AESTHETIC
“Armanskij teve dificuldade de se habituar ao fato de seu melhor cão de caça ser uma jovem pálida, de uma magreza anoréxica, com cabelos quase raspados e piercings no nariz e nas sobrancelhas. Tinha a tatuagem de uma vespa no pescoço e uma faixa tatuada ao redor do bíceps do braço esquerdo, Nas poucas vezes em que Lisbeth usara uma regata, Armanskij constatara que ela também tinha uma tatuagem maior na omoplata, representando um dragão. […] Parecia estar sempre chegando de uma semana de farra na companhia de uma banda de heavy-metal.”
O trecho do livro Os homens que não amavam as mulheres de Stieg Larsson em que Lisbeth Salander, uma “espiã” altamente qualificada,é descrita, me fez pensar sobre as pontuações sobre a estética, tanto sob a perspectiva do que a sociedade espera que ela seja, e do que na sua individualidade você constrói.
O mundo da moda é feito de tendências, e a própria palavra “moda” virou sinônimo de “o que está sendo usado pela maioria das pessoas”. Bloqueiras, youtubers ganham dinheiro falando sobre o que você deve usar ou não. Vindo de encontro a isso, quando se olha para a história da moda e se dá de cara com uma das mais revolucionárias mulheres da estética ocidental, Gabrielle Coco Chanel, encontra-se um grande choque sob a concepção do belo e feminino.
Chanel foi uma quebradora de correntes, viveu em um período em que a beleza feminina era uma alternativa à palavra sofrimento. Muitos espartilhos, roupas apertadas, vestidos pesados, acessórios que incomodavam, excesso de tudo. A belle époque foi marcada por cinturas finas e muitos babados. Chanel foi a responsável por romper com esses padrões, e ditar pela primeira vez que mulheres podem sim ser elegantes em peças confortáveis e simples.
A ideia obviamente não agradou ninguém na época, mas não demorou muito para que Chanel se tornasse uma das maiores estilistas da moda.
Rainha do “menos é mais”, Coco apreciava uma elegância que exalava do quase minimalismo. Criou coleções onde o conforto era a palavra de ordem. No entanto, apesar de tanta revolução, Chanel parece ter sido esquecida, e aparentemente estamos voltando aos status da belle époque. Muita maquiagem, muitos acessórios, lingeries desconfortáveis, horas no salão de beleza, unhas perfeitas, dentes brilhantes, cílios postiços, horas perdidas do dia na frente do espelho se preparando para um dia comum na faculdade ou na casa do namorado.
O “menos é mais” vai pro ralo junto com o conforto. A praticidade novamente dá lugar ao excesso. Observando essa loucura estética, a questão que pipoca para todos os lados é: o que falta em você que necessita preencher com coisas desnecessárias? Qual é esse vazio? Não se sabe.
Se você está maquiada na faculdade? Ninguém se importa. Roupas novas?Ninguém nota. Cabelo que demorou horas pra arrumar para que fique parecendo “natural”? Ninguém percebe. Então por quê esse padrão de consumismo exagerado continua tão presente em nossas vidas, a ponto de roubar horas preciosas do dia?
Horas gastas para ficar exatamente igual a centenas de outras pessoas que também estão seguindo os mesmo princípios da moda.
O olhar para dentro se faz menos importante que o olhar para fora. A estética virou uma ferramenta de mostrar ao outro “o quão eu sou atual e moderno” quando na verdade deveria significar “O que eu sou na modernidade”. Alguém disse que nós somos o que comemos, mas também somos o que vestimos, consumimos, idolatramos, admiramos. Uma das minhas maiores desgraças estéticas, seria o dia em que alguém olhasse pra mim e identificasse a fragilidade, meiguisse, delicadeza feminina que a moda dita.
Desde jovem as minhas expectativas eram ser uma Lisbeth Salander, algo pesado, vestir o que me representa. Talvez por isso, seja difícil entender o por quê as pessoas não pensam assim também e procurarem encaixar-se sempre nos seus quadradinhos iguais aos outros. Talvez isso seja decorrente da necessidade de identificar-se com um grupo, a independência é dolorida. Não sabemos.
Na minha opinião, o que falta não é criatividade ou personalidade, mas que as pessoas passem a representar para si o que elas estão representando para os outros.










