flashback, 31/12/2017, 23:50.
Mesmo sendo tão ligada a tecnologia e por alguns anos ter tido computadores como seus melhores amigos, Yura adorava pessoas, principalmente pessoas felizes, uma de suas coisas preferidas na vida era conversar e dar risada, gostava também do álcool e de música, e mesmo que uma festa fosse nada mais do que a junção de tudo aquilo, deixa-a desconfortável, talvez fosse o excesso de pessoas, álcool e música, talvez ela gostasse de tudo isso apenas na medida certa.
Com uma taça na mão e obrigando-se a manter um sorriso nos lábios, Yura estava em meio a uma rodinha de conhecidos da KRSA, todos ali pareciam estar se divertindo e a garota precisava se esforçar para achar graça das piadas que não faziam o menor sentido e os companheiros riam de forma exagerada, para participar dos assuntos mesmo não conseguindo entender completamente as palavras alheia… Em certos momentos Bug precisava desviar sua atenção, aquilo estava exigindo demais dela e era necessário dar um pequeno momento de descanso para sua mente.
Foi por isso que passou os olhos pelo local, não procurava ninguém, apenas olhava para os amigos que estavam ali com outras pessoas, relaxando um pouco a cada sorriso conhecido. Quando viu sua colega de quarto se surpreendeu por não ter percebido a presença dela antes, já que estava consideravelmente perto, em uma mesa de jogo, mas o que mais lhe chamou a atenção foi sorriso desta, que por alguns segundos trouxe um sentimento de paz imenso a Yura. A partir daquele momento, quase instintivamente, e cada vez com mais frequência, Ahn espiava Circe em busca do que tinha lhe feito tão bem, mesmo que rapidamente.
Quando percebeu a expressão da mais nova, momentos antes de se afastar da multidão, Bug exitou em segui-la, tinha acabado de perdê-la de vista quando seus pés começaram a se mover, não estava segura na decisão, mas seu corpo parecia agir por vontade própria, seus passos eram firmes e com certa urgência. Por sua cabeça passavam mil pensamentos diferentes, talvez Sehwi tivesse ido encontrar alguém, talvez quisesse ficar sozinha… Mas Yura viu os olhos dela naquele momento, não entendeu o que podia ter acontecido, mas algo estava errado. Não sabia para onde ela tinha ido, mas por aquela direção poderia ser para os quartos.
Ao chegar na porta pensou em bater, mas a outra poderia nem estar ali, por isso abriu a porta com calma, também não queria assustá-la se estivesse. Ao ver Circe encolhida no chão, Yura entrou no quarto e fechou a porta, seu coração pulava no peito, não sabia por que estava tão preocupada, não sabia o fazer. Ajoelhou-se perto da garota, fez menção para tocá-la, mas recolheu a mão - Circe-yah - disse com a voz mais gentil possível enquanto colocava a taça, que só então percebeu ainda carregar, ao seu lado - O que aconteceu?
Mesmo com os sons que vinham da porta, Circe continuou de cabeça baixa, talvez o outro colega tivesse esquecido algo no quarto e provavelmente não se importaria com a coreana ali. Os olhos marejados piscaram várias vezes assim que sua audição foi invadida pela voz tão doce de Yura, um arrepio em sua nuca foi o suficiente para lembra-la de tudo que a garota causava em si, a confusão mental, o coração disparado... e o nervosismo exacerbado que a impedia de mentir. Seu medo, considerado por ela mesma como vergonhoso, era algo que a acompanhava a vida inteira, os fogos a lembravam os tiros ouvidos durante as perseguições que sofria, um passado que ela odiava lembrar.
Uma sequência de suspiros marcaram a tentativa de parar as lágrimas que escorriam de seus olhos, odiava ser vista em seu estado mais frágil, tanto como sabia que era impossível expulsar Bug dali, faltava apenas quatro minutos para o show de fogos. Estava encurralada. — Depois eu volto pra festa, não se preocupe. — a voz foi abafada pelo cobertor, não conseguira pensar em nada melhor para dizer.
No fundo, Circe sabia o quanto queria a companhia de Yura, embora odiasse admitir que, apesar de tudo, a hacker transmitia segurança e conforto, coisas que a coreana nunca se deu o luxo de ter. Nem mesmo em casa, seus pais adotivos, apesar de serem muito carinhosos, despertavam em Sehwi um estado de alerta, constante suspeita, desconfiança.
Sua mente estava quase entrando em transe, aqueles devaneios apenas estavam tomando seu tempo, distraindo-a do que realmente importava: preparar seu psicológico para o pior. Mesmo com todas as pequenas coisas que fizera, nem mesmo as roupas largas eram capazes de transmitir de acalmar Circe, ela estava mais tensa do que nunca. Os olhos fixos no relógio em seu pulso transmitiam todo o desespero, três minutos.
Ainda hesitante, retirou o cobertor de seu rosto, e, somente então percebeu o quão próximas estavam. Mesmo com a visão turva, Cho sentiu seu coração falhar uma batida, até sem nitidez nos detalhes, Yura era a garota mais linda que a órfã já vira em toda a sua vida. Não somente naquela noite, em que provavelmente a hacker passou horas se arrumando, mas todas as vezes que se encontraram, cada vez mais teve essa certeza.
Perdeu a noção do tempo, quanto mais olhava para a outra, mais alheia ficava a tudo que acontecia, como se fosse hipnose. Somente voltou a si quando ouviu outro estouro, único e antecipado, mas já o suficiente para fazer Sehwi pular. Após um grito baixo, reclinou-se, a fim de afundar seu rosto na curva do pescoço alheio, lutando contra as lágrimas que insistiam em rolar pela sua face, apesar de estar com os olhos fechados o mais forte que conseguia.