O frio não a incomodava - na realidade, era até agradável. Vestia um casaco azul grosso por cima das roupas delicadas, meticulosamente ajustadas, sem um amassado ou mancha. Naquela manhã específica, Lisbeth sentia-se desconfortável dentro de casa. Num impulso - coisa que nem sempre ocorria - saiu. Trancou todas as portas e janelas, para evitar que Félix fugisse e fechou a porta atrás de si, escutando o estalido que indicava que estava trancada.
Esquecida como era, não se lembrou de levar consigo a única coisa que evitaria que ela se perdesse - seu mapa. Quando notou que ele não estava em seu bolso como pensava, já estava longe de casa e pensou que não valeria a pena voltar para buscá-lo. Assim, decidiu continuar com a caminhada.
Deveria ter voltado quando percebeu como fazia frio. Mesmo sendo grossas, as roupas que usava certamente não eram o suficiente para aplacar o frio que crescia mais e mais conforme avançava nas andanças sem rumo. Alcançou uma espécie de montanha. Não estivera ali antes, ela sabia. O lugar não parecia seguro – se escorregasse, poderia cair e se perder numa queda interminável. Não se lembrava de ter andado tanto.
Quando deu por si, estava pisando num pequeno monte de neve. Estranhou. Já não havia parado de nevar...? Seus pensamentos foram interrompidos, no entanto, quando uma imensa figura ergueu-se diante de si. De olhos arregalados, a ruiva encarava o monstro, duas vezes mais alto que ela, que se aproximava. Não se parecia com nada que já tivesse visto antes, com longas garras que, mesmo à distância, pareciam perigosamente afiadas, e um hálito quente que parecia ter cheiro de sangue. O medo a paralisou no lugar, incapacitando-a de correr como provavelmente deveria ter feito.
Sequer notou o rapaz de cabelos azulados até que ele entrou em ação. Assistiu, assombrada, a coragem do garoto que, sozinho, empurrou a terrível criatura da borda da montanha. Ela caiu, chocando-se vez e outra na montanha durante a queda com terríveis baques.
Assustada como nunca estivera antes, a garota não esboçou qualquer reação quando ele caiu no chão, de frente para ela. Tentou respondê-lo, mas as palavras pareciam entaladas em sua garganta; abriu e fechou a boca diversas vezes, sem conseguir de fato emitir ruído algum.