Toda semana um texto ou poema novo. Algumas histórias reais. Outras nem tanto. Outras completamente inventadas, não importa. A criação não pode parar! - Todos os direitos sobre todos os conteúdos reservados.
Meu problema (ou da humanidade) com pronomes e concordância verbal
Eu tenho um problema sério com o português das pessoas. Eu passei a infância lendo. Quando você é o garoto nerd antissocial da turma resta encontrar alguma companhia nos livros. O que me fez estar em contato com linguagem desde bem cedo. Não estou falando para justificar, não, estou falando porque é verdade.
Eu tinha o mal hábito de corrigir as pessoas quando era mais novo. Não é por maldade, mas tem umas coisas que são insuportáveis. Tipo “Eu se troquei”. Sério, dá uma agonia gigante aqui dentro. Desperta aquele monstro enjaulado louco para sair e dizer “É ‘eu ME troquei’ animal!”, e depois dar aula de pronome. Sim, imaginem isso, um monstro que dá aula de português! E esse texto nem é do Maurice Sendak!
Mas eu juro que me recuperei, e agora nada sai de dentro de mim. Embora não deixar sair tenha um custo bem grande.
Para não dizer que eu sou muito severo eu perdoo alguns maneirismos e regionalismos, e crianças. Por exemplo, não posso culpar uma pessoa que fala “eu tava lá” em vez de “eu estava lá”, porque fazemos isso para poupar esforço de fala. Ou o caipira que diz “é isso mermo” em vez de “é isso mesmo”, porque não é culturalmente errado. Ou mesmo a criança que diz “pepeta” em vez de “chupeta”, porque o pai é retardado e usa essa linguagem imbecil de bebê com a criança até os quatro anos para o professor da creche ter que perder tempo ensinando a criança a falar certo mais tarde.
Agora, tem situações que eu me esforço muito, eu juro para vocês, mas eu nunca consigo muita coisa. Situações em que a pessoa tem formação e deveria falar certo, mas vai lá e manda o português a m#rda. Na reunião da igreja, quando o pastor diz:
“Para mim, enquanto seu deus, operar um milagre na sua vida, é preciso que você venha até mim!”.
O que surge no meu coração é aquela vontade herética que eu sempre seguro com todas as forças de dizer:
“’Mim’ não conjuga verbo, filho da p#ta!”.
Eu fico pensando quantas vezes Jesus Cristo não deve ter repetido para si mesmo de lá de cima cada vez que ouve um “mim” conjugando verbo: “Perdoa-os, pai! Eles não sabem o que fazem!”. Assim, eu acho que se você fala em nome de Deus, é bom falar em seu pronome também. Também quando a vendedora me aborda na rua e diz:
“Bom dia, senhor! Já temos internet e TV a cabo em casa?”
E lá no fundo novamente o monstro começa a forçar a jaula para me fazer gritar:
“E a gente por acaso mora junto, sua desgramada?!”.
Pois é. E depois que eu me tornei professor piorou. É sério, é algo crônico. Quando é com pessoas que deveriam saber as duas coisas mais básicas do universo, depois de comer e cagar, que são uso de pronomes e concordância verbal, eu tenho esse sério problema de corrigir. Mas no fundo, eu quero ajudar as pessoas, porque, se um dia assinarmos um tratado de paz entre as nações, e escrevermos que “agora as nação estão unidas” vamos bugar todos e voltar a guerra, visto que e mais fácil, já que “guerra” não requer a forma plural para ter mais de um grupo de fulanos envolvido, ao passo que só podemos fazer as “pazes”!
Estamos de volta com o blog depois de mais de um ano de recesso. Estava me dedicando ao meu outro blog, mas, ele foi sugado pelo buraco negro do capitalismo. Não há muitas opções quando não é você quem paga seu domínio. Mas, estamos de volta e vamos tentar não parar!
Velhos não são ranzinzas. Os jovens é que são chatos.
Eu passei com muita dor no coração pela crise dos vinte e poucos (encabeçada pela música do Fábio Júnior, vocês sabem qual), que é quando você se dá conta de que não tem mais desculpa: Você é um adulto e precisa começar a agir como tal. Agora, estou passando pela crise dos vinte e tantos, que é mais ou menos quando você se aproxima dos vinte e cinco e começa a se dar conta de como o tempo está passando cada vez mais rápido. Aí o seu psicológico pira e você começa a ter um monte de efeitos provocados pelo seu psicológico: É a dor nas costas psicológica, é o cabelo branco psicológico, é a pele enrugada psicológica, é a falta de ar psicológica depois de dois degraus de escada!
Mas, principalmente, você começa a pensar mais sobre a velhice e o tempo. E aí, pelo menos eu, começo a entender uma série de coisas sobre velhos que antes eu não entendia.
E o que quero falar nesse capítulo é exatamente de uma das mais comuns delas, aquele estereótipo do velhinho ranzinza. Pode ser que eu é que esteja me tornando gradativamente um Lula Molusco, mas não acredito que seja bem assim.
Quando você chega numa certa idade (que teóricamente não é a minha, embora eu esteja passando por isso) você começa a quantificar quanto tempo você já gastou da sua vida, e quanto tempo precioso você gastou de N maneiras inúteis. Inclusive nas pequenas coisas. E é aí que tudo começa a mudar na sua cabeça. Você começa a perceber que não vale mais a pena ser tão paciente com certas coisas.
Por exemplo, tem um cinema na minha cidade que é ótimo, com exceção de uma coisa: Todos os atendentes são meio lerdos. Pelo menos é a impressão que eu tenho. Quando eu fui lá da última vez com meu priminho de uns 14 anos, perguntei sobre o filme que queria assistir. Eu disse que pagaria meia, por ser estudante da faculdade e o garoto pagaria inteira, porque estava sem a carteirinha da escola.
-Fica em 40 reais.
-Pera? As duas? Qual o valor da meia?
-A meia é 10!
-Mas eu pedi uma meia e uma inteira, você disse 40!
-Eu disse que duas são 40!
-Mas eu não quero duas inteiras, eu quero uma meia!
-Uma meia é 10!
E naquele momento eu já tinha sacado a informação que ele deveria ter me dado: Uma inteira e mais uma meia são 30 reais. Uma pessoa mais jovem seria paciente e sorriria:
-Então são 30 reais, certo? - Entrega o dinheiro, sorrindo. - Onde posso comprar a pipoca?
Mas quando você chega numa certa idade e começa a não querer mais gastar tempo com coisas e situações inúteis, começa a entrar numa espécie de fase do “Não gostou, me processa!”. Alguém assim responderia:
-Amigo, assim você se confunde, me confunde, e a fila atrás de mim não anda para ninguém! Você pode fazer o seu trabalho, por favor? - Reclamaria, em voz alta. - Tá aqui o dinheiro!
Foi o que eu disse mesmo. E eu já estava estressado porque tinha um adolescente sob minha responsabilidade, aí pronto, o atendente me pegou no dia perfeito!
Eu sei, eu sou professor de educação infantil, eu devia ser mais paciente com as pessoas. Errado. Eu tenho de ser paciente com as crianças, conhecer os seus problemas e necessidades. Criança não nasce chata. Uma criança chata é reflexo de um pai que não sabe pôr limites e precisa urgentemente de um semancol. Palavra de quem estuda educação e lida com crianças há anos.
Enfim, como podem ver, quando você se aproxima dos 25 anos, você começa a se tornar um velho por dentro, não sei quanto isso dura, acho que não muito. Mas dou um conselho: Se você estiver nessa faixa de idade, se afaste o máximo possível de álbuns de fotografia de família. Sério, a dor é angustiante e só passa com uma hora de um bom filme e tomando sorvete. Porque sorvete cura todos os males do emocional.
Este texto é parte integrante do livro “O que aprendi da vida” com diversos textos engraçados e trágicos de uma vida desesperada. Em breve disponível em e-book aqui no blog.
Um restinho de futuro.
Do passado o que sobrou.
Dinossauro Robô.
Um brilho cego no escuro.
A contradição e o contraditor.
Dinossauro Robô.
Um gesto solto no tempo.
Uma vontade na multidão.
Dinossauro Robô.
Uma rosa solta no vento.
Um cheiro de solução.
Dinossauro Robô.
Um amigo no tempo oculto.
Um antigo feito de futuro.
Dinossauro Robô.
Um olhar de dúvida nisso:
Com que palavra eu o rimo?
Dinossauro robô.
Por esses dias, arrumando novamente minha estante de livros, encontrei dois cadernos antigos, do início da minha adolescência, com algumas pequenas histórias e poemas escritos a mão. Vou ver se coloco alguns deles aqui. Ao menos aqueles que não viraram livros.
Uma conversa qualquer no computador.
-Oi, tudo bem? Como você está? - Diz um.
-Ainda com bastante frio. Essa época época do ano aqui no Tennessee é bem difícil.
-Imagino.
-Por falar nisso, e você, como está? Aquela faculdade vai rolar ou não vai?
-Não sei. Ainda não saíram os resultados do vestibular. De qualquer forma não estou muito confiante. Talvez tenha que trabalhar com o papai.
-Pode vir trabalhar comigo no Tennessee quando quiser. Você é bom em inglês, eu tenho minha lojinha aqui e um bom quarto nos fundos para você.
-Eu sei... Mas não é uma opção para mim. Nós dois sabemos.
-Poxa, Andy. Não pode desanimar agora porque nem tudo vai bem. A vida não é uma coisa só. Se hoje chove, vai ver o sol amanhã. É só se lembrar de abrir a janela pela manhã.
-Chega dessas metáforas, isso é vida real. As coisas estão desmoronando aqui. Nossos pais não são mais os mesmos desde que você se mudou. Nada aqui é mais o mesmo. Não tem idéia de como as coisas estão desestabilizadas aqui dentro!
-E é por isso que temos conversado tanto, não é?
-O que quer dizer?
-Que ainda estou aqui, irmão. Faz frio aqui no Tennessee, o inverno é rigoroso. Mas estou feliz onde estou. É isso que gostaria que você, o papai e a mamãe pensassem!
-Eu vou ficar bem.
-É isso que queria ouvir!
-Puddles é o mais feliz nessa casa nesse momento. Ainda não sei porque quis dar esse nome para o nosso cachorro.
-É um nome comum para cães americanos. Li isso em algum lugar. Cara, que saudades do Puddles!
-Sempre quis morar nos EUA. O que tem aí que não tem aqui?
-Você deveria saber disso. Era meu caminho. Eu precisava.
Pausa. Um bom tempo sem nenhuma mensagem ser enviada ou recebida.
-Chega. Não consigo mais brincar disso. Não consigo mais mentir.
-O que? Puddles não está feliz também?
-Você... Você não está no Tenesee! Você não está em lugar nenhum, você se foi para sempre!
-Vai mesmo fazer isso com você mesmo?
-Você não é ele!
-Certo, tem razão. Eu sou só um software para simular o seu irmão que morreu dias antes de se mudar para o Tennessee. É isso que queria?
-Sim, a sinceridade debochada dele, claro. Parece que fiz muito bem.
-Você está chorando agora, não é?
-E isso importa para você?
-Faz frio no Tenesee.
O garoto encerrou a aplicação, apagando-a em seguida. Para nunca mais vê-la.
Não muito tempo atrás presenciei uma cena em uma grande loja de brinquedos. Estava passando por lá enquanto aguardava dar a hora de outro compromisso. Enquanto isso, um pouco afastado de mim, uma família. Duas senhoras por volta dos 50 anos, uma moça e um garotinho entre sete e oito anos. A senhoras discutem enquanto os outros dois observam. A mulher com certo constrangimento. O garoto sem entender a situação.
-Você sabe como ele é, Nair! - Dizia uma, com um brinquedo qualquer na mão. - Gaste isso tudo com ele e ele vai fazer isso virar pó em dez minutos!
-Pelo amor de Deus, Hilda! É só um presente de Natal, isso não é uma questão nossa! Além disso, você viu como ele gostou!
-Dinheiro não nasce em árvore, Nair!
-Nem o amor do seu neto, Hilda! Custa ser simpática?
-A Lúcia não pode dar todo esse dinheiro para ele sumir com ele, independe disso! Você sabe que ele destrói tudo! - Referindo-se a mulher e ao garoto.
-Não fala assim na frente do menino! Olha, vamos conversar ali do outro lado! Lúcia, resolve com ele você, querida! Ninguém conhece ele melhor que você! Vamos Hilda!
Eu poderia ter seguido as duas senhoras para ver no que ia dar a conversa, mas aquilo já estava constrangedor até para mim, que dizer da moça e do garotinho que não vi soltarem mais uma palavra enquanto as senhoras se afastavam. Logo, imagino dois finais distintos para essa história.
Primeiro final: Nair vence a discussão. Dão o brinquedo caro para o garoto. Hilda e Nair entregam juntas o presente no dia seguinte na presença de Lúcia e do pai do garoto. Hilda com a cara extremamente emburrada, mas aceitando o que se passava.
-Feliz Ano Novo, querido! Desculpe a vovó demorar para lhe dar o seu presente, viu?
O menino abre um largo sorriso e abre o presente, mesmo ainda constrangido com o olhar de Hilda. Abre mais devagar e timidamente do que o de costume, em seguida apenas subindo para o quarto. A profecia de Hilda acontece. Quando as duas senhoras vão a casa de Lúcia tomar chá e ver o neto na semana seguinte, o brinquedo está tão destruído quanto esquecido.
-O que eu disse? - Resmunga Hilda. - Era melhor dar roupa. Funciona desde o tempo dos nossos pais.
E o garoto aparece com outro brinquedo qualquer na mão, mas emudece ao ver Hilda.
-Vó, anh... Oi! - Sorri amarelo.
-Você brincou muito com o [Insira aqui o nome do brinquedo] que as vovós te deram?
-Teria sido melhor um videogame!
Segundo final: Hilda vence a discussão. Dão uma roupa qualquer para o garoto. Uma camiseta de um personagem qualquer que surgiu algum desenho novo para vender coisas caras e inúteis para as crianças. Ao menos, assim avalia Hilda. Com um sorriso mostrando a dentadura, dá a camiseta para o garoto, que sorri de canto de boca. Realmente esperava ganhar o brinquedo.
-Fala obrigado para as vovós, Luquinha! - Diz Lúcia, desconsertada.
-Obrigado.
-A vovó demorou para dar o presente de Natal mas deu! - Diz Hilda, sorrindo.
-Porque parou para discutir economia! - Resmunga Nair. - Mas mais importante, você gostou, querido?
-G-gostei!
Depois de uma semana as duas senhoras retornam a casa de Lúcia.
-Você está usando a camisetinha que as vovós te deram? - Sorriem.
-Teria sido melhor um videogame!
De vez em quando o Maurício costumava trazer o filho dele de uns seis anos para ficar comigo em casa em finais de semana em que ele não podia, há uns anos atrás. O nome do garoto é Pedro, mas eu chamava de Pete. Ele achava que era por causa do Pete's Dragon (Meu Amigo, o Dragão), um filme da Disney de 1977 que ele devia ter visto em algum momento na creche. Na verdade era por causa do Pombo Pete, um dos mutantes mais lerdos de Tartarugas Ninja. Mas deixa isso em off, ele não precisa saber.
Mas aconteceu em um final de semana aí de o garotinho chegar com o boneco de um papagaio nas mãos.
-Não me lembrava que ele ficasse carregando bichinhos. Ele usa isso para dormir?
-A psicologa. - Explicou o Maurício.
-Ela usa isso para dormir?
-Ela mandou ele cuidar disso até a última sessão e levar de volta na semana que vem.
É mesmo, eu tinha me esquecido. Pete frequentava uma psicologa, daquelas gordas que sorriem para tudo o que você fala e dizem que você vai ficar tudo bem, por causa do seu problema de indisciplina na escola. (Que por alguma razão só acontecia lá, mas a escola achou melhor terceirizar a responsabilidade).
-Certo, e o que eu tenho que fazer? - Perguntei.
-É só garantir que ele esteja inteiro e limpo no final do dia!
-Ah, então é igualsinho como o Pete! Se você estivesse me pagando eu cobraria o dobro! - Ri.
-Vai para o inferno! - Riu de volta.
Assim, Pete passou mais aquele final de semana comigo. Até que foi bem tranquilo. E na maior parte do tempo o papagaio ficou bem. Parece que o Pete tinha gostado tanto do papagaio que no começo o levava para qualquer lugar e sempre o deixava do lado, mesmo que a brincadeira não o envolvesse. Então confesso que me afrouxei em verificar se ele não tinha perdido o papagaio e fui fazer as minhas coisas enquanto ele brincava no quintal dos fundos.
Mas as crianças, elas tem o dom de fazerem as piores coisas exatamente quando não estamos olhando, como se tivessem dentro das suas cabecinhas um radarzinho que avisa quando tem ou não um adulto por perto. Resultado:
-Tio, tio, o papagaio sumiu!
-Que rima legal! Tá virando um poeta! Pera... O QUE?
Pronto, o Maurício ia me matar! Se esse papagaio não estivesse na próxima sessão, a psicologa poderia dizer que o Maurício era um pai bem ruim, o que na real ia significar que eu sou um cuidador bem ruim. Assim, temendo pela minha reputação, inclusive como educador, montamos um mutirão de procura pelo bicho (que é basicamente procurarmos juntos).
Acho que ficamos duas horas nisso. E então, o Maurício telefona.
-Está tudo bem com ele, cara?
-Sim, maravilha!
-Não se sujou nem se machucou nem nada!
-Está inteiro e bonitinho do jeito que você entregou! Embora eu ache que podia ter um tecido melhor e tals...
-O que? Eu to falando do Pedrinho!
-Ah, tá! Ele tá bem também!
Pronto! Pensa numa pessoa que sabe esconder o desespero? Sou eu mesmo.
-Tem certeza? - Perguntou desconfiando.
-Pete, fala oi para o seu pai! - Pedi, enquanto ligava o viva voz do celular.
-OOOOOI! - Gritou o garoto, de onde estava.
-O que você está fazendo de bom? - Perguntou o Maurício.
Desliguei. Maurício que me desculpe, mas eu conheço o Pete, ele ia me entregar! Ia dizer que perdemos o Papagaio!
-Ih, a ligação caiu, Pedrinho! Continua procurando enquanto a gente espera o seu pai ligar de novo!
O negócio é que a gente achou o papagaio no lugar mais improvável. Na máquina de lavar roupas. Eu tive uma intuição de que era melhor não fazer perguntas. Sabe como é, tem coisas que achamos que queremos saber, mas na real...
Quando o Maurício chegou, entreguei a criança e o boneco nas mãos dele.
-Ele deu muito trabalho?
-Não, ficou o tempo todo nas mãos do Pedrinho! - Sorri. - Ah, eu confundi de novo, né?
-Gostou de ficar com o tio hoje, Pedrinho?
-Ah, foi legal, só que ele não deixou eu ver desenho!
-Porque não?
E eu atrás do Maurício fazendo mil sinais diferentes de "cala essa boca" que ele ignorou sumáriamente.
-Porque a gente teve que procurar o papagaio!
Dias depois o Maurício disse que a psicóloga informou que o teste na verdade era só para o Pete e não para ele. Ou seja, eu devia ter deixado o papagaio cair no limbo do esquecimento mesmo: Ela teria uma ideia bem realista do Pete!
Eu fiquei olhando para o post anterior por esses dias. Quem leu sabe do que se trata, algumas experiências com a mente bizarra que as crianças tem. Não é bem que tenham mentes bizarras, na verdade. Todo mundo pensa besteirinhas sem sentido de vez em quando, mas a gente sabe quando soltar e quando não. Eles ainda não entendem muito bem estas relações, e se for uma pergunta, eles perguntam mesmo. O próprio Carlinhos (que me perguntou se eu não tenho filhos porque minha mãe não engravidou) rendeu várias cenas assim.
Mas curiosamente, todas as cenas que contei são de quando trabalhei em creches. É porque, fora isso, não tenho sobrinhos com idade para protagonizar cenas assim. Um deles é mais velho e os outros dois ainda são muito pequenos. Mas aí me lembrei de algumas cenas em locais públicos. É que tem umas coisas que não dá para evitar.
Quando, por exemplo, tomando um ônibus lotadíssimo, não me lembro para onde, consegui me senta e tinha dois garotos de uns nove anos no banco em frente ao meu. Um deles então fez uma piada grosseira, para meio ônibus ouvir. Duas senhoras fizeram questão de achar isso bonitinho: “Pequenininho e já fala palavrão! Olha só, Dirce!” Disse, sorrindo. É engraçado como tem gente que não nasce com cérebro.
Mas aí, com o reforço positivo das senhorinhas, os dois continuaram as piadas. Aquilo começou a me incomodar profundamente. Tipo, cadê os pais daquelas crianças? Porque carvalhos estavam assistindo aquilo e não tomando uma atitude?
Então, já irritado, fiz a coisa mais simples que um adulto pode fazer nessa hora: Cruzei os braços e encarei os dois nos olhos da maneira mais séria possível, indicando que não estava gostando daquela atitude, como se dissesse: “Vocês vão parar agora”.
Um deles ainda tentou timidamente me afrontar:
“O M-matheus disse q-que você é feio!”
Mantive o mesmo olhar. Sentindo que não tinha jeito, os dois ficaram bem quietinhos e não soltaram um pio enquanto eu não deixei o ônibus, e provavelmente depois que eu saí também. É muito curioso, mas, por falta de limite, os dois moleques estavam se divertindo ali testando os pais, que nada faziam. Mas tremeram para um desconhecido. Porque não sabiam qual era o meu limite, ou se eu realmente ia fazer alguma coisa. Óbvio que eu não ia, mas a própria dúvida já serviu como um sinal de pare.
Alias, histórias minhas de ônibus rendem um post só com elas.
Eu gosto muito de crianças. Sempre gostei. E por alguma razão que não compreendo, sempre tive um talento natural de fazê-las gostarem de mim. Tirando os meus sobrinhos, é claro. É meu carma, mas fora isso, todas as crianças com quem já precisei lidar, entre filhos de parentes e estágios em escolas e creches, de uma forma geral, sempre se davam bem comigo. Mas as vezes elas me colocavam em certas situações que só elas mesmas são capazes.
Um deles é o Lucas (Preciso explicar que por razões éticas os nomes estão trocados? Ótimo!) de quatro anos. Quando eu fazia estágio em creches e acompanhava o trabalho dos professores (que é parte do meu curso de pedagogia) sempre aproveitava para comer lá mesmo. A merenda da minha cidade é muito boa, acho que podemos nos orgulhar disso. E aí, eu me sentava com as crianças para comer. Numa dessas, há uns anos atrás, não lembro em que contexto, o Lucas solta:
-Tio, sabia que a minha mãe faz pepino de chocolate para mim?
-Que?
O significado disso fica a cargo de sua imaginação, caro leitor. Outro garotinho foi o Ramon, também com quatro anos na época. Ramon soltou uma pérola que nunca mais eu esqueci ele ou o seu rosto. Também foi na hora do almoço.
-Tio, casa com a minha mãe? Ela faz suquinho de laranja para você todo dia!
Naquele momento eu travei de uma forma que nunca mais travaria de novo (talvez quando precisar pagar o imposto de renda), sem ter a menor ideia de como proceder a respeito! Mas depois, acabei achando engraçada a ideia minimalista de casamento que ele tinha: As pessoas podem se casar somente a troco de um suco de laranja! E tudo bem!
O prêmio de cara de pau mesmo vai para a Helen. Também tinha 4 anos na época. Uma certa vez, enquanto aguardavam para irem para a sala onde aconteceria a próxima atividade, vejo um sapato voar na frente dos meus olhos. Helen vai até ele e o coloca no pé.
-Helen, porque você tirou o sapato?
-Eu não tirei, foi ele que voou!
-Ele que voou, Helen? É sério?
É engraçado como certas crianças não precisam de LSD para sair da realidade. Nossa, que piada infame eu fiz agora!
Por último, mas não menos importante, o Carlinhos. Eu nunca vou esquecer o Carlinhos depois de tudo o que aconteceu naqueles tempos. Ele sempre me fazia perguntas sobre minha vida e quando eu ia para a creche com uma camiseta diferente, com alguma estampa diferente, ele era o primeiro a agitar. Uma vez fui com uma camiseta que tinha o desenho de um morcego:
-AAAAH! O TIO É O BATMAN!
Quem me dera, Carlinhos. E não foi nem um segundo para a turma toda começar e a creche inteira descobrir o segredo que estava guardado desde os anos 1940. Mas a verdadeira situação que me deixou sem saber o que dizer foi outra:
-Tio, você tem filhos?
-Eu não, Carlinhos! Porque?
-Mas, a sua mãe não engravidou?
-Porque a minha mãe teria que engravidar de mim, Carlinhos?
Fui salvo pela professora nesse dia que viu a situação e explicou a ele que quem deveria me dar um filho é a minha futura esposa. Por sinal, ainda bem que agora ele sabe. Outra piada extremamente infame. Eu estou bem difícil hoje!
Estava para começar novamente o mesmo show de todo final de ano. E não é o do Roberto Carlos. Esse é tão ruim que a gente se acostuma, mesmo desgostando. Pelo menos, não é preciso se preocupar com a música ambiente das festas de fim de ano. A televisão já faz isso por todos nós. Do jeito mais mal feito possível mas faz.
O show a que me refiro mesmo é o do Olavinho. Foi num desses natais aí de algum desses últimos anos. Não importa muito. O fato é que dessa vez as coisas iam acontecer na minha casa. Na minha família cada fim de ano era na casa de um parente diferente, e aí, cada um que lidasse com as coisas do jeito que desse.
Como nesse ano me avisassem um pouco tarde que estavam todos os parentes, inclusive aqueles de longe, viriam para a minha casa, tive que correr as pressas ao supermercado comprar as coisas. Como ainda moro com meus pais, pelo menos não teria que me preocupar em fazer as comidas, mas o resto com certeza ia ficar para mim. O filho que fica adulto e continua na casa dos pais é para ser escravizado mesmo. É o preço do aluguel!
Além disso, faltavam os presentes. Qualquer coisa mais ou menos para as crianças já devia servir. Talvez devesse servir amendoins também. Amendoins nunca falhavam, e até onde eu soubesse ninguém era alérgico na família. Fiz isso. Mas dessa vez, teria algo inesperado. A tia Selma traria o Olavinho.
Todo mundo sabia que ele ia fazer alguma coisa bem séria. Sério. Todo mundo.
Me preparei para tudo naquele dia. Terminei a noite do dia 23 de Dezembro daquele ano (curioso eu lembrar a data, mas não saber o ano) enfeitando a árvore. Por sinal, uma enorme árvore com neve falsa, algumas bolas coloridas e luzes como não podia deixar de ser. Bem no jeito para o Olavinho fazer a arte dele. Mas não dessa vez. Fiz questão de deixa-la em cima de um móvel, onde ele não poderia alcança-la. Tiro e queda.
Chegou o dia seguinte. O especial do Roberto Carlos na TV para a qual ninguém olhava tirando o cachorro. No quarto, o bebê dormindo (Com a música de final de ano. Triste dia para ser um bebê com sono.). Lá fora, as crianças brincando de qualquer coisa que me dava sono só de pensar em olhar pela janela para ver.
E o Olavinho, como o James Bond que era, vindo da cozinha com algo na boca que claramente conseguiu mastigar, se aproximava da árvore. Como não tivesse me visto ali, aproximou-se. Aquele olhar de: “Que boniiiiiito! Partiu destruir!”. Se aproximou do móvel e tentou levantar a mão até uma das bolas.
Fiquei olhando para ver no que dava. Ele começou a fazer força para subir, o que era perfeitamente previsto, e por isso garanti um móvel pesado, que não saísse tão fácil do lugar. Comecei a ver suas tentativas de subir com certo riso. Era realmente engraçado. Até que de repente um estrondo: PRUUM.
Olhei de novo. Esfreguei os olhos. E não é que o infeliz do moleque conseguiu agarrar um dos galhos mais baixos da árvore e puxar para baixo, fazendo com que tudo caísse? Os parentes começaram a chegar, mas ninguém se aproximava. Por certo, achavam que a árvore teria caído sozinha, por obra de algum fantasma, porque mal se via Olavinho debaixo dela. E ela não se mexia. Me aproximei devagar.
“O menino se matou!” Pensei.
“Tudo bem, gente! É só uma árvore!” Me aproximei com o sorriso amarelo e fiz sinal para um tio me ajudar a levanta-la. Logo, o corpo de Olavinho aparece debaixo dela, desacordado. E, Deus me perdoe por achar isso engraçado, mas ele estava com o rosto roxo e o tal galho que ele puxou se soltara e estava preso em sua boca. Tia Selma se aproximou assustada e o tirou, gritando que chamassem o médico e ora fazendo uma nervosa respiração boca a boca ora dando fortes golpes no peito do moleque, que se não estivesse morto, ia morrer daquele jeito. Mas logo, como que minhas preces sendo ouvidas, voltou a si.
“Parabéns, moleque!” Disse Tia Selma. “Conseguiu me matar do coração! Quem deixou essa árvore aqui tão alta?”
Alguém falou meu nome.
“Por que isso?” A mulher me fulminou com o olhar.
“Para caberem mais presentes em baixo! Sabe como é, tia, eu tenho o dom da organização, mas, as vezes, acidentes acontecem! Você tá bem, Olavinho?”
Tossiu algumas fitinhas verdes daquelas que tinham no galho da árvore para simular a folhagem. Em seguida, levantou devagar uma das mãos. Uma brilhante bola vermelha nela.
“E-eu consegui pegar!”
“FILHO DA...”
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