⊰ — 🔅 Se havia algo de que Mirabelle não gostava eram de todas as formalidades que envolviam ser da realeza, ela sentia como se tudo aquilo fosse outra maneira que encontraram de distanciar ainda mais os azuis do restante, como se o título que eles carregavam valesse mais do que qualquer resquício de humanidade que possuíam, por conta disso, sempre que possível e quando a situação lhe permitia, a australina insistia para que as pessoas lhe chamassem pelo primeiro nome e na primeiro oportunidade que tinha, logo já inseria seu apelido na conversa, além de deixar as pessoas mais confortáveis com a situação, parecia a maneira correta, afinal ela não saia por ai chamando as pessoas pelo nome de suas profissões. Os pensamentos da monarca foram interrompidos quando seu nome fora dito pela mulher a sua frente, fazendo com que ela piscasse algumas vezes, era quase como se a pronúncia fosse diferente de qualquer outra que ela já tivesse ouvido antes, Belle culpou o sotaque, provavelmente era apenas aquilo que havia lhe chamado a atenção, e não o fato de ser a outra o dizendo. - “Não acredito que haja necessidade para formalidades, você não está de serviço no momento e bem, eu estou apenas me divertindo como qualquer pessoa.” - assentiu com um sorriso doce e calmo nos lábios.
Apenas naquele momento Mirabelle se dera conta que em nenhum momento perguntara o nome da tenente, não o fizera sequer na noite anterior quando ela a pegou burlando o toque de recolher imposto pelo Instituto. - “Eu sou mesmo uma pessoa desatenta, sequer perguntei o seu nome na noite passada, me desculpe por isso Bella.” - balançou a cabela, mordendo o canto interno na bochecha, talvez ela precisasse controlar um pouco suas distrações, estava começando a esquecer de coisas importantes, como perguntar o nome das pessoas com quem conversava e ainda não conhecia. - “Seria um prazer acompanha-la, preciso mesmo parar de sonhar acordada por um momento e experimentar a cerveja americana que estão servindo, para garantir que as nossas continuam sendo mais saborosas.” - respondeu em tom de brincadeira, dando uma leve risada.
- “Sem regras o mundo seria um caos completo, maior do que já é até o momento, tenho certo apresso por elas, ao menos pelas que fazem algum sentido. Afinal, existem muitas outras que estão ai apenas para reprimir e controlar as minorias de maneira a suprir suas próprias necessidades egoístas.” - as palavras escaparam de uma só vez, sem que Mirabelle conseguia conte-las, por vezes acaba se esquecendo que podia acabar criando algum conflito por conta da sua maneira de pensar sempre em pró das minorias, especialmente os vermelhos. - “Me desculpe, eu não..” - baixou os olhos por um instante, sabia que o que estava dizendo era verdade, porém Belle se encontrava longe de casa, em RANU onde tudo funcionava de uma maneira bem diferente, e mesmo que não concordasse em certos momentos era necessário que ela segurasse a língua. - “O álcool tende a deixar as pessoas mais falantes e sugestionáveis a fazerem coisas que jamais se permitiriam realizar enquanto sóbrias.” - moveu os ombros voltando a sorrir novamente para a morena, a australiana não era de beber muito, mas também já tivera algumas épicas ressacas após algumas festas.- “Como se já não fossemos exaltados o suficiente todos os dias.” - revirou os olhos, logo ouvindo a voz da mãe em sua cabeça, lhe dizendo o quão grosseiro e deselegante era aquele ato, o que fez com que Belle se repreendesse mentalmente por isso. A pergunta da outra fez com que MIrabelle baixasse os olhos para o vestido que usava, passando a mão levemente pelo trecho em vermelho. - “Sim, foi a maneira em que consegui pensar para expressar minha opinião a cerca de certos assuntos, e ao mesmo tempo não dizer nada que pudesse causar algum descontentamento em outras pessoas, mas acho que não foi 100% efetivo, visto que alguns não ficaram muito felizes com a expressão do meu posicionamento político, enquanto outros sequer prestaram atenção neste detalhe.” - moveu os ombros sorrindo novamente, ela não se arrependia nem um pouco de sua escolha, o vestido representava muito mais do que uma simples vestimenta, nele tinham traços do que Belle acreditava e lutava.
— Touché. Comentara, em relação às palavras da princesa. Se assim ela desejasse, então Bella não iria ater-se às formalidades enquanto não estava exercendo seu cargo, devido à folga. O efeito do álcool não a deixou completamente bêbada, para tal coisa acontecer, exigiriam-se muito mais do que alguns copos do famigerado líquido azul que encontrara nas barraquinhas: sua tolerância ao líquido era alta. Mas a sua língua definitivamente estava mais solta e a consciência muito menos controladora do que normalmente. — Não há o que se desculpar, Vo... Mirabelle. Afinal de contas, foi eu quem lhe assustei escoltando-lhe de volta ao seu quarto. Normalmente, eu gostaria de dizer que não sou tão rígida assim, mas estaria mentindo se o fizesse. Ela brincou consigo mesma enquanto movia os ombros como se desdenhasse de suas próprias ações. Deu um passo na direção da australiana, contudo, sem invadir-lhe o espaço, mas suficiente para que pudesse enxergar com mais clareza suas feições e seu rosto.
— Há de se concordar com suas palavras, espero que não me leve a mal. Mas creio que ainda há muito a ser trabalhado em prol daqueles que tem menos condições por não terem as mesmas oportunidades devido à cor do sangue, gênero ou etnia. Às vezes é frustrante o fato de que não há muito o que nós podemos fazer. As escolhas estão nas mãos de outras pessoas, nas suas mãos. Dessa vez, deixou-se levar pelos pensamentos e ideais que não demonstrava com frequência, especialmente nunca perto de Lorsan ou de colegas do exército. A chamariam de subversiva, iriam destituí-la de seus cargos se o fizessem. Bella nunca enxergara isso como um ato de opressão, acreditava que serviam para manter à ordem e evitar que tragédias como as de Aspen acontecessem. Manter os radicais sobre controle. Mas quanto mais pensava no broche em seu bolso, na situação da própria família materna, cuja qual seu contato era extremamente escasso, quase inexistente, a sua ideia apertava-lhe e ela sentia-se titubear em relação ao que fazer. Importava-se com a nação, com as suas condecorações e suas conquistas no exército. Exercia poder ali dentro, tinha tudo por mérito próprio, mas só chegara ali porque havia seu pai, um azul, que propiciara-lhe as condições para que pudesse exercer seus méritos.
Contudo, antes de mais nada, tais pensamentos não deviam ser mantidos em sua cabeça por ora. Ela estava ali justamente para ignorá-los e retirá-los de sua mente. Ansiava por mais uma cerveja, para que nada que pudesse lhe incomodar retornasse aos seus pensamentos e se não fossem tais ideias, eram as memórias de guerra que a atormentavam fosse acordada ou dormindo. A pacificidade de estar em Alcatraz era o próprio incômodo, como se já não soubesse mais lidar com a socialização da vida real, fora das trincheiras. Respirou fundo, focando-se nas feições tranquilas de Mirabelle, em seu sorriso dócil e no fato de que apreciava não apenas sua aparência, mas aos pequenos momentos que a encontrara, sentira-se interessada na figura da mulher. — Mas pelo menos tendemos a relaxar com ele. E ainda espero que esteja afim de experimentar as cervejas americanas. Dessa vez, sorriu, permitindo-se desvencilhar dos assuntos que poderiam deixar-lhe incomodada. — Um protesto silencioso. Diplomático de sua parte, não sei porque lhe julgam, afinal, uma cor não machuca ninguém. E eu teria orgulho caso a princesa de minha nação me representasse, ainda que somente através de um pequeno ato de solidariedade. Não pode deixar de pensar em Lorsan naquele momento, lembrando-se do quão orgulhoso era devido ao azul que corria-lhe as veias. Não o culpava, era o que todos eram doutrinados a acreditar, mas de certa forma havia impregnado em si uma dúvida que não deveria existir e deveria deixar de ser o foco de sua noite. Dessa vez, então, mais uma vez tornou a exigir a si mesma que falassem de coisas descontraídas.
— Bom, eu gostaria de afirmar-lhe com extremo patriotismo e amor por todas as coisa produzidas aqui que nossa cerveja é a melhor, mas novamente seria uma mentira. A verdade é que eu não saberia lhe dizer, já que as cervejas importadas que bebi foram em raríssimas ocasiões. E em eventos formais, sempre preferem vinhos caros. Inclinou a cabeça para o lado com um tom divertido em sua face. Raras eram as vezes que deixava essa parte de sua personalidade exposta para qualquer pessoa, mas tinha certeza que tratava-se não somente do efeito do álcool em seu sistema, mas da própria companhia que tornava a situação mais agradável. — Podemos ir, então? A barraquinha fica pra lá, já decorei seu caminho. É o único local em que eu prezei o suficiente para retornar lá inúmeras vezes, se é que me entende.