Uma madrugada qualquer
Era só mais uma noite de festa no campus. Pietra já estava no fim de seu turno como estagiária na biblioteca da faculdade, quando sua companheira de quarto chegou distribuindo seu pior olhar. Verônica, tinha sido uma ótima amiga desde o primeiro ano, e as duas sempre saiam juntas. Pietra lembrava-se da época em que fora perdidamente apaixonada por ela. Amava seu cabelo, que mudava de cor a cada quinzena. Tinham sido amantes por um semestre, mas esse período tinha passado. Pietra ressentia-se por não ter avisado á Verônica da sua total inconstância.
-Você já está saindo pequena? - Verônica, tinha um tom irritado e tentou amenizar usando o apelido da época em que namoravam.
-Sim, já estava fechando. Vai pegar algum livro?
-Não, só queria saber se você vai à festa?
-Você poderia ter mandando uma mensagem. - Pietra sentia que Verônica não se conformava com o término. Tinha sido difícil, e as duas se vinham todos os dias e dormiam no mesmo quarto, o que dificultava ainda mais a situação. Mas, Pietra não via em Verônica alguém com quem ela queria estar, alguém já ocupava seu lugar.
-E qual é o problema em vir aqui ver você? - aquela resposta ríspida de Pietra a tinha machucado.
-Não. Nenhum. - Pietra, sentiu uma pontada de culpa ao ver o olhar de Verônica. Quando triste, Verônica parecia só uma menininha, e não a mulher forte e decidida que sempre passava pelos corredores com um ar de total confiança. - Mas você sabe que não gosto dessas festas.
-É, eu sei. Lembra do Halloween do ano passado? E vim te buscar aqui na biblioteca e… - Verônica, com seus belos olhos azuis, fitou Pietra intensamente, como se quisesse que ela sentisse todo fervor de meses atrás. Mas, Pietra não sentiu. Essa então, tentou usar de uma casualidade inexistente.
-Sim, fizemos essas mesas estremecerem. - sorriu sem humor. - Mas, foi há muito tempo.
-Nós podemos fazer o tempo voltar Pietra. Você sabe o que eu ainda sinto por você. - Verônica aproximou-se de Pietra que estava encostada em uma mesa. Pietra abaixou a cabeça.
-Não, nós podemos Verônica. Porque não há mais nada que me impulsione a fazer isso. Me desculpe.
-Não é possível que algo tão forte tenha sumido assim Pietra!
-Mas sumiu Vê. E não há nada que eu possa fazer. Nós somos muito diferentes, queremos coisas diferentes. - Pietra sentiu que Verônica ignorava todas as tentativas de explicação que ela dava.
-Eu sei que não foi algo que aconteceu do nada. Você estava ficando com outra pessoa, não estava?
-Não. Eu estava só com você, mas acabou. Você sabe que eu nunca acreditei que as coisas são para sempre.
-Eu não queria que fosse para sempre, mas não foi o suficiente. - Verônica pegou uma mecha do longo cabelo preto de Pietra e enrolou em seus dedos. Sentia vontade fazer isso todas as noites e isso era angustiante.
-Eu sei que é difícil para você aceitar, mas são meus sentimentos e eu não consigo mudá-los. - Pietra fitava o chão, pois não conseguia olhar nos olhos de Verônica. Ainda amava aquela garota, mas só como amiga.
-Eu sei que tinha alguém. Você, não terminaria assim comigo. Nós tínhamos algo forte. Quem era Pietra?
-Eu já te disse que não tinha ninguém. - Pietra não suportava quando alguém a chamava de traidora.
-Mas não consigo acreditar em você. Foi aquele cara do dormitório da frente não foi? - Ela já tinha visto os dois almoçando juntos nas últimas semanas.
-Não, eu não fiquei com ele enquanto estava com você.
-E agora? Vocês estão juntos?
-Nós estamos nos conhecendo.
-Ele tá dormindo com você? Como você pode estar transando com aquele cara?
-Eu não estou transando com ele! Mas se eu estivesse isso não é da sua conta. Nós não estamos mais juntas!-respirou fundo e continuou. - Eu nunca quis te magoar Verônica.
-Quer saber? Foda-se! Você nunca esteve inteiramente comigo. Eu sim te amei Pietra. Você não sabe o quão mal eu fiquei.
-É claro que sei. Mas talvez você não percebeu que eu também sofri quando percebi que não daria certo. Mas foi melhor assim. E eu me afasto de você por que sei que é mais fácil assim. Mas, se eu pudesse, eu queria ser sua amiga.
-Amiga? Eu nunca seria sua amiga. Eu não vou ser amiga de uma traidora como você. E sabe de uma coisa? Você não passa de uma puta, que dá para qualquer um. - Pietra viu Verônica sair bruscamente pela porta. Não podia ouvir aquelas palavras sem dizer nada. Saiu atrás dela.
-Verônica, você não pode dizer o que quer e sair assim. Volta aqui. - no exato momento que disse isso sentiu diversos olhares das pessoas que estavam no corredor. Todos ali sabiam da história das duas, e Pietra não se importava com o que diziam dela, mas sabia que Verônica odiava escândalos.Verônica voltou alguns passos para que não precisasse gritar.
-O que eu tinha pra falar pra você eu disse. Me deixa em paz. -Verônica queria terminar logo com a conversa para evitar os olhares, mas a voz de Pietra era forte e todos ouviriam o que quer que ela fosse dizer.
-Não é assim que as coisas funcionam. Você vai até o meu local de trabalho e diz o que quer, e ainda presume que eu vou abaixar a cabeça? - Pietra respirou fundo e olhou diretamente nos olhos azuis de Verônica. - Se ser puta é se entregar inteiramente aos sentimentos e emoções, então sim, eu sou puta. E eu fui ainda mais puta quando estava com você. Mas eu não sou como você que gosta de conforto e aceita as coisas como são. Eu busco o novo todos dias e eu espero de coração que você entenda que eu segui em frente.
-Continue seguindo frente então. Eu vou pedir transferência de dormitório amanhã. - e então se aproximou mais ainda de Pietra e disse em seu ouvido. - Às vezes você me dá nojo sabia? - e então saiu.
Isso foi pior que facas atravessando o estômago de Pietra. Não queria inimizade dela, só não tinha mais paixão e ela era movida a paixão nos relacionamentos. A pena era que a paixão sempre acabava rápido para ela.
Pietra olhou a biblioteca, trancou a porta e finalmente saiu do lugar. Começou a caminhar e pensar em tudo o que estava acontecendo. Ela devia ir à esta festa, beber e dançar um pouco, já que não devia nada a ninguém. Afinal o que poderia acontecer de tão ruim em uma festa?
***
Assim que chegou à festa Pietra se arrependeu. Nunca gostou de multidões e se sentia sempre sufocada. Mas ir para o seu dormitório seria pior. Verônica poderia estar lá e ela não queria brigar de novo. Se a visse na festa poderia ir para outro lugar, o espaço era grande o suficiente para as duas.
Resolveu dar algumas voltas. Havia gente bêbada por todo lugar e a música tocando era horrível. Já sabia que devia ter ficado em seu dormitório assistindo a uma maratona de uma série qualquer. Foi pegar uma bebida para tentar esquecer os problemas. Mas assim que virou-se para pegar um copo, viu Vitor. Ele era um cara misterioso, tinha poucos amigos e morava no prédio em frente ao dela. Tinha o conhecido enquanto ele escolhia um livro na biblioteca para as aulas de filosofia. Pietra se encantou no mesmo instante. Eles vinham almoçando juntos nas últimas semanas, mas haviam se beijado apenas duas vezes: uma vez na biblioteca e uma em frente ao seu dormitório. Ele levava as coisas muito lentamente, ao contrário de Pietra que vivia tudo intensamente. Mesmo assim, Pietra estava gostando desse novo ritmo, pois parecia que não iria consumir a paixão toda de uma só vez. E ela estava sem dúvida apaixonada por ele, era recente, mas com ela era sempre assim.
Decidiu usar uma tática diferente nessa noite. Não iria com tanta sede ao pote. Iria tentar ignorar ele por um tempo e depois procuraria por ele quando estivesse próxima do fim da noite.
E foi o que fez. Dançou, bebeu, esqueceu do que tinha feito e do que tinham feito para ela. Quando os alunos começaram a dispersarem para lugares onde poderiam ficar mais a vontade seus namorados ou ficantes, viu Vitor ir na sua direção. Ela dançava como em muito não dançava e sentia sua cabeça girar depois das várias doses de vodca. Percebeu que gostava da música que tocava e sentiu-se livre. Vitor estava usando uma jaqueta jeans e tinha o cabelo mais desarrumado que o normal. Pietra sentiu o desejo crescer dentro dela e sentiu-se aquecida com o toque gentil, porém firme de Vitor. Ele nada disse antes de puxa-la para um beijo.
Pietra se deixou levar e algum tempo se afastou para olhá-lo nos olhos. Vitor conseguiu ler todos os sentimentos escondidos em Pietra: dor, indecisão, vontade e paixão.
-Por que não vamos dar uma volta Vitor? - e então Pietra se soltou dele com um sorriso malicioso no rosto. Saiu em direção ao seu dormitórios e começou a subir as escadas. Parou no oitavo andar que estava completamente vazio. Vitor a seguia com um olhar instigante e curioso. Ela tentou abrir diversas portas, mas todas estavam trancadas. Tentou então a porta da varanda independente, e esta estava aberta. Sentiu um arrepio, eu vou mesmo transar em uma varanda?, pensou, e a primeira resposta que lhe veio em mente foi “Foda-se!”. Abriu a porta e observou que todas janelas dos quartos ao lado estavam fechadas. Encostou-se de frente para a grade e sentiu o vento frio vindo de fora. Sentiu as mãos de Vitor em sua cintura. Ele beijou a lateral de seu pescoço e ela gemeu baixinho. Ele desceu até a parte de trás de sua coxa e levantou a saia que ela estava usando. Beijou toda a extensão de sua perna esquerda e deu uma leve mordida na sua coxa. Ela gemeu e procurou por ele no escuro. Ele beijaram-se inúmeras vezes e mesmo com toda a ventania Pietra sentiu-se quente como nunca tinha estado.
Vitor estava incrivelmente atraído por Pietra, mas ela nunca tinha estado tão sexy quanto naquela noite. Pietra, nunca tinha se sentido tão vulnerável, mas nas mãos de Vitor ela sabia que era certo estar, afinal para ela, o sexo era feito de vulnerabilidade e confiança, os dois pontos fundindo-se, gerando o prazer que ela não conseguia explicar.
***
Ofegantes, algum tempo depois, os dois já estavam se vestindo. Fora a melhor noite de sua vida e ela nunca havia entregado-se tanto para alguém. Nem mesmo para Verônica. No instante que pensou isso viu uma luz acender-se no quarto ao lado da varanda. Apreensiva sentiu medo de que alguém pudesse vê-la. Vestiu rapidamente as últimas peças de roupa e saiu da varanda com Vitor atrás dela.
-Você já vai dormir? - Vitor olhava Pietra como se quisesse ler seus pensamentos.
-Sim, eu vou. Já passa das três da manhã e eu preciso acordar cedo para estudar. - sua voz era mais lenta e doce que o normal.
-Mas amanhã é sábado. - Vitor disse com um sorriso.
-É, mas tenho prova na segunda.
-Eu posso te ligar amanhã para combinar algo?
-Eu não sei… Eu não estou com cabeça para encontros. - Eu devo estar muito bêbada mesmo, pensou, como eu posso dispensar esse cara?
-Nós não precisamos namorar Pietra, relaxa. Eu sei que você não quer nada sério agora e eu respeito isso. Você sabe que eu não gosto das coisas rápidas demais, isso foi uma exceção. Uma exceção maravilhosa por sinal. - Vitor disse olhando nos olhos negros de Pietra que contrastavam perfeitamente com sua pele muito branca. Pietra sentiu-se corar.
-É eu sei que você não gosta. Mas acho que talvez... seja uma boa ideia você me ligar, para que a gente possa conversar, claro. Eu estou muito tonta para ter uma conversa minimamente razoável com você, me desculpe.
-Tudo bem. - ele sorriu e se aproximou para um beijo rápido que Pietra correspondeu. - Te ligo amanhã. Ou melhor mais tarde.
Pietra acompanhou com olhar Vitor sair em direção às escadas. Ele era magro mas tinha costas largas, que ela havia arranhado com vontade na varanda. Sorriu ao lembrar-se do últimos momentos. Subiu mais um andar onde estava seu quarto. Ela tinha se arriscado demais fazendo aquilo ali. Ela poderia ser expulsa do campus. Mas, no fundo, não se arrependia.
Encontrou seu quarto vazio e cama de Verônica arrumada. Sentiu-se satisfeita com isso e foi logo dormir. E então sonhou com Vitor a noite toda.








