Cobertura do SITEC Ambiental 2026
Cobrir eventos não é tarefa fácil, mesmo quando a função é escuta e escrita, mas vale demais a chance de reportar sobre um tema que gosto demais e é tão urgente - o meio ambiente.
Nos dias 18 e 19/03, estive no SITEC Ambiental – Seminário de Tecnologia e Soluções Ambientais para a Indústria, uma imersão (mesmo!) sobre como a inovação tecnológica pode converter obrigações ambientais em diferenciais competitivos e geração de valor às empresas.
O evento aconteceu lá no Centro de Exposições Frei Caneca (SP) e aqui, traço um resumão dos dois dias, cujos textos foram publicado no Portal TECNEWS, em que sou jornalista/redatora freela.
No mais, agradeço à Sofia Jucon e o pessoal da NS Group, que realizaram esse evento incrível.
Primeiro dia - 18 de março de 2026 - manhã (íntegra aqui)
Caminhos para gestão de resíduos, água e energia
Primeiro Painel: Gestão de Resíduos – da responsabilidade de redução na geração à Economia Circular
“ESG não é apenas a palavra de ordem, mas a estratégia principal para a rentabilidade e sustentabilidade das empresas. O SITEC foi planejado para não somente traçar caminhos, mas mostrar como podemos efetivamente colocar essas inovações nas atividades das corporações”. Com essas palavras, coordenador do evento, Douglas Venditti, diretor da NS Group, deu as boas-vindas aos presentes na cerimônia de abertura.
Susi Uhren, diretora da Singular Ambiental, que juntamente com a filha, Clara, conduzem há mais uma década a assessoria especializada em gerenciamento de resíduos, licenciamento e educação ambiental.
Para a especialista, se faz necessário uma mudança de ideia sobre o conceito de resíduo em si, com meios e formas de redução, transformação e, principalmente, uma mudança de paradigma se realmente aquilo que outrora era considerado “lixo”, mas um valor que pode empoderar as organizações, não somente para uma obtenção de selos, mas de reputação e entendimento de impactos das operações. “Não existe lixo, mas um material de grandes potencialidades. Somente em São Paulo, por exemplo, mais de 40 mil toneladas de lixo são geradas por dia. Ou seja, esse resíduo também faz parte do nosso cotidiano e precisamos entender essa potencialidade”, ressaltou em sua fala.
Perguntada sobre conscientização, Susi enfatizou que essa prática é muitas vezes não é fácil de implementar, porém é factível quando se é mostrada e entendida, esse círculo tem sentido. “Quando há esse engajamento, mostrando a um funcionário que ele faz parte dessa participação de de resultados a favor da sustentabilidade, isso é aderente”, disse.
Em seguida, a Economia Circular e Total Waste Management (TWM) deram o tom, com a palestra sobre a integração entre eficiência operacional e sustentabilidade dessas modalidades, com Victor Alcantara Cunto, engenheiro ambiental na Cetrel, especializada em gestão de efluentes.
Em sua participação, Cunto destacou que a economia circular não pode ser compreendida como reciclagem, mas uma meio integrado para evitar desperdícios. Um exemplo que ilustrou sua apresentação foi o subproduto do leite, o queijo, cujo produto potencial, o whey protein, hoje amplamente é utilizado no segmento de academias. “Se fizermos uma analogia, quando as empresas observam a geração de resíduos e observam as maneiras de como reutiliza-los, eis mais uma forma de negócio e de rentabilidade, e, consequentemente, de economia corporativa e do planeta. Tudo é sobre entendimento, parceria e pessoas”, ressaltou em sua apresentação.
Perguntado sobre cases feitos pela Cetrel, Alcantara enfatizou clientes da área automotiva, como as tampas plásticas na produção e por meio do upcycle são revertidas em móveis, por exemplo.
Resíduos eletroeletrônicos
A palestra que encerrou a manhã do SITEC foi de Fernando Rodrigues, gerente de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (ABREE), que falou sobre o futuro sustentável por meio da logística reversa e Economia Circular. Primeiramente, o especialista apontou quais equipamentos que nós, consumidores, temos em nossas casas, mas que não utilizamos periodicamente. “Se pararmos para pensar, muitos dos produtos que temos em casa e que não usamos comumente. Esses produtos poderiam ser compartilhados, poderiam, inclusive gerar valor. O mesmo pode caber às empresas”, sublinhou.
Logística reserva também foi destaque em sua fala, frisando a importância dessa prática no setor de eletroeletrônicos, com ênfase em questões que avançam, como os pontos de coleta desses produtos, como esse ecossistema pode ser eficiente e otimizado, por meio de ações mais inteligentes das legislações e ações de fabricantes, consumidores e todos os atores desse setor.
Questionado sobre o uso de equipamentos importante, mas de ciclo de vida mais sensível, como as placas fotovoltaicas, ele mencionou que segundo os regramentos vigentes do segmento, esses materiais não são obrigatórios para reciclagem, porém há empresas que fazem a trituração e destinação correta desses materiais.
Todos os palestrantes enfatizaram a força do coletivo para evitar questões mais profundas em relação ao greenwashing, fazendo valer direitos e deveres para combater essa prática. Formar cidadãos mais críticos, ou seja, a educação na base, e conscientes reverbera, inclusive, nas tomadas de decisão dentro das empresas, pois regulação já é existente. Falando em regulamentação, os palestrantes também discutiram a importância do olhar para a evolução das soluções ambientais, que não podem ser entendidas como homogêneas, mas que podem estar em consonância com as realidades de cada unidade da federação, seus municípios e estados.
Primeiro dia - 18 de março de 2026 - tarde (íntegra aqui)
Painel: Eficiência Hídrica – Cada Gota Conta: reduzindo custos e protegendo seu negócio
As utilizações responsáveis e conscientes dos recursos hídricos deram o tom do painel integrante do primeiro dia desta edição do SITEC, com a conversa iniciada por Álvaro Henrique Lisboa Alécio, executivo de negócios da Opersan Soluções Ambientais, especializada em soluções para a água.
“Quando temos um encontro com pessoas interessantes e interessadas em falar de sustentabilidade, sabemos que teremos boas trocas de experiências. E falar de meio ambiente é tratar de impactos, é tratar de operações das empresas”. Com essas palavras, Alécio falou da atuação da Opersan no suporte em gestão e resultados em recursos hídricos, especialmente no que se refere ao tratamento de efluentes.
Para o especialista, o desafio em levar a sustentabilidade dentro das empresas está em fazer as lideranças “brilharem os olhos” para a essa importância. No caso dos recursos hídricos dentro da indústria, fenômenos como a crise de falta de água, secas severas e restrições de captação deram o sinal de alerta para essa preocupação, que é uma constante e não apenas uma mera exceção.
Alécio também frisou outro desafio: o resúso, que envolve questões regulatórias e também a transferência de infraestrutura. Para exemplificar, o especialista falou de um case de tratamento por meio do sistema BOT (Build, Operate and Transfer), com um cliente que aplicou essa metodologia em suas operações. “O que faz eu acordar todos os dias é entender que a gestão ambiental, especialmente em recursos hídricos, abrange a customização, ou seja, aplicar soluções moldadas à realidade das operações e o retorno financeiro. Isso também envolve a empresa e a comunidade nessa geração de valor”, disse o especialista da empresa, que conta com essas soluções na modalidade offsite para tratamento de efluentes.
Já Álvaro Teixeira, especialista em água e efluentes da Cetrel, discorreu sobre os sistemas de reaproveitamento de água no setor industrial. Essa ferramenta estratégica foi contextualizada a partir de temas como o Marco do Saneamento e, concordando com Alécio, também destacou o estresse hídrico que empresas e pessoas enfrentam atualmente como um desafio. “Acabou essa ideia de água fácil e água difícil. Apesar do Brasil ser rico nesse recurso, há pontos sensíveis e que impactam profundamente esse ciclo, como a contaminação de mananciais e a já conhecida escassez. E não bastam reservatórios, mas o gerenciamento consciente do uso desse recurso”, frisou o especialista em sua fala.
Antecipação é essencial para a proatividade da utilização de água na indústria, ressaltou Teixeira, destacando também, nos pontos de vista ambientais e regulatórios, a coleta e o tratamento de esgoto, tema ainda em andamento e que, segundo Teixeira, precisa avançar.
A customização foi, mais uma vez, lembrada na palestra de Teixeira, entendendo como cada indústria, por meio de indicadores, em como utiliza a água e o reúso pode ser ainda mais otimizado. “Quando as empresas reusam a água com essa compreensão, consequentemente, o consumo de água será menos dependente de fontes externas, tornando-se ainda competitiva”, endossou, trazendo três cases de clientes da Cetrel e que utilizam essa prática, a exemplo da Braskem, que a utilizou no Polo Industrial Petroquímico de Camaçari (BA), com economia hídrica de 4 bilhões de litros/ano em anos chuvosos – o equivalente ao consumo de um município de 150 mil habitantes. Tal sucesso resultou em premiações para Cetrel e Braskem.
“O futuro da gestão hídrica industrial está em três eixos: economia circular, simbiose (uma empresa auxilia outra) e Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL)”, finalizou Teixeira.
E o grande tema do momento, a Inteligência Artificial (IA), arrematou o painel, com a palavra de Luciano Andreoti, gerente de Internet das Coisas (IoT) da CAS Tecnologia (sigla para Ciências Aplicadas à Sustentabilidade), que apresentou informações sobre como a análise de dados é usada para prevenção de desperdícios de água e mitigação de multas.
Em suas primeiras palavras, Andreoti questionou os presentes se haviam utilizado a IA no dia. “Esse é um caminho sem volta”, salientou ele.
Sobre a IA na gestão da água, essa ferramenta é fundamental para redução de custos, especialmente em um cenário regulatório e econômico cada vez mais desafiador e dinâmico. Outro desafio é o custo oculto desse recurso, que vai de vazamentos até a carência de como a água está sendo utilizada nas operações. “Fornecemos um sensoriamento completo, por meio de dados via IA/telemetria, que dá a capacitação e caminhos para evitar tal desperdício”, destacou o especialista em sua apresentação, lembrando que o fator humano é também estimulado, haja vista que por meio da exposição desses dados monitorados de gastos e economia aos times.
Questionados, na interação com o público, sobre monitoramento hídrico, os palestrantes enfatizaram a relevância de uso de dados como pertinente para cruzá-los com demais informações ESG. A partir de números convertidos em ações, há possibilidades para equilibrar demandas, evitar vazamentos, observar oportunidades, e, principalmente, que “faça-se acontecer” nas operações e isso também engloba outros meios, como capacitação de pessoas, processos fabris, melhorias de infraestruturas e aplicação da água em cada função operacional e mencionando, inclusive, os créditos hídricos, um conceito ainda novo, mas potente como os créditos de carbono.
Eficiência energética – energia limpa, lucro garantido: do consumo à geração própria
As inovações sustentáveis em energia também pautaram as palestras do período da tarde, sobre um tema em voga no âmbito setorial: o mercado livre de energia e como as empresas podem reduzir substancialmente os custos com a migração.
A energia solar na Indústria foi o tema que prosseguiu os trabalhos, com a palestra de Christian Cecchini, especialista nesse mercado e representante da Associação Brasileira de Energia Solar (ABSOLAR), que falou de cases de sucesso em geração distribuída. O especialista destacou a importância das energias renováveis no setor, com o Brasil sendo a 4º maior economia em energia solar no mundo.
“Mesmo com um cenário animador, ainda dependemos de combustíveis fósseis. Temos também novas demandas, como os data centers, os veículos elétricos, os sistemas híbridos e o hidrogênio verde, que podem ser beneficiadas pela energia solar e esta, por sua vez está se consolidando como eixo central na expansão global de energia elétrica”, esclareceu o especialista, apresentando aos presentes exemplos de uso de telhados solares nessas operações.
Armazenamento de energia solar associado a baterias também foi um assunto discutido por Cecchini, sem deixar de lado os desafios para essa implantação, que vai do custo até necessidade de infraestrutura para tal aplicabilidade, inclusive convidando os participantes para o evento que a ABSOLAR promoverá sobre o tema.
Perguntado sobre geração e mitigar o ônus ao consumidor final, pontuou sobre os cortes de energia são um dos desafios para que o setor de energia solar se expanda. Para ele, a geração distribuída pode ser uma das alternativas e independentemente se há ou não essa geração distribuída em determinados pontos do Brasil, ao aplicar a energia solar é possível ter mais vantagens, inclusive às concessionárias, para economia e, principalmente, a expansão a essas regiões desassistidas.
Sobre hidrogênio verde, o uso em fertilizantes foi um dos pontos mencionados pelo especialista para o futuro dessa energia.
A palestra que encerrou ao primeiro dia de SITEC Ambiental foi com a contribuição de Fábio Rubens Soares, membro da Comissão Técnica de Energia (CTEN) do Conselho Regional de Química (CRQ-SP; IV Região), que falou de recuperação energética de resíduos na Indústria.
O foco da apresentação de Soares envolveu o uso de biomassa nas operações: “Todo o resíduo gera energia e isso é um desperdício de receita quando há a destinação inadequada dessas formas de resíduos. É importante compreender o conceito de Waste to Energy (WtE), para que esses materiais gerem energia e renda”, alertou o especialista em sua fala.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos foi também o ponto abordado por Soares, haja vista que o cumprimento da destinação dos resíduos ainda recai nos aterros e ainda é um desafio incisivo no Brasil. Ele salientou ainda que tais resíduos, quando coletados, encaminhados e identificados os seus potenciais energéticos, podem beneficiar inúmeras outras tecnologias, inclusive na recuperação de calor.
“Os países desenvolvidos não aceitam mais resíduos orgânicos em aterros, o que ainda é aceito no Brasil, sendo que aqui temos outros agravantes como a falta de segregação dos resíduos. Quando há o aproveitamento desse resíduo, temos tecnologias disponíveis, inclusive aqui no país, para a conversão dessa matéria orgânica em energia. A questão não é falta de tecnologia, mas a amplitude de ideias”, frisou o especialista.
Biogás, combustíveis alternativos, resíduos inertes (cinzas) são alguns dos produtos resultantes por meio da aplicação de tecnologias na geração energética, como a biodigestão anaeróbica, um método muito utilizado em outros países para o gerenciamento de resíduos orgânicos. “Sabemos que uma das barreiras para que esses resíduos sejam valorizados permeia o custo, ou seja, é mais barato encaminhar para o aterro o que poderia se tornar energia. O que falta é incentivo”, salientou, acrescentando que não há ainda uma incineradora de resíduos sólidos urbanos em operação mais proeminente no país, citando a URE Barueri (SP), que entrará em operação em 2027.
Soares finalizou que o conceito WtE é viável e pode ser combinado com as novas tecnologias que despontam no mundo, a exemplo da IA e Internet das Coisas (IoT). Ele também complementou a fala de Cecchini, endossando que as energias renováveis vão complementar a matriz energética no Brasil, podendo substituir gradativamente o uso de energias fósseis, que ainda é evidente no país. Sobre o hidrogênio verde também enfatizou que o transporte é um dos pontos desafiadores para a expansão desse recurso, e também uma oportunidade para busca de soluções para esse gargalo.
Segundo dia - 19 de março de 2026 - manhã (íntegra aqui)
Descarbonização Industrial – Construindo o Futuro Net Zero: redução de emissões e competitividade
“Créditos de Carbono: Transformando redução de emissões em novas fontes de receita” foi o assunto tratado por Fernando Lopes, diretor do Instituto Totum. Lopes iniciou sua fala fazendo um panorama sobre o que é o gás carbono e demais gases, e como os créditos são calculados, para realizar projeções de mitigação, compensação e como a importância entender essa fundamentação para, inclusive, evitar tais emissões.
“Para se ter uma ideia, uma molécula de metano tem um potencial 28 vezes mais potente (como gás de efeito estufa) do que uma molécula de dióxido de carbono, em uma projeção de 100 anos. Ou seja, esse exemplo nos mostra que é preciso entender qual gás é emitido em suas operações para compreender essas mensurações e como podem ser revertidos em créditos”, explicou em sua apresentação.
Lopes também descreveu alguns métodos de contabilização de inventários GEE, como o GHG Protocol, escopos empregados, bem como alguns erros que possam ocorrer nesse processo, como o “leakage” (do inglês, para vazamento ou fuga), que é transferir o que seria considerado poluente dentro da empresa para outro fim. “Qualquer empresa que queira trocar uma frota flex por uma elétrica não pode pleitear um crédito de carbono, porque essa troca foi apenas repassar o que é poluente para frente. Crédito de carbono é um sistema complexo e que também está interligado com a adicionalidade, ou seja, avaliar se tais ações e atividades são economicamente viáveis para esse cálculo. Nem sempre a decisão mais limpa é mais barata”, endossou ele em sua fala.
Ele também traçou um organograma do projeto de crédito de carbono, o que envolve cumprir as metodologias utilizadas para essa mensuração, as alternativas que podem ser feitas, sem deixar de lado o cumprimento as legislações ambientais aplicáveis, bem como a importância das auditorias e consultorias para obtenção desse selo. “Fazer esse processo não é algo empírico, mas é baseado em normas internacionais, como a das Nações Unidas. Um documento que deve ser feito é o PDD (Project Design Document ou Documento de Concepção do Projeto) é detalhamento técnico, que descreve o planejamento, objetivos, metodologia e escopos, crucial para a validação, registro e certificação. Em resumo, não é easy business“, esmiuçou Lopes.
Perguntado sobre a maturidade de créditos no mercado brasileiro, Lopes destacou a tokenização, alertando que créditos não significam lucro, haja vista que pode ocorrer o fenômeno Cap and trade (limite e comércio), criado governamentalmente para reduzir a emissão de GEE. “É definido um teto máximo de poluição e distribui-se licenças (tokens) às empresas, que podem vender o excedente ou comprar cotas extras, incentivando a redução de emissões. Isso não é ilimitado, há restrições e o Brasil está estudando isso e teremos novidades até 2029, 2030 sobre isso. E vai custar caro”, projetou ele em sua fala.
Em seguida, Leonardo Maglio, Business Development Manager – Climate Change & Sustainability da Schneider Electric (SE), discerniu sobre como reduzir emissões de carbono por meio da gestão compartilhada entre fornecedores e clientes, usando como base a própria empresa. Para tanto, o especialista iniciou a sua fazendo uma retrospectiva da SE, que é norteada em três verbos: eletrificar, automatizar e digitalizar de forma sustentável sua cadeia de clientes.
Com destaque para os compromissos em tornar Net Zero até 2050, cujas algumas etapas já foram cumpridas, Maglio frisou um dos desafios para essa descarbonização das emissões de Escopo 3, cuja origem está nos fornecedores. “Temos pequenos fornecedores que trabalham conosco e para auxiliá-los, trabalhamos principalmente com o letramento, ou seja, na promoção de consultorias, conversas, elaboração de materiais e também em contabilizar as emissões desses nossos parceiros. Por meio desse engajamento, todos saem ganhando”, ressaltou em sua fala.
Outro método aplicado para melhoria e precisão de dados de Escopo 3 está no envolvimento de todos os atores dentro das empresas fornecedoras, inclusive mapeando-as de acordo com critérios que envolvem planejamento (estratégias de comunicação, metrificação), engajamento (abordagem com auditorias e uso de tecnologia), e descarbonização (identificação do problema e aplicação de métricas e ações para tal resultado). “Nessas fases, fizemos roadmaps com os fornecedores mapeados, ou seja, não é possível observá-los remotamente. Verificamos suas dores e potencialidades in loco. A parceria e colaboração é a fórmula para descarbonizar”, disse em sua apresentação.
Maglio também destacou que esse conjunto de programas não envolvem somente a compra de energia renovável ou mudança dentro dessas fornecedoras, mas o entendimento e engajamento dessa cadeia no Escopo 3. “É preciso entender o perfil de emissões, entender essas empresas, qual maturidade delas no conceito ESG, avaliar com base e inventários e critérios baseados pela ciência. No caso de clientes, também avaliamos a quem vamos fornecer, como engajá-los. A reputação e governança também está nessa balança”, finalizou ele.
Concordando com Lopes, Maglio, no momento das perguntas, também alertou sobre aspectos que norteiam a neutralização de carbono, que não é um organismo fechado. “Neutralizar é uma constante. No Escopo 3 a todo o momento engajamos, conversamos, fornecemos soluções. Trabalhamos também o compromisso em fornecer produtos que sejam mais sustentáveis e checamos isso até nas nossas próprias operações. Olhamos o ciclo de vida de nossos produtos. Mesmo sendo uma ação voluntária, quando há duas décadas abraçamos esse compromisso, vimos que houve um aumento exponencial de compra de nossos produtos, ou seja, isso também é um modelo de negócio”, disse.
Segundo dia - 19 de março de 2026 - tarde (íntegra aqui)
Gerando Valor com Sustentabilidade Proativa
“Energia que Gera Valor Local, Impacto Global”, foi tema da palestra de Caio Reis, de Cubatão (SP), coordenador do Programa Paradas, que juntamente com a sócia Letícia Parada, mestre e doutoranda, respectivamente, em Ciência e Tecnologia Ambiental pela Unisanta (Santos, SP) fundaram essa ação socioambiental.
Ele iniciou sua palestra contando sobre seu passado, atuando na área de engenharia civil, e quando realizou o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC, 2021), focou em falar de sustentabilidade na fabricação de telhas. “Por ter morado em uma região carente da cidade, a maioria com habitações em palafitas, e me incomodava muito elas não terem telhas. E usei esse problema para a construção de telhas feitas com plástico”, disse em sua apresentação.
Esse incômodo foi além do âmbito acadêmico, tornando-se o pontapé para a fundação do Paradas, cuja prática envolve a coleta de plástico (residencial e nas praias), transformando-o em produtos sustentáveis, unindo pesquisa, inovação e impacto real no meio ambiente. Ele trouxe um número alarmante: são 11 milhões de toneladas desse material são descartados por ano no Brasil (WWF, 2019). “A questão não é focar no problema: já somos impactados pelo plástico, que está em várias áreas, das nossas casas até na medicina. Mas ele é o vilão?Buscamos entender que o plástico não é o vilão, mas como lidamos com o plástico. Em vez de apenas descarta-lo por que não reutilizado para virar um móvel ou mesmo outro produto em escala maior?”, endossou em sua fala.
Ele trouxe a reflexão que cada atitude individual reverbera a todas as pessoas, e tal material como o plástico, se faz necessário o uso consciente e inteligente desse item – que degrada-se em 400 anos – e que pode ter uma vida útil prolongada. “Quando uso o plástico, ele não é um elemento vivo, diferentemente da madeira, que é um material vivo e que a natureza se encarrega de modelar. As características do plástico se assemelham as do metal, podendo ser modelado, higienizado e que pode perfeitamente ser usado na produção de outros itens. Isso é uma atitude que precisa ser para agora. O futuro é agora, já temos ilhas de plástico que se acumulam e sabemos que temos uma solução para isso”, salientou Reis.
A base do campo de pesquisa do Paradas, além da coleta e transformação do plástico em itens que dialogam com o local, ou seja, usados em praias (raquetes, pranchas de mão), envolve a análise dos tipos de plástico a serem aplicados conforme cada tipo de polímero. “Além da pesquisa e da produção de itens (adquiridos por meio de canal direto via redes sociais), que são utilizados como mobilizador de educação ambiental, também damos palestras em escolas e empresas, que também têm grandes problemas em lidar com os seus resíduos. Mobilizamos toda a cadeia, afinal a sustentabilidade permeia todas as disciplinas”, frisou em sua fala.
Após a palestra, Marcel Lapa, CEO da Green Credit Ecosystems, empresa parceria do Paradas, esclareceu os meios mais conhecidos e perspectivas em finanças sustentáveis. Do currículo, com passagens que foram da área de fisiologia até as atividades atuais, que envolve as finanças ESG. Na visão de Lapa, essa jornada é o principal player do mercado. “É preciso que as empresas entendam que o ESG é também sinal de lucro. Mercado de carbono não é algo distante, mas a capacidade de mitigar e lidar com essas emissões de forma sustentável, mas sem perder a lucratividade”, frisou em sua fala. Ele ainda enfatizou outros critérios que vão além do crédito de carbono, como a conformidade de Normas Regulamentadoras, a exemplo da NR-1, atualizada recentemente e que trata de saúde mental e riscos psicossociais.
Descrição de Escopos, cálculo de emissões de gases de efeito estufa (GEE, por meio da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima – UNFCCC), e o equilíbrio entre mercado regulado e voluntário também foram destaque na apresentação do especialista. “Quando entendo que estou fazendo projetos alinhados com ESG, não os vejo como despesa, mas como incentivo econômico. Quanto mais eu penso nos impactos do meu negócio ao meio ambiente, mais oportunidades eu encontro. Tudo é economia”, sublinhou.
E isso não é à toa: o especialista ressaltou uma pesquisa em que o ESG direciona 99% da tomada de decisão dos investidores no Brasil. “A tecnologia também é uma aliada nessas operações. Nossos clientes, a maioria do agronegócio e da agricultura, também está focada em mensurar como suas pegadas ESG podem beneficiar outras áreas, como a agricultura familiar. Isso é Triple Bottom Line (TBL) ou tripé que une Pessoas (Social), Planeta (Ambiental) e Lucro (Econômico)”, afirmou.
Questionado sobre como os indicadores ESG podem ser aplicados nas pequenas e médias empresas, Lapa disse que mesmo com as barreiras, “é possível se adaptar e adequar conforme a realidade delas. Ter interesse já é um começo”, arrematou.
Já Thaissa Garcia Gomes, sócia do Albuquerque Melo Advogados, trouxe ao público o primeiro modelo nacional de padronização ESG (Ambiental, Social e Governança) – com base na ABNT PR 2030, sendo considerada a chave para um ESG mensurável e juridicamente segura. “O interessante dessa norma é que ela tem em si um mapeamento, levando elementos de discussão dentro das atividades das empresas. Essa provocação tem como, consequência, tirar planejamentos do papel, com passo a passo dos níveis de maturidade em que a corporação se encontra nessa jornada”, iniciou Gomes em sua apresentação.
Lançada em dezembro de 2022, a Prática Recomendada (voluntária) tem como foco padronizar conceitos e diretrizes ESG, orientando empresas a implementarem práticas sustentáveis, focando no alinhamento com a Agenda 2030 da ONU e na avaliação de maturidade em ESG, de maneira comparável, auditável e mensurável. A advogada salientou ainda a importância do envolvimento dos C-Levels para adequar e impulsionar os compromissos ESG.
“A jornada é contínua e é preciso ter em mente quais assuntos as empresas estão maduras em relação do meio ambiente e identifica-las na materialidade do negócio. Não basta só olhar o hoje, mas os impactos para as gerações futuras. Quais partes estão sendo impactadas?”, provocou Thaissa Gomes, que em seu currículo teve passagem na mineradora Vale.
Ela exemplificou a norma é aplicada juntamente com as comunidades do entorno do negócio, por meio de canais de comunicação e conscientização. Esse diálogo é pertinente para a manutenção e progresso nas operações, e vai da população aos colaboradores da empresa. Para ela, entender os impactos ambientais que as empresas provocam são essenciais para um diagnóstico de como está a empresa – do fluxo de caixa à reputação diante da sociedade.
“A equação muitas vezes vem de um momento de crise: após os impactos negativos que a empresa provoca em uma comunidade, é aí que ela começa a se remodelar. A norma é um meio de determinar a materialidade de forma antecipada, mas, principalmente, que forneça caminhos para decisão. É também uma base de auditorias, de cumprimento de licenciamentos, o mercado exige isso. Também é sobre escolhas e, principalmente, pessoas”, afirmou.
Perguntada o cumprimento de normas, a depender do tipo de contrato a ser assinado, é possível que os termos presentes nessa Prática Recomendada, estejam também em cláusulas. “Não podemos ignorar a força que a ABNT PR 2030, especialmente nas grandes empresas, que contam com culturas de compliance, e que podem colocar essas planilhas em seus relatórios”, respondeu.
Painel de encerramento (íntegra aqui)
Com o foco em deixar aos presentes uma reflexão sobre o futuro com o foco no agora, o SITEC Ambiental 2026 encerrou sua edição com uma rodada de palestras proferidas por mentores e líderes engajados na gestão ambiental moderna. O objetivo foi proporcionar um momento de reflexão e compromisso, no qual os participantes não apenas ouviram as considerações, mas foram ativamente convidados a colaborarem para moldar o futuro socioambiental do setor. Conhecimento, habilidade, inovação e atitude em prol do fator humano na gestão ambiental das organizações foram as fórmulas apresentadas pelos palestrantes para garantir a sustentabilidade real a partir desta edição do evento.
Essa parte foi iniciada com o Prof. Dr. Fernando Codelo, pós-doutor pelo IPEN/USP e especialista em Gestão Ambiental (FSP/USP), Engenharia Química, Criatividade e Inovação, fazendo um panorama entre o ano de 2026 até 2050. Em sua participação, Codelo destacou as diferenças entre gestão e alcance de sustentabilidade. Uma dessas formas é o atendimento aos requisitos normativos, a exemplo das ISO 9001 (Qualidade) e ISO 14001 (Ambiental), as quais, em fase recente de atualização, trazem orientações em que são mandatórias a comprovação de responsabilidade ambiental e sustentável.
Na oportunidade, o professor esmiuçou essas normas e como elas são essenciais para o futuro sustentável das organizações. “Hoje, para obter um financiamento, são exigidas documentações de ações contra as mudanças climáticas. Alguns países também estão exigindo se o produto que a empresa fornece é ambientalmente responsável. Quem não está a par disso, ficará para trás”, alertou Codelo.
Conhecimento e adaptação às mudanças
Outro ponto que gera cautela envolve os impactos na saúde pública, restrições químicas e, inclusive, com o papel dos engenheiros na modelagem de inovações tecnológicas e métodos criativos para modernização do saneamento e gestão socioambiental. “A instabilidade climática está norteando o presente das empresas. Ela está impactando a cadeia de suprimentos, tornando setores vulneráveis e também temos outros agravantes, como a estagnação de empresas que resistem em aplicar esses novos conceitos e se adaptar às mudanças”, ressaltou na apresentação.
“As normas ISO têm em seu escopo a mentalidade do risco e consideram metas de descarbonização, com evidências objetivas de como esses riscos podem impactar o meio ambiente e também o meu negócio. Vale ressaltar que sustentabilidade não mais uma opção, ela deve estar inserida nas operações e em todas as equipes. Não é presa em um departamento, em um documento, mas adaptada e inserida no contexto da empresa. Isso também vai ao encontro do conceito CHA: Conhecimento, Habilidade e Atitude. O que pega não é a norma, mas é a atitude da empresa diante desse desafio”, frisou.
Atender a realidade da Indústria 5.0 (mais humana, sustentável e resiliente), bem como as auditorias de transição, digitalização e inovação aberta são as ferramentas e próximos passos rumo a 2050 de maneira sustentável, na perspectiva do professor Codelo.
Dr. Luiz Fernando Núbile Nascimento foi o próximo a falar. O especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários – IBET e sócio-coordenador na Faragone Advogados Associados, provocou os presentes sobre como o compliance pode ser efetivo, especialmente nas pequenas e médias empresas. “Dados apontam que 97% das grandes empresas têm um departamento de compliance (PwC), mas e nas pequenas e médias? Quais critérios que a sustentabilidade, como exigência global, as PMEs podem se beneficiar, diante de tantos contextos como regulação, previsão legal e viabilizá-la em seus negócios?”, questionou em sua apresentação, destacando, a Constituição de 1988, que cita a proteção da vida, o que inclui a sustentabilidade, ou seja, todas as pessoas, empresas e governos precisam estar em consonância ambiental para conformidade do presente e do futuro mais resiliente.
Para o especialista, não é possível a sustentabilidade empresarial sem a sustentabilidade ambiental. “A partir dessa leitura, é possível sugerir ferramentas customizadas conforme o andamento do negócio e que chame mais atores para estar em conformidade, não somente em relação às normas, mas em usá-las para melhoria das organizações, independentemente de seu tamanho”, finalizou em sua apresentação.
As atividades foram concluídas com as palavras de Aron Belinky, doutor pela FGV e referência em ESG, atuando na criação da ISO 26000 e nos diálogos da Rio+20. Ele iniciou sua fala sobre a dupla materialidade, ou seja, a de “Impactos” e da “Financeira”, com foco na própria na sigla desse conceito, tão utilizada atualmente. “Antes, o conceito ESG estava mais atrelado às empresas do setor de finanças, a partir do momento em que a sustentabilidade foi misturadas em fatores mais macros, mais práticos, houve inclusive um movimento anti-ESG, com dilemas sobre utilizar essas práticas dentro dos negócios de um modo geral”, esclareceu em sua fala.
Valorização do Fator Humano
Belinky escreveu recentemente um artigo (FGV, 2025) que propõe expectativas de retorno, no balanço de impactos versus financeiros nessa dupla materialidade. “Há várias razões para uma empresa agir ou não do modo mais sustentável e há inúmeras gradientes dentro desse contexto, que vai desde lógicas de curto prazo até mais amplas de médio e longo prazo. Existem normas que exigem indicadores que discriminam a materialidade financeira para orientar investidores e as demais ações ESG feitas na organização e que ficam no report como suplemento”, frisou na apresentação desta edição do Sitec Ambiental.
Ele também endossou as semelhanças entre ESG Básico e Agenda 2030 e também suas discrepâncias: “Dizer que utiliza os critérios ESG para o atendimento das ODS é absurdo, porque são critérios muito mais profundos, pois não cobrem toda a agenda de desenvolvimento sustentável. Partes interessantes e partes interessadas são o princípio da materialidade financeira, que recorta o business case em sustentabilidade”, alertou.
Perguntado em qual “lado” as empresas precisam encontrar na dupla materialidade, o primeiro passo, segundo o especialista, está em mensurar os impactos, mapeando-os, inclusive checando quais barreiras para alcançá-las, podendo chegar a ambas ou apenas um dos lados, ou seja, financeiro ou impacto.
Todos os palestrantes foram enfáticos no fator humano como solução para superar essas barreiras. Fomento de ações de conscientização, estudos sobre as operações, e, principalmente, converter dados em práticas tangíveis, gerarão pessoas mais engajadas, resilientes e cientes que as ações no momento presente são fruto para vislumbrar o futuro.
“Não postergar e não procrastinar”, apontaram os especialistas. Esses são os erros que não podem ser cometidos pelas empresas em um mundo em constante mudança, em suma.
No encerramento da programação do SITEC Ambiental 2026, Douglas Venditti, diretor da NS Group, responsável pela organização do seminário, ressaltou a importância do evento e a dinâmica positiva que foi criada nos dois dias de palestras, atingindo o objetivo maior da iniciativa: compartilhar conhecimentos. “A partir desta edição vamos continuar os trabalhos visando ampliar as abordagens e contribuir, cada vez mais, com as boas informações junto ao público interessado e proativo no desenvolvimento da gestão sustentável nas empresas”, concluiu.
Com o tema central “A jornada da sustentabilidade que transforma esforços e investimentos em propósito”, o SITEC Ambiental ocorreu nos dias 18 e 19 de março, das 10h às 18h, no Centro de Convenções Frei Caneca, na capital paulista.
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Por Keli Vasconcelos – Jornalista