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@luaramacedo
Li há pouco tempo, um texto onde os autores falavam sobre como fomos ensinados a entender o processo da vida como uma sucessão de fases, uma termina, conclui-se, aprendemos tudo o que cabe nela para assim iniciarmos outra, até o alcance maior da maturidade. Por pensarmos assim, tudo que é tido como uma “regressão”, ou seja, ter uma atitude dita infantil ou inconsequente, é normalmente vista como algo negativo. Como se a cada aprendizado fossemos lançando mão de alguém que fomos, dos erros que cometemos, para nunca mais repeti-los. Como casacos que soltamos do corpo e jogamos ao longo do caminho e por isso jamais voltam a nos pertencer. Fui machista, não sou mais. Fui egoísta, não sou mais. Fui boba, mas aprendi. Não quero dizer aqui que não aprendemos, não evoluímos, não escolhemos ser melhores do que fomos, mas que o que fomos segue sendo parte de nós. Os autores pensam então que a vida não se faz em fases, ela é um círculo que vai aumentando de tamanho, se abrindo a cada nova experiência recolhida, “todo o já sido não fica para trás ou para fora do círculo”. Quando aprendemos uma segunda língua não deixamos de ser nativos da primeira, ainda que agora se possa escolher em qual permanecer. É quase impossível não revisitar a outra. Por isso voltamos hora ou outra aos erros cometidos. Por isso é tão difícil manter um status contínuo da Fada Sensata. Porque sustentar a maturidade sem regredir é impossível, a sensatez acaba, as certezas se dissipam e voltamos ao não saber, a estupidez. Viver é contraditório e circular e não coerente e retilíneo. Reflexão feita a partir das leituras: Na presença do sentido. Uma aproximação fenomenológica a questões existenciais básicas (Pompéia e Sapienza, 2013) e Filosofia Mestiça (Michel Serres, 1993).
Figueiredo (2004), psicólogo e escritor, diz em um de seus textos que para sustentarmos nossa existência no mundo, pra darmos conta dela, é preciso um - espaço separado - distante do restante deste mundo, onde seja possível nos recolhermos. Um lugar para habitarmos. Mas este espaço não pode ser também um completo enclausuramento, é necessário //aberturas limitadas\\. As aberturas seriam Portas e Janelas. Vou me ater as janelas pelo carinho especial que dispenso a elas. Em Latim, Janela vem de “januella”, diminutivo de “janua” que é na verdade Porta, acesso, entrada de um país, sendo assim, januella significa: pequena porta. Uma curiosidade é que outra palavra próxima de “janua” é Janeiro! As duas derivam de “Jano” a entidade consagrada às entradas e saídas – o deus dos portais, das transições. “Jano tem poder sobre todos os começos”. Porém o que representa de fato uma janela em Latim leva o nome de Fenenstra > fresta. Ou seja: Janela é – vão –, abertura, portal, passagem! Janela é um buraco feito na parede pra checar o mundo, pra ficar de espreita. Enquanto a casa protege, nos cerca, dá o espaço e a segurança necessária para crescermos com segurança, a janela convida. O lar acolhe, recolhe, mas nossos anseios seguem lá fora. Desde muito pequenos queremos transgredi-las, pulá-las, para então correr ruas. Mas a janela não é ainda a saída, não é porta, mas é portal! Porque é mística, nem dentro, nem fora. A janela é campo de visão, é para reter o olhar, tornar a olhar. Tomar o ar e decidir se vai ou fica. Só olhando o “lá fora” é que temos comparativos para entendermos o “aqui de dentro”. Pra mudar ou preservar. O mundo é desconforto, a casa conforto, e a janela é o elo entre ambos. Um parapeito pra apoiar e demorar, pra avistar o longe, pra ampliar o visto, pra imaginar, pra escolher quais temporais vale a pena enfrentar. E por janela penso um tanto de coisas. Não me limito as venezianas... Grades, cobogós, um bom amigo, tudo que protege ao mesmo tempo que permite. Meu nome é Luara, sou psicóloga e aqui vou compartilhar um pouco do que vejo, sinto e aprendo da minha janela.
Me dê nesse tempo corrido algo que permaneça.
Casebre (via casebre)
Bom, agora eu morri… Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta.
Clarice Lispector. (via soulstranger)
Guarda estes versos que escrevi chorando como um alívio a minha saudade, como um dever do meu amor; e quando houver em ti um eco de saudade, beija estes versos que escrevi chorando.
Machado de Assis. (via florejaste)
porque eu sempre gostei mais do sentimento calmo sem alardes como naquele poema sobre amar baixinho era isso eu me assustava corria me doía demais por pouca coisa eu gostava do que era sereno e chegava sem pressa
Poética
Homens se masturbando pensando na mulher amada Um empresário chileno recitando Neruda para uma prostituta Um bêbado rotineiro cantando Chico Buarque na varanda da ex- mulher Artistas incompreendidos pichando muros por causa de um tolo amor Pintores engendrando telas absurdas em nome de uma gozada inesquecível Carcaças vazias passeando entre as alegorias das multidões Drogados fugindo de uma realidade nada aprazível Fumantes tentando obnubilar a visão devastadora de uma saudade constante Putas fodendo pensando em grandes amores ainda não vividos Sonhos de noites aterrorizantes que acabam antes do coito Jovens delirando com a ideia de bocetas que não tem gosto de boceta Mulheres matando príncipes encantados sobre a fragilidade de castelos de areia Luas de mel acabando sem o prazer de um orgasmo Mendigos se lambuzando no pântano de planos fracassados Músicos que nasceram ocasionalmente de um par de chifres…
E ainda há quem se diga poeta escrevendo sobre leite ninho.
— Ítalo Jardim
Adquira um olhar estrangeiro
Singularize a vida, a rotina, as coisas; veja o seu lugar com o primeiro olhar - o olhar que é o de fora, o inaugural, o olhar do espanto, que, não só o poeta deve ter. A disposição da arte dar-se pelo fascínio e pelas que perguntas que as crianças fazem e que as almas estranhas já fizeram. Infelizmente, viramos adultos e esquecemos das perguntas de crianças e da coisa, do copo, do breu, de como a cidade é confusa, pequena, avessa e borrada, tal como o batom após o beijo. Não sabemos responder, corresponder ao espanto. Acostumamo-nos à situações…Um escritor famoso, do qual não me recordo o nome, já dizia: “o espantoso é que o espantoso já não nos espanta mais.” O espanto foi banalizado!
Adquira o olhar de um estrangeiro, o olhar do espanto, olhe por um outro ângulo…olhe pelo “estado do nascimento”, veja a linguagem brotar a partir do pronunciar do uso das palavras. Certa vez o meu filho veio com espanto, contar-me que descobriu o que era favela. Segundo ele, era o lugar onde se faz vela. O olhar estranho é a epifania.
Sam Nascimento e Noemi, La vida passe.
“Tanta falta me faz você Queria ter você lá em casa!”