— Ok, ok, eu entendo que a coisa toda lá na fogueira foi traumática, mas… — Depois de ter visto tanta gente abalada pelos pesadelos que Mania causara nos semideuses, Mitra suspirava, já farta da atmosfera ruim que se apossava do acampamento. — Será que podemos falar de outra coisa que não envolva tragédias? Não é como se lamentações fossem ajudar em algo.
“ ✠ ┆ — haviam pessoas que eram adeptas de que “compartilhar é a melhor forma de lidar com a dor”, mas lisander estava longe de ser alguém que ficava se lamentando. embora doesse como o inferno as visões que mania havia colocado em sua cabeça, ele preferia não falar disso nunca. era uma fraqueza sua que ele não pretendia mexer. ------ totalmente de acordo. se vai ficar se lamentando, por favor, vá se lamentar para lá. afinal, se ainda não notou, todo mundo foi atingido por essa merda, tu não foi o único lírio do vale a sofrer com as visões de mania --- disse ao semideus que se lamuriava. podia ser insensível as vezes, mas estava cansado de se lembrar do ocorrido. ”
↠ Poly estava passando bem mais tempo com suas flores do que o normal, uma vez que buscava assegurar-se de que o pesadelo causado por Mania nunca viesse a acontecer e tomava muito cuidado de não machucar, mesmo que sem querer a natureza que tanto amava e zelava. As orbes escuras da ninfa estavam fixas em algumas rosas que ela acariciava as pétalas e cantarolava baixinho antes de ouvir passos próximos de si, fazendo com que voltasse as iris para a figura que aproximava-se - Posso ajudar? - perguntou calmamente, mas sabia que não ajudaria caso envolvesse arrancar as flores.
“ ✠ ┆ — lisander estava deveras perturbado. já havia se passado um tempo desde o ataque de manina durante a fogueira, mas ele ainda não havia conseguido tirar tal acontecimento de sua cabeça, tão pouco dormir. desde aquele dia, mal tinha fechado os olhos e por alguma sorte divina, seja lá qual fosse, ele sequer se sentia cansado. sentia apenas fúria. uma raiva quase indomável que parecia lhe tomar o corpo e queimar tudo como numa forja. o filho de vulcano queria acabar com aquilo tudo. sem planos. apenas caçar os malditos seres que achavam que podiam brincar com a morte de sua mãe apenas pela sua sede incansável de poder. aquela altura, sem ter o que fazer, lisander caminhou cada vez mais para longe do acampamento, em meio as árvores altas que cercavam o acampamento, sabendo que abraçar a solidão seria melhor do que ter que explicar o que estava acontecendo. a morte de hérmia não era um assunto cogitado por ele nunca. sentiu-se no entanto surpreso ao encontrar outra pessoa ali e num suspiro à sua pergunta, ele negou com a cabeça. ------ na realidade, não... --- ele deu de ombros. ------ o que faz por aqui? é meio deserto, não acha? ”
“ ✠ ┆ — lisander encarou os olhos de mania, aquele monstro que trazia mal presságio, e muito relutou contra a sua essência, chegando a puxar as espadas duplas que quando em sua forma passiva, eram apenas correntes onde os pingentes se enroscavam para fechar o colar, mas antes que pudesse desferir qualquer ataque contra a personificação, se sentiu mal, caindo num abismo gelado e escuro, incapaz, impotente... não houve batalha, sequer chegou a dar um passo do local onde estava antes de cair de vez nas profundezas de sua mente, um lugar obscuro que ele raramente visitava, as lembranças lá guardadas eram deveras doloridas para que ele pudesse pensar um dia mexer nelas.
“ ✠ ┆ — estava de volta a nova roma, uma nova roma vazia e silenciosa, não havia lares ou crianças correndo pela avenida principal. havia apenas ele e um acampamento fantasmagórico. sorrateiro, com sua lança na mão, lisander caminhava em busca do perigo. sabia que havia perigo, se lembrava de mania, do rosto amedrontador dela, e ela estava lá, em algum lugar, ele só não sabia onde. podia sentir a sua presença. era quase como se soubesse que aquilo que vivenciava era fruto de alguma artimanha dela. era como se enxergasse na estrutura daquele... sonho? não parecia como os sonhos comuns, que não tinha nenhuma consciência deles. lembrava-se vagamente de estar na fogueira, compartilhando bons momentos com seus amigos e de repente... aquela presença demoníaca invadiu o espaço seguro que era o acampamento de semideuses. tinha que se livrar daquela ilusão, ajudar aos outros...
“ ✠ ┆ — mas se um dia lisander achou que aquilo tudo era uma ilusão, se esqueceu no momento em que ouviu a voz dela. “lisander! meu amor... estou aqui!” onde? ele olhou para os lados em busca da voz de hérmia, sua mãe. a semideusa filha de belona que lhe dedicou sua vida. não tinha nenhuma obrigação para com ele, podia tê-lo dado aos seus superiores e nada mais, porém tomou para si a responsabilidade de cuidar do bebê encontrado na porta do acampamento júpiter, mesmo sem saber naquele momento se era ele um semideus ou não. e o fez bem. e era culpa dele se ela não estava ali. “estou aqui, bobinho, bem atrás de você!” a voz dela soou perto. calorosa. ele sentia tanto a sua falta. ele se virou para ela, um sorriso largo de saudade estampado em seu rosto. a felicidade tomando forma em suas expressões. felicidade essa que durou tão pouco quanto a certeza de que estava sonhando.
“ ✠ ┆ — ele não sabia como tinha acontecido, mas quando se virou, sua lança atravessou a barriga de hérmia. porque estava com sua lança? havia prometido nunca mais usá-la. havia destruído todas as armas envenenadas que um dia construiu. finalmente tinha uma segunda chance de tê-la viva e a matou novamente. “não! por favor! não!” ele suplicou, largando a lança para tomá-la em seus braços. assistia o sangue escorrer pelos lábios da mulher, o desespero e a dor em seus olhos. ela estava morrendo e não havia nada que ele pudesse fazer para salvá-la. o veneno era mortal. ele mesmo o havia criado. “por favor! não! me desculpa! eu não quis... mãe... por favor...” as lágrimas quentes molhavam seu rosto, as mãos de hérmia se agarravam em seu braço como quem queria agarrar a própria vida e impedi-la de deixar o seu corpo. antes de seu último suspiro, ela encarou seus olhos “é tudo culpa sua!” ouviu a voz da mulher pela última vez antes que pudesse sentir seu corpo gélido desfalecer em seus braços. a culpa é sua... a culpa é sua... a voz continuou a dizer, somada as vozes dos companheiros de acampamento que só agora chegava, soando em sua cabeça enquanto ele chorava sobre o corpo morto de sua mãe.