Atiro longe, mas que caia perto
E sem sair do lugar, deixo correr
Sem nada plantar, te espero colher
O fruto de algo que ainda é incerto
Eu te encontro no dado viciado
Jogo de sorte, teimo em te escolher
Repito apostas que não posso vencer
Pois tu és sempre o número errado
Ah, mas teimo bem mais que margaridas
No seu jogo de bem ou mal me quer
Onde pétalas arrancadas salpicam feridas
Mas, se porventura, um dia o acaso quiser
Meu coração há de ritmar as batidas
E de tudo sufocado, lhe darei o que puder
(ajuda da laura moreira, meu xuxu)
Cada ser humano guarda como coisa mais preciosa a primeira coisa que escuta assim que sai do ventre materno; desde que a humanidade se conhece como humanidade, a primeira coisa que se lembra é uma frase que o bebê escuta assim que nasce. A sentença seria a primeira coisa que o sujeito escutaria de sua alma gêmea; por isso, assim que a criança começava a falar ou a escrever, era comum vê-la não tirando tal frase da boca ou do lápis. Assim era com Helena, que escrevia em todos os cantos a frase que se lembrava melhor do que qualquer outra coisa: "Ei, está tudo bem?", sabendo com certeza que sentiria-se extremamente feliz assim que ouvisse aquelas palavras saindo por entre os lábios do seu futuro marido.
No entanto, não era a mesma coisa com a sua irmã mais nova; seus pais estranharam quando descobriram que a primeira palavra que Olívia falou fora um "Mamãe", e não a frase de sua alma gêmea. Logo, as perguntas começaram a encher os ouvidos da garota - ora, mas qual foi a primeira frase que ela havia escutado quando nasceu? Na primeira vez que escutou essa pergunta, sentiu seus olhos pequenos debulharem-se em lágrimas ao notar que não havia absolutamente nada em sua memória que fizesse a lembrar de algum vestígio da tão estimada primeira sentença.
A medida que o tempo foi passando, Olívia aprendeu a deixar isso de lado. A catarinense era uma garota bonita; tinha fios ondulados e escuros que cresciam até abaixo do ombro, sua tez era queimada pelo sol e os olhos esverdeados praticamente sumiam quando seu sorriso largo mostrava-se. Assim, seu celular era cheio de contatos e sua colega de quarto já começava a reclamar das vezes que ela trazia alguém para o pequeno apartamento que elas dividiam no centro da cidade. No entanto, suas relações nunca eram douradoras - como uma mulher no auge de seus vinte e poucos anos, quase formada em biologia, vários daqueles em sua volta já haviam encontrado os autores de suas primeiras sentenças; mas Olívia sempre acabava sobrando.
A morena sabia que, em algum lugar ali no fundo, havia uma romântica que sonhava em ter ao seu lado alguém do mesmo jeito que todos os outros. Quando ela foi no casamento de sua irmã mais velha, não pôde evitar sentir seu coração se despedaçar em milhões de pedaços ao acreditar com convicção que nunca teria tais momentos. Para falar a verdade, a garota não acreditava que era a única - mas sim que haviam outros por aí que não tinham almas gêmeas também e fingiam que escutaram alguma coisa ao nascer. Agarrava-se a esse pensamento de qualquer jeito, sentindo que, se não fosse por isso, poderia acabar enlouquecendo.
No entanto, esse tipo de coisa não deixava a vida de Olívia parada. Naquele dia, ela havia combinado de ir ao cinema com Giovana, sua colega de quarto. Tinha em suas mãos um pacote de pipoca tamanho grande e um refrigerante. Qualquer um que a visse notaria que estava extremamente desconcertada; faltavam menos de quinze minutos para a sessão começar e a amiga não respondia suas chamadas. Respirou fundo enquanto segurava-se para não descontar o nervosismo na pipoca, caminhando até sua poltrona designada - seus olhos alternavam entre a tela do celular e a porta da sala do cinema, esperando qualquer sinal da amiga. Quando as luzes se desligaram, Olívia desanimadamente afundou na cadeira, perdendo as esperanças.
Parecia tão irritada que só notara que havia alguém ao seu lado quando sentiu o cotovelo da desconhecida encostar no seu. "Ei, esse lugar está ocupado!", a garota soltou, redirecionando o olhar para a loira desconhecida que arregalara os olhos ao fazer contato visual. Na escuridão da sala, Olívia não entendia porquê aquela estranha estava gesticulando freneticamente para a catarinense. "O que você está fazendo? Eu não consigo ver nada.", sussurrou para não incomodar os outros que prestavam atenção nos trailers.
Desapontada, a garota de fios claros disfarçadamente pegou o celular. Enquanto Olívia tentava processar o que havia acabado de acontecer, começou a notar que as feições alheias eram realmente bonitas; o brilho baixo vindo do celular atingia a face afilada da garota, realçando os lábios finos que curvavam-se num sorriso inabalável. Logo, a garota de olhos grandes entregou o celular para a outra, que chocou-se quando notou as palavras escritas na tela. "Eu sabia que te encontraria em algum momento. Muito prazer, meu nome é Lara e eu sou a sua alma gêmea". Lara ficou de queixo caído quando viu a garota por quem tanto esperava levantar-se da poltrona e sair correndo para fora da sala do cinema.
aqui escrevo, por meio de um texto altamente descritivo e poético, aquele excedente de poesia que você deixou para mim.
319 palavras
Eu posso dizer com toda certeza que este será meu pior texto - e o porquê é bem simples; pois ele se trata de você. Ninguém jamais imaginaria que eu não seria capaz de descrever com maestria o que eu sinto por você. Sempre tive facilidade com a expressão; posso tecer os contos mais encantadores com minhas palavras, podendo trazer sentimentos inimagináveis com meus versos. Cada poesia que eu dominei foi melhor do que a outra, mas quando o assunto é você, minhas mãos suam, minha garganta seca, minhas pernas tremem e eu esqueço de qualquer vocábulo que já possa ter, em algum momento, passado pela minha cabeça. Quando senti aqueles teus olhos tranquilos encontrarem-se com os meus, eu tinha convicção que não havia Shakespeare ou Camões que pudesse descrever qual fora aquele sentimento que passara pelo meu primeiro fio de cabelo até a ponta do meu pé; estremecendo e marcando tudo com aquele seu sutil riso que levantava o clima nas situações mais inesperadas.
Sempre fui orgulhoso, nunca pensaria que estaria procurando em você a poesia necessária para descrever esse esdrúxulo sentimento. Enquanto coloco as letras no papel que eu realmente sinto que só em você o eu-lírico faz sentido, o sujeito acha seu predicado e todos os pingos são postos nos is. As vezes, penso que desaprendi a própria língua portuguesa depois que te conheci; nessas horas, sinto-me um educando de volta na escola, pois já não me lembro mais do bê-a-bá. Desaprendo a rimar toda vez que deslizo meus dedos pelos seus fios, esqueço da figura de linguagem correta a cada instante que selo seu rosto e realizo os erros gramaticais mais ridículos sempre que você resolve me envolver nos seus braços.
Sinto-me um pobre amador quando se trata de você. Ah, como eu queria poder escrever-te um romancezinho que seja! Diga-me, como faz para teres tanta graça num simples piscar de olhos? Daria todos os Lusíadas para poder compor teus versos, carregados de todo o sentimento que eu jamais poderia transferir para o papel. No entanto, de folha amassada a folha amassada, eu irei procurar nas suas entrelinhas o segredo para tamanho encanto - pois tenho certeza que só poderei escrever minha obra-prima quando as penas forem suas mãos, as tintas forem suas lágrimas e as inspirações forem seu riso.
The ceiling of the Temple of Hathor at Dendera, decorated with exquisite astronomical representations. It is one of the best-preserved temple complexes in Egypt.
original: https://www.spiritfanfiction.com/historia/cafe-9856379/capitulo1
adaptado pra ser original. os nomes são fictícios.
Nunca gostei de café. O gosto amargo da bebida forte que ardia na minha garganta não era do meu agrado. As pessoas ofereciam-me torrões de açúcar para adocicar o sabor insuportável, mas eu só aceitava por educação.
De amargo, bastava eu. Minha vida nunca assemelhou-se ao doce sabor do açúcar que eu usava para encher o meu café. Jamais pude compreender o prazer que os outros tinham a chegar a serem viciados em tal bebida maldita, aqueles que a bebem sem nem ao menos precisarem ficar acordados. Bebem pelo puro prazer de sentir o gosto puro do grão.
Mas quando eu vi você, Vicente, bebericando o amargo do café preto da lanchonete da universidade, minha mente não pôde entender como alguém tão doce pudesse apreciar algo tão desagradável, mas assim você fazia. Era como alguém que, enjoado de tanta glicose, vinha experimentar algumas lamúrias amargas para esquecer a ânsia. Talvez até mesmo aqueles que têm sorriso de alcaçuz sentem saudades das lágrimas de café.
E mesmo com uma vida tão doce, você vinha até mim com seus lábios doces de caramelo pedir meu beijo amargo de cacau. Nunca reclamei do jeito que você trazia um pouco de açúcar para minha vida sem gosto. Na verdade, eu implorava por cada vez mais, como uma criança pedindo por doce.
No entanto, assim como só saboreamos dos doces na curta sobrimesa, tudo que é bom dura pouco. Você foi embora, levando consigo a cafeína que me deixava revigorado e feliz para continuar por mais um dia. Por um momento, pude entender aqueles que se viciavam em tal substância, pois agora eu não tenho mais o seu gosto. Ah, Vicente. Se você soubesse como o café perdeu o gosto sem você por perto...
A bebida tornou-se amarga novamente, mas eu continuo me enchendo de cafeína para não dormir e não mais ter os doces sonhos onde você vem até mim com seus lábios cor de morango e com sabor de caramelo. Eu me sinto um viciado que já não tem mais condição de pagar por seu vício, porque depois de levar todo o açúcar, o café amargo foi a única coisa que você deixou para mim.
original: https://www.spiritfanfiction.com/historia/de-que-cor-e-o-seu-amor-11556989/capitulo1
adaptado pra ser original. os nomes são fictícios
"Ei, psiu."
"Helena, de que cor é o seu amor?", você me dizia enquanto eu passava os dedos pelas suas mechas multi-colores. Era mais uma daquelas tardes em que nós apenas nos sentávamos num canto do quarto para assistir um filme ruim - do qual nós, diga-se de passagem, não prestávamos nem um pouco de atenção. "Hm?", respondi, um pouco atônita. Estava perdida demais nos pensamentos. "Do que você está falando, Olivia?".
Você levantou-se para me olhar, aqueles pequeninos olhos animados olhando para mim enquanto eu te encarava como se estivesse sem saída. Você gostava de me deixar assim. "O seu amor.", você repetia, "De que cor é?". Pisquei repetidas vezes enquanto degustava cada sílaba, tentando achar o sentido que fora perdido. É claro. A sua sinestesia as vezes trazia essas perguntas estranhas de vez em quando. Respirei fundo e encolhi os olhos numa expressão pensativa, buscando para a melhor resposta.
Nunca entendi muito bem esse seu mundinho, sabe? Não sei porque você acha que meu nome tem um cheiro doce e diz com tanta convicção que ele é roxo. Pensei até em dizer que ele era roxo por isso, na verdade. Mas você me deixa de um jeitinho que eu não sei explicar; eu viajo junto contigo. Mordi o lábio inferior.
Seria o meu amor um tom radiante do vermelho, como dizem naquelas poesias românticas e tradicionais? Sinto que talvez ele seja um pouco assim, quando você passa aquele batom bonito que deixa seus lábios irresistíveis e passa seus braços pelo meu dorso, dizendo que não me quer longe de jeito nenhum. Sim, nosso amor é quente e confortável como a cor vermelha.
Mas ao mesmo tempo, há quem diga que azul é a cor mais quente. Eu me sinto meio azul quando você diz que vai embora e derrama lágrimas toda vez que temos alguma discussão e ninguém dá o braço a torcer, por mais que a saudade seja tão enorme quanto o oceano, e talvez tão azul quanto ele. No entanto, sinto ele um tanto amarelo quando você me leva para andar naquele seu parque favorito, cheio de girassóis. Ele fica amigável; aconchegante.
Esse sentimento também pode ficar meio verde quando você me pede pra fugir no meio da noite e fazer alguma coisa totalmente inesperada. Tenho certeza que ele fica tão esverdeado quanto as folhas que eu tento com todo cuidado não pisar em cima. Mas ao mesmo tempo, ele é tão cor-de-rosa quando você sorri para mim e fala alguma frase melosa que parece ter sido tirada de um conto de fadas!
Ah, Olivia... Por que você me faz essas perguntas tão difíceis? Movi meus olhos para seu rosto, admirando-o para finalmente entreabrir meus lábios para dizer algo que foi pensado por alguns minutos. "Como eu posso começar... Meu amor é vermelho, Oli. Mas ele também é verde, azul, violeta, aníl, laranja e amarelo. Ele é como essa chuva que não nos deixa sair, mas também é como o Sol que briga com as lágrimas do céu por espaço. Mas no final, sempre aparece um arco-íris radiante para nos deixar feliz.", passei a palma de minha mão pelo seu rosto. "Ele é complicado, mas é bonito. Ele é de todas as cores do mundo, porque nenhuma delas pode sozinha explicar o que eu sinto de verdade. E eu vou continuar adicionando todos os tons à minha lista, certo? Assim, nesse caminho meio turvo e colorido, a gente vai procurando o pote de ouro no final dele. Mas eu tenho certeza que o meu está aqui do meu lado, meu pequeno arco-íris.", eu finalizei encostando meus lábios nos seus com uma sensação que pagaria todos os potes de ouro do mundo.
original: https://www.spiritfanfiction.com/historia/eclipse-11557105/capitulo1
adaptado pra ser original.
Quando os primeiros raios de sol começam a adentrar pela minha persiana, beijando meus olhos como quem diz bom dia, sinto que é hora de levantar. Acredito que meu único motivo para me soltar das presas do meu cobertor é que seria extremamente desagradável deixar meu sol esperando. Ele teve todo o trabalho de passar as mãos quentes pelos meus cabelos, entende?
Sempre fui uma pessoa meio noturna. Minhas janelas sempre foram cobertas por cortinas espessas para que a luz do dia não pudesse encontrar-me. Não gostava de passear por aí sem longos casacos; aqueles de pele sensível não podem se expor tanto. Acho que essas coberturas sempre fizeram parte de mim de certa forma. Mas até mesmo a Lua, em todo seu reinado noturno, dá seu espaço para que o Sol possa respirar e sorrir e você me deu toda sua luz na medida certa.
Acho que foram os meus olhos que não se adaptaram muito com aquela claridade toda; por isso me assustei. Mas quem não poderia se derreter pelo seu sorriso caloroso? Todas as vezes que você me abraçava lentamente, como se tentasse entender aquelas crateras que toda lua tem, eu me cedia um pouco mais.
Assim como a Lua, eu tento reproduzir mesmo que um pouco do seu brilho. Não vim com essa capacidade maravilhosa que você tem, esse charme intrínseco entre suas pequenas explosões. A escuridão vai embora quando você entra. mas pobre de mim, que estou sempre rodeada de sombras. Queria eu ter seu sorriso sempre para me encorajar a deixar de lado o medo do escuro e dormir tranquila.
Prometa-me nunca parar de me iluminar, sim? Eu, como uma singela lua, não conseguiria viver sem seu calor todos os dias. Sinto como se fosse congelar todas as vezes que você vai embora. Fico encantada com tudo que você faz; mas meus meros olhos humanos não são o suficiente para contemplar toda sua beleza. Todas as vezes que sinto seus lábios quentes contra minha pele fria, eu me pergunto porque você, um astro de tamanha magnitude, não procura outro do seu nível.
Sou uma mera lua, um mero admirador. Tenho medo do escuro, pois já acostumei-me com seus olhos iluminando meu caminho para que eu possa dormir em paz. Você varre para longe toda a escuridão, e eu sei que você estará aqui sempre; mesmo nos dias mais nublados, eu procurarei por você entre as densas nuvens que parecem ter inveja de como nosso eclipse é tão bonito.
original: https://www.spiritfanfiction.com/historia/beija-flor-12774328
adaptado pra ser original. os nomes são fictícios.
Alice sempre foi uma rosa exigente - nesse jardim adornado com as mais graciosas flores, ela não se bastava com as abelhas quaisquer a quem lhe vinham pousar, curiosas pelas suas pétalas de todos os brilhos. No entanto, não havia cúpula do mais forte vidro que poderia protegê-la daqueles encantos, tão vivazes quanto o bater das asas de um beija-flor.
A Sousa era alguém diferente - sua plumagem nunca foi vista tão bonita e não era qualquer flor que era para seu bico. Talvez foi por isso que Alice se interessara tanto por aquela pequena ave, que apesar de mais nova, parecia ser do tamanho do mundo. Lembrava-se muito bem do seu primeiro encontro: no jardim.
"Você realmente gosta dessas coisas, né?", a mais nova disse.
"Tanto quanto a Lua gosta das suas estrelas.", ela sorriu. Sabia que Letícia cursava física, então não podia perder a oportunidade.
"Engraçadinha.", Letícia se virou para a outra. "Você está fazendo isso de novo."
"O quê?", encolheu as sobrancelhas.
"Olhando para mim.", sorriu. "O relatório é sobre os beija-flores, não sobre Letícia Sousa."
"Ah.", a garota parecia envergonhada. Ajeitou os óculos e voltou a olhar para o bloco de notas. "É mesmo."
Mas Alice sabia que, no fundo, a garota era tão atraente quanto os colibris. Seu bico saía de flor em flor, provando de variados pólens - mas nunca se mantendo no mesmo lugar. Letícia era nômade de sentimentos. Não havia gaiola que trancafiasse aquela ave agitada, muito menos seu coração que, de tantos batimentos, não tinha tempo para dedicar-se a uma só rosa.
E a mais velha tinha essa ideia antes mesmo de deixar seu pólen ser provado por tal garota. Mas é difícil não cair por tais encantos e seus acúleos não eram o suficiente para protegê-la daquela revolta de emoções, e num segundo ela se foi, como o bater de suas asas.
Num segundo, nada disso mais importava. As carícias tão doces quanto mel e a sede de Letícia por mais daquela flor tão atrativa fazia Alice quase acreditar de que, afinal, um beija-flor poderia gostar da mesma rosa - e voltar para ela no final do dia. Mas logo aparece uma tulipa mais bem perfumada.
"Beija-flor não vive de uma rosa só, Letícia.", Alice contava, num tom angustiante. "E você nunca se contentou com o meu pólen."
Não havia o que responder. Letícia sabia que era verdade, e dessa vez ela não estaria lá para se alimentar das lágrimas doces da loira. Só restava ajeitar as roupas coloridas e ir embora daquele jardim; procurar flores novas. Mas a rosa que Alice era nunca tornou a brilhar - não havia borboleta que chegasse perto do que aquele beija-flor fazia.
"O maior erro de uma rosa é se apaixonar por um beija-flor, Alice."
original: https://www.spiritfanfiction.com/historia/sazonal-13394628/capitulo1
adaptado pra ser original.
22/06/2018
Do topo daquele castelo, a princesa não conseguia avistar muita coisa. Sentia o vento frio correr pelas janelas e deixar seus lábios arroxeados, mas não sabia de onde ele vinha. Aquela sensação congelante que sempre invadia até os ossos do sangue mais quente a deixava curiosa para ver além do horizonte; todavia, mesmo quando apoiava-se na ponta dos pés, tudo que via era o mesmo cinza abrangendo todo o céu que encostava aquele tal reino. Ser uma princesa não era tão emocionante.
Uma hora a alteza cansava e retornava para a gélida cama, da qual nem ao menos se incomodava mais. Aquela sensação já a tomava há muito tempo, o tal olhar frio tornava-se cada vez mais azul todo dia que acordava. Muito tempo se passava até que o Sol abrisse seus olhos para lentamente abraçar todo o reino, trazendo um calor estonteante por pouco menos de seis meses; mas para a menina, era suficiente para que sentisse-se abalada.
Quem é do frio não se acostuma fácil com essas coisas — ela recuava a cada passo que aquela que vinha do Sol fazia para aquecê-la mais um pouquinho. Verão e inverno não se misturam, um ícaro sempre se machuca no final. Mas era difícil para a loira não cair nos encantos daqueles raiozinhos de luz, que traziam para sua existência sem graça alguma vida pela primeira vez. Tudo era tão novo que a assustava.
A ensolarada nunca se importou com cortesias — chegava invadindo o local, sem pedir por horário ou permissão. A princesa se incomodava com isso, mas no final do dia sempre acabava pedindo para que a visita ficasse um pouquinho mais, apenas para que sentisse seu calor por mais um momento. E ela sempre aceitava. Acolhia a menor em seus braços quentes enquanto sussurrava em seu ouvido as palavras mais belas. Poucas pessoas derretiam o coração da majestade; aquele Sol tinha sorte.
Mas o Sol é sazonal e a morena nunca podia ficar. Ela ia atrás de outros cantos do mundo para tocar com seus dedos cálidos e reconfortantes; de Maria à Letícia, a princesa sempre se perdia. As lágrimas voltavam a congelar quando não encontravam a luz aquecida da amada e a loira tornava a se sentir presa naquele castelo do qual chamava de presídio.
Não havia o que fizesse a morena esperar mais alguns momentos enquanto apertava a loira mais perto, o sonho sempre acabava. Quando a alteza não sentia mais como continuar naquele inverno, o gélido inferno chegava. Mesmo tão distante, todos os dias a loira tentava esticar a ponta dos seus dedinhos para encostar aquele Sol tão reconfortante que já estava do outro lado do mundo. Não ligava para a estúpida história de ícaro, seus olhos já não aguentavam mais as lágrimas petrificadas que neles repousavam. Pelo seu Sol, a realeza aguentaria que suas asas derretessem. Tudo que ela mais queria era voltar a derreter nos braços daquele verão, longe de qualquer neve. Coração nenhum aguentava-se sem o Sol.