostos. Ela apenas sabe que a natureza ctônica (que vem do chão, das profundezas, do "diabo") contém a natureza divina e vice-versa. No lugar de assimilar estas naturezas como opostas, separadas, assimile-as como natureza, ou seja, como uma só, que se complementa. Esta pequena mudança de atitude pode trazer respostas à muitas perguntas.