i'm not entirely here; half of me has disappeared ;; hara
O sonho que ele teve naquelas poucas horas de sono que teve, se tornou pesadelo aos dez minutos do primeiro tempo. Se tinha uma coisa que Hano tinha medo, era da solidão. Uma antiga amiga dele que ele queria distância. Mas em seu sonho, (ou deveria dizer pesadelo?) era exatamente que acontecia com ele. Não estava sozinho, via as pessoas passando por ele na rua, via seus amigos conversando juntos, seu irmão, sua irmã, via Nathaniel. Mas nenhum deles o via. O que era assustador por si só. E não importava o que quer que ele fizesse, ninguém o via ali, os chamando, acenando pra eles. Apenas, ninguém o via. E Hano se sentiu invisível, literalmente falando. Sentia como se estivesse desaparecendo. Como se não existisse. Foi a angústia no peito que o fez acordar, arfando e com o coração batendo rápido, porque tinha sido real demais, havia sentido que fora real e aquilo era demais. Não era mais do que nove da manhã quando ele acordou, sendo que havia pisado em seu apartamento não antes das quatro da madrugada. Perambular pelas ruas havia se tornado seu passatempo já que Noah não costumava mais ser uma companhia agradável. Não, aquilo soava errado. Ele sabia que seu irmão estava apenas triste, em parte por culpa do próprio Hano, mas o fato do irmão não lutar contra aquilo, apenas… aceitar, o estava deixando fora de si. Então, ele passava mais tempo na rua, na casa de Hyejin, se encontrando em lugares desertos com Nathaniel, tudo para evitar o humor ao redor de Noah. Mas ele tinha que enfrentar o irmão, tinha que pedir desculpas por ter gritado com ele da última vez e ter dito coisas que provavelmente o deixaram mais triste do que já estava. Sim, Hano só havia complicado a vida do irmão quando decidira vir para Gwangju. Seu pesadelo terminou com as pessoas se perguntando quem era Hano. Aquilo o fez acordar.
Se ele fosse sincero consigo mesmo, a vida dos irmãos parecia polos opostos. Assim que Hano chegou, Noah estava bem, feliz e saudável e foi apenas Hano se apresentar, que tudo começou a dar errado para o outro. Talvez ele realmente não devesse estar ali. Talvez, ele nunca pertencesse a lugar nenhum, pois Hano nunca se sentira completo. Pensamentos como aqueles eram recorrentes em sua mente a cada dia da estadia dele ali. Noah o fazia se sentir como parte da família, mas esse era seu dever como irmão, não? Ele pensava que talvez, com ele tentando se aproximar do irmão, talvez ele sentisse como se pertencesse a algum lugar, como se ele se sentisse completo, porque seus dezessete anos foram como se metade dele não estivesse ali. E ele tentava. Tentava fazer como que Noah se sentisse a vontade com ele, mesmo falhando miseravelmente na maioria das vezes. Noah dividira com ele a família, o coração e até mesmo os amigos, e Hano apenas tomava, tomava e tomava, nunca dando nada em troca. E foi com aqueles pensamentos que ele levantou da cama, decidindo que tomaria apenas um banho e se arrumaria para levar o outro para almoçarem juntos. Ele pediria desculpas, e tomaria a decisão de realmente mudar. Fazia tempo que não era fingia mais ser o irmão. Fazia tempo que ele tinha parado de tentar tomar o lugar que Noah tinha na vida das pessoas. Ele estava se comportando, vivendo sua própria vida, fazendo seus próprios amigos e até mesmo amando alguém que era apenas só seu, ou talvez nem tanto. Mas Hano estava tentando. Quando finalmente estava pronto para sair, Hano lembrou do pesadelo e saiu do apartamento com o sentimento de que algo não estava certo.
Morar do lado de Noah tinha suas vantagens, visto que ele ia lá quando não tinha comida pronta em seu apartamento, ou quando estava entediado e só queria ficar na companhia do irmão, ou também quando ele errava o apartamento e acaba jogado no sofá de Noah, acordando com Sera gritando pra ele acordar. E ajudava o fato do irmão nunca trancar a porta. Fez seu caminho costumeiro, trancando a própria porque ele era bem mais desconfiado que Noah, e entrando no apartamento do irmão. Foi direto para a cozinha, não se incomodando em avisar o outro que ele estava lá. Noah provavelmente sabia. Mas estranhou não encontrar café pronto ou nem mesmo louças sujas, o que o outro sempre deixava. E Hano sempre lavava. Mas pegou na geladeira o vidro de iogurte e tomou, apenas porque não queria ficar com o estômago vazio até o almoço. Pegou o celular, mandando uma mensagem para Hyejin, avisando que a encontraria no final da tarde, sairiam para descobrir outros sabores de sorvete que Hano talvez gostasse. Chamou Noah três vezes, sem escutar resposta alguma, e nas três vezes ele não se importou realmente, porque pensou que o irmão estaria no banheiro. Noah nunca ouvia quando estava no banheiro e Hano o chamava. Mas foi depois de vinte minutos, e mensagens aleatórias trocadas com Nathaniel que envolviam ameaças e promessas que nenhum tinha coragem de dizer na cara um do outro, que Hano decidiu procurar Noah. Começou pelo banheiro, que era o mais próximo, mas ele não estava lá. O quarto foi o próximo e estava tudo tão arrumado, tão… diferente de Noah que Hano estranhou. O estômago afundou e ele não sabia ao certo o motivo. Tentou ligar para ele, nas três vezes o telefone indo direto para a caixa de mensagem. Então Hano deitou na cama do irmão e resolveu esperar mais uns cinco minutos. Talvez Noah tivesse saído para comprar algo, talvez pão ou café, deveria ser por causa daquilo que ele não tinha feito café. Certo. Nenhum motivo para se preocupar.
Mas passaram-se mais vinte minutos e nada de Noah e Hano começou a ficar realmente preocupado. Ele ligou para Sera, ignorando os xingamentos e perguntando se Noah estaria lá com ela, se ele tinha dito algo sobre ir a algum lugar, mas quando ouviu a negativa, o coração do americano começou a bater rápido. Estava nervoso e sua mente logo o proporcionou inúmeras situações do que poderia ter acontecido com Noah. As vezes, quando as pessoas enfrentavam situações que os chocavam, sua batida cardíaca aumentava ao ponto de entrarem no chamado choque, ficando assim paralisadas. Hano ficou ali sentado na cama de Noah enquanto apenas olhava para o quarto. Lenta e assustadoramente, ele começou a perceber coisas que não notara quando entrou no quarto. O porta retrato dele com Sera estava faltando de cima da mesa de cabeceira. A penteadeira estava arrumada, e seu perfume estava ali, mas não o pente que Noah costumava usar. Olhando para a cama, ele notou que o lençol era novo, Hano nunca o vira sendo usado antes. E aquele sentimento de que algo estava errado aumentou ao ponto dele sair do choque, levantando da cama e caminhando até o guarda-roupas. Ele ouvia o zumbido do silêncio e parecia como uma cena de filme de terror, enquanto ele abria a porta do guarda-roupa. Apenas para encontrá-lo vazio, salvo por algumas roupas, que eram dele e não de Noah. O riso sem humor algum brotou e Hano de repente desejou estar sonhando naquele momento. Porque o que sua mente sussurrava era algo que ele não queria acreditar. Depois daquilo, tudo se tornou um blur. Hano vasculhou o quarto. O tênis favorito do irmão não estava lá, até mesmo as ridículas bandanas que ele usava tinham sumido. Evaporado. O desespero crepitou então, quando ele saiu do quarto, reparando pela primeira vez que a sala estava vazia demais das coisas. Claro que os móveis ainda estavam lá, mas as fotos… as paredes estavam vazias. A caixinha de som portátil que tinha dado de presente para o outro não estava lá. Quando seus olhos arderam, Hano precisou sentar porque além da visão embaçada, ele ficou tonto. O silêncio do apartamento grudava apenas uma coisa e ele nunca aceitaria aquilo.
Noah tinha ido embora. Fugido. Sumido. Ele não tentou impedir as lágrimas de virem, não se importando quem ouvia seus gritos do lado de fora. Hano estava fora de si. Gritou como se parte dele estivesse rasgando, como se ele estivesse sendo esfaqueado, porque doía. It hurts like hell. Ainda tonto, ele se levantou. Gritou porque o vazio estava ali de novo, ele sentia doer como nunca. Chutou as poltronas ali, virou a mesa e gritou novamente. Ninguém ia saber. Noah tinha ido embora. Fugido. Sumido. A ideia do irmão escolher fugir, sem avisar nada, nem ninguém… A percepção de que Noah não confiava nele era o que fazia o coração de Hano doer. Ele nem sabia que estava em pé, porque tudo rodava. Não soube quando chegou no quarto e revirou tudo. Desde as poucas roupas que haviam no guarda-roupas à cama perfeitamente bem feita. Ele jogou as gavetas da cômoda fora. Gritos e mais gritos até que ele pegou o celular. Ligou para Noah novamente, o aperto firme no aparelho como se fosse fazer com que Noah atendesse. Mas novamente, caixa postal. Foi naquele momento que o choro e a tontura se tornaram tanto que ele perdeu o equilíbrio, tropeçando e batendo o corpo na cômoda que virou e de repente o chão refletia ele. Refletia Noah. Hano não soube quando caiu, ou quando o espesso líquido vermelho apareceu em seu campo de visão. Tudo que ele conseguia pensar era Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah Noah. Hano ficou ali por alguns segundos, mas o silêncio era demais para ele. Noah tinha ido embora. Fugido. Sumido. E Hano estava sozinho novamente. Naquela manhã ele acordou pensando em se desculpar. Mas naquele momento, tudo que ele queria era apenas ver Noah. A ligação com o irmão, mesmo com todos os problemas, era forte demais, intensa demais para ele sequer pensar em outra coisa. Foi quando a garota surgiu em sua mente e Hano levantou, não se importando com o corte nas mãos e na sobrancelha, quando mesmo que ele tinha se machucado? Não importava, porque o que doía não eram as mãos ou o rosto. Seu coração naquele momento sangrava mais do que qualquer outra coisa. O tempo todo que ele levantou e foi até a porta de Sera, Hano sentiu como se estivesse tendo a experiência de estar fora de seu corpo. Os gritos que ouvia não pareciam sua voz, as mãos sangrando não pareciam as suas enquanto batiam na porta, o choro estrangulado que saía aos soluços de sua garganta, não pareciam ele. Gritos confusos perguntando ‘Onde está Noah?’ e ‘Diz pra mim que ele está aqui e tudo é uma brincadeira.’ ou quando ele chegou ao chão, chorando incontrolavelmente, segurando a cadeira de rodas de Sera, ‘Por favor diz que Noah não foi embora.’ Talvez, se ele pensasse um pouco mais, ele poderia ter ido na casa dos avós verificar se Noah estava lá, mas naquele momento, tudo que Hano sentia era dor. Dor e vazio. Ele não estava inteiramente ali, a metade dele tinha desaparecido.