“Tive uma certa resistência ao amor até certo ponto da vida, achava tudo que o envolvia muito exagerado e superestimado. Passei grande parte da adolescência preso a um pensamento de que talvez a vida fosse bem melhor sem essa obrigação quase que moral de sentir esse sentimento por qualquer pessoa que pudesse ser de suma importância pra mim, pois é, achava o amor muito comercial. Tive uma namorada, um cachorro e dois gatos, todos muito importantes e que me arracaram lagrimas ao partirem. É da vida, não? Todos partem, mesmo que o partido seja você… Lupy, meu cachorro, dormia no meu quarto em noites de chuva e sempre ficava gemendo quando caía um raio por perto, essa é a minha lembrança mais forte dele porque assim como ele eu também tinha e ainda tenho medo de chuvas, digo, das fortes e com bastante raio… Lupy não foi embora porque quis, ele latia muito e isso acabou sendo sua sentença, coitado, morreu envenenado por fazer algo que era da sua natureza fazer. Chorei. Logo depois veio meu primeiro gato, ganhei da minha mãe por provavelmente ter feito ela pensar que ganhando outro companheiro me faria esquecer do lupy, meu falecido cachorro. Perda de tempo. Em geral as pessoas têm esse costume de substituir as coisas quando não mais fazem diferença, era e ainda é difícil pra mim aceitar que as pessoas também troquem pessoas e animais da mesma maneira, sempre achei isso de uma tristeza e falta de… Bem, amor, talvez. Entende? Bem, o papito, meu gato de estimação viveu por bastante tempo, se fosse um ser humano eu o classificaria como um hippie, pelo modo como vivia, sabe, meio desligado das coisas e dos seus bens materiais que eu insistia em comprar pra ver se ele parava um pouco em casa e quem sabe parasse de brigar nas ruas… Papito morreu apanhando, digo, da vida. Morreu de velhice, mas antes deixou um filho. De qualquer forma eu chorei. O filho do papito, meu falecido gato, veio logo após à despedida da minha namorada, porém não, ela não morreu, fisicamente falando. A minha ex, a Sarah, era bem parecida com o lupy, tinha uma maneira bem clara e objetiva de demonstrar o seu sentimento por mim. Eu gostava. Sarah tinha uma síndrome com seu nome por achar que era um nome pra gente velha e ela não tinha nem 25 anos. Besteira, sempre achei um charme esse H no final, mas nunca disse a ela pra que ela não achasse que eu estaria a elogiar algo que ela não gostava. Sarah era muito bonita, tinha olhos grandes e quase claros. Também era de uma pele muito branca e geralmente apresentava um cheiro de fralda. Mas das limpas e recém-compradas. Eu gostava. Bom, papito jr, filho de papito falecido, era um gato um tanto quanto estranho, ele apresentava um pouco de todos os outros, gostava de rua, era carente, dormia no meu quarto, tinha medo de chuva e só vinha atrás de mim quando sentia fome. Certo dia papito jr foi dar uma de suas voltas por aí e partiu, nunca mais voltou. Chorei. Sarah não conheceu papito, nem o lupy, mas conheceu papito jr antes dele partir. Sarah não partiu, porém me partiu por não me impedir de partir. Sarah talvez me amasse, contudo não sei se amei Sarah. Sarah sempre demonstrava seu amor por mim, mas sempre foi muito difícil pra mim acreditar que aquilo era amor, talvez. Talvez. O amor pra mim sempre foi um grande TALVEZ. Talvez lupy tenha me amado, talvez ele só gostara do cheiro do meu quarto. Talvez papito me amasse, talvez ele só queria comer. Talvez papito jr tenha se perdido perdido por aí… Talvez ele só tenha encontrado uma caixa de areia melhor. Talvez Sarah tenha me amado, talvez ela só fosse uma pessoa carente. Sarah gosta de gatos, talvez ela tenha um, mas acho que dessa vez esse possa ter barba no lugar de pêlos. Sarah sempre gostou de barbas. Sarah sempre gostou da minha barba. Contudo, Sarah sempre gostou de amar e de quem a ame. Sarah deve ter um gato de barbas que se chame papito. Talvez o papito jr esteja na casa dela, mas acho que talvez esse só se chame papito por ser da Espanha ou algum desses países latinos que colocam nome de gatos de estimação em pessoas. Sarah não partiu, mas me partiu por não me impedir de partir. Sarah não partiu, mas eu chorei.”
— Marcos Filipe.












