dhriti & duman | flashforward!au
/ parte 1
Estavam correndo havia tanto tempo que Dhriti sequer sentia suas pernas agora, sabendo que apenas seguiam se movendo pelo mero instinto de sobrevivência. Os olhos dourados estavam, como sempre, concentrados e com o brilho malicioso e divertido de todas as vezes que se metia em situações de quase morte como aquela. De tempos em tempos checava a figura a seu lado, que tinha a maneira irritante de cutucá-la conforme corriam e ela obviamente o cutucava de volta, é claro. Podia ver o sorriso dele e de certo que sorria da mesma forma. Eram dois loucos, afinal e Dhriti não poderia desejar por algo melhor que aquilo. A dupla apenas parou ao acharem esconderijo dentro de um enorme armazém, lotado de caixas gigantescas de madeira, contendo obras, esculturas e até móveis. “Para um idiota fumacento você não é tão terrível como corredor...” Murmurou baixinho, cutucando o peito do homem. Sua expressão permaneceu severa antes que soltasse um riso contido, o puxando pela gola até que sua boca se colasse na dela. “Eu nunca escolheria mais ninguém em todo o mundo.” A fala foi soprada contra os lábios do homem, com os dedos afundando nos fios escuros alheios e os acariciando.
Assim que retomaram ao menos um pouco de fôlego, seguiram pelo labirinto de caixas. Estavam presos ali, mas o plano era tentarem subir o bastante nas pilhas para alcançarem as janelas altas e escaparem dali. Haviam combinado um horário específico com o restante da equipe e não podiam haver atrasos. “Vamos apostar quem chega primeiro, hmmm?” Provocou-o com uma piscadinha antes que os dois começassem a escalar. Claro que, em outras situações, seu amado idiota poderia muito bem virar maldita fumaça e subir tranquilo, mas todas as energias e forças de ambos estava gasta demais para qualquer magia. Seguiram então, usando o restante de força em seus corpos e puxando um ao outro quando desequilibravam, mas sem nunca pararem de subir. O topo de uma das pilhas mais altas foi enfim alcançado faltando poucos minutos para a hora marcada. Como a caixa era um pouco mais alta que a janela, tiveram de amarrar uma corda à um gancho e atirar ao lado de fora, prendendo bem o suficiente para que usassem como tirolesa e conseguissem atingir o chão do outro lado. Seria uma queda bruta e certamente com diversos ossos quebrados, mas seus amigos teriam de se virar com isso depois.
Os dois se encararam, numa silenciosa e íntima entre dois iguais, dois seres cujas almas a cada dia pareciam dar mais e mais nós uma contra a outra. Estavam prontos e depois dessa missão, seriam livres. Sem mais perseguições ou correr atrás de dinheiro. Aquela seria a última vez e logo poderiam de fato viver. Os dedos de Dhriti apertaram com firmeza a mão dele, num carinho rápido, mas cheio de significado, conforme se preparavam para descer a corda. Os segundos seguintes vieram como uma avalanche. Uma bala foi cravada em seu ombro e o susto quase a fez despencar da ponta da caixa, caso Duman não a segurasse. “Merda!” Se apressaram ainda mais, firmando os nós o suficiente enquanto desviavam dos tiros que pareciam vir de todos os lados. Suas facas e suas bombas foram atiradas onde pôde, mas eles eram muitos. “Escute bem, eu e você vamos... D-Duman...?” Seus olhos se arregalaram numa expressão de puro horror ao ver a sequência de balas que o atingiu no estômago e a poça que se formava ao redor deles. “Não. Não, não, não, não.” Ela chacoalhou a cabeça, tirando o próprio casaco com tanta rapidez que seu braço baleado ardeu, mas ignorou a dor, apertando o local.
As lágrimas caíam desgovernadas por seus olhos, contudo, assim que olhou para ele e Dumam segurou firme em seus pulsos, Dhriti não precisou de palavras para entender o que ele iria sugerir. “Não ouse! Não vou te deixar. Nunca vou te deixar. Nunca!” Esbravejou. Pense. Pense. Pense. Se o atirasse da corda, certamente morreria com a queda devido a ferimento na barriga, mas suas bombas e balas estavam quase no fim. Não havia como escapar. “Até o fim. Você e eu.” A voz soou firme, apontando com o queixo para sua última bomba. Sabia que prefeririam a morte que serem capturados e torturados. Se desfez do toque dele em suas mãos para alcançar a bomba, mas não pôde. Suas mãos estavam presas, amarradas e, entre elas, estava a corda. O corpo inteiro de Dhriti gelou. “Não.” O queixo tremeu, balançando a cabeça de novo. “Duman, não. Não posso ir sem...” Sua frase se perdeu no vento, pois assim que seus caçadores alcançaram o topo da caixa, Duman a empurrou. Dhriti não teve escolha senão deslizar. Senão cair e cair.
Chacoalhou e se debateu em desespero enquanto a imagem da única pessoa no mundo que já a amara desaparecia não apenas de sua vista, mas no fogo e no barulho assim que a bomba pareceu ter sido acionada. Toda sua voz e ar de seus pulmões desapareceu enquanto gritava com toda a ira, medo, desespero e dor que tinha dentro de si. Seu corpo se chocou contra o chão, seus ossos quebraram e seu ombro ferido se virou numa posição horrenda. As lágrimas caíam como cascatas enquanto seu grupo surgia dentre as árvores e a arrastava para longe dali. Dhriti não se moveu, não falou ou emitiu nenhum som e por muitos e muitos anos não emitiria de novo. Sua mente, contudo, seguia gritando por ele, sem parar, para sempre.
Duman!
Não.
Não, por favor.
Por favor, por favor.
Não vai. Não me deixa.
Por favor. Preciso de você.
Me leve também.
Eu te amo. Não me deixa pra trás... por favor.
Por favor...
E tudo escureceu. Em sua visão e em sua alma.
@chaoticpomegranate













