O uivar estrondoso do vento podia ser ouvindo dentro do bar até mesmo com sua clientela barulhenta e a jukebox que reproduzia uma balada romântica de muito mal gosto naquele final de tarde. O barulho que invadia os quatro cantos daquele ambiente dava ênfase à melancolia deixada após a saída dramática de Olivia de tal forma que Vivienne só conseguia chamar de zombeteira – era o universo conspirando contra ela.
Havia sido deixada sozinha. Novamente.
E aquela sensação já era algo tão comum, como uma velha conhecida que se mostrava presente sempre que acreditava que a vida ia ao seu favor, que sequer chegara a se surpreender dessa vez. Afinal, não era a primeira e nem mesmo a segunda vez que aquilo acontecia naquele único mês. Estava tão acostumada – e cansada, diga-se de passagem – que não movera um músculo sequer para impedir a saída de sua… Namorada? Companheira? Companhia. Olivia era dona do seu próprio nariz e tinha o direito de fazer o que bem lhe desse vontade, e que Merlin amaldiçoasse a vida de Vivienne se ela chegasse a se importar com isso em algum momento!
Apenas respirou fundo, pressionando o rosto contra a madeira gelada da mesa e tentando conter a risada miserável que parecia querer tomar conta do seu corpo de forma histérica. Viv, que pensara que nada de pior poderia lhe acontecer naquelas férias de verão, fora forçada a admitir mais uma vez que não havia como crer em tal certeza quando o assunto em questão era a culpada pela grande maioria das suas dores de cabeça e frustrações.
Entretanto, é claro que seus problemas estavam só começando. Soube disso antes mesmo de erguer a cabeça da mesa ou escutar a voz masculina que tentava ganhar sua atenção com uma cantada tão clichê que preferira não absorver por completa. Seu humor não estava dos melhores naquela hora e a única certeza que ela tinha era que, a qualquer momento nos próximos cinco minutos, o copo que agora descansava perto do seu na mesa iria de encontro ao seu dono caso o homem não saísse dali.
“Oi, bawface! Awa’ n bile ye head!” O sotaque escapou dos seus lábios num tom tão ríspido quanto suas próprias palavras, e a irritação que invadira seu peito agora fazia-se visível em suas feições. “Eu preciso de outra bebida. Algo mais forte.” Proferia o resmungo para si mesma desta vez, ignorando por completo a figura indesejável e preparando-se para se dirigir ao balcão que separava os barman dos demais frequentadores. “Prec-…” Não houve tempo de concluir seus pensamentos, porém, já que uma muralha materializou-se no seu caminho naquele mesmo momento. Uma muralha persistente e para lá de irritante.
“Vamos lá, boneca, deixe tudo comigo que eu pago quantas bebidas você quiser.” Disse a Muralha de forma arrastada, parecendo confiante de seus… atributos e sorrindo em sua direção. “Não é certo algo tão lindo e indefeso como você ficar só em um lugar como esses.” E ele continuava! Continuava mesmo que o semblante de Viv não indicasse nada além desgosto puro. Mesmo com seu bufar descontente sendo a única resposta às tentativas grosseiras do outro. “Eu garanto que posso melhorar seu dia.” Não soube exatamente de onde veio ou o que aconteceu, só que agora havia uma mão na sua cintura e sua paciência para com a Muralha havia se esgotado por completo.
“Não ouse tocar em mim, seu imbecil!” A irritação que tomara conta do seu peito há pouco agora espalhava-se por cada centímetro do seu corpo, e Vivienne atraía olhares curiosos para a cena que ali se passava com seu grito mais alto que a música e as conversas paralelas. “Toque em mim outra vez e eu juro que enfio minha varinha pelo seu rabo e conjuro accio para recuperá-la pela sua boca.” Passou as mãos pela cintura por cima das roupas, como se assim pudesse livrar-se da sensação do toque indesejado e recobrar o controle de toda aquela situação.
“Toque em m-…” Quando fora interrompida pela segunda vez naquele curto espaço de tempo, agora pelo homem que havia se materializado do nada – já não prestava a menor atenção ao seu arredor, e, por ela, ele poderia ter saído das profundezas do inferno que não teria feito diferença – no meio daquela discussão, ela já estava pronta para cumprir sua ameaça. Isto é, até perceber que era a ela que ele se dirigia. “Toque em mim e eu direi ao Profeta que você achou que eu fosse menor de idade, e por isso resolveu dar em cima de mim. Imagine só a repercussão que uma história dessas vai tomar: um homem que acreditou estar se aproximando de uma jovem de dezesseis anos, oferecendo álcool na intenção de levá-la para casa.”
An evil little thing, she was. Porque precisou apenas de um olhar assustado do homem e uma tentativa de sair daquela situação para que ela continuasse. “E mais uma coisa…” Não é que ela não estivesse pensando, porque estava, mas sim porque sentiu a necessidade de ter alguém cobrindo suas costas naquele momento. Por isso acabara agarrada agarrada em um dos braços do desconhecido – o que emitia uma aura de confiança, não a Muralha –, puxando-o para o seu lado para reforçar suas ameaças contínuas. “O meu amigo aqui, o… Harry (Potter?!)? Sim, Harry. Meu grande amigo Harry. Ele vai confirmar tudo o que eu disse. Sílaba por sílaba. Cada acento em seu devido lugar. Não é mesmo, Harry?” Vivienne voltou-se ao homem do seu lado, erguendo os cantos dos lábios em uma tentativa de sorriso que mais assemelhava-se a um predador pronto para abocanhar a jugular de sua presa.
A situação era um tanto mais dramática e engraçada do que drástica. A pequena ruiva parecia manter tudo sobre controle, e também parecia prestes a cumprir cada palavra proferida em alto e bom som naquele bar bruxo de esquina. O jukebox continuava tocando a mesma balada romântica, os terceiros pareciam estar cada vez mais interessados no espetáculo. E, de algum modo, Mackenzie estava envolvido naquilo. Quis afastar-se, esquecer o que havia ouvido ou visto. Mas, por Merlin, era Mackenzie Harleem, um segurança de nível nacional. Teria que proteger até mesmo o homem alto e careca que parecia estar gabando um charme que simplesmente não tinha. Se o interesse não tivesse falado mais alto, aquele ato pseudo-heróico não teria sido necessário. Poderia comumente ter saído pelas portas da frente após ter tomado seu merecido gim, acendido um cigarro e voltado para sua casa no modo trouxa. De carro. Um antigo chevet que mantinha como uma relíquia na garagem da floricultura quando não perambulava pelos pontos bruxos como fazia naquele momento. Levaria aquele dia monogamicamente como levava todos os outros. O Centro Mágico de Inteligência agradeceria pela discrição.
Mas não. Estava ali, encostado na bancada de bar querendo estar em outro lugar ou tendo menos olhares sobre si. Agradecera por ter sido ignorado em primeira instância e gostaria de ter continuado assim, obrigado. Porém o mundo não poderia ter sido mais contra ao seu silencioso pedido. Logo a ruiva estava agarrando seu braço e o chamando de Harry como um amigo. Além de ter-lhe dirigido um sorriso assustador, como se pudesse retirar sua medula espinal em duas dentadas. “Ik? Wat?” balbuciara em holandês, sendo pego de surpresa pela situação.
Como um homem de vinte depois anos que passara por muito treinamento para manter as aparências, Mackenzie estava se dando muito mal na tarefa até ter percebido esse fato. Olhara rapidamente para a ruiva e dera um longo suspiro de olhos fechados antes de erguer o olhar para o outro homem, o careca que queria a atenção da garota que dizia não ter mais de dezesseis anos. O que ele não duvidava, pelo seu tamanho. Mas pelas atitudes e palavras, também podia ser uma pré-adolescente aborrecida com a própria vida. “Yah, eu confirmo as palavras da moça. Já a vi fazendo isso, sabe? Enfiar a varinha pelo orifício anal e retirá-la pela boca com accio. É interessante de ser visto.” Arqueara as sobrancelhas, dando ênfase em suas palavras. “Não posso dizer o mesmo de ser sentido. O bruxo que passara por isso lamentara de dor por muitíssimos meses. E olha que a varinha nem é tão grande” ressaltara, fazendo gestos com as mãos como se lhe contasse uma história de fogueira. “Claro, há a minha de blackthorn, você não iria querer uma varinha de vinte e três centímetros com cerca de cinco espinhos na sua longitude passando por dentro de você.” Não havia espinhos em sua varinha, mesmo que a madeira possuísse ainda era lixada e vernizada. Mas fora no mínimo engraçada a cara do homem retorcer-se ao imaginar a dor, pelo visto era um que acreditava em varinhas exóticas.
“Mackenzie” sussurrou seu próprio nome para a garota, mas deixou-se levar na história de Harry. Não era the chosen one, mas aquele nome continuava a ser muito comum na Inglaterra. O grandalhão já havia ido embora, talvez desistido depois da segunda ameaça. Juntou-se a um grupo de amigos que os encarava e que Mackenzie deduzira não ser nada bom. Podia duelar com três daquele, mas não cinco. Eram grandes, ainda tinham métodos trouxas como vantagem. Mack era pelo menos uma cabeça menor, apesar dos músculos e a ruiva ainda era menor que ele próprio. “We should go, c’mon” Harleem puxara a garota pelo braço até a saída do recinto. Um par de guarda-costas dera meia-volta, iriam colocá-los para fora de qualquer modo, pelo menos saindo sozinhos tinham bandeira branca para entrar em outro bar próximo. Fora dali, permitiu-se rir. Inclinou-se de tanto rir e talvez a outra o achasse estranho por aquilo, mas não podia contar tanto com sua atuação como contara perto daquela bancada de bar. “Ele realmente acreditou naquela história. Por Morgana, mas dezesseis anos? Sério? Pra que tanto ódio?” Perguntara enquanto já seguia passos para o próximo bar. O que tinha uma televisão, permitindo passar o jogo da temporada de quadribol. Chuddley versus Holyhead. Mackenzie torcia pelos Chuddley desde que se conhecia por gente e não acreditava que perdia aquele jogo. Sentou-se em uma mesa, com metade da atenção no jogo e a outra metade na menor de idade a sua frente. “Want something?” Perguntou distraidamente quando o barista viera pegar o pedido. “White Owl, por favor” dirigiu-se ao homem ao lado que aguardara o pedido alheio antes de voltar a sua posição atrás da bancada. Devia estar bancando o adulto responsável, mas nunca tivera que fazer aquilo então aquela não seria a primeira vez. Vicent, seu assistente, costumava dizer que ele parara sua idade na adolescência e tratava os menores por igual mesmo com a idade que tinha. E era isso que realmente fazia, se uma garota estava em um bar é porque claramente estava bebendo, acompanhada ou não, então por que ser o chato que impede um ser humano de ter sua liberdade? Preferia deixa-la a vontade depois do episódio estressante.
Portanto não puxara assunto e não a obrigou a continuar ali. Se quisesse, a ruiva poderia dar meia-volta e sair, ir embora normalmente e descontar sua raiva em qualquer parede. Mackenzie continuaria impassível com seus olhos amendoados observadores. Exalava certa confiança, segurança e sabia disso. Sabia que poderia ficar completamente parado, encarando a televisão bruxa com o esporte sendo repercutido pelo ambiente. A partida começara há dois minutos e no momento todos dentro do recinto estavam inclinados pela apanhadora da Holyhead Harpiens que estava na cola do ponto dourado voador pelo enorme campus que parecia ser do sul da patagônia.