papel, parque, Deus, escuridão
— É muito simples, se você acertar esse pedaço de papel três vezes seguidas dentro daquela lixeira, quer dizer que Deus existe. Se errar três vezes seguidas, ele não existe. Acho que o criador dos Céus e da Terra deve ser capaz de mudar o percurso de um pequeno pedaço de papel pra confirmar sua existência, não é?
Nós estávamos em uma praça pública decrépita, que ficava a alguns quarteirões da minha casa. Éramos as únicas pessoas lá. Talvez por que já estivesse anoitecendo e o vento gelado soprasse ao ponto de dobrar as árvores circundantes.
— Isso é idiota — falei. Se não voltasse para casa logo, minha mãe ficaria irada.
— Se é idiota, por que não tenta? Ou tem medo da resposta?
Eu não gostava da forma como às vezes ela falava comigo, como se eu fosse estúpido ou covarde.
— Me dá aqui.
O cesto de lixo estava a uns quatro metros de distância. Eu ergui o pedaço de papel acima da cabeça, mirei e joguei. O vento fez ele realizar uma curva e ir para longe.
— Mais uma vez — falei, apertando os dentes com raiva. Eu iria provar que estava errada.
Ela arrancou outra folha do caderno, amassou-a e me deu.
Dessa vez eu me concentrei mais, fechei os olhos e pedi que Deus movesse minhas mãos.
Quando arremessei a buchinha, o vento soprou para o lado certo e ela bateu no aro da lixeira. Mas em vez de cair para dentro, foi para fora.
— Parece que Deus não tá na vizinhança hoje — falou ela, sorrindo daquele jeito.
— Foi quase — falei. — Me dá outra logo.
Ela me deu. Ergui o braço para jogar, mas não consegui. Meu coração acelerou de súbito e engoli em seco.
Resolvi fazer uma oração completa antes de arremessar.
— Você tá rezando mesmo? — Ela riu alto.
— Amém — murmurei.
Então apertei com força o pedaço de papel, fechei os olhos e lancei-o na direção que meu coração mandava.
— Pode abrir os olhos — disse ela.
Eu abri.
A buchinha estava alguns metros atrás da lixeira.
Senti uma espécie de pontada peito, que durou só um segundo.
— Não quer dizer nada — falei.
— Não?
Ela se agachou sobre a mochila e tirou algo de lá. Então veio com o objeto na minha direção, me agarrou pela gola e apertou a ponta de um estilete contra o meu peito.
— Ei, Max, me diz. — Ela me fitou diretamente, sem nenhuma fagulha de sentimento em seus olhos. — O que aconteceria se eu enfiasse isso em você agora, até o seu coração?
— Eu sangraria e morreria — falei, engolindo a saliva.
Aquela garota era perturbada. Tinha certeza disso agora.
— E depois, o que aconteceria com você?
— Eu… Iria pro Paraíso.
— Errado. Completamente errado. Acha mesmo que uma besteira dessas existe?
— Claro que sim. O que mais seria?
— Nada. Escuridão. Você não estaria em lugar algum, não sentiria nada, não faria nada, enquanto toda a eternidade se desenrolaria sem que soubesse ou se importasse. Apenas um tempo infinito e indiferente transcorreria.
Tentei imaginar aquilo. Um vazio eterno. Bilhões, trilhões de anos passando sem que eu existisse. Um horror sem forma, que jamais experimentei, atravessou meu corpo e tremi por inteiro.
— Pronto — disse ela, e me soltou. Ela sorria, com os olhos mareados. — Agora você sabe.