Aquela explicação era bastante compreensível para Brenna, sua força sobrenatural, olfato e audição apurados e talvez até mesmo o temperamento explosivo fosse parte de sua essência divina, portanto era bem como respirar, não necessitava de esforço para fazer o que fazia. Devia ser semelhante para Lis, mas aquilo só a fazia lembrar o que ele realmente era, um Deus. “Realmente, não seria nada prático andar por aí sendo o Tocha Humana.” Abriu um sorriso fraco, não podendo perder a oportunidade para tirar brincadeiras. Era seu jeitinho, afinal. Ela tocou a pele com as unhas novamente, antes de erguer o olhar para fita-lo. “São lindas, parece ouro líquido deslizando pelo sangue. Como um vulcão, quase.” Podia atribuir suas assimilações nada filosóficas à bebida, talvez, mas não estava tão anuviada assim para tanto, o banho no riacho a tinha feito acordar de certa forma.
Brenna ignorou sutilmente a menção dele sobre ela precisar de ajuda, não se lembrava de como tinha chegado ao riacho muito menos de estar se afogando, estava confusa demais e preferia evitar aquele assunto. Tirou uma mecha de cabelo molhado do ombro e do rosto com a mão livre, voltando sua atenção para o horizonte e sua lua brilhante naquela noite. Mais além, podia enxergar a abertura do portal mais à frente tremeluzindo com estática ao redor de suas bordas azuladas. A semideusa soltou um sorriso fraco e rouco aí vê-lo explicar como funcionava o mecanismo da sedução para seu ser, e fosse pela bebida ou não, aquilo não deixou de aguçar a curiosidade de Carstairs. “Então se eu começar a flertar com você agora mesmo, como vai ser a sensação?!” Era uma pergunta quase retórica, visto que ela não tinha ainda começado a colocar tais flertes em prática.
Ao ouvir aquela explicação, a morena se sobressaltou minimamente, virando-se para fitá-lo nos olhos. “Eu não falei que você era depravado!” Protestou com um gesticular de uma das mãos, apontando para Lisander a fim de enfatizar sua própria fala. “Na verdade, não lembro de ter criticado sua forma de viver antes, só me surpreende saber algumas coisas sobre você talvez apenas porque não nos conhecemos o suficiente.” Expôs os fatos com clareza, a voz firme indicando a veracidade de suas palavras. “Não foi a primeira orgia que eu participei, se é isso o que você acha. Eu me permito viver o que eu quero sempre que quero, a questão é quando eu quero e se…” Se desvencilhou do braço de Lisander e deu alguns passos a sua frente, virando-se para andar de costas a fim de olhá-lo por inteiro à sua frente. Era uma provocação explícita, do jeito que Brenna gostava de brincar.
O tilintar das pedrarias das vestes brilhavam a medida que ela dava seus passos em direção a casa de Lisander em Nova Roma, após atravessarem o portal que ligava ambos os acampamentos. Brenna deu alguns passos a dentro, os olhos negros percorrendo a extensão do cômodo com o deslumbre de uma criança que acabava de ganhar um novo brinquedo. Ela piscou algumas vezes, descrente por não acreditar que aquilo era a casa de um Deus. Não que tivesse algum problema com a casa de Lis, mas sua mente fértil as vezes imaginava mais do que de fato as coisas eram. As vezes se esquecia de que ele era quase uma pessoa normal como ela. Talvez fosse a hiperatividade.
Os passos ecoaram no cômodo enquanto Brenna vagava completamente à vontade, como se já tivesse a visitado antes. Ao aproximar-se do piano, as digitais tocaram a tampa com um arrastar lento e cuidadoso, sentindo a madeira lisa entre os dedos. Assim que as palavras de Lis atravessaram seus ouvidos, ela abriu um sorriso de canto ao reconhecer demasiada cortesia, mas quando o ouviu mencionar sua mãe, os olhos percorreram os móveis a procura de uma imagem. Brenna atravessou o cômodo em direção à lareira, percorrendo com o olhar algumas fotos em porta retratos rústicos. “Então essa é Hérmia?!” Perguntou apontando com o indicador para um foto de uma mulher jovem e sorridente “Ela é linda.” Um pensamento rapidamente passou pela sua cabeça, e a semideusa virou-se para fitá-lo por cima do ombro. “Você não acha que, onde quer que esteja, ela pode ficar chateada se eu usar suas roupas?! Bem, eu não acho que gostaria de dividir minhas Chanel e Prada mesmo morta…” Recitou sucintamente, as palavras carregadas de sinceridade. Brenna Carstairs tinha ciúmes do que era seu, independente do que fosse.
Talvez não fosse apropriado que, depois de falar sobre mães falecidas, Brenna tomasse a atitude que tomou. Contudo, era de sua natureza impulsiva agir através da sua curiosidade, era assim desde criança e não seria agora a mudar, e naquela noite aquilo sobre si estava se mostrando ainda mais evidente. Com passos lentos de um gato, a semideusa se aproximou de Lisander, analisando-o de cima a baixo até parar a sua frente, a poucos centímetros do Deus, antes de voltar sua atenção as escadas à esquerda. “Eu poderia dizer que não seria nada educado do anfitrião dizer-me onde encontrar o que eu preciso para não morrer de hipotermia e não me levar até lá.”
♚ ━━ ❝ Lisander soltou uma risada nasalada diante da pequena graça de Brenna, negando com a cabeça para concordar, de fato não seria nada prático andar por ai pegando fogo, afinal, apesar de não necessariamente atear fogo nas coisas só por queimar — isso era algo que ele podia controlar de acordo com sua necessidade e querer — as pessoas estavam acostumadas a se afastar do fogo, porque, claro, era um elemento perigoso. Lisander era um ser dependente de relações interpessoais, era quase como se não sobrevivesse sem que estivesse com alguém, não apenas romanticamente, mas precisava de amigos, irmãos, colegas de trabalho... gostava de ter as pessoas por perto, senti-las. A ideia de afastá-las pela sua natureza parecia bastante perturbadora para o deus.
———— Não... definitivamente não seria prático andar por ai dessa forma. —— ele concordou por fim, os olhos cor de ouro observando enquanto as unhas longas da filha de Ares deslizavam por sua pele, lhe causando um suave arrepio que subia desde a base da coluna até a nuca e fazia sua respiração falhar. Tentou, no entanto, não demonstrar a mudança corporal apenas para que a outra não ficasse desconfortável. ———— É mais ou menos como isso. O sangue dos deuses é ícor, mas se eu sangrasse seria como lava quente escorrendo da minha pele, não que eu sangre com frequência...
E de fato Lisander se mal se lembrava das poucas vezes em que tinha se machucado para sangrar, todas elas muitos anos atrás, quando ainda era um semideus, muitos anos antes. Diante da pergunta dela, ele se deixou refletir, era mais fácil quando acontecia do que explicar de fato a teoria, mas já que ela estava tão curiosa buscava tentar colocar em palavras sua essência. Era quase como perguntarem “quem é você”, “do que você gosta?”, até deuses tinham dificuldades para responder coisas assim.
———— Bom, imagine como assistir uma luta, você sente aquela energia, torce por alguém, fica animado, eufórico e energético... agora, a coisa é muito mais intensa quando você é quem está lutando. Tudo é mais pessoal. As provocações, os golpes, você recebe aquilo diretamente. Você não mais só vibra quando a pessoa por quem está torcendo leva um chute, você literalmente é acertado. É assim quando flertam comigo, é como uma descarga máxima de energia, como ser reconhecido e adorado diretamente na minha verdadeira essência, é por isso que eu gosto tanto... —— ele brindou, rindo ———— A sensação chega a ser torpe, como usar algum tipo de droga. E se é com alguém com quem eu tenha alguma conexão, digo, algum sentimento para além do flerte por atração sexual, o que já é muito, claro... bom, então a coisa é muito melhor.
Era também por isso que, apesar de Lisander ser o tipo de pessoa que estava sempre flertando por ai, se apaixonar para ele era sempre tão melhor! Gostava do querer, daquela coisa que se prolongava, que não durava apenas uma noite e acabava ali. A visão que tinham sobre si costumava ser errada em muitos graus porque ele dificilmente se envolvia com alguém sem gostar realmente da pessoa. Para ele o menor sentimento era um sentimento deveras importante.
———— E eu não disse que foi você quem disse, eu disse que é fácil falar. —— ele lembrou-a com um risinho, dando de ombros no final. ———— E acontece que eu não devo e nem vou achar nada... Eu mesmo estava na orgia e não é como se fosse a primeira ou a última que eu participei. Se você gosta, ou se gostou, isso só tem interesse à você e é exatamente isso, você faz com quem, quando e onde quiser, o que quiser, e isso não tem só a ver com sexo.
Concordava com Brenna e era isso que muitas pessoas não entendiam: sua forma de pensar. Não era porque era um deus com natureza sexual que achava que todos deveriam fazer sexo o tempo todo, não era sobre isso, mais de uma vez havia dito que tudo tinha muito mais a ver com sobre como e com quem se relacionava, a importância dessas coisas para a pessoa. Mas cada um interpretava e tomava a sua maneira, não seria ele a ficar contestando, não precisava, era um deus afinal.
Os olhos do mais velho encararam a figura a sua frente, andando de costas para o caminho onde ia e de frente para si, a roupa de pedrarias se movendo graciosamente no corpo feminino, fazendo um suave barulho que era agradável ao ouvido da divindade. Imediatamente sabia o que ela estava fazendo e suas sobrancelhas se franziram. Só não sabia com quais intensões. Ela ainda o estava testando? Tentando ver como ele funcionava? Ou de fato estava flertando? Com Brenna ele sempre tinha as suas dúvidas... E ainda que sentisse a energia que emanava dela, preferiu se resguardar e não agir como uma criança na páscoa que havia acabado de ganhar dezenas de chocolate.
Deixou-a apreciar o ambiente enquanto ele próprio se acomodava, sentindo-se mais confortável e livre dentro de sua própria casa. O próprio deus precisava de um banho pois, apesar de não ser acometido pelas doenças humanas como uma gripe por um mergulho no lago numa noite gelada, ainda se sentia incomodo com as roupas antes molhadas, agora secas pela temperatura de seu corpo e de toda forma, preferia usar o moletom. Quando ela citou Hérmia no entanto, se permitiu parar por um momento e se aproximar com um sorriso terno como nunca antes, a lembrança da mãe lhe vindo a mente no mesmo instante. Ele assentiu.
———— Ela era magnífica... Quem a conheceu tivera muita sorte mesmo. —— apesar de ser filha de Belona, a semideusa tinha um temperamento controlado e um sorriso terno de quem podia acabar com seus problemas com apenas meia dúzia de palavras e de fato, podia, era como ele se lembrava. Por fim, ele riu, negando com a cabeça para a garota ———— Não, se ela precisasse, tiraria a roupa do próprio corpo para aquecê-la, quem dirá do próprio guarda roupa. Não se preocupe com isso. —— ele garantiu, voltando o olhar para a semideusa quando ela se aproximou. O corpo de Lisander voltou a sentir o arrepio percorrer a espinha com a proximidade dela, a intenção de sua voz descarregando em seu ser uma nova onda de energia cada vez mais forte de modo que a cada vez ficava mais difícil controlar as evidências. Inferno. Ele pensou. Estava mesmo tentando respeitar os limites impostos por ela no começo daquela noite. Apenas um café, dormir um pouco para se recuperar... Ele estava mesmo tentando ser um bom anfitrião e todas essas coisas. Ainda assim, não conseguiu evitar o sorriso de canto que delineou os lábios carnudos.
———— Eu te mostro o caminho. —— concordou, tomando-a pela mão por fim, sem conseguir conter a descarga elétrica acumulada que passou dos seus dedos para ela, devolvendo para a semideusa tudo que ela tinha jogado para cima dele até agora. Assim, guiou-a até o quarto, tomando no último minuto a decisão de levá-la até o seu, porque era maior também, e o banheiro tinha mais espaço para acomodá-la. Acomodá-los. Lisander se repreendeu pelo pensamento, mas agora já adentrava no cômodo. Em nada era diferente do restante da casa. Os móveis eram de madeira preta e marrom, com detalhes em dourado. Tinha bastante espaço, uma cama grande que certamente caberia três do deus, uma TV de plasma presa à parede com uma cômoda embaixo, uma porta para o closet e outra para o banheiro. Ainda havia um frigobar, uma poltrona, uma mesa com algumas ferramentas de trabalho no canto e um acesso à uma varanda. Levou-a direto para o banheiro, soltando sua mão apenas para ir até a banheira, onde ligou as torneiras para que a água começasse a cair, enchendo-a.
Se permitiu respirar fundo antes de se afastar da estrutura de porcelana e voltar-se para a semideusa que havia deixado na porta do cômodo, ela tinha uma última chance de permitir que ele cumprisse com a promessa de que suas intenções eram puramente inocentes. A bem da verdade, eram! Ele realmente estava tentando ajudar ela, isso não significava no entanto que não se sentisse atraído pela filha de Ares e pelos martelos de Vulcano, ele sentia! Raramente, no mundo, em toda a sua existência como semideus ou deus, mulheres lhe chamavam atenção, mas Brenna... sabe-se lá o que ela tinha de diferente, ele não ousava perguntar, mas ela tinha algo e ele não sabia explicar, só simplesmente não conseguia não desejá-la. Os dedos do deus tocaram a barra do top que ela usava, a canhota se apoiando com leveza no quadril dela para que ela tivesse liberdade de fugir do seu toque se assim quisesse. ———— Ajuda com algo mais...? —— perguntou, estava pronto para arrancar a maldita roupa dela, mas apenas se ela o deixasse. ❞