Flags é um álbum que me acompanha desde 2010, quando foi lançado por Brooke Fraser. Eu ainda dormia na sala do apartamento e acordei com aquela música tocando. Achei tão engraçada, tão divertida! Reconheci a voz da Brooke e pensei: “O que a Brooke está fazendo? Que tipo de música é essa?”. Porque me lembrava folk, um pouco de country — gêneros musicais que, até então, ela ainda não havia trabalhado.
Logo em seguida, Flags foi lançado por inteiro. E eu passei a escutar esse álbum, que se tornou parte da minha vida por muitos e muitos anos. Tenho até uma cópia física dele, que ganhei de uma amiga em Belo Horizonte, no meu aniversário de 20 anos. Desde aquele dia, ele me acompanhou nas madrugadas, no caminho para o trabalho, quando eu era um dos primeiros a pegar aquele ônibus na Vila Clóris com destino ao centro.
Flags tem letras complexas. A Brooke — eu a considero uma poetisa, até uma filósofa, embora não seja formada em filosofia — consegue captar aspectos da sociedade e da vida humana com muita graciosidade e sensibilidade. Com palavras nada rudes, ela contorna as formas humanas e transmite isso em música com originalidade, leveza e melodias lindíssimas. Ela é a própria compositora de suas músicas, o que, para mim, é muito interessante de observar.
Volta e meia, eu revisito esse álbum. Sempre escuto um pouquinho. Mas, nos últimos dias, parei para escutá-lo com mais atenção. Ouvi também Albertine, outro álbum que me acompanhou por muitos anos. Ainda assim, Flags tomou uma dimensão diferente, porque toca em assuntos que Albertine não aborda.
Embora Albertine tenha como música central a história de uma menina de Ruanda — África, Flags traz uma leitura da Brooke muito pautada na vida comum, na simplicidade do cotidiano. Não há nada de extraordinário ou glamouroso. É a vida de pessoas normais, vidas comuns — pessoas que ela conheceu, ouviu falar ou observou enquanto esteve nos Estados Unidos, naquela época.
Tenho revisitado esse álbum e descoberto novas nuances, aspectos que antes eu não havia percebido. Agora que tenho uma compreensão melhor do inglês, consigo entender partes do álbum que me tocam profundamente, que me emocionam.
Agora eu entendo quando ela diz, em Here’s to You: “Um brinde aos sonolentos, que nós veremos em breve.” Ela está falando das pessoas que partiram, das que "dormem" — ou seja, não morreram, mas estão em descanso, e um dia voltarão à vida. Ela está entoando uma canção de celebração, mas também de reconhecimento, de memória, dedicada àqueles que já se foram, mas que foram tão importantes quanto os que ainda permanecem.
Algumas faixas são praticamente literais, mas há outras que precisavam encontrar um Lucano mais maduro. Quando ela diz: “Então aqui estamos nós novamente, desistindo de acabar com tudo, de braços dados. Bom ou ruim, o que mais podemos fazer se são as nossas falhas e faltas que nos mantêm unidos?”, me faz lembrar das escritas de Lispector ao falar que, às vezes, são essas falhas, esses "defeitos", que mantêm a nossa vida de pé.
Quando ela fala: “A ferida continua ardendo… mas o mundo continua girando, não é? Não queria uma vida sem você, mas, de alguma forma, estou aqui vivendo a vida”, me lembra a minha mãe.
Quando ela diz: “Meu amor é o mar, o seu é o horizonte — constante e estável”, penso na beleza que há nas diferenças que unem os amores de pessoas que viram as sombras e as luzes umas das outras e decidiram ficar. Ao longo das 11 faixas, essas declarações vão ecoando...
Foi então que comecei a refletir e cheguei à conclusão de que, assim como o mar, só conseguimos ter noção da profundidade da música à medida que crescemos. Uma criança não tem noção do fundo do mar na praia. Mas, conforme ela cresce, vai tocando o solo com os pés, vai percebendo a profundidade: pode dar na canela, no joelho, na cintura, no pescoço… até que não dá mais pé. Ou seja, ultrapassa nosso limite.
A compreensão da música é parecida. À medida que amadurecemos, que o tempo passa, que novas habilidades e memórias se acumulam na nossa vida, começamos a entender a música sob novas perspectivas. Passamos a compreender melhor os termos, os trechos, as colocações, o porquê de uma música vir antes da outra, e por que determinada canção está no álbum enquanto outras não entraram.
Era isso que eu queria deixar como reflexão. Pensei na criança e na sua infantilidade natural. A criança é infantil pelo tempo que vive — esse é o seu tempo de não alcançar o fundo das coisas. Mas, à medida que cresce e amadurece, ela começa a alcançar esse fundo — das músicas, da vida.
Eu tinha 20 anos naquela época. Hoje, com 35, vejo Flags sob uma perspectiva completamente diferente — quase total. Ainda assim, sinto que preciso escutar esse álbum mais vezes para compreender tudo que ele oferece. E talvez nem assim seja suficiente, porque Flags é, de fato, um álbum extremamente complexo, profundo e reflexivo.