sam-blackthorn:
Apesar do esforço contínuo que fazia com o objetivo deparecer mais forte do que de fato era, Samantha ainda travava uma luta internaentre sentimentos que a faziam, ao seu ver, parecer mais vulnerável do quegostaria no momento. Ela estava com raiva do irmão por mantê-la de fora deassuntos que também diziam respeito a ela, sim; mas ao mesmo tempo, havia umaparte de si que queria apenas abaixar a guarda e se permitir expressar o quantotambém estava magoada, o quanto a preocupação e o medo de perdê-lo a tomavam emuma base diária nos momentos em que ele estava longe e, principalmente, oquanto sentia sua falta. Falando de maneira simplista, a Blackthorn mais novaestava dividida entre a vontade que tinha de estapeá-lo até perder suas forçase envolvê-lo com seus braços e nunca mais deixá-lo ir. Estava acostumada comaquela ambiguidade de sentimentos, tão recorrente dentro de si, porém o costumenão tornava o manejo desses sentimentos mais simples. Sobretudo agora,considerando que o irmão mais velho parecia mais distante dela do que decostume.
Apesar da distância inevitável que se estabelecera entre eles depoisque Jude foi iniciado, ele sempre parecia tomar o cuidado de reduzir os danosdessa distância. Sempre que possível, procurava se comunicar com Sam, atravésde ligações e mensagens de texto, além de uma ou outra visita esporádica aoInstituto, antes de ser contratado como treinador de defesa pessoal. Mas agora,após aquele longo período de tempo sem qualquer notícia e aquela apariçãorepentina, juntamente com o que parecia ser uma deliberada ausência de detalhesacerca de seu paradeiro, fazia com que Samantha se sentisse mais distante deledo que nunca. E isso a assustava como o inferno. Afinal, por mais caóticas einseguras que as coisas estivessem, a morena sempre sentia que podia contar como irmão para cuidar dela. Porém um instinto de autopreservação a alertava paranão abaixar a guarda e demonstrar o quanto se sentia assim.
Ao perceber aquelelampejo de hesitação nos olhos azuis, portanto, Samantha sentiu que aquelacouraça de indiferença se rachava ao meio. Naquele lampejo de hesitação, elaviu a versão do irmão mais velho que tanto conhecia e amava; a que confiavanela, apesar do esforço para manter as informações o menos coloridas possíveis com o sangue que indubitavelmente manchava suasmãos. A Blackthorn permitiu-se apegar àquele lampejo de forma esperançosa, comoalguém se apegava a um salva-vidas no meio do oceano. E foi por isso que asensação de afogamento e desamparo com as palavras seguintes foi muito pior e do que elaimaginava. E não foi com muita surpresa que, apesar de sua expressãoparcialmente neutra, sentiu aquela pressão desagradável e angustiante nagarganta, antes dos olhos verdes marejarem com lágrimas não derramadas. Umpequeno sorriso falso delineou o canto de seus lábios, porém passou longe dechegar aos olhos. Assentiu lentamente em conformismo, antes de desviar os olhospara o chão, desgostosa com o fato de ter dado aquele claro sinal de mágoa. –Já entendi. – Disse por fim de forma audível, esforçando-se para que sua voznão soasse tão vulnerável. Esforço completamente inútil. – Você claramentedecidiu suas prioridades, and who the fuck I am to make you change of mind…? –Disse em um fôlego só com um baixo riso, irônico e sem vida, os olhosfocalizando-se em todas as direções, exceto no rosto do irmão. Se o fizesse,sabia que doeria mais. Não se sentia capaz de lidar com o fato de que o perderapara Alexander Blackthorn. – Eu acho que você não tem mais nada a fazer poraqui, se sinta livre pra ir embora quando quiser. – Completou, encarando-opor poucos segundos com aquele pequeno sorriso que pretendia demonstrarindiferença, mas que estava completamente quebrado pela dor em seus olhos. –Tchau, Jude. – Despediu-se, deixando a sala de treinamento com passos largos.
Ainda que tudo o que ele mais quisessefosse, nem que apenas por alguns poucos instantes, poder deixar todos aquelespensamentos e preocupações que continuavam a rondar sua cabeça para aproveitarum pouco mais seu reencontro com Thea depois de tantas semanas em silêncio semtrocar uma mensagem sequer. Ou pelo ou menos poder dar uma resposta maissatisfatória sobre seu paradeiro sem precisar recorrer alguma mentira deslavada,— coisa que infelizmente ele já tinha se visto obrigado a recorrer. Não gostavanem um pouco de mentir para Thea, não quando sabia que o assunto em questão eracoisa séria. Mas o que podia fazer quando bastava apenas uma olhada para orosto dela para reforçar sua certeza de que ela não aguentaria, não tinhacondições de suportar uma coisa como essas? Ela não precisava, de qualquerforma. Ele poderia muito bem resolver as coisas por ela, como sempre haviafeito.
Ligeiramente mais convicto sobre adecisão que havia tomado antes mesmo de seguir de volta para o instituto, agoraseus pensamentos estavam aos poucos se voltando aos poucos para o inevitável.Se conhecia bem o bastante para saber que, pelo ou menos quando se tratava desua irmã mais nova, ele tendia a cometer cada vez mais deslizes, coisa que nãopodia se dar ao luxo. Ainda que de forma relutante estava começando a concluirque talvez fosse melhor manter uma distância dela, apenas até ele ter certezasobre no que estava se metendo agora. E não era como se os dois não fossemestar nos mesmos lugares, ela ainda continuaria indo as suas aulas de defesapessoal. Esse pensamento amenizou um pouco a perspectiva de se afastar dela,isso e saber que não era definitivo.
Observar o pequeno lampejo deesperança que surgiu nos olhos alheios, apenas para serem estraçalhados algunspoucos instantes depois por sua resposta calculadamente indiferente exigiu um nívelainda maior de autocontrole de sua parte. Ver toda aquela magoa estampada norosto dela, surgindo aquela expressão que apenas fez com que ele se sentissecomo se ele tivesse acabado de chutar um filhote de cachorro particularmentefofo, e sem poder fazer nada. Que se dane. Já tinha feito sua escolha, nãotinha como voltar agora. Além disso ela estaria bem melhor assim. Concentrou-se mais uma vez em manter suaexpressão o mais descontraída e despreocupadamente o possível, ainda que nãoestivesse se sentindo muito assim. —Nisso eu discordo totalmente com você, Thea. — Respondeu finalmente encontrandoa própria voz, ainda que continuasse sentindo um ligeiro aperto na garganta,dando um ligeiro ênfase no apelido dela, apenas sentindo como se isso fosse algumacoisa importante. Anuiu levemente com acabeça, deixando seu olhar a acompanhar até a porta do recinto, sua expressãocompletamente em branco. Foi somente depois de escutar os passos dela setornarem cada vez mais fracos, sinal de que já havia se afastado faz um tempoque ele finalmente soltou a respiração, seus ombros caindo ligeiramente e umaexpressão resignada tomando seu rosto. —Droga! — rosnou chutando com força dos sacos de treinamento, apenas querendodescontar toda sua frustração em alguma coisa.








