Nunca conseguiam se encontrar. Tantos compromissos ainda inadiáveis. Ou era uma paixão menos forte do que se pensava. Talvez fosse por essa coisa da vida que vai depurando a ansiedade em paciência e furar a rotina só pra ver o outro ia se tornando coisa cada vez mais rara. Quando der a gente se vê. É só marcar. E nunca marcavam. Mas hoje não havia desculpas boas o suficiente e como ele marcara em um lugar perto do trabalho, vencera a preguiça que subordina as paixões em desencontro e resolveu dar uma chance.
Como sempre, chegara antes. O viveiro estava cheio de pássaros coloridos. Era certa moda na cidade a criação de grandes viveiros públicos, depois foi passando a moda, mas este permanecera. Grande e decadente. Os pássaros eram sim cheios de cor, mas de uma cor pálida, apagando-se quase a vida nas penas. Como ninguém renovasse a quantidade de fêmeas, era de se perceber que aos poucos os pobres periquitos iam ficando sem par, inférteis.
Ele demorava. Vez ou outra uma criança passava, olhava para os pássaros ali presos, esboçava alguma fascinação, mas vendo que nada faziam os bichos além de viverem, logo iam embora esquecendo dos animais cacetes em busca de alguma transcendência que só a infância permitia. Os velhos se consomem em si mesmo: sós.
Olhava o relógio, sem aflição. Quando perdera o gosto pela ânsia? Quando se tornara náusea seca o frio na barriga que precedia um encontro? Era tão mais interessante assim o viveiro com seus pássaros decrépitos? Nem olhava pra trás pra ver se ele viria. Se não viesse, bem, já estava ali mesmo, nada se perdia: nem alegria nem tristeza podem ser dadas assim do nada – do nada só vem o nada. Como quem nos agradece por algo que não fizemos, e respondemos – de nada. Não por nada, não porque não peço nada em troca, mas porque nada fiz de fato: obrigado por nada. Nada obrigado. Ninguém é obrigado a ceder. Ninguém é obrigado a sofrer por quem não merece. Mas de tanto sofrer se calejava e se tocasse nos dedos agora sem nenhum tremor ou suor pensaria que se tornara uma pessoa insensível.
Mas era um dia bonito. Fazia sol e o jardim era verde. Os pássaros não cantavam. Então era inútil um dia bonito se os pássaros não cantassem. Um excesso da natureza que ia de encontro à afinação oposta: a carência. E muito e pouco criavam essa sensação de intermédio que é pior que o de mais e o de menos, gosto de remédio no céu da boca.
Então ele não viria, pensava impaciente. Não por conta de querer vê-lo. Já começava a sentir certa antipatia pelo rapaz, odiava gente que se atrasava. Não, não por querer vê-lo, juro! Era só porque poderia agora estar em casa fazendo tantas coisas. Quais mesmo?
Concentrava-se então no viveiro para não cair na tentação de pensar. Tinha aquele dom para imaginar coisas: ninguém gosta de mim; ele não viria mesmo, não seu lugar eu não viria; que absurdo alguém querer me encontrar… olhava o viveiro.
Vai ver era só isso: ele perdera o ônibus, por isso o atraso ou qualquer outra desculpa. Aceitaria na hora. Embora queimasse em fogo o estômago, tinha azia por atrasos. Porém sempre havia a possibilidade de o passeio ser agradável, até poderia esquecer-se do contratempo. Que diferença fazia? Depois iria pra casa, tiraria o outro da cabeça, ficaria em casa se sentindo ao mesmo tempo culpado por não gostar do outro e conformado por saber que ele não gostou de mim mesmo. Aquele desconforto diante do olhar inquisidor dos outros.
Se ele gostasse de mim seria pior, pensava, pois sentiria certa necessidade de gostar do outro, como se só pudesse ser gostado antes de gostar: nunca poderia escolher. Só sendo escolhido poderia abaixar as armas e ceder a um beijo que não era bom, mas era o que tinha. Então teria que viver sempre na espera de alguém que o tivesse antes, só para que ele pudesse ter depois? O amor vem com o tempo, diziam os antigos. Quanto tempo? Olhou o relógio.
Dez minutos. Atraso razoável para pessoais normais. Para ele era uma eternidade. Insiste tanto e quando aceito não vem. Mas porque o medo agora? Também gostara dele, não? Talvez fosse por isso. Por saber que já gostara tinha aquele gosto estranho amarrando a língua, como se só de gostar não pudesse provar. A boca repulsava. Engolia em seco, distraíra-se da distração e se pegou olhando pra longe, vendo se ele vinha. Repreendeu-se mentalmente, olhou novamente o viveiro.
Só agora reparava verdadeiramente nos pássaros. De fato eram todos machos, podia ver pela coloração típica. Gostava de pássaros, quando criança queria ser ornitólogo. Não passou no vestibular. Desistiu da ideia. Fez Administração e agora trabalha para uma grande empresa que não seria nunca dele: um cargo pequeno, mas confortável, dava pra viver. Ainda assim guardava na memória coisas assim: a coloração dos periquitos distingue o macho da fêmea: ninguém diria que ele, tão sisudo, fosse capaz de uma delicadeza dessas.
Chegou mais perto. As pessoas continuavam a passar. Deu a volta no viveiro, agora via as crianças de trás das grades quando elas se afastavam dos passarinhos e dele. Dali pôde observar o que não reparara do outro lado. Num mesmo poleiro, lado a lado e bem próximos, dois periquitos se aninhavam. Sem ansiedade sem reputações perdidas os dois anciões se tocavam na claridade. Não por necessidade, como uma desculpa, mas como porque quisessem. Outros pássaros se distribuíam solitários pelo viveiro: não se tocavam. Então a ausência de fêmeas induzia à indecência, diriam as senhoras e os senhores mais recatados: então vamos botar mais fêmeas para curar os pobrezinhos. Ou não. Ou talvez fosse a ausência das fêmeas que permitisse a descoberta de um si mesmo, dentro do viveiro, outro viveiro: como se mais preso estivesse, de repente, por não precisar provar nada pra ninguém, se libertasse: livre dentro de um viveiro os dois periquitos se embalando na iminência da morte.
Por que mais que tudo do que antes isso doía tanto?
Não reparou quando o homem se aproximou e parou diante de si no lado oposto do viveiro. Os dois enjaulados de si. Separados. Olhando-se entre as grades, partidos. Tudo parecia perdido. Só que os periquitos cantaram: no silêncio dos outros periquitos solitários, o casal de periquitos cantou. Inspirados por aquele canto, os outros pássaros começaram a cantar e o canto se espalhou pelo viveiro e do viveiro para os pássaros nas árvores numa algazarra. O outro sorrindo deu a volta e estendeu a mão amigável. Prazer, prazer, disseram-se.
Caminhavam juntos em direção ao fim da rua, o viveiro cada vez menor, enquanto o outro explicava o motivo do atraso. Era bom conversar assim, sem medo da próxima palavra, sem medo de dar o próximo passo e por isso mesmo calculando tudo e deixando tudo naquele tom artificial que tem os periquitos nos cartões-postais. O verdadeiro tom era aquele já um pouco gasto que vira no viveiro ao som do canto vindo daqueles pulmõezinhos fracos. E daí que olhassem e comentassem, e daí que não durasse mais que um dia. Os pássaros cantavam, agora valia a pena fazer sol então.