A Internet, e Depois? - Dominique Wolton
“Na verdade, somos fascinados por essa dimensão tecnológica, uma vez que os ganhos são consideráveis, enquanto que se olharmos para o passado perceberemos que, ao longo dos séculos, as mudanças reais na comunicação foram muito mais de natureza cultural e social que tecnológica [...]” (p. 1)
“Se a comunicação é, portanto, sempre definida por três elementos, técnico, cultural e social, e se evidentemente a dimensão tecnológica muda rapidamente, especialmente há um século, as outras duas dimensões são pelo menos de igual importância.” (p.1)
“Assim, para evitar contradições inevitáveis relacionadas à instalação massiva das novas tecnologias de comunicação, convém lembrar que elas não surgem do nada, não substituem o papel nem a utilidade das outras tecnologias, especialmente a das mídias, e que em qualquer estado de causa, se os modelos culturais e sociais de comunicação não evoluem juntamente com a chegada das novas tecnologias, haverá, após uma fase de resistência, profundas resistências.” (p. 2)
“Hoje em dia, o perigo mais grave diz respeito ao tropismo tecnológico que vê na tecnologia a essência da comunicação.” (p. 2)
“A essência da comunicação não é tecnológica, mas antropológica e cultural, por isso, a produtividade das tecnologias não pode jamais substituir a lentidão e as imperfeições da comunicação humana, mas que, pelo contrário, isso explica por que se dotam as tecnologias de comunicação – hoje em dia, a Rede, ontem a televisão ou o rádio – de capacidade para resolver os problemas da comunicação humana e social.” (p. 2)
“Destecnificar a comunicação é, enfim, humanizá-la e socializá-la, é resistir ao fantasma da racionalização.” (p. 3)
“A importância teórica da comunicação é parte da maioria das questões antropológicas contemporâneas: a relação entre liberdade individual e igualdade social, o laço social em uma sociedade complexa, onde coexistem a individualização, o igualitarismo e o comunitarismo; as relações entre identidade e comunicação em um universo cultural que é enriquecido com o segundo, enquanto desconfia do primeiro; a questão do “outro”, que se tornou onipresente através da mediação das tecnologias, mesmo sem ser mais aceitável.” (p. 4)
“A mídia, por intermédio de seus programas, suscita evidentemente insatisfação, uma vez que encontramos de tudo, e não só o que buscamos, pois oferece também a oportunidade de acesso a outra coisa, em que não havíamos pensado a priori.” (p. 4)
“ Não há racionalidade comum às três lógicas do emissor, da mensagem e do receptor. A prova disso é que, apesar de sua considerável força, a mídia, por um século, levou à padronização das opiniões e das ideias: uma vergonha para os trabalhos da Escola de Frankfurt.” (p. 5)
“A globalização da comunicação, ao contrário do que dizem, vai radicalizar as diferenças das percepções ligadas às identidades culturais. Quanto maior é a informação e a comunicação, mais importante é o papel que desempenha o contexto de recepção.” (p. 5)
“A maior parte do tempo, uma inovação tecnológica resolve um problema anterior, mas cria outros, e tendemos a ignorar muito frequentemente este segundo aspecto. Isto pode ser notado hoje na automação de serviços, bancos, trens... Depois de substituir os homens por máquinas mais eficientes, constatamos uma profunda desumanização e a necessidade urgente de reintroduzir as pessoas no comércio, nos trens, nos serviços.” (p. 7)
“Em poucos segundos, girando alguns botões, ouvia-se o som do mundo inteiro. O cinema falado foi uma grande novidade, embora limitado a um pequeno número de espectadores reunidos em um espaço confinado.” (p. 9) “Humana e tecnológica, produtiva e arcaica, barulhenta e silenciosa. Alguém inventará com certeza coolers silenciosos. Mas o essencial não é isso, já que sempre haverá um “ruído” inesperado acompanhando o barulho do teclado para recordar que em matéria de comunicação nunca há uma racionalidade plena. O mais moderno tem com frequência necessidade do mais arcaico” (p. 9)
“O telefone e o rádio, estes dois “antigos” meios de comunicação, recordam também que o essencial de seu papel consiste na ajuda modesta, não obstante indispensável, que trazem aos homens para que melhor se entendam. Tentar se escutar quando não se puder se ver.” (p. 9)












