Preocupação é, num certo sentido, um anseio do que pode dar errado e como lidar com isso. Há na preocupação, pelo menos para o cérebro límbico primitivo, alguma coisa de mágico. Como um amuleto que afasta um mal previsto, a preocupação ganha psicologicamente o crédito de prevenir o perigo com o que se está obcecado. Thomas estava preocupado e não sabia ver a lógica nisso. Sentia a adrenalina correr nas veias em uma quantidade maior que a normal. Sentia-se inquieto, ansioso. As mãos esfregavam-se uma contra a outra enquanto os olhos não paravam um segundo. Thomas sentia a garganta seca, sentia as gotas de suor se acumularem na fronte. Sentia o calafrio percorrer medula. Sentia que não deveria estar ali.
As vozes do salão se faziam distante enquanto o tinido de metal lhe incomodava os ouvidos. O cheiro de chuva encobrindo o aroma do álcool em suas narinas. Thomas golpeou a mão contra o balcão, enquanto encaixava as peças mentalmente. Precisava sair dali. Precisava encontrar Maeve e sair dali. Um presságio. Era isso o que tudo aquilo representava, e Thomas tinha uma leve inclinação à pensar que nada de bom aconteceria daquele momento em diante. Deslizando o copo pelo balcão, levantou-se do bar. Mas já era tarde demais. Não existia mais tempo para correr, nem mesmo para se esconder. Baba Yaga iria encontrar os que buscava.
Thomas estagnou-se no lugar assim que os vidros explodiram. Os braços buscando proteger o rosto enquanto espasmos de dor percorriam o próprio corpo. Sentia o padecimento lhe rondando, e mesmo assim os pensamentos eram direcionados apenas à Maeve. Não conseguia encontrar sentido no discurso da velha enquanto atravessava o salão. Empurrava os corpos que se colocavam em seu caminho, parando diversas vezes para erguer a cabeça. Só queria encontra-la. Precisava se certificar de que ela estava bem, e então, tudo estaria bem.
“ […] e agora nós seremos os culpados pelas mortes deles.“ As palavras alcançaram o ouvido de Thomas no momento em que os olhos verdes encontraram Maeve. Um sorriso ousou brotar em seus lábios, mas foi se desfazendo de acordo com que o corpo da garota despencava. Thomas fora atingido pela culpa. Só conseguia pensar em si, em Vênus e em Maeve enquanto, com olhos marejados, se aproximava do local onde ela estava.
Os joelhos deslizaram para o chão quando Thomas encontrou-se diante o corpo inerte de Maeve. As mãos juntaram com firmeza os ombros da outra, a sacudindo. - Acorde, vamos lá garota! Vamos, Eve! Acorde… - A voz perdeu a intensidade enquanto, com cuidado, deixava o corpo de Maeve repousar no chão outra vez. Sentia as lágrimas lutando para escapar os olhos, mas com um respirar fundo tentava deixá-las no lugar. Os dedos correram pelo rosto da pálida, e estava prestes a depositar um beijo ali quando Thomas virou a cabeça em direção à voz que lhe chamou atenção. Tomou o blazer do outro em silêncio, colocando abaixo da cabeça de Maeve na tentativa de deixá-la confortável, se é que ela teria esse luxo. Respirando fundo, deixou orbes verdes encontrarem as azuis alheias. - Quer ajudar? Vamos atrás dessa porcaria de antídoto! - Murmurou baixo enquanto levantava-se. Um último olhar fora lançado na direção da esposa antes de passar ao lado do outro.
Passos rápidos foram direcionados à escadas, e Thomas não se permitiu olhar para trás para verificar se o moreno o seguia, enquanto subia os degraus. Hesitou por um momento antes de abrir a porta de um dos quartos no andar superior. E quando o fez se arrependeu imediatamente. À sua frente visualizava com perfeição Maeve em um vestido branco. Mas bastou abaixar o olhar para sentir o estômago embrulhar. Aos pés da esposa podia ver uma criança nadando em um líquido vermelho e viscoso, e o vestido de Maeve estava manchado de sangue da cintura para baixo. Estavam mortos, Thomas não precisava pensar muito para concluir que seus pesadelos agora eram reais, ele conhecia aquela sensação. Causava aquilo.
{♚} — Magnus evitou ficar ofendido com a maneira que o rapaz tinha o tratado, provavelmente teria dado as costas e ido embora se isso não fosse interferir com seus planos. - Por favor?... - Falou como esparasse um pedido, uma suplica do rapaz, mas essa não veio. Respirou fundo ao vê-lo disparar em direção ao segundo andar da mansão. - Esse é o espirito, garoto. Vá na frente que eu estou bem atrás de você. - Seu tom era quase que de escarnio, entendia que ele estava desesperadamente apaixonado e lhe polparia o trabalho de mata-lo, já que tomava a frente em uma batalha sem ser necessário convence-lo. Magnus acenou para Nathan e esse se aproximou, lhe entregando um arco longo e uma aljava repleta com flechas prateadas. Nunca estava propriamente armado, mas isso não significava que seus acompanhantes não estariam também. - Nathan, leve Lana para o clube e espera lá por mim. Lana, Darling. - Se aproximou da morena e lhe deu um beijo delicado nos lábios, se despedindo antes que partissem. A medida que subia os degraus, Magnus desfazia a gravata e abria alguns botões da camisa. Ao chegar no topo da grande escadaria, já estava armado e pronto para uma batalha. O que não significava que fosse realmente por sua vida em risco, aquilo era apenas uma precaução. Passava pelas portas dos quartos e era guiado pelos gritos de horror e desespero, ao passo que, ao chegar no quarto em que se encontrava o rapaz de antes, Magnus já fazia idéia do que eram aquelas criaturas. - Me diga o que está vendo. - Entrou atrás do jovem e evitou olhar diretamente a criatura, sabia que não seria atacado enquanto o rapaz estivesse ali.