𝖉𝖗𝖞 𝖆𝖓𝖉 𝖉𝖚𝖘𝖙𝖞
task #2: mist blur - dry and dusty | 07/01 | with Kayer TW: Sangue, sufocamento, feridas, menção a suicidio.
Se não fosse o odor insuportável que infestava a cidade, Blair teria admirado o grande nevoeiro negro que se mesclou com a noite. A híbrida que antes tinha um compromisso envolvendo Abby e Hope pelo bairro arborizado de Limbum, agora se via sem planos pelo cancelamento.
Acostumada com as sombras, Langdon não se espantava com a proporção da névoa que se espalhava, entretanto, não era estúpida. Pelos últimos acontecimentos sabia que bom sinal não seria, pelo menos não ao ponto de se por a experienciar o mistério repentino, deixava essa função para os asnos que ali arriscariam. A idéia de seguir para o apartamento de Kayer surgiu assim que se viu sem mais responsabilidades, como já havia se tornado de praxe as visitas noturnas ao híbrido, nem tratou de avisá-lo. Ele já a esperaria.
Tratando-se da umbracinese que dominava não se demorou para gerar um negrume esfumaçado acobertando a si dos pés a cabeça, para que assim se deslocasse para Edenis. Mais precisamente para a região dos prédios de um conjunto de tijolos avermelhados, onde Kayer residia. Tola havia sido a híbrida ao pensar que, de alguma forma, suas próprias sombras a protegeriam da bruma que absorveu Empathica. No decorrer do teletransporte se viu perdendo a sanidade, não conseguia distinguir mais o que era real ou não, e por mais que tivesse o corpo vergado ao chão, a consciência sucumbia ao abismo ilusório.
O ímpeto de uma claridade fez com que a mestiça experimentasse um deja-vu. Se viu a frente de traços masculinos que já era familiarizada. A barba que ornamentava a mandíbula marcada e o semblante sério que era perdido com facilidade em um curvar de lábios. Era Kayer.
“Estamos juntos.” Duas palavras que ao serem repetidas, fizeram com que Blair caísse em si sobre o que sentia.
Feito hipnose seu olhar não se desvencilhou ao dele. Estava feito brasa e não compreendia como a singela existência daquele indíviduo a deixava deslumbrada. Era algo a mais. Arrebatador e Blair que sempre fora fiel às próprias emoções estava de uma vez por todas entregue. Clamava pela sensação ardente que se instaurava ao fundo do âmago apenas ao vê-lo.
Suspirou liberando todo o ar que havia preso aos pulmões e no que desvencilhou o olhar por uma piscadela, tudo já estava diferente. Sob um olhar de julgamento, uma sósia da híbrida se fez presente no lugar do homem que antes estava ali. Movimentou-se primeiro com as mãos, tendo a sua cópia a repetindo. Até que essa parou, num riso nasalado e um tanto irônico brandou:
“Medíocre.” Um sorriso sádico surgiu nos carnudos do seu reflexo.
Se esforçou para rebater porém sentia como se as cordas vocais estivessem presas, a garganta estava seca e a sensação de sufocamento a invadiu. O reconhecimento do tormento fora imediato. Além da escassez na respiração, sofria ao sentir rasgos pelo peitoral que dali não se faziam presentes apenas o abalo da ardência como se sangue estivesse sendo arrancado.
Ameaça. Descontrole. Imoralidade.
Afortunada pela ira, temia a si mesma. Era sua maior inimiga. A sinfonia do caos era o que fazia de Blair ser ela mesma. Se deliciava com cada detalhe que se aproximasse de uma anarquia, como se pudesse orquestrar com maestreza o caos na humanidade sem nem ao menos respingar em si. Entretanto, a repulsa corroía por toda a derme ao concluir o ponto que teria alcançado. Esse que a deixava sem sobra alguma da humanidade que a restava, infestando-o do mais puro ódio e levando-a ao fim. Tornando-se o caos, mesclando-se ao que seria sua essência para que assim desfrutasse da perversão completa.
Grunhiu com a garganta arranhada, a amargura se manifestou na boca da híbrida ao experienciar o mais profundo pavor. Em um acesso de fúria avançou na sósia. Queria destruí-la, mesmo que significasse um suícido. A repugnância por si só a deixava descontrolada. O seu reflexo se divertia em risadas altas, como se quisesse que aquilo acontecesse enquanto a híbrida a golpeava.
Entre espasmos Blair despertou. A tremedeira a tomou por inteiro e a cidade continuava escura. Estava suja, sangue ressecado misturado com a imundice empoeirada da calçada. Os braços, a clavícula e o rosto estavam com diversos cortes de pequenos para médios. O busto ardia, a saliva estava salgada pela mistura do plasma que empoçava a lateral do lábio inferior.
Processando o que estava acontecendo, Langdon se levantou. Em imediato o coração saltou ao ser contaminada pela preocupação de como Kayer poderia estar. A destra caçava o chaveiro pelo bolso, os dígitos desesperados para escolher a chave certa e assim adentrar o prédio. Ela cambaleava, como se sua emoção estivesse a dominando - e realmente estava. Estava aflita e mesmo que exausta sentia a necessidade de encontrar o homem, queria não se prender aos maus pressentimentos mas já era tarde, estava desolada.
Ao abrir a porta do apartamento entre arfadas, o encontrou imóvel. O plasma trilhava em gotículas lentas pelos braços do híbrido até despencarem ao chão. Langdon teve os batimentos ainda mais acelerados ao presenciar aquela cena. As pernas travadas a impedindo de se movimentar, paralisada pela a angústia e o temor de vê-lo de frente.
– Kayer. – Grunhiu abafado e soltou a maçaneta.
Mesmo abalada conseguiu se aproximar com rapidez e urgência. A blusa que antes era branca estava com uma mancha ensanguentada. A mandíbula estava tensa ao apertar dos dentes por vê-lo machucado. O chamava e ele não respondia, estava imerso na ilusão e Langdon só o via sangrar cada vez mais. Os machucados mesmo que não profundos, faziam com que Blair sentisse ânsia. Assistia o homem ser torturado sem nem ao menos poder ajudá-lo e aquilo a perturbava. As mãos tocaram o rosto masculino com os dedos pressionados nas bochechas como se suplicasse apenas pelo gesto para que ele conseguisse sair daquilo o quanto antes.
















