Nome: Liza Wellington
Idade: 22 anos
Parente divino: Hefesto
Arma: Exoesqueleto mecânico
MBTI: ISTP
Alinhamento: caótica e boa
Eneagrama: 5w6
Pontos fortes: Inteligência, sabedoria, destreza, percepção e investigação.
Pontos fracos: Força, atletismo, furtividade, acrobacia e diplomacia.
FC: Katie Douglas
s t o r y
Liza nasceu em Nova York, fruto de um breve caso entre Isabella Wellington, uma engenheira da Ottobock, e o deus grego Hefesto. A verdadeira identidade do homem, no entanto, só foi revelada quando a filha estava à beira da morte. Tinha apenas cinco anos de idade quando sofreu um acidente de carro com o primo e a namorada, uma verdadeira tragédia televisionada, ninguém acreditou quando encontraram a garotinha ainda viva entre os destroços e as chamas. Cirurgia após cirurgia, ela continuava resistindo. Foi então que Hefesto apareceu para visitá-la. Ele acalmou Isabela e mostrou todo seu poder ajudando Liza a se curar e presenteando-a com uma prótese para sua perna amputada. Era um item mágico, ele disse, que poderia crescer junto com a menina e não necessitaria de tanta manutenção quanto as feitas por mortais.
Assim, anos se passaram e Liza conseguiu ter uma infância segura dentro do possível. Evitava o bullying na escola minimizando o contato com colegas e ia direto para casa fazer o que mais gostava: desmontar e montar de novo vários tipos de aparelhos eletrônicos. Quando conseguia estudar e tirar notas boas apesar do déficit de atenção, Isabela a recompensava levando-a ao trabalho para ver como as próteses iguais à dela (ou quase isso) eram feitas.
Próximo ao aniversário de 10 anos de Liza, as coisas começaram a desandar. Isabela repentinamente sofreu um AVC e acabou em um coma no hospital, sem esperanças de recobrar a consciência. A menina estava prestes a ser levada pelo serviço social quando um sátiro e um semideus apareceram para levá-la até o Acampamento Meio Sangue.
Depois disso, Liza não voltou para a escola, foi educada por semideuses mais velhos, e só voltou para casa quando atingiu a maioridade. Ela vendeu o apartamento onde morava com a mãe e quase tudo que havia dentro dele, decidida a passar o resto de seus dias no Chalé 9. Hoje é uma das engenheiras mais promissoras dentre os semideuses e passa boa parte do tempo trabalhando nas forjas para modernizar o acampamento.
e x t r a
Inspirações da personagem: Paninya e Winry Rockbell de Fullmetal Alchemist, Entrapta de She-ra e Zoey de Zoey’s Extraordinary Playlist.
Pinterest.
Ela odeia que a chamem de Elizabeth, o que muitos assumem ser seu nome. Na verdade, o nome dela é apenas Liza, apelidada por alguns de Lizzie.
É vegetariana, por questão de gosto mesmo.
Apesar de não ter vergonha da prótese (muito pelo contrário), Liza prefere sempre usar calças por achar esteticamente mais agradável.
Ela é muito prestativa e dá descontos para qualquer um minimamente amigável que venha pedir algum equipamento. Se for prótese então... aí ela faz de graça, no máximo custo do material.
Liza tem benção, adquirida depois de impressionar Apolo com os serviços prestados após a guerra contra Gaia. Àquela altura Liza já estava bastante experiente com próteses mecânicas e passou meses trabalhando com os filhos de Apolo para ajudar todos que haviam perdido algum membro na batalha. O deus se emocionou principalmente com o braço dado de presente para um de seus melhores médicos e abençoou Liza com o dom da premonição. Desde então, ela é capaz de ver o futuro em determinados momentos, mas apenas de uma forma: músicas. A melodia de origem desconhecida começa a tocar e Liza não tem escolha senão cantar e performar uma canção já existente relacionada com algo que está por vir. Alguns chamam de maldição, mas ela tenta não ofender o deus sendo ingrata.
O exoesqueleto que ela usa como arma na verdade não tem arma nenhuma, é uma armadura que permite voar a até 100m de altura com propulsores nos pés e nas mãos. Liza raramente luta, mas quando isso acontece a única estratégia que ela tem é usar o exoesqueleto para se jogar contra os inimigos sem nenhum senso de autopreservação.
Liza vive tentando aprimorar a prótese que Hefesto lhe deu de presente, mesmo que desmontá-la lhe cause dor.
Costuma perder refeições por focar demais no trabalho, mas quando come, come uma quantidade assustadora para alguém do seu tamanho.
Ela tem medo de cavalos e não sabe nadar, uma vez conheceu Poseidon e ele a chamou de fraca por isso.
m a t e s
O semideus que resgatou a Liza com o Miltinho. Pode ser uma figura fraternal. Deve estar no acampamento há pelo menos 12 anos.
Alguém com quem Liza teve um breve relacionamento, que acabou porque ela trabalhava demais. Pode haver ressentimentos. Timmy
Alguém que tem ideias de engenhocas e vai sempre pedir pra Liza fazer (ela faz).
Alguém que se preocupe com o jeito workaholic da Liza e esteja sempre lembrando ela de fazer pausas, comer em todas as refeições, beber água, dormir etc. Matteo
Um parceiro de pegadinhas, eles podem até ter um código secreto pra planejarem as coisas. Ben
Primeiro beijo. Pode ter sido uma coisa bem infantil de pré adolescente e depois seguiram como amigos. Timmy
Alguém para trocar fofocas sobre os outros campistas com um cafézinho. Kali
Clubinho dos PCDs que se reúne aos domingos no restaurante do Nico.
Por sorte Nyxie e Gaspard conseguiram encontrar a chave correta, abrindo a grande porta de ouro nos fundos do centro comunitário. Do outro lado deram de cara com uma floresta estranha, com uma cabana aparentando estar abandonada há alguns meses. Qualquer um esperto o bastante não atravessaria a porta sem pensar muito bem antes, mas o grupo de semideuses não teve muita escolha quando Stormy foi correndo em direção à cabana. “Titia! Titia!”
Foi só eles passarem pela porta atrás da criança que ela desapareceu, deixando-os presos ali sem opção a não ser entrar na cabana junto de Stormy, onde foram recepcionados por mais esferas como a que estava na praia horas antes, zanzando pela cabana e ao redor da garota alegremente. Parecia seguro, e Stormy estava feliz, então por que aproveitar para descansar, né? Até porque já podiam ver o pôr do sol dali, e não parecia ser muito inteligente explorar aquela floresta no escuro.
❛ㅤㅤ Seja para a sorte ou para o azar do grupo de semideuses, quando Nyxie girou a chave na fechadura pode ouvir um pequeno “click” que indicava que a porta estava sendo destrancada. Assim, sem hesitar, virou a maçaneta por completo e empurrou a grande porta dourada para ver o que havia do outro lado do Centro Comunitário de Liberty.
✞ ━━ ❝ O click da porta se destrancando era quase ensurdecedor para Anael depois de toda aquela confusão. Estava esgotada, para se dizer o mínimo e a bem da verdade, queria voltar para casa. Pediu, por um momento, que seja lá o que tivesse do outro lado da porta fosse uma passagem só de ida para o meio sangue. Já tinham conseguido o que precisavam certo? A ilha tinha sido invadida por demônios egípcios, todos tinham morrido ou desaparecido, era difícil dizer, encontraram a maldita criança que se assemelhava muito a péssimas escolhas com Akali e tinha a tal mulher urubu. Que fuçassem a mente da garota agora se quisessem mais…
Após todas as chaves serem testadas, a porta dourada do centro comunitário finalmente se abriu com um silêncio suspeito. Liza esperava ver uma multidão do outro lado, um refúgio dos semideuses desaparecidos de Liberty, no entanto, tudo que havia era uma floresta com uma cabana, um portal para a história de Chapeuzinho Vermelho. Decepcionante, ainda assim, se espremeu atrás de Nyxie e seguiu Stormy. O que mais iria fazer? Os portões do centro comunitário estavam trancados, aquela era a única saída. Certo, talvez não fosse a única saída, conseguia pensar em pelo menos cinco jeitos de fugir, mas precisavam seguir o caminho da missão.
Normalmente, Liza ficaria bem longe de uma cabana no meio do nada, era mais um típico cenário de filme de terror, porém Stormy parecia bastante segura. “Você conhece esse lugar?” perguntou, ao que a menina respondeu com um aceno afirmativo. Tanto pelo que havia observado quanto pelos relatos, as tais luzes amigas aparentavam possuir algum grau de inteligência e proteger Stormy. Nesse caso, agora que estavam juntas, a filha de Hefesto não via problema em confiar nas esferas para guiá-las.
E, como imaginado, a casa estava vazia. Ninguém na sala, nos quartos ou no banheiro. A tia deveria estar morta, sabe-se lá onde, mas ao menos havia deixado para trás vários livros, abrigo e, esperava, comida fresca. Poderiam investigar tudo que estava dentro da casa e lá passar a noite, para explorarem a mata fechada na segurança da luz do dia.
“Gente, vem cá!” chamou, da porta, quem ainda analisava a orla da floresta.
Aos poucos, todos foram se aproximando. Liza acenou com a cabeça, concordando com Barbie e adentrou a cabana de novo. Se iriam passar a noite ali, precisava preparar um jantar para que se mantivessem fortes no dia seguinte. “Sim, sim” começou, enquanto abria a geladeira. “Eu também fico melhor durante o dia. Não sei bem por quê, fogo do sol? Enfim, posso pegar o fim da madrugada e começo da manhã.” E uma ideia lhe ocorreu. “Com o Gasp. Pode ser?” Não esperava uma negativa, portanto voltou a atenção à cozinha mais uma vez. Havia vários tipos de carne, legumes, vegetais, algumas frutas e… ufa, café. Na pior das hipóteses, poderia usar as próprias mãos para esquentar a comida e ferver a água, Asami também ajudaria. “Ok, acho que temos um jantar decente mais tarde. Querem dar uma olhada nas coisas da tia da Stormy? Talvez tenha alguma pista.”
Uma vez que todos estavam dentro da casa e o jantar garantido, Liza juntou-se à irmã para preparar café para todos. Ah, não havia nada como aquele delicioso aroma! Quase podia se teletransportar de volta ao acampamento, se fechasse os olhos, imaginando-se na forja trabalhado em algum projeto ou no refeitório com seus amigos. Entretanto, logo se viu de volta à realidade, diante de um grupo de semideuses exaustos e um Gaspard desesperado. Liza demorou alguns instantes até entender a preocupação do filho de Atena, afinal, passar a noite no chalé parecia a melhor decisão. Porém, se ele não tivesse acesso ao mar para levar as almas, se transformaria em um polvo no dia seguinte. Já havia imaginado como seria aquilo várias vezes, feito piadas sobre o assunto, mas nunca imaginara que realmente aconteceria, muito menos durante uma missão. Ele conseguiria sobreviver fora da água? Ou precisaria ficar na banheira enquanto os demais terminassem o trabalho de Quíron e Lupa? Liza engoliu em seco quando Barbie afirmou não sentir o mar por perto. Onde diabos estavam?
“Erm… A gente vai dar um jeito, ok?” falou, tentando acalmar o amigo com uma mão em seu ombro, e sussurrou a última parte: “Na pior das hipóteses, se não quiser que te vejam, você se esconde na banheira e eu e a Barbie levamos comida e café para você.”
Aquilo teria de servir, pois cruzar uma floresta desconhecida no meio da noite sem ao menos descansarem não era uma opção. Enquanto isso, Gaspard precisaria se acalmar e encontrar um jeito de pensar em outra coisa enquanto a manhã não chegasse. Liza olhou ao redor e notou uma estante de livros. Ótimo. Nela havia diversos exemplares sobre magia em idiomas diferentes. Podia reconhecer grego, latim, runas e, aparentemente, hieróglifos egípcios, uma verdadeira miscelânea. Além disso, encontrou um caderno de couro velho, cheio de papéis dobrados entre as páginas e anotações confusas.
“Gasp, vem ver isso” chamou, enquanto tentava ler os escritos. Ugh, detestava magia, nada fazia sentido.
Ela entregou o diário nas mãos do filho de Atena e começou a caminhar na direção da porta.
“Vê se consegue entender, vou preparar o jantar. Se tiver alguma coisa útil leva na cozinha, que eu também quero ver.”
E, assim, foi acompanhar Akali e Asami. As três dividiram-se conforme seus talentos: Liza e a filha de Netuno escolheram os ingredientes e decidiram preparar carne bovina com legumes variados. Como qualquer descendente de Hefesto, possuía a pele resistente a cortes, portanto também ficou encarregada de cortar os vegetais. Aquela era sua parte preferida ao cozinhar, lidava com a faca com maestria e, sem medo de se machucar, podia criar várias fatias finas rapidamente, que derreteriam na boca mais tarde. Enquanto isso, Akali lavava e temperava os ingredientes, e Asami usava as mãos (limpas, é claro) para assar a carne. Poderiam usar o fogão e uma frigideira, mas dessa forma era bem mais eficiente. Em pouco mais de meia hora, a comida estava pronta, com um delicioso aroma preenchendo a casa.
Liza estava frustrada por não poder contribuir em nada à investigação sobre a tia de Stormy e os estranhos acontecimentos de Liberty, pois não conhecia a mitologia egípcia e tampouco magia. Comeu em silêncio enquanto os outros discutiam e, como já havia tomado banho no centro comunitário, retirou-se para dormir. Teria de acordar cedo, portanto nada mais justo do que deitar cedo também. Mas, antes, conversaria com Lisander para avisar o acampamento da situação atual da missão, aproveitando que os demais ainda estavam na cozinha.
Sentou-se na frente da lareira e começou, como se falasse com o fogo.
“Oi, Lis. Quer dizer, Hérmio.” Ela fez uma careta, era estranho chamar o irmão por seu nome divino, porém só assim conseguiria fazê-lo ouvir suas preces. “Nós estamos bem, nos machucamos um pouco lutando, mas agora estamos bem. A ilha está vazia, só encontramos uma criança e demônios egípcios. Estranho, não? Por que demônios egípcios estariam atrás de semideuses greco-romanos? Enfim, vamos descobrir isso, o pessoal está investigando uns diários da tia da criança que achamos, estamos na casa dela. Por enquanto, tudo que sei é que uma tal ‘mulher urubu’ matou essa tia e que ela era uma feiticeira, maga, não sei.” Liza fez uma pausa, refletindo se aquilo era tudo que precisava dizer. Provavelmente. “Bom, é isso. Eu vou dormir agora, temos que explorar uma floresta amanhã. Boa noite. Não esqueça dos prazos da forja!”
Sabia que Lisander deveria estar preocupado com ela e Asami, havia prometido que falaria com ele todos os dias para garantir que estavam seguras. Agora sim podia escovar os dentes e arrumar sua modesta cama no sofá da sala de estar.
Adormeceu rápido, esperando uma noite pacata devido ao cansaço, mas não foi o que aconteceu. Não, Morfeu tinha planos terríveis para a filha de Hefesto.
E sonhou.
Horas depois, Liza abriu os olhos e demorou mais de um minuto para entender onde estava. A sala era iluminada por uma meia luz e, quando tateou ao seu redor, seu braço caiu em um vão. Ah, sim, o sofá da casa da tia de Stormy. Por que estava pensando no barco ainda? E chuva... Só então as imagens de seu sonho começaram a voltar à sua cabeça. O vestido branco encharcado, a cabine de navegação, o rosto de Gaspard cheio de desejo, os lábios dele... Não. Liza olhou para os lados e não viu nada que indicasse que falara dormindo, o cômodo estava em silêncio exceto por cochichos das filhas de Hades, que pareciam não ter notado seus movimentos. Assim, esgueirou-se sorrateiramente e trancou-se no banheiro. Queria gritar, fugir dali, mas lavar o rosto teria que bastar por enquanto.
Depois de alguns momentos com os punhos quentes embaixo d’água fria, teve coragem de levantar o olhar para o espelho. Não se reconheceu. Estava igual a todas as outras manhãs, ainda assim, havia algo de diferente. Podia passar horas ali, ponderando sobre o que seu sonho significava, mas logo lembrou-se da vigia. Oh, não. Teria que falar com ele. E, em seguida, lhe ocorreu: não seria exatamente ele. Enquanto outras pessoas ficariam incomodadas, talvez até mesmo horrorizadas com aquela realização, a expressão de Liza se suavizou. Oras, seria muito mais fácil conversar, terminar a missão, com um polvo humanoide do que com o homem dos seus sonhos. Quer dizer, não dos seus sonhos, daquele sonho específico, se repreendeu.
Quando saiu do banheiro, estava muito mais calma. Avisou Nyxie e Anael que poderiam descansar e foi preparar café para o próximo turno de vigia. Enquanto ela própria se sentia satisfeita com a conveniente situação do polvo, sabia que Gaspard não acordaria nada feliz. Acima de tudo, ele era um de seus melhores amigos e precisava de apoio naquele momento, por isso, o encarou bastante antes de decidir acordá-lo. Sinceramente, estava lamentável. Já havia visto polvos em aquários e vídeos da internet, mas nada como aquilo. Foi apenas quando se acostumou à imagem e teve certeza que não iria rir ou fazer caretas na frente de Gaspard que o cutucou. O sonho nem passava mais por seus pensamentos diante da preocupação em como não ofendê-lo.
“Bom dia” falou, gentilmente. “Fiz café.” E estendeu uma caneca, preparada do jeito que ele gostava.
Observar um de seus amigos mais queridos passar por uma situação tão traumatizante quanto aquela, ainda mais alguém tão… asseado quanto Gaspard, era difícil. Liza não sabia segurar a própria língua, não o deixou ficar reclamando.
“Não! Você não tá nojento nem feio” começou, corrigindo-o. “Esquisito sim, mas isso é só uma questão de tempo, todo mundo aqui já viu muita coisa estranha. E você pode ser um polvo agora, mas ainda é nosso polvo.” Ela deu um sorriso honesto. “O diferente, o inesperado, essas coisas que fazem o conhecimento ser interessante!” E talvez devesse levar isso em consideração quando voltasse do acampamento e ser mais aberta com os estudos de Asami em magia, quem sabe até mesmo com fantasmas. “E, se serve de alguma coisa, você tá mais pro Lula Molusco bonitão.” O sorriso dela, quase cômico, poderia deixar transparecer que aquilo estava longe de ser verdade, sempre fora uma péssima mentirosa, mas ao menos queria tentar fazê-lo se sentir melhor. “Agora, eu queria muito entender como isso funciona. Qual é o gatilho? Você estar longe da água do mar ou os fantasmas não serem levados? Ou você especificamente precisa entregar os fantasmas? E como funciona a transformação, será que tem como impedir? E também tem toda essa questão da cabeça de polvo que não precisa ficar embaixo d'água, essa secreção pode ter algumas propriedades interessantes... Eu posso?” Ela afundou alguns milímetros do dedo indicador onde antes era o nariz de Gaspard. “É macio. Será que seu crânio também sumiu? Polvos não tem ossos.”
Seu monólogo, no entanto, se encerrou quando Liza notou o desconforto silencioso do filho de Atena. Estava piorando a situação, não estava? Ela abaixou o olhar.
“Eu vou lavar a louça, se precisar de alguma coisa é só chamar.”
Porém, quando começou a se levantar, sentiu algo a puxando para baixo, uma exaustão repentina. Segundos atrás não estava cansada, o que era aquilo? Suas pernas pareceram adormecer e, quando se deu conta, estava fechando os olhos. E caiu no sono.
Após um dia exaustivo, o primeiro dia de verdade em missão, Liza não teve nenhum problema em cair no sono. E, se conhecia bem seus próprios padrões noturnos, acordaria no dia seguinte como se tivesse apenas desligado, tal qual um computador.
Morfeu, entretanto, tinha outros planos.
De repente, estava de volta no Manwol VI, mas sem os colegas que a acompanharam na missão. Usava uma longa camisola branca, com os ombros à mostra e apenas um espartilho por cima, marcando sua cintura, uma verdadeira donzela vitoriana. O mar estava agitado, mesmo no andar inferior podia ouvir o vento soprando, a chuva batendo com força nas janelas de vidro. Liza subiu as escadas apressada e desatou a correr contra a tempestade, desviando dos marinheiros sem rosto até chegar à cabine de navegação. Estava encharcada, com os cabelos pingando e a roupa grudada ao corpo, quase transparente, mas havia coisas mais importantes com o que se preocupar no momento. Ela bateu a porta e correu para ajudar a controlar o leme.
“Capitão, eu acho que não vamos conseguir, o casco já está com muitas rupturas, a equipe não está dando conta das velas” anunciou, ofegante.
“Não precisa ter medo, Liza, eu nunca deixaria esse navio afundar com você nele” o capitão respondeu. Era um jovem alto, esguio, de cabelos volumosos escuros, fatalmente atraente, até mesmo com seu fino bigode sobre os lábios. “Somos nós dois, esqueceu? Não existe uma equipe mais competente.” Ele levou uma mão ao rosto da semideusa, traçando uma linha dos lábios até as maçãs do rosto dela com o polegar. Liza sentiu as pernas fraquejarem e o capitão precisou segurá-la. Seus braços não eram fortes, mas com certeza sabiam fazer uma mulher se sentir segura.
Devia focar na missão de manter o navio sobre as águas, como contramestre e engenheira chefe, porém tudo que conseguiu fazer diante daquele toque foi derreter-se e suspirar:
“Oh Gaspard...”
“Shh” ele levou um dedo aos lábios da moça “não precisa dizer, eu sei. Eu vejo como você olha para mim, Liza.”
O rosto dela enrubesceu. Era o que mais temia, ter seus sentimentos descobertos, agora nunca mais seria respeitada como sua subordinada, o perfeito relacionamento profissional que tinham estava arruinado. Precisava se desculpar, dizer que nada deveria mudar entre eles. Liza preferia passar o resto de seus dias com o coração partido a não tê-lo em sua vida. Abriu a boca para falar, mas foi interrompida:
“Eu sinto o mesmo. Você é a única à altura da minha inteligência e beleza.” Gaspard segurou sua mão e começou uma trilha de beijos até seu ombro. “No xadrez da vida, você sempre foi minha rainha.”
Liza queria entregar-se completamente, levar-se pelo desejo, mas não poderia deixar os lábios sedentos em seu pescoço a fazerem esquecê-la de tudo que acontecia ao seu redor, estavam prestes a naufragar.
“C-Capitão, o navio!”
“Eu disse que não precisa se preocupar, está tudo sob controle.” Gaspard levantou o olhar para ela e sorriu. Aquele maldito sorriso... Sempre tinha as respostas, era o que mais a irritava e encantava. “Esse navio pode ser movido a amor, é assim que vamos sobreviver. Isso é, se você quiser.”
“É tudo que eu sempre quis...”
E, com essas palavras, Liza segurou seu rosto entre as mãos e beijou-o, mais urgente do que nunca. A tempestade enfim rompeu os vidros da cabine, molhando tudo que havia dentro, mas nada mais importava para eles. Gaspard empurrou-a contra uma das paredes e levou uma mão a sua perna desnuda. Era firme em seus toques e sabia muito bem onde queria chegar, brincando com a pele fina de sua coxa. Liza, enquanto isso, desatava o laço da camisa do capitão, ansiosa para ver e sentir seu corpo esbelto. Tinham os corações acelerados e os olhos cheios de volúpia, mas também o carinho que sempre nutriram um pelo outro.
“Gasp... Eu guardei minha virtude todos esses anos para você...” ela confessou, um tanto encabulada, temendo que sua falta de experiência fosse decepcionante de alguma forma.
“Eu sei” Gaspard respondeu, mais uma vez com aquele sorriso atrevidamente petulante. “Eu vou te ensinar a amar, Liza, todos os dias de agora em diante.” Ele arfou, ao notar o rosto enrubescido dela. “Pelos deuses! Todas as tardes e noites também!”
Ele a virou para remover seu espartilho, afrouxando os laços enquanto beijava sua nuca, voraz. As vestes de Liza caíram no chão, expondo cada centímetro de sua pele para os olhos sedentos do capitão. Seria aquilo o suficiente para um homem como ele? A semideusa corou mais uma vez, relutante em dar o próximo passo.
“Você é linda.”
Aquilo era tudo que precisava ouvir. Ela sorriu e o puxou para unir seus corpos mais uma vez, entrelaçando os dedos nos cachos dele.
“Eu quero que você me ensine.”
Naquele momento, despertou.
Despertou no pior lugar possível para ter um sonho daqueles, um pequeno chalé com seis semideuses. Incluindo Gaspard.
Liza hesitou um pouco antes de falar. “Posso escolher nenhum combate?” admitiu, envergonhada. Queria ser uma lutadora como Brenna ou Asami, mas tinha preguiça demais para treinar como elas. “Se não, minha estratégia é voar e me jogar contra o inimigo, fiz meu exoesqueleto bem duro para isso.”
Com toda a (falta de) coordenação motora que uma pessoa embriagada poderia ter, Liza segurou o próprio cabelo para trás enquanto usava a outra mão para apoiar a tampa do vaso sanitário. Ugh. Detestava estar naquela situação, ainda mais na presença de Thorn. “Eu tô ótima! Tô ótima!” balbuciou, cuspindo o líquido ácido na água entre as palavras. “Me deixa! Vai caçar o que fazer, cacete!”
Brenna: “ like my shirt? it’s made with boyfriend/girlfriend material. ”
Liza sorriu, vendo uma oportunidade perfeita na fala de Brenna. “É claro que é! E sabe onde ela ficaria linda também? Pendurada no armário do quarto do meu irmão. Já viu a casa dele? É muito aconchegante” brincou. Bem, com um fundo de verdade, pois sonhava em ter a amiga como cunhada oficialmente.
♚ ━━ ❝ Lisander havia passado muito tempo de sua vida sem saber quem quem eram seus pais verdadeiros e apesar de Hérmia ter feito um bom trabalho cuidando e criando ele, com o tempo não pode deixar de pensar porque a mãe biológica não o quis. Vulcano era seu pai, mas e a sua mãe? Levou muitos anos para descobrir a verdade. Para saber que sequer era um mortal comum e que se não tivesse sido deixado, talvez tivesse sido morto ainda quando um bebê. Mas conhecia a sensação. Muitos semideuses sentiam falta daquela coisa fraternal. Seus parentes mortais tinham que ficar longe, porque podiam ser mortos por monstros se próximos de seus filhos. As divindades pouco se importavam com quem colocava no mundo. Lisander queria ser diferente. E era por isso que não queria ter filhos.
Fazia por aquelas crianças o que os seus pais não faziam. Cuidava deles. Se preocupava. Conversava e treinava… Não havia uma só vez que não estivesse lá por eles. Havia lutado contra o maldito Lycaon tudo isso para defender aqueles que amava. E isso era ainda mais presente quando se tratava de seus irmãos e irmãs. Havia algo muito mais forte ali. Os considerava realmente da família, fossem filhos de Vulcano ou filhos de Vênus. Talvez os anos como semideuses o tivesse amolecido, mas a bem da verdade, preferia ser assim do que não ser.
———— Isso… o braço está ali. —— ele apontou uma caixa sobre sua mesa de trabalho ———— Vai saber o que fazer com ele. E vai ser útil para a missão, eu espero. Vai ser ótimo terminar de resolver isso pra mim. Ele sorriu, enquanto ela escondia o rosto em seu ombro. Lisander a abraçou com força, os dedos afagando seus cabelos enquanto beijava o topo de sua cabeça, aliviado de vê-la ao menos mais tranquila. ———— Eu vou estar de olho! —— prometeu, ajeitando as mechas do cabelo castanho dela. ———— E vou estar pronto pra te dar a minha benção se precisar, mas vai sair melhor do que espera e você não vai estar sozinha. Vão te ajudar com o que precisar, ok? Não pense diferente disso.
Nisso Lisander não podia ter completa certeza, mas esperava que as pessoas selecionadas para a missão tivessem empatia suficiente para não deixar os outros para trás, que tentassem sair todos vivos e não escolher a rota mais fácil. Jamais se perdoaria se algo acontecesse a qualquer uma das irmãs. Pai… proteja Liza e Asami. E faça com que voltem para casa bem, ele pediu, depositando um beijo na testa da garota antes de afastá-la de forma gentil. ———— Você precisa ir ou vai se atrasar. Quer que eu te acompanhe? ❞
flashback.
Liza olhou para a caixa, identificando rapidamente qual delas era a mais adequada para guardar o novo braço de Akali. Pensava que o irmão iria querer instalá-lo, já que fora quem ofereceu construí-lo em primeiro lugar, mas também não se importava em fazer as honras. “Perfeito. Vou verificar e depois coloco na Kali” informou. Trabalhava com próteses mecânicas há anos e poderia instalar uma nova de olhos fechados, seria fácil. Bem, para ela, a filha de Netuno provavelmente não concordaria, a primeira vez sempre acabava sendo um pouco dolorosa.
“É bom mesmo que você me abençoe, dependo disso e do grupo.” Pensando bem, talvez a missão não fosse uma ideia tão ruim. Asami e Gaspard com certeza a protegeriam, Barbie também, mesmo se tivesse a irmã como prioridade, sabia o quanto a amiga costumava tentar abraçar o mundo. Só restava se esforçar para não acabar sendo um peso morto na equipe. Liza se levantou e caminhou até a caixa que Lisander havia indicado antes. “Eu já vou, preciso terminar uma coisa antes.” O olho de vidro de Ben, claro, não poderia partir sem entregar um presente tão simples de se fazer, restavam apenas os toques finais. “É rapidinho, não vou me atrasar.” Ela parou abruptamente a frase. “Mas, se quiser enrolar o Quíron no cais... eu aceito.”
ㅤㅤㅤ━━ㅤ❝ㅤsendo bem sincero, juyeon estava pouco se importando com os relacionamentos dos deuses, só achava divertido como liza e asami ficavam tão irritadas sempre que ele falava sobre a coleção de chifre do pai delas. era seu passatempo favorito, irritar as filhas de hefesto até que começassem a jogar martelos e outras ferramentas em sua cabeça, precisando ser salvo da ira das corninhas por francisca. mas agora não tinha mais frankie para lhe salvar, e as ofensas ao deus se tornaram mais frequentes em uma esperança fútil que o motivo do ódio das duas por julian deixasse de ser a morte de seus irmãos.
ㅤㅤㅤㅤㅤ❛ㅤse minha personalidade de bosta te irrita tanto, é só ir embora. continua perdendo seu tempo comigo por que quer. nunca pensei que você era masoquista. puxou o papai, parabéns.ㅤ❜ㅤriu ácido, tentando esconder que as palavras da menor o haviam acertado em cheio. talvez se aquela conversa tivesse acontecido antes do natal, julian teria uma maior facilidade em admitir que liza estava certa, e quem sabe até pediria desculpas aos antigos amigos pela maneira que agiu nos últimos anos, mas a perda de frankie parecia ter destruido qualquer chance do filho de dionísio voltar a ser como antes. os dois anos de progresso em sua recuperação havia sido jogados pelo ralo no momento em que a garota por quem ele estava apaixonado morreu em seus braços.
ㅤㅤㅤ ㅤㅤㅤ ㅤbufou irritado quando liza destruiu sua lingerie, afastando-se dela para tirar as cinzas que cobriram seu peito.ㅤ❛ㅤporra, que fetiche bizarro é esse que vocês tem em colocar fogo na roupa dos outros? essa era minha lingerie reserva, sabia? seu irmão já destruiu a primeira, e agora você faz o mesmo? pelo menos foi mais sexy quando lisander queimou a minha roupa. você só conseguiu me deixar irritado mesmo.ㅤ❜ㅤ
As mãos de Liza tremiam de raiva, podia sentir o coração acelerado e o corpo esquentando a ponto de deixar marcas pretas onde antes tocava o touro mecânico. Era conhecida por ser uma das semideusas mais impacientes depois dos filhos de Ares, estava sempre acompanhando Brenna nas brigas e frequentemente recorria a soluções violentas para conflitos, porém não havia ninguém que a deixasse tão furiosa quanto Julian.
O sentimento que ele trazia ia além do ódio, do desprezo. Eram anos de mágoa e rancor acumulados, machucados que ele nunca deixava cicatrizar, uma pessoa que a conhecia bem o suficiente para atingir todos seus pontos fracos. Julian Kane insultava sua família, suas habilidades sociais e vida amorosa (ou a falta delas), sua aparência... e, ainda por cima, ousava insinuar que estava se envolvendo com Lisander? Depois de tudo que havia feito para magoar Liza e Asami, provavelmente Frankie e Peter também, queria dizer que estava se divertindo com seu irmão na orgia? Podia entender, até certo ponto, Lisander fazer isso, era da natureza dele como um deus da sedução ━ ew ━, mas Julian se aproveitar disso era demais para suportar.
Lágrimas oriundas de todos os sentimentos negativos possíveis se acumularam nos olhos de Liza, escorrendo por seu rosto corado. Nunca havia sentido tanta raiva. “Eu não te convidei para vir aqui, quem vai embora é você! SOME!” gritou, começando a empurrá-lo para longe do touro mecânico. A cada batida no peito dele, franzia mais o rosto e derramava mais lágrimas. Não podia acreditar que um dia foram amigos. “SAI DAQUI, EU NÃO QUERO VER SUA CARA, JULIAN KANE! SAI! VAI EMBORA!”
Quando estavam longe o suficiente da área do churrasco, Liza parou por um instante, recuperando o fôlego, e o olhou uma última vez naquela noite. “Você é uma pessoa horrível” soluçou, antes de se virar e caminhar na direção do touro. Agora, não falava mais para Julian, e sim para si mesma. Murmurou: “Quem merecia viver era ela.” Frankie, claro. Não importava quem contasse os acontecimentos do natal, uma coisa era certa: Frankie havia morrido para que Julian sobrevivesse. Para que ele a atormentasse daquela forma. Não era justo. Liza sentou-se atrás do touro mecânico, a fim de esconder-se do filho de Dionísio e abraçou os joelhos para chorar mais.
Por mais que as coisas parecessem tranquilas na pequena cidade, era estranho ver tudo abandonado. Ainda existiam rastros da população da ilha por todos os lados, mas não era possível ouvir nem o som de animais conforme o grupo seguia a esfera brilhante.
Chegando no destino final do mecanismo, contudo, tiveram uma surpresa: gritos. Na esperança de encontrarem alguém que soubesse o que havia acontecido com o resto dos semideuses dali acabaram entrando tão rápido no centro comunitário que não pensaram nem na possibilidade daquilo ser uma armadilha, e agora estavam trancados. Para piorar, um grupo de oito demônios estava tentando alcançar uma menininha de dez anos que estava pendurada no parapeito do segundo andar, oito metros acima do chão e ameaçando a cair a qualquer momento.
Agora os semideuses só tinham duas escolhas: ou destruiam os demônios e salvavam a garota, ou todos iriam morrer ali.
Liza pairava atrás do grupo, com apenas o rosto visível no exoesqueleto, era mais fácil e silencioso do que andar carregando todo aquele metal. Estava curiosa para descobrir até onde a esfera brilhante os levaria, porém, acabou pousando o olhar em um dos colegas: Gaspard. Haviam crescido juntos, contudo, desde a noite anterior não conseguia parar de pensar no quanto não o conhecia por inteiro. Nunca havia visto ele daquele jeito, calmo e determinado durante uma crise, o suficiente para liderar a equipe e também se mostrar sensível o suficiente para consolar a filha de Hefesto. Asami lhe contou mais cedo, sobre como precisou impedi-lo de abandonar a luta, tamanha preocupação com a amiga. Liza imaginava aquela cena de tempos em tempos, tentando adivinhar como estariam os olhos de Gaspard naquele momento. Agora, observando-o caminhar, notava que os ombros deles pareciam mais largos quando vistos de trás, tinha uma postura imponente. Por algum motivo, o garoto magricela que perturbava desde a adolescência de repente estava diferente, Liza começava a vê-lo como um homem.
Talvez teria chegado à conclusão certa sobre o que estava acontecendo consigo se não fosse por um grito agudo vindo do centro comunitário de Liberty. Imediatamente olhou na direção do som e se deparou com uma menina pendurada a vários metros do chão enquanto seis... não, oito criaturas se aglomeravam disputando quem seria a primeira a abocanhá-la quando caísse. Aqueles seres, no entanto, não se pareciam com nada que havia estudado sobre a mitologia greco-romana.
"Mas que porra é essa?" deixou escapar.
Os demônios egípcios, de acordo com Asami, eram monstruosidades humanoides com diferentes armas brancas afiadas no lugar da cabeça. Como uma boa engenheira, Liza apertou os olhos para tentar enxergá-los melhor e deduzir algo sobre o funcionamento deles. Eles pareciam emitir sons com diferentes padrões, quase como uma fala, deveriam ter um cérebro, mas onde? Aquela com certeza seria uma informação útil em caso de combate, mirar no órgão principal. Além disso, teriam olhos entre as lâminas? Se emitiam sons, provavelmente conseguiriam ouvi-los, talvez se orientassem por ecolocalização, como morcegos.
"Nós precisamos resgatar ela" disse Liza, sem pensar duas vezes. Uma criança sozinha em uma cidade com todos desaparecidos não poderia ser um bom sinal, conhecia filmes de terror o suficiente para saber disso, mas preferia arriscar cair em uma armadilha a abandonar alguém em perigo. Ainda assim, Liza não gostava de confrontos. "Vocês acham que eles conseguem enxergar? Talvez dê pra criar uma distração com barulho e eu pego a criança."
Estava mais que disposta a se arriscar daquela forma. Os demônios não tinham asas, o que poderiam fazer contra sua armadura? Mas aceitou a oposição de Barbie sem reclamar. “São oito deles... nós somos sete" ela começou, já pessimista. Não conhecia as habilidades dos demônios, poderiam ser poderosos demais para o grupo, a diferença dos números tornava uma vitória ainda mais improvável. Bem, as duas filhas de Hefesto poderiam aumentar o grupo dando vida temporária a algumas estátuas, porém, infelizmente, Liza não conseguia avistar nenhuma. A não ser que... "Pera, tive uma ideia." Ela levou uma mão ao peito e apertou um padrão no botão central de seu exoesqueleto, pisou para fora dele e o fechou mais uma vez. "Posso animar minha armadura vazia para lutar contra um deles. O problema é não tenho outra arma, alguém teria que me emprestar.” Então lembrou-se de Nyxie, que havia lhe dado uma espada de ferro estígio na noite anterior, para o caso de precisarem lutar contra fantasmas, e olhou para ela. A filha de Hades logo ofereceu mais uma vez, prestativa. "Obrigada."
A espada trazia uma sensação incômoda para Liza, como se não fosse feita para seus braços carregarem, ou o contrário. Sempre que precisava lutar no acampamento, preferia usar armas de distância, como arcos e bestas. Não era particularmente talentosa em nenhum deles, verdade seja dita, mas ao menos sabia manipulá-los. Toda sua esperança no combate estava depositada no exoesqueleto, acreditava que o único modo de não acabar sendo esfaqueada até a morte seria o tendo como apoio. Liza concentrou toda sua atenção e energia na palma da mão esquerda e levou-a até o capacete de metal. Por favor... E voi lá! A armadura apontou os pés para o chão e começou a levitar, com os propulsores ligados. O rosto da semideusa se iluminou, cheio de orgulho, enquanto olhava para sua obra. Sem pensar muito em como aquilo funcionaria, ela levantou uma mão no ar e conseguiu o que queria, o exoesqueleto a saudou com um leve tapa e balançou a cabeça, em um sinal de aparente simpatia.
Por mais que amasse e protegesse sua criação, Liza também sabia que o exoesqueleto possuía integridade física muito superior à dela, portanto indicou para que avançasse primeiro na direção dos demônios. Queria avaliar o estilo de luta deles, mesmo que não fosse sua área de expertise, preferia coletar dados que viriam a ser inúteis a entrar em uma briga completamente despreparada. Assim a armadura fez, voou na direção de um monstro e o acertou em cheio, sem ao menos dar chance de retaliação. Aquilo levantou sua moral, e Liza disparou na direção de um inimigo com cabeça de tridente e o atacou com a espada. Infelizmente, não estava errada sobre seus talentos e acabou errando o golpe. A criatura aproveitou a oportunidade e enfiou sua cabeça no tronco da filha de Hefesto. Liza gritou. Não se lembrava da última vez em que havia sentido tanta dor, três feridas se abriam na lateral de seu abdômen, derramando sangue sobre sua roupa. Aquele poderia ser seu fim, porém não desistiria tão rápido.
Ela engajou no modo fuga e correu ao redor do prédio em zigue-zague, testando a agilidade do monstro. Foi cortada superficialmente duas vezes, mas também conseguiu aranhar seu oponente. A cada golpe errado se sentia mais frustrada, arrependida por não ter treinado mais com Brenna, só poderia esperar que os outros estivessem se saindo melhor para ajudá-la antes que perdesse sangue demais.
Enquanto isso, o exoesqueleto voava rapidamente de um lado par ao outro, acertando o demônio. Chegou a ser atingida apenas uma vez no que poderia ser um erro de cálculo de trajetória, mas seguiu perseverante. Já estava com vários riscos àquela altura, que só poderiam ser reparados de volta ao acampamento. Ao menos era um lembrete para Liza continuar lutando. Ambas as duplas mostravam agilidade em desviar dos golpes alheios, até que a semideusa foi perfurada logo acima do peito.
Talvez comovida pela dor de sua criadora, a armadura recebeu seu incentivo para dar o ataque final em seu oponente e partir para o resgate de Liza. Com a filha de Hefesto no chão após um terceiro golpe, os dois lutadores restantes enfrentaram-se bravamente. O demônio parecia incapaz de superar os rápidos movimentos do exoesqueleto, que conseguiu atingí-lo em cheio duas vezes. Aquela criatura precisava cair. Liza reuniu todas suas forças e ficou em pé, movida apenas pela adrenalina da quase morte, com sangue escorrendo até as pernas. Ela correu até o demônio e errou o golpe. Tentou mais uma vez. Na terceira, enfiou a espada de Nyxie no pescoço do monstro. Estava morto. E Liza, não muito distante disso, cedeu.
Em seguida, a escuridão começou a alternar com momentos de clareza. Akali buscando a criança, Asami dando choques no monstro que enfrentava, um demônio sendo afogado, até que, enfim, viu Barbie se aproximando com a expressão preocupada.
"Eu preciso de... fogo..." ela pediu, tentando pressionar os ferimentos com o peso da armadura, já inanimada mais uma vez. Em outra situação, talvez pudesse usar as próprias roupas como um veículo para criar chamas, no entanto, não possuía forças para tal.
Um isqueiro, um fósforo, talvez até mesmo néctar e ambrosia poderiam ajudar naquela situação, mas Barbie optou por um caminho diferente. Conforme ela dedilhava notas na lira e cantarolava no familiar idioma grego, Liza sentia o sangue parar de escorrer de seu abdômen, a dor era um pouco menos latejante. Não estava em condições de lutar novamente, longe disso, porém podia se sustentar sobre os dois pés.
“Você realmente é uma barda, né?” brincou com a amiga, para quem costumava mestrar campanhas de Dungeons & Dragons. “Obrigada.”
Aquele não era o momento para conversar, portanto, Liza não se prolongou, precisava ver como os outros estavam. Imaginava que ninguém teria se saído tão mal quanto ela, afinal, todos pareciam ser mais dedicados aos treinamentos do que a filha de Hefesto. Ainda assim, havia o fator sorte, lembrou-se, ao ver a irmã caída no chão coberta de sangue. Não. Não. Não. Aos tropeços e sem ao menos falar algo para Barbie, Liza correu na direção de Asami, com o peito apertado. Tinha a mente inundada por memórias traumáticas: o diretor de sua escola primária contando sobre o AVC de sua mãe, a notícia de que Peter não havia voltado com vida para o acampamento e, a mais recente, o corpo de Frankie sem vida e destroçado por mordidas no natal. Não podia perder mais ninguém de sua família. Por que aquilo continuava acontecendo? Talvez o problema não fosse Julian afinal, talvez Liza tivesse o sangue amaldiçoado, por isso corpos caíam ao redor dela como moscas. Mas não dessa vez, pensou.
“Asami, você não ouse!” falou, com a voz trêmula e a visão embaçada pelas lágrimas que acumulavam em seus olhos. Não havia tempo para procurar a mochila, então rasgou um pedaço da própria camiseta e apertou o tecido entre seus dedos, sentindo-o esquentar mais e mais. Chamas. Isso. Liza colocou o fogo contra a barriga da irmã e a examinou, procurando por mais feridas. Havia tanto sangue que não sabia dizer se aquilo era o suficiente. “Você vai ficar bem. Vai dar tudo certo.” Ela soluçava com a cabeça apoiada no ombro de Asami. “Nós vamos acabar isso, voltar para o acampamento, e eu nem vou mais falar mal do Thorn pra você, eu prometo.” Deuses, por favor. Apolo a abençoara anos atrás, poderia mostrar seu apreço mais uma vez ajudando sua irmã.
Liza sentiu o corpo de Asami amolecer e afastou-se para olhá-la. O pouco fogo produzido não havia sido suficiente para cicatrizar os cortes, bastante profundos. Não tinha tempo. Ela deixou a irmã caída no chão e buscou sua mochila, onde sabia que encontraria o clássico kit de primeiros socorros de qualquer filho de Hefesto: querosene e lã de aço. Espalhou os ingredientes para o fogaréu sobre Asami e deu três passos para trás. Pai, nos ajude, por favor. E, com um estalar de dedos, uma faísca acendeu labaredas de mais de um metro de altura, envolvendo todo o corpo da semideusa. Suas roupas haviam virado pó, mas ao menos estava viva.
“Desculpa, não teve jeito” respondeu Liza, com um sorriso, enxugando as lágrimas. Ela está bem. Vai ficar tudo bem, dizia a si mesma, tentando controlar a respiração ofegante.
Asami se vestiu novamente, com as roupas de Barbie, e Liza correu na direção da irmã, lhe dando um abraço apertado. Seu corpo ainda doía, sentia os machucados ainda se cicatrizando e o corpo fraco pela perda de sangue, mas precisava daquilo. Não trocaram nenhuma palavra, as duas haviam passado pelas mesmas perdas nos últimos meses e entendiam o medo de viver aquele luto mais uma vez.
Tendo salvado a irmã, o foco de Liza pôde se dissipar, avaliando os outros campistas. Quando seu olhar pousou em Gaspard, tão ensanguentado e pálido quanto as filhas de Hefesto, ela correu até ele. Barbie parecia tê-lo curado também, mas isso não impediu seu coração de dar um pulo e liberar mais uma descarga de adrenalina. "Gasp! Você está bem?" perguntou, aflita.
Liza concordou com a cabeça, os lábios comprimidos em um pequeno bico para segurar o impulso de sorrir diante da preocupação dele. Era um alívio saber que todos estavam relativamente bem. "Ela me curou também." Instintivamente, levou uma mão ao abdômen, que ainda sangrava um pouco, assim como seu ombro. A magia de Barbie havia fechado os cortes mais superficiais, porém três machucados se abriram no momento em que se levantou para socorrer Asami. "Consegui. Quer dizer, o exoesqueleto fez a maior parte do trabalho, mas acertei um golpe no fim." Não sabia dizer se aquilo era motivo de orgulho ou vergonha. De qualquer forma, seu plano havia funcionado.
No momento em que Gaspard começou a desabotoar a camisa, Liza congelou. Já havia visto o torso nu do amigo antes, não sabia por que estava, de repente, com o rosto vermelho e precisando desviar o olhar. "Ah, é... estamos... combinando..." ela gaguejou, com uma risada mais nervosa do que bem humorada. Ficou feliz com a leve mudança de assunto, já que algo lhe dizia que estava prestes a engasgar ou coisa assim. Ainda tinha a mochila de Asami pendurada no ombro bom, com os itens das duas juntos. Liza pegou um pouco do alimento que chamavam de maná dos deuses e estendeu para Gaspard. "Claro. Está bom ou acha que precisa de mais?"
Liza olhou ao redor, enquanto aproveitava para comer um pouco de ambrosia também. Anael, Barbie, Akali e Nyxie pareciam estar bem, assim como a criança. "Não vi muito, acho que fui a última a matar o monstro, mas parece que a Kali deu um fatality e resgatou a menina" contou, lembrando-se do que vira de relance enquanto fugia do demônio com cabeça de tridente. "Minha irmã não deu tanta sorte, não sei como aconteceu, porque ela é boa de briga, mas acabou levando um golpe feio na barriga. Precisei jogar querosene nela, senão..." A filha de Hefesto não terminou a frase. Imaginar que mais um de seus irmãos poderia ter o destino de Frankie e Peter era doloroso demais. Asami estava bem, nada de mal lhe aconteceria.
Akali era sua amiga, entretanto, Liza precisava concordar: partir para o ataque daquele jeito havia sido bastante imprudente. De qualquer forma, todos estavam vivos e provavelmente conversariam com a filha de Netuno sobre esperar no futuro. Ter um membro do Chalé 6 no grupo era muito útil, precisavam aproveitar aquela vantagem. Liza, por exemplo, não havia pensado no padrão de golpes dos demônios. "Não" respondeu, assim que Gaspard disse para ela ir descansar. "Vou com você." E o seguiu na direção de Akali. Talvez aquela criança nem fosse uma criança de verdade, pensou, com seus instintos de fã de filmes de terror. Além disso, também queria saber o que ela tinha a dizer.
A criança claramente não iria colaborar com o estômago vazio. Assim, quando Kali saiu, Liza decidiu segui-la, queria ao menos encontrar uma pia para limpar suas feridas ainda abertas. Descobrir um vestiário com água quente e itens pessoais deixados pelos semideuses desaparecidos foi uma feliz notícia. Eles não estavam usando, certo? Logo, não havia nada de errado em pegar algumas coisas emprestadas, poderiam considerar como um pagamento adiantado pelo resgate. Ela se livrou das roupas ensaguentadas, se lavou e vestiu o único traje que encontrou do seu tamanho: um conjunto infantil cor-de-rosa com as palavras “Now United” escritas. Uma marca, imaginou. Liza torceu os lábios, estranhando a figura que a encarava no espelho, mas decidiu que estava melhor assim do que antes. Depois, protegeu as feridas com curativos e foi procurar os demais. Sentia-se revitalizada após o banho, havia até mesmo levado a mochila infantil consigo para a cantina, cheia de ideias.
“Encontraram alguma coisa?” perguntou, ansiosa para fincar os dentes em qualquer alimento que aparecesse em sua frente.
A única coisa melhor que comida era comida mágica. No momento em que Barbie indicou o banquete — se é que podiam chamar assim uma mesa repleta de salgados de cafeteria —, Liza sentou-se e escolheu um croissant de recheio misterioso para ser sua entrada. Era apenas uma massa congelada, mas estava com tanta fome que parecia derreter em sua boca como a melhor refeição de sua vida. Já estava no segundo prato quando conseguiu pensar no que Barbie dizia. Realmente, os demônios egípcios eram um péssimo sinal, uma possível indicação de que deuses de outros panteões estavam aliados a Psiquê. Então, lembrou-se do caderno e lápis de cor dentro da mochila que carregava consigo. Não havia a escolhido por conta do desenho da LadyBug.
“Você tem razão” concordou, enquanto revirava a bolsa. “Stormy, o que você acha de desenhar sua tia e a mulher urubu? Assim a gente pode te ajudar.” Liza estendeu os materiais para a menina e a encarou, aguardando esperançosa uma resposta afirmativa. Se ela não sabia falar, deveria ao menos saber rabiscar alguma coisa, ao menos era o que havia aprendido em tantos anos de experiência na forja.
Felizmente, Stormy conseguiu pegar os diferentes lápis e ilustrar algo. Não era uma obra-prima, porém esclarecia algumas coisas. No desenho, havia uma criança entre dois círculos brancos, uma mulher aparentemente humana com sangue na barriga e uma criatura que deveria ser a urubu, ainda mais alta que a tia. As mãos — ou asas? — pretas também estavam sujas de sangue.
“Obrigada, Stormy” ela agradeceu e deixou Akali voltar a distraí-la. Era melhor que não ouvisse o que ia falar para Anael, Barbie e Gaspard, mostrando o desenho. “O que vocês acham? Urubus costumam…” Liza abaixou o tom de voz “comer coisas mortas, não? Mas tem sangue na mão dela, não na boca. E vocês viram isso? São duas esferas brilhantes. Eu só vi uma.” Pelo bem de todos, esperava que a outra também tivesse desaparecido quando chegaram ao centro comunitário.
As hipóteses levantadas por Gaspard fizeram com que Liza pensasse em uma possibilidade pela primeira vez, sentindo-se culpada por sua impaciência. “É… Pode ser que ela tenha alguma deficiência intelectual” verbalizou, com o olhar baixo. Infelizmente, o máximo de experiência que tinha era com dislexia e déficit de atenção, não conhecia ninguém com tamanho atraso no desenvolvimento. “Mas, sim, depois dos demônios egípcios pode vir qualquer coisa. Espero que tenham outras pistas por aqui.”
“Vamos entrar no prédio e ver se está tudo seguro, quem sabe encontrar alguma coisa útil?” sugeriu. “Kali fica aqui com a menina, pode ser?” Ela parecia ter se dado melhor com Stormy.
Apesar da canção mágica de Barbie, Liza continuava cansada e dolorida. Era difícil se mover no exoesqueleto daquela forma, portanto decidiu animá-lo de novo, para andar atrás das duas. Ficou em silêncio até chegarem no segundo andar. "Sim, só estou cansada." Ia dizer algo sobre ter dormido mal, mesmo que não precisasse de uma desculpa, mas logo lembrou-se de um assunto que poderia mudar a atenção da amiga. Não gostava que se preocupassem muito com ela. "Você ficou acordada até tarde, né? Com quem estava falando?" perguntou, sem qualquer outra intenção. Na verdade, imaginava que fosse River questionando sobre os cuidados com o Manwol VI.
Liza franziu levemente o cenho diante da reação da amiga e deixou uma risada fraca escapar. Cogitou, por um instante, a possibilidade de ela estar mentindo, já que não conseguia pensar em nenhum motivo para corar mencionando Gabe. "Claro" respondeu, também tinha uma relação próxima de uma amizade com o filho de Íris, ele era divertido e possuía muitas histórias interessantes para compartilhar. "Tudo bem, eu voltei a dormir logo." Ao entrar na sala de dança, Liza colocou as mãos na cintura e olhou de um canto a outro, não havia muito para vasculhar, era apenas um cômodo vazio cheio de espelhos. Deuses, ainda estava com uma aparência horrível. Vaidade não costumava ser uma característica da filha de Hefesto, no entanto, sentiu a urgência repentina de se arrumar antes de voltar a encontrar o resto do grupo. "Credo" falou, enquanto ajeitava o cabelo molhado e apertava as bochechas. "Você tem maquiagem aí?" No momento em que as palavras saíram de sua boca, Liza apertou os lábios, percebendo o quão ridícula devia soar.
A pergunta de Barbie a pegou desprevenida e, dessa vez, foi Liza quem ficou vermelha como um pimentão. "Eu não!" retrucou, com a voz aguda, antes mesmo de refletir sobre qual seria a resposta honesta. Talvez estivesse tentando impressionar alguém... mas não queria pensar sobre aquilo. De fato, nenhum dos semideuses estava em seu melhor estado após a batalha, porém parte de Liza ainda possuía uma versão romantizada de como lutadoras deveriam se parecer. "Por favor... Eu não sou nenhuma Tomb Raider." Embora acreditasse fielmente nas boas intenções de Barbie, o elogio dela era quase uma piada aos ouvidos da filha de Hefesto. Dentre as seis garotas escolhidas para a missão, se classificaria como a menos bonita sem pensar duas vezes.
Aqueles conselhos pareciam despertar mais dúvidas e inseguranças em Liza do que o contrário, em parte porque tentava ignorar o que estava sentindo. Onde estava com a cabeça? Precisava focar na missão, não em uma possível paixonite idiota. "É, estar viva já é uma grande vitória" concordou. Era apenas a primeira batalha que haviam travado na ilha e quase não resistira... aquilo a aterrorizava, porém, mais uma vez, acreditava que o melhor seria deixar as ansiedades de lado e agir de forma racional pelo bem de todos. "Obrigada de novo por me salvar." Ela abraçou Barbie de lado e encostou a cabeça no ombro da amiga. "É possível" respondeu, lembrando-se da aparência dos demônios antes da luta. "O que eu enfrentei já estava sujo de sangue." Ainda assim, havia muitos semideuses em Liberty, não parecia lógico serem derrotados por aquelas criaturas, quando até mesmo Liza conseguiu matar duas. "Mas precisamos de mais informações." Ela se afastou e caminhou na direção da quadra.
Liza concordou com um aceno de cabeça e foi pela direita. Passou por arquibancadas vazias, um armário de equipamentos trancado e, finalmente, a cafeteria. Não pretendia começar a vasculhar o local antes de terminarem a inspeção da quadra, mas avistou um objeto brilhante sobre uma das mesas e precisou verificar o que era aquilo. Uma chave dourada de aparência velha que não parecia se encaixar naquele lugar. Ela passou atrás do balcão e encontrou apenas uma caixa registradora com um buraco pequeno demais para a chave. "Barbie!" chamou Liza, caminhando de volta para a quadra. "Eu achei uma coisa."
A filha de Poseidon estava certa, o melhor a se fazer seria levar a chave para os outros, até mesmo porque não havia nenhuma fechadura compatível no segundo andar. Talvez alguma casa antiga fora do centro comunitário. "Sim, vamos descer então" respondeu, já se dirigindo à saída da quadra e tentando se lembrar de não olhar os espelhos na sala de dança novamente.
Desceram as escadas caracol apressadamente e se uniram aos demais onde haviam deixado Akali e Stormy.
“Gente, encontramos essa chave esquisita” começou a falar. “E, o mais importante, uma máquina de fazer café.”
Ao fixar os olhos na porta mostrada pela filha de Netuno, Liza não pensou duas vezes e trotou na direção dela — uma péssima escolha para alguém que ainda estava se recuperando de duas tridentadas na barriga. A porta era dourada, assim como a chave que havia encontrado, só poderiam ser um par. Encaixou-a na fechadura e girou. O café poderia ficar para depois.
ㅤㅤㅤ━━ㅤ❝ㅤo lado ruim de passar tanto tempo cercado pela morte era que agora damian havia perdido um pouco a noção de que nem todos no acampamento conseguiam ver seus amiguinhos. foi a reação de liza com a menção dos fantasmas ao seu redor que fez com que ele se tocasse que para pessoas normais aquilo não era normal.ㅤ❛ㅤah, relaxa. esses são bonzinhos.ㅤ❜ㅤtentou tranquilizá-la com um sorriso, dando uma piscadela antes de virar-se para os fantasmas.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ❛ㅤvamos lá, galera. coloquem essa belezinha no chão com cuidado, ok?sem gracinhas, john, ou te passo a foice.ㅤ❜ㅤinstruiu os amigos invisíveis, que logo possuiram o que quer que estivesse sob aquele tecido vermelho. em poucos segundos o objeto já estava flutuando um pouco acima do chão, saindo do carrinho sozinho.
ㅤㅤㅤ ㅤㅤㅤ ㅤassim que o objeto estava em segurança, os fantasmas voltaram para o lado de damian, com a exceção de john, que dessa vez possuiu o pano vermelho e fez com que ele voasse direto na cara de liza.ㅤ❛ㅤqual foi, john, eu te avisei!ㅤ❜ㅤo ceifador até tentou dar bronca em seu amigo e parecer ameaçador, mas não conseguiu segurar o riso ao ver a garota minuscula coberta por aquele tecido gigante. os fantasmas também caíram na gargalhada.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ❛ㅤfoi mal, foi mal. tá tudo bem?ㅤ❜ㅤdongyoung tentou se desculpar depois de parar de rir um pouco, tirando o tecido de cima da filha de hefesto.ㅤ❛ㅤsabe como é, os fantasmas tem um humor diferenciado. não foi por maldade.ㅤ❜ㅤsorriu assim que se certificou de que ela estava bem, só então notando o que estava debaixo do pano segundos atrás.ㅤ❛ㅤah, isso que é o tal touro mecânico? é engraçado.ㅤ❜ㅤ
Bonzinhos. Dizer aquilo e nada era a mesma coisa. Como poderia confiar na palavra de Damian se não sabia nem mesmo a quantos fantasmas ele se referia? E, claro, havia várias interpretações possíveis: um espírito que não a matasse, mas puxasse seu pé durante a noite, seria considerado bonzinho? Liza segurou os próprios braços para não deixar os calafrios tão evidentes. Só queria que aquilo acabasse logo.
Ok, talvez não fosse tão ruim assim ser ajudada por fantasmas, tendo em vista que levaram rapidamente o touro mecânico ao chão sem danificá-lo. Afirmar aquilo, no entanto, era se precipitar. Logo o tecido vermelho que cobria o brinquedo foi parar sobre Liza, que se debateu e correu em círculos até conseguir jogar o pano no chão. Poderia ser apenas o medo, mas jurava que ele estava possuído, se agarrando ao rosto da filha de Hefesto.
“AAAAAAAAGH! Tira essa droga de cima de mim! Tira! Tira!” gritava ela, antes de ter seu campo de visão livre mais uma vez. Se não enxergar quem estava acompanhando Damian não fosse ruim o suficiente, não enxergar nada era pior ainda. E, veja bem, aquilo poderia ser uma ameaça, seriam os fantasmas capazes de possuí-la em uma brincadeira de mal gosto? Não queria imaginar.
Liza sacou instintivamente uma ferramenta do bolso. Esperava ser uma chave-inglesa, bem mais pesada e ameaçadora, porém tudo que tinha era uma chave Phillips. Naquele momento, tudo que desejava era ter pensado em roubar um pouco do ferro estígio que Asami estava usando para forjar as espadas de Nyxie. Mataria aqueles fantasmas de novo um por um, mesmo que precisasse ficar a noite inteira espetando o ar a esmo. “Eu não achei nem um pouco engraçado” retrucou, ainda olhando por cima dos ombros. “E, sim, é um touro mecânico.”
ㅤㅤ “Liza entenda…” Benjamin disse, pensando em passar o braço pelo ombro dela, mas ficou com medo de tomar dedada no olho do cu. “Eu não brigo com ninguém, são as pessoas que brigam comigo sabe?” Comentou calmamente para ele com um sorriso de trapaceiro no rosto. E era a verdade. Benjamin falava tanta coisa dos outros por piada ou apenas nos seus comentários aleatórios que todas as brigas que teve aconteceram partiram das pessoas que se incomodaram de algo que ele havia dito. Fazer o que se ele era popular né?
ㅤㅤEle riu mesmo com a cara amassada de ter caído no chão. “Eu tava de pé em cima do Bruno Mezenga. VOCÊ NÃO VIU ISSO LIZA?” O filho de Hermes começou a ter um faniquito pensando que a sua manobra radical bem tipo Pedro Scooby nas praias de Nazaré tinha sido perdida para sempre. Ponderou em voltar para cima do touro mecânico e tentar fazer aquilo de novo quando a filha de Hefesto lhe ajudou a levantar e se livrar da grama. Virou-se e cuspiu um pouco que entrou na boca. “Eu to bem. Só devo ter quebrado um dente ou outro, nada demais.” Proferiu com tranquilidade dando uma limpada na roupa e notando se tinha realmente se machucado. Tudo ok. Ben achava que depois de perder o olho nada o abalaria mais e, em partes, ele estava certo. “Segura que eu vou subir lá de novo e vê se você grava dessa vez…” O rapaz falou já se preparando pra subir no touro de novo.
Aquela frase fazia estranhamente muito sentido. A natureza caótica de Ben por si só já era suficiente para atrair confusões, não precisava ir atrás de nenhuma briga como faziam certas pessoas do acampamento (ela mesma, no caso). Aquilo ainda não respondia sua dúvida, mas Liza resolveu apenas dar de ombros, descobriria qualquer fofoca sobre o tal corno com Akali depois.
Como de costume, apenas metade das palavras que o filho de Hermes dizia eram compreensíveis. Ainda assim, Liza se sentiu culpada ao notar a decepção dele. Só naquele momento puxou o celular e percebeu que ainda estava gravando, tendo que parar o vídeo com a imagem do rosto de Ben amassado pela grama. Não seria o mesmo que ver a manobra ao vivo, mas assim ele não precisaria executá-la de novo.
“Pera aí” ela começou, puxando-o pela parte de trás da camiseta. “Deixa eu ver como ficou a gravação.” E apertou o play diante dos dois. A imagem estava tremida, um pouco fora de enquadramento, mas mostrava a ideia idiota de Ben sendo executada e o final trágico. Liza deixou uma risada escapar ao vê-lo ser lançado metros a frente do touro mecânico. Havia privilégios em possuir sangue divino, e Ben sabia usá-los perfeitamente.
“Isso foi incrível” comentou, com toda sinceridade. “Desculpa por não ter prestado atenção na hora. É meio difícil focar quando sua irmã resolve enfiar a boca em uma caçamba de lixo.” Se referia a Thorn, obviamente. Quando Liza olhou de novo, os dois já não estavam no churrasco. Deviam ter se retirado para algum chalé. Esperava que tivessem a decência de não ir ao de Hefesto, pois atearia fogo a Thorn sem pensar duas vezes.
Torceu os lábios, vencida. Liza não parecia realmente inclinada a tocar naquele assunto e, por hora, ela respeitaria. Mas a pergunta fez com que abrisse a boca de maneira ofendida. Projetando… Ora essa! Lembrou com dissabor da voz da psicóloga nas sessões de terapia após a morte da mãe e quase rebateu a provocação. No entanto, a fala seguinte da irmã redirecionou completamente a linha de raciocínio. “Um plano?” Suas sobrancelhas subiram. “Não envolve falar com o Hefesto, envolve? Sabe como ele é sensível com esses assuntos de chifre… Da última vez que tentei pedir que convencesse Afrodite eu tomei gelo por umas duas semanas.“ Fez uma careta, tinha sido num timing especialmente terrível. Alguns projetos necessitavam de bênção para Adamantina, mas sempre que tentava entrar em contato, o pai, na cara de pau, se fingia de ocupado e ignorava. Tinha chegado até a imitar barulho de chiado numa mensagem de Íris. Asami rolou os olhos e afastou as lembranças.
O desgosto na voz de Liza deixou claro a quem se referia. Asami balançou a cabeça, entretida. “Nesse caso,” repetiu “o problema não sou mesmo eu…” E a constatação do fato trouxe aos lábios um sorriso curtinho. Thorn Brekker tinha sido o primeiro rapaz cujo término Asami não atribuía a culpa a si mesma, o que era realmente um alívio. “Mas também não é ele. Quer dizer, não exatamente.” Tratou de adicionar. Ainda guardava o segredo do filho do Caos e, por isso, acreditava que a versão dos fatos repassada para Liza anos atrás tinha sido mais enviesada do que o que realmente havia acontecido. Asami tinha noção de que tanta repulsa era nada além de superproteção, e sentia-se grata pelo cuidado. Mas talvez… fosse hora de explicar a verdade. Ou talvez só estivesse morrendo pra conversar sobre aquilo com alguém e sabia que podia confiar em Liza. Alcott olhou por cima do ombro, certificando-se de que nenhum dos colegas prestava muita atenção na conversa delas. Então passou a sussurrar: “Eu vou te contar uma coisa, mas você tem que me prometer que não vai contar pra ninguém, tá legal? Promete? Em nome do exoesqueleto?” Havia gravidade no olhar que a direcionava, que só se extinguiu junto à positiva da irmã.
“Eu sei o que eu disse pra você quando a gente acabou, mas Thorn não me traiu de verdade. Iria trair? Bom, talvez. Provavelmente. Quando o encontrei todo de papinho com aquela filha de Quione eu juro que vi tudo vermelho! Sei lá, acho que entrei em pânico… Fiquei um pouco neurótica depois do que rolou com o Diego, não vou negar.” Seu tom de voz era baixíssimo. Ainda sentia muito por como as coisas tinham ficado com Diego, não sabia como contornar aquela situação sem desenterrar feridas antigas. Às vezes tinha vontade de entrar em contato, mas o orgulho a impedia. “Mas eu cheguei antes de acontecer e… o resto você sabe. O que você não sabe, é que Afrodite o amaldiçoou também, muitos e muitos e muitos anos atrás.” Asami soltou um suspiro alto, como se cansada pelo esforço de falar tanto a palavra. Então riu baixinho. “Às vezes esqueço de como ele é velho.” Seria seu gosto em homens experientes fruto de daddy issues? Desenhando padrões lentos e desconexos com o indicador sobre a mesa, ela continuou: “Thorn não consegue amar, Liza. Ninguém. Romanticamente, pelo menos. Ou foi isso o que ele me falou naquela noite, e foi por isso que a gente terminou. Eu e ele… Não tinha futuro.” Deu de ombros.
Antes que possíveis questionamentos sobre a cena no churrasco da noite passada viessem, endireitou a postura e completou, na defensiva: “E sim, eu estou saindo com ele de vez em quando. E não, não é como se a gente fosse namorar de novo, ele certamente está transando com outras pessoas e, bom, eu também…” Deu um beijinho no próprio ombro, como sua prima Valesca a havia ensinado. Após uma risada breve, Asami apoiou o queixo nas mãos. Sua expressão ficou séria outra vez. “Mas me importo de verdade com ele, sabe? Incrivelmente, aquele safado idoso se transformou no meu melhor amigo e eu… só quero que ele fique bem, que seja feliz.” A marca de Hécate faiscou no subconsciente, o que se refletiu nos movimentos do indicador sobre a mesa. Ela piscou e chacoalhou aquilo para longe. “Desculpa o monólogo. Vai ver eu tô mesmo projetando.” Rolou os olhos, mas depois sorriu com o cantinho dos lábios. “Qual é esse seu plano?”
flashback.
Talvez fosse a famosa cegueira do amor ou, quem sabe, Liza estivesse vendo demais com seu instinto superprotetor. De qualquer forma, o rosto dela se transformava em uma careta pior a cada palavra que Asami dizia. Havia prometido que não contaria a ninguém e estava mais que disposta a cumprir a promessa, porém não dissera nada sobre não julgar as atitudes alheias. Aos olhos da mais nova, não existia diferença nenhuma entre trair e não trair por ser flagrado com a intenção de trair e atacado com adagas logo em seguida. Caso a maldição de Thorn fosse ser compelido a buscar amante enquanto tinha um relacionamento monogâmico com a mulher mais incrível do acampamento, talvez Liza conseguisse entender seu lado, odiá-lo um pouco menos. No entanto, a história era bastante diferente.
Ela franziu o nariz ao ouvir a palavra velho. Realmente, Thorn tinha idade para ser avô do tataravô de Asami, o que deixava tudo ainda mais repugnante na opinião de Liza. Era um jovem idoso, com séculos de experiência e atitudes de um adolescente (pela primeira vez, traçou um paralelo com Gaspard, que tinha apenas 22 anos e se comportava como um velho, os dois rapazes eram o oposto um do outro). Toda a questão da idade, contudo, era o menor dos problemas. Descobrir que a tal maldição era não ser capaz de amar romanticamente mudava muito a história, e não de uma forma boa. Então Thorn não estava prestes a trair porque se apaixonara por duas mulheres. Isso era pior. Mesmo que os sentimentos de Asami pelo namorado não fossem recíprocos, ele não possuía nenhum carinho por ela? Empatia? Senso de compromisso? Argh. Como alguém poderia achar aquilo comovente? A indignação de Liza foi suficiente para não vomitar ao ouvir as palavras safado idoso no meio daquele discurso mela cueca.
“Asami” ela disse, séria, mas ainda com os olhos arregalados. “Ele ia te trair mesmo sem gostar da outra menina. Você não acha isso pior? Ele quebrou um compromisso e te magoou sem nem ter uma maldição deixando ele cego de amor por outra pessoa.” Sentia que precisaria se levantar e desenhar na lousa da forja para que a irmã entendesse o que queria dizer. Asami era bastante inteligente, porém, pessoas apaixonadas não costumavam ser muito perceptivas.
Liza balançou a mão na frente do rosto, esperando que o assunto fosse pausado ali. Talvez fosse melhor deixar aquela ideia amadurecer, pensar melhor sobre a falta de caráter de Thorn após uma boa noite de sono. “Mas, voltando ao plano.” Possivelmente enfureceria a irmã nas próximas palavras, entretanto, aquilo era melhor que cutucar feridas antigas. “Eu pensei em contatar Hera, de repente fazer uma missão para ela, e pedir para ela transferir sua maldição para mim. Ela é a deusa da família, né? Acho que ficaria comovida o suficiente para ajudar. E eu não tenho uma vida romântica agitada, de qualquer forma.” Estava solteira há anos e não se apaixonara por ninguém depois de Timmy. Não parecia um sacrifício tão grande assim, olhando por essa perspectiva.
ㅤㅤㅤ━━ㅤ❝ㅤera estranho até para o próprio julian pensar que um dia, há uns bons seis anos, ele e liza já foram amigos e fizeram parte do mesmo grupinho. chegava até a ser cômico, sentindo vontade de rir sempre que olhava para qualquer um do antigo grupo de nerds ━ não deles, claro, mas dele mesmo. parecia uma grande piada ou um sonho febril pensar que um dia julian kane não era ninguém mais do que um garoto viciado em video game que sofria bullying dos semideuses mais velhos e fortes. patético, mas no fundo ele sentia falta daquela época, só não queria admitir.
ㅤㅤㅤ ㅤㅤㅤ ㅤnão sabia mais se liza o odiava por ter abandonado os amigos para que todo aquele bullying acabasse ou se fazia parte dos idiotas que acreditavam fielmente na fofoca má contada das ninfas, e, sinceramente, não estava nem ligando mais para aquilo. se liza realmente pensava que julian era capaz de matar alguém a sangue frio, principalmente alguém tão importante para ele quanto frankie, o problema era dela. mas ele ainda continuaria zoando seu pai só para deixá-la ainda mais irritada.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ❛ㅤnão é minha culpa se essa é a característica mais marcante do seu papai. devia reclamar com a sua madrasta, isso sim.ㅤ❜ㅤdesfilou em volta do brinquedo com um sorriso zombeteiro nos lábios, estalando a língua contra os dentes antes de continuar.ㅤ❛ㅤe, como todos herdamos algum talento dos nossos amados pais divinos, não foi diferente com a sua irmã. tadinha, fica difícil saber se o dedo que é podre, o chifre é genético ou se a verdadeira maldição na vida do seu pai e irmãos não é a própria afrodite. nada contra a deusa, claro, adoro ela inclusive.ㅤ❜ㅤdisse a última parte olhando para o céu como se estivesse falando com a própria deusa, esperando que ela não se ofendesse tão fácil assim.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ❛ㅤah, qual foi, sei que tem mais criatividade que isso pra insultos, lizinha! na china porcos são símbolos de riqueza, sorte e prosperidade, então é como se você estivesse me elogiando. obrigado.ㅤ❜ㅤpiscou para a filha de hefesto assim que parou na sua frente novamente, encarando-a de cima com um brilho divertido nos olhos.ㅤ❛ㅤainda presa no passado, wellington? supera.ㅤ❜ㅤrevirou os olhos e bufou quando se tocou sobre o que ela se referia, colocando as mãos nos bolsos da calça. pelo menos não estava jogando a morte de frankie na sua cara, ainda.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ❛ㅤvocê ia adorar isso, não? mas, para a sua infelicidade, não fui expulso. pra mim esse evento é mais do que só um monte de gente transando, sabia? é um ritual, e eu respeito isso. não teria porque me expulsarem de algo que eu ajudo a organizar.ㅤ❜ㅤsentiu-se um pouco ofendido por ela realmente achar que justo ele seria expulso da orgia, um de seus eventos favoritos não só por conta de tudo o que acontecia mas pela energia.ㅤ❛ㅤmas claro que você não entende nada disso. nunca foi chamada pra uma, e provavelmente nunca vai ser. vai continuar com as suas proteses malucas e sonhos eróticos.ㅤ❜ㅤdebochou, curvando-se um pouco para que seu rosto ficasse na altura da menor.
Liza sabia muito bem que seu pai não era perfeito, Hefesto, querendo ou não, era um deus e nenhum deles possuía a fama de agir corretamente o tempo todo. Sabia sobre a história dele com Atena, com a filha de Afrodite, Ariel, e também que vinha desonrando seu compromisso com a esposa há milênios. Ainda assim, se recusava a aceitar um merdinha como Julian Kane dizendo que seu maior feito era ser traído. Hefesto era o maior inventor do Olimpo, o único deus aceito entre os Doze depois de ser expulso (por puro capacitismo de Hera, em sua opinião), o criador da raça humana. Era um corno? Sim. Porém, tal como Asami, essa era a menor de suas características. Na verdade, dizia mais sobre seus parceiros do que sobre eles mesmos.
“Eu sempre soube que você era burro, Kane, mas não a esse ponto” retrucou, furiosa. Diminuir seu pai daquela forma era diminuir a própria Liza. “E não estamos na China, aqui só significa que você é nojento e desonesto mesmo.” Palavras que o descreviam perfeitamente, em sua opinião. Desde que os dois se afastaram, Julian parecia ficar pior a cada dia. Era cruel em seus comentários ácidos e se divertia com cada tropeço do Chalé de Hefesto. Pensava que a morte de Frankie o abalaria, mas não era o que aparentava, tendo em vista que aproveitava qualquer oportunidade de ofender sua família sem pensar duas vezes. Liza duvidava muito que a irmã ficaria feliz vendo o que ele fazia. Ao menos estava em melhor companhia nos Campos Elísios, gostava de imaginar.
“Você fala de passado como se tivesse errado uma vez, né? Mas é difícil ‘superar’“ ela fez aspas com as mãos, revirando os olhos “quando você continua com essa personalidade de bosta achando que ‘tá arrasando.” Liza via Gaspard e Barbie insistindo em ter uma conexão com o filho de Dionísio e sendo decepcionados dia após dia. Os estragos feitos por Julian não estavam no passado, e talvez ele percebesse isso se não passasse o tempo todo entorpecido com a droga do momento. Eram um grupo de amigos incrível e, mesmo anos depois da saída de Julian, Liza sentia que nunca mais seriam os mesmos. Nunca o perdoaria por aquilo.
Uma risada sarcástica saiu da boca da filha de Hefesto. Estava machucada, é claro que alguém que já fora tão próximo de si saberia seus pontos fracos, mas usava o sentimento como combustível para sua raiva. Sempre que se envolvia em brigas com Julian era assim, engolia insultos com um falso orgulho até explodir. “Se você diz se importar com o tal ritual é ainda mais provável que estrague ele. É sua especialidade” retrucou, mirando também onde o filho de Dionísio era mais vulnerável. Ao menos tentando fazer isso. “Você anda pensando demais no que eu sonho para assumir uma coisa dessas.” Se fosse qualquer outra pessoa se aproximando daquela forma, Liza ficaria encabulada, mas naquele momento só desejou voar no pescoço de Julian. Claro, ele era muito maior e uma garota de um metro e meio não teria chance contra ele. Ainda assim, poderia ameaçá-lo. Segurou com uma mão a fita de cetim que decorava o peito do filho de Dionísio e a queimou. Aquele material não era suficiente para atear fogo a todo o corpo dele, infelizmente, mas poderia dar um susto.
♚ ━━ ❝ Com Liza tão agitada daquela forma a melhor coisa que se podia fazer era ficar fora de seu caminho e não era que não queria ajudar, mas não queria ser alvo de suas explosões, algo que acontecia com frequência quando ela estava, ou achava estar, sobrecarregada. Como filho de Vênus, ele tentava manter a aura do ambiente sempre estável e fazia o trabalho dobrado quando ela estava assim, dessa forma, vez ou outra, conseguia fazer com que ela se acalmasse antes do pior, mas naquele dia estava tendo dificuldades e não era para menos. Liza seria mandada para uma missão e isso o preocupava também, ainda mais quando parecia ser algo grande demais para lidar. Ele queria poder ir junto, mas como deus não podia se envolver tão ativamente em assuntos dos semideuses. E como previsto a explosão veio. Agarrou os papéis de projetos nos braços como crianças, apenas arqueando as sobrancelhas enquanto ela falava. Sabia que aquilo não tinha a ver consigo e que provavelmente a irmã estava se culpando por deixar projetos inacabados para trás, por isso simplesmente relevou enquanto colocava os papéis sobre sua bancada para recebê-la nos braços. O deus a pegou no colo como uma criança, pequena e fácil de levantar como ela era, e caminhou até um sofá particularmente sujo de graxa e fuligem, mas não ligou pra isso. Sentou-se e a aninhou contra o peito, beijando o topo de sua cabeça.
———— Relaxa, pequena… Eu vou dar conta de tudo enquanto estiverem fora. Vou olhar todas as suas anotações, mas ei… O olho de Ben já foi entregue e o braço de Akali está pronto também, eu finalizei essa madrugada. Você pode só conferir e levar pra ela. —— os dedos do mais velho correram pelos cabelos da irmã, fazendo um carinho. ———— Você precisa ir, Liza… As pessoas dependem de você e às vezes só ficar no bunker não vai ajudar. Você vai dar conta. Eu não conheço pessoa mais capaz! E eu vou estar aqui. Se precisar de mim basta fechar os olhos e rezar, eu vou te ouvir. É as vantagens de ter um irmão que também é um deus, hm? Vai dar tudo certo. Agora respira fundo, você precisa se acalmar. ❞
flashback.
Mesmo uma década depois de descobrir quem era seu pai verdadeiro, era difícil Liza enxergar Hefesto como a figura paterna que via em filmes. Raramente entrava em contato com ele, que dizia ser melhor para o aprendizado da filha deixá-la sozinha. Sempre pensava que aquela era uma desculpa para não dizer explicitamente que Asami era sua preferida, mas não comentava muito sobre o assunto. O ponto é: Hefesto deixara um espaço vago na vida da filha e, com frequência, era Lisander quem cumpria o papel da figura paterna tão necessária para uma garota. Talvez fosse por isso que Liza se irritava tanto com a sexualidade aflorada do irmão, era perturbador tentar conciliar as duas personalidades dele em sua cabeça.
Quando Lisander a abraçava daquela forma, era fácil se acalmar. Tudo vai dar certo, pensou, com o ritmo da respiração lentamente voltando ao ritmo normal. “Ok, vou instalar o braço antes de partirmos então” respondeu, fungando. Seus olhos ainda lacrimejavam e agora não tinha mais certeza do motivo, se era pela ansiedade de partir em uma missão ou por ser grata em ter um irmão que a apoiasse tanto. Liza costumava relutar em aceitar elogios e palavras de encorajamento, no entanto, tudo parecia mais confortante quando era ele quem dizia. “Obrigada, Lis” agradeceu, enterrando o rosto molhado pelas lágrimas no ombro do mais velho. “Eu... vou tentar. Mas é melhor você me abençoar ou sei lá o quê quando eu rezar, porque sou muito ruim de briga.”