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Quando ele chegou, os fantasmas se foram. Por um tempo, eles se foram.
Fazia tanto tempo que não havia luz: diante da ausência da vida, o que sobra? Aqui simplesmente não havia mais nada, pra dizer o mínimo - há muito tempo, as trevas tomaram conta.
Lembro-me especialmente de, poucos dias antes, completamente enebriada por álcool e nicotina de três cigarros, chorar copiosamente implorando por misericórdia: se alguém ainda tivesse me ouvindo, pelo menos uma vez me atendesse. “Por favor”, disse, “deixe que seja eu, pelo menos uma vez, me deixa ser feliz. Eu não aguento mais tanta escuridão.”
Cansada, dormi entre os soluços e entregue ao maior vazio que já senti na vida. Não havia mais nada.
Não havia mais esperança. Eu entregara as pontas - tão desacreditada quanto convicta, me convenci que não havia amor para mim nessa vida.
Mas, naquela noite, surpreendentemente, não choveu. Eles me ouviram.
Meu amor. Eu acho que finalmente te encontrei. Entre todas as (im)possibilidades, eu te achei, de verdade.
Nesse momento, deitada no chão da sala enquanto suspiro seu nome entre sorrisinhos, me dei conta disso de novo. Eu pedi tanto por você, por toda a minha vida. Eu rezei por você, rezei com todo o meu coração para que seu caminho se abrisse até mim.
E você veio. No momento certo.
A verdade é que eu me vejo em você. Eu entendo seu humor, seus gostos, seus desejos. Eu gosto das mesmas coisas, falamos a mesma língua - para além do idioma, nas entrelinhas, no subtexto, na interpretação.
Parafraseando aquele trecho do Morro dos Ventos Uivantes que agora eu finalmente entendi: eu não sei do que as almas são feitas, mas a minha e a sua são a mesma substância.
Nós somos duas partes de uma alma só.
Depois de tanta escuridão, eu realmente não sabia mais se reconheceria o que era luz.
Abri a mão e finalmente soltei a corda pra me jogar no abismo, quando senti sua mão me segurando. Exatamente como eu desejaria ser segurada. Com toda a força e cuidado que eu precisava.
No momento certo - no momento em que eu me desvencilhei de tudo que me segurava numa esperança rasa, você me levou mais ao fundo.
Quando eu soltei, quando finalmente virei as costas para tudo aquilo que não me servia, você iluminou meu céu e me salvou do destino amargo e solitário de Ofélia.
És a realização de todos os meus sonhos. A resposta de todas as minhas orações - alguém finalmente me ouviu.
Por fim, deitei a cabeça no travesseiro e suspirei, aliviada, sincera e completamente (como nunca fui na vida) feliz.
Finalmente, alumiou.
@motoshima // insta @motoshma, segue?
Eles chegam até mim feridos, quebrados, muitas vezes até fragmentados. Eu limpo suas feridas, costuro os machucados, troco seus trapos e, quando finalmente tudo se cicatriza, eles se vão para viverem tudo de melhor - com outra pessoa.
Eventualmente voltam, sim. Novamente feridos, não por maldade, mas por instinto: sabem que a única fonte inesgotável é a minha - e eu, novamente, abro a porta e trato seus machucados, pra, numa manhã, encontrar a cama vazia. De novo.
Mais tarde descobri sobre a capacidade de regeneração das águas que regem meus caminhos, o que tornou o processo de compreensão sobre tal situação quase etéreo, afinal, era por um bem maior - eu havia sido escolhida para portar tal sina.
Uma destinação tragicamente amarga, é verdade: sempre me sobraram os resíduos - as roupas sujas, o sangue seco nas ataduras e o cansaço, enquanto eles se vão para, finalmente, serem plena e estavelmente felizes em outros abraços.
Por outro lado também é verdade que nenhum deles chegou a mudar nada em mim. Eles nunca conseguiram sequer arranhar a superfície de quem eu sou, por mais destruída que fique após sua partida: afinal, a capacidade de regeneração é viva em mim, e eu também me curo.
Por muitos anos me questionei em que momento mudaria, endureceria, me tornaria uma pessoa menos receptiva, finalmente trancaria a porta ou secaria a fonte. Mas isso nunca aconteceu, e temo que nunca acontecerá.
Minha péssima memória, combinada com a capacidade infindável de perdoar, me fizeram ser quem sou, uma fonte inesgotável de amor.
Escrevo e apago. Estou incompreensiva até para mim mesma.
Nem minha melhor amiga me responde mais. Ou ela só responde quando o assunto é sobre ela?
Não sei.
Estranho esse local de novo. E de novo. E de novo.
Eu nunca vou aprender? Nunca vou endurecer?
Mudaram os nomes. O local é o mesmo. O sentimento é o mesmo. A vontade de morrer é a mesma. O impulso é o mesmo. Autodestruição.
Eu não melhorei nada?
Ele conversou comigo por alguns dias e ganhou minha confiança (e meu coração) o suficiente pra me fazer acreditar que ele me queria para toda vida.
Agora, três semanas depois, eu choro copiosamente porque ele ignora minhas mensagens.
O que eu fiz de errado? Ele me vê como um pedaço de carne?
Que pergunta idiota.
Óbvio que vê.
Há algo de muito estranho sobre fim de coisas que, na verdade, nunca existiram. Na verdade, o a dor do fim não é sobre a coisa, mas do seu potencial, da expectativa de um futuro. É a dor da criança que morre, do broto que não vingou, da relação que nunca virou um relacionamento.
É como matar a própria esperança.
Eu acho que no fundo eu acreditava que se eu te amasse muito, se te amasse com toda a minha força e com toda a capacidade do meu coração, eu te convenceria que eu era boa. Pensei que poderia te curar com meu amor e dedicação e que você olharia pra mim como algo além de um corpo. Achei que te amando você se amaria o suficiente pra me amar também.
Mas não foi o suficiente. Nunca seria. Amor nenhum te curaria.
a dor é íntima. por mais que você escreva sobre ela, ela continua sendo sua, só, sua.
cr.
porque eu sinto como se parte de mim já tivesse desistido, mas a outra continuasse aqui, fingindo que ainda quer algo. e eu choro, porque nada faz sentido e tudo em mim dói.
Ela era terra fértil, arborizada, viva, florida. Ele chegou, plantou, colheu, desmatou e queimou.
Por fim, se foi dizendo que era um “defensor da natureza” e que não queria destruir nada.
Não sobrou muito.
Meu consolo é saber que, em alguma realidade, você me escolheu. Em alguma realidade você me viu e não houve outra opção. Em alguma realidade você não me deixou ir embora. Nessa realidade eu sou suficiente, nós temos uma casa bonita com tons de cinza e preto e filhos felizes. Fazemos churrascos às terças e você me conta sobre seu dia quando deita na cama. Nessa vida eu sei e sinto todo o amor que tem por mim. Você me admira e eu te admiro.
Há uma realidade em que você não me deixou ir embora.
Eu tenho certeza que, em algum universo paralelo, sou eu quem segura sua mão e ri das suas histórias.
Me consola saber que eu sou feliz, pelo menos em uma realidade.
Sempre achei que vivia buscando pelo amor, mas acho que eu só quero gostar de estar viva.
Eu faria qualquer coisa para manter algum deles apaixonado por mim, porque enquanto eles estão interessados, eu sinto que faz sentido existir.
Quando eles se vão - “quando”, e não “se”, porque eles sempre vão - eu perco a vontade de viver de novo e o vazio toma espaço.
E aí voltam as crises de choro, as noites sem dormir, os dias sem comer, as horas e horas checando as redes sociais pensando “será que ele já deixou de me seguir?”
E eu sinto falta - não necessariamente deles, mas da vontade de viver que me davam. Dos dias ensolarados de esperança: “agora vai dar certo” eu pensava, com fé.
Assim, já tentei de tudo: empresários, músicos, ricos, pobres, inteligentes, burros, bem sucedidos e fracassados, mas eles sempre se vão com o sentimento em comum por mim: desprezo.
Será que sou tão ruim?
Ainda assim, é necessário sempre manter o coração ocupado pra me convencer a ficar viva.
Mudam os nomes, profissões, palavras, mas no fim, é só uma parte de mim lutando, na mais íntima e feroz das batalhas, para sobreviver.
E essa batalha eu sempre perco.
mas é que eu nunca fui do meio termo tudo que me alegra, me faz vivo tudo que me deixa triste, me quebra, me parte, me mata
a.
Depois de muito tempo no deserto, cheguei a um lugar com sombra e lindas, imensas, profundas e convidativas águas doces.
Agradeci ao “destino” e, com muita sede e esperança pela paz, mergulhei. Surpreendentemente (e mais rápido do que era possível imaginar), o que um dia foi um oceano se tornou poça, e depois, voltou à seca.
No começo até garoava - hoje em dia, nem isso.
O mais difícil foi aceitar que eu nunca deixei o deserto - o oásis era, na verdade, uma miragem - mas, apenas por conta da ilusão, eu para sempre carregaria a saudade de suas águas mornas.
Passei muitos dos meus dias me questionando se eu estava errada por sentir demais: perguntava ao terapeuta se essa minha consciência de mundo talvez tivesse me afastado da sanidade, quando, na verdade, eu deveria questionar os porquês dos outros não serem assim.
Hoje em dia as pessoas tendem a passar pela vida sem se permitir queimar: a pele, a membrana do coração, a memória.
Assim como utilizam de dezenas de camadas de protetores solares, por saúde, evitam também formar qualquer conexão mais profunda.
Até se relacionam, mas se negam a assumir que a existência de outro ser possa ser tão importante assim para suas próprias - e egóicas - vidas.
O resultado é a deficiência de vitamina D e emocionais absolutamente frios, desnutridos daquilo que mais nos aproxima da natureza.
Gente que não vê mais a beleza do mundo, e “já nem ouve as teclas do seu piano”. Não permite o corpo arrepiar por nada.
Quem sabe um dia olhem para trás e sintam falta da luz do sol (e do amor).. porque ambos - o sol e o amor - não resistirão por muito mais tempo.