FLASHBACK - 03 years ago. Washington DC, Virginia.
Enquanto parte de si reconhecia o método de tratamento em grupo eficaz em seu propósito de recuperar, ao menos de forma parcial, a sanidade de alguém; também acreditara ser um insulto ao seu intelecto. Cain havia retornado de além dos mares como um general do exército, medalha adquirida por seus anos prestados de serviço e, também, com uma pitada de influência paternal por ser de uma família de militares renomados. Ainda que o título o colocasse no topo da pirâmide hierárquica do exército americanos (e consequentemente do mundo visando a potência bélica estadunidense), tinha os mesmos traumas e problemas que soldados de patentes menores, incluindo civis comuns, cujo tratamento era feito naquelas rodas de conversa organizada por psicólogos ou religiosos ou os dois. O militar seguia recomendações principalmente médicas, sendo esta a única razão viável para Cain estar naquele lugar. De acordo com o que foi instruído, estava cotado para assumir um cargo de imensa importância no governo e, para isto, precisava se preparar mentalmente o quanto antes.
“Meu nome é Cain.” Em pé, o general se apresentou. Esperou que todos ali presentes o cumprimentasse de forma automática para continuar falando. “Tenho vinte e oito anos, sou militar desde os dezesseis; servi por doze anos o exército americano.” O grupo, principalmente composto por civis, lhe deu uma salva de palmas devido ao anúncio de sua profissão; militar, querendo ou não, era um ramo ainda apreciado em solo estadunidense. “Perdi minha mãe com dezesseis anos,” Evangeline não estava morta - ao menos ele acreditava que não -, porém referiu-se a ela como se estivesse. “Ela não suportava meu pai,” e nem a mim, “talvez foi por isso que ela decidiu ir.” As feições asiáticas de Cain estavam inexpressivas, as orbes negras de seus olhos fitando o psicólogo que liderava o pequeno grupo sentado numa roda. Era um assunto delicado para o Marshall, mas não deixaria transparecer nem um vírgula de seu sofrimento. “Você sente falta dela?” perguntou o profissional que sustentara o olhar do militar de forma destemida. Foi a única vez desde que se levantou na qual Cain mudou a direção de seus olhos. Seu maxilar se contraiu de forma visível e, antes de se sentar, disse num tom amargurado que mesclava-se com o veneno de uma raiva suprimida: “O que eu sinto não muda o que aconteceu.”
Sair de Orange Province era sempre uma faca de dois gumes. De um lado, ficava aliviada por se afastar da cidade que tanto lhe trouxe dor de cabeça. Do outro, havia os gêmeos pelo qual precisava estar observando visto que eles estavam lhe dando certos problemas. Infelizmente, Leona precisava fazer aquela viagem. O CRAIN’s MAGAZINES estava de pé a pouco tempo e precisava render o lucro esperado para que não ficasse no prejuízo. Para isso, alguns acordos e contratos precisavam ser fechados em Washington. A manhã foi regada de trabalhos como normalmente a mulher estava acostumada e depois teria um espaço livre até o jantar com alguns fotógrafos. Nesse meio resolveu por caminhar pela cidade quando seus olhos bateu nos dizeres de uma placa.
Desde o ocorrido com sua mãe e a separação de sua família que Leona vem vivendo ao redor de um muro criado por si. Nele só cabe seus irmãos e seu objetivo de vida, nada além. Alguns colegas próximos sempre lhe aconselharam a visitar um psicólogo ou até um grupo de ajuda mas ela sempre negou, atestando estar ótima. Mas estando ali, em uma cidade onde não conhecia ninguém, a curiosidade foi maior e com a cabeça baixa, Leona adentrou ao local devagar, tirando o óculos de sol para conseguir observar o salão. Era grande e estava cheio, todos sentados em uma roda. Para seu azar - ou que ela pensava que sim - ainda não havia começado então simplesmente escolheu uma cadeira e sentou, cruzando as pernas e os braços, como se defendesse a si mesma por sentimentos que pudesse sentir naquele momento. Pouco a pouco cada um foi expondo seus problemas até que foi a vez de um asiático. Suas palavras iniciais simplesmente não foram nada para Leona e apenas bateu palma por educação. No entanto, ao dizer que havia perdido a mãe fez com que a loira sentisse uma pontada já característica dentro de si, ainda mais depois sobre o fato dela ‘ter ido’. Poderia significar muitas coisas, Leona sabia disso, mas era como se enxergasse parcialmente no homem que provavelmente se perdeu no mundo sem a mulher.
Seus pensamentos estavam focados na história dele que não percebeu quando os olhos do psicólogo focam em si. “Nós hoje temos uma pessoa nova. Deseja se apresentar?” A pergunta a pegou de surpresa e negou logo com a cabeça. “Estou aqui só para observar. Não pretendo frequentar.” Ele não precisava saber que não morava na cidade. “As vezes, expressar-se só uma vez ajuda bastante.” Insistiu. Sabendo que não teria como fugir, a mulher revirou os olhos antes de levantar, ajeitando a saia lápis e o blazer que usava. “Meu nome é Leona.” Todos lhe cumprimentaram, indicando que precisava continuar. “Tenho vinte e dois anos e sou CEO de uma empresa montadora de revistas dos diversos tipos.” Nenhuma salva de palmas veio dessa vez, mas ela já esperava por isso. Seu trabalho não era valorizado até ter a revista nas mãos, elogiando a máteria e o conteúdo. Institivamente, sua mão foi até o cordão que usava, apertando o pingente entre os dedos. “Minha mãe tirou a própria vida quando eu tinha dez anos e pela minha família ser grande e meu pai virar um alcoólatra, eu e meus irmãos mais novos tivemos que morar com minha avó enquanto os mais velhos decidiram permanecer em casa.” Suas palavras no final foram nitidamente rancorosas pois o psicólogo lhe perguntou. “E você ainda se sente magoada com isso?” “Não. Eles fizeram sua própria escolha.” A resposta foi rápida demais para ter algum pingo de verdade e ao invés de sentar de volta, a mulher apenas atravessou o círculo a passos largos em direção a mesa de lanche, ouvindo ao fundo o homem dizer que fariam uma pausa. Ela precisava de um copo d’água ou então sufocaria com seus próprios sentimentos.