Nausicaä do Vale do Vento
Um simples comentário filosófico ou artístico
"Mil anos após a destruição da civilização industrial, o mar podre, um pântano que produz ar tóxico, cobriu a terra com destruição, ameaçando a sobrevivência humana."
A citação acima encabeça as primeiras cenas de Nausicäa do Vale do Vento (1984), filme do cineasta Hayao Miyazaki, na época integrante do Topcraft Studio (que no ano seguinte se transformaria no aclamado Studio Ghibli).
Essa introdução com imagens que remetem à arte rupestre lembram muito aqueles textos enigmáticos contidos nas caixas dos RPGs do Super Nintendo, tipo Secret of Mana (1993) ou Chrono Trigger (1995). Atrás da caixa você tinha um parágrafo explicando um pouco sobre aquele universo e já se decidia se valia a fortuna de 5 reais pelo aluguel da fita durante o fim de semana (caso você não saiba, um RPG demora semanas para ser concluído).
Os 10 primeiros minutos de Nausicaä estabelecem o ritmo quase contemplativo do filme e apresentam a personagem principal junto aos perigos desse mundo distópico.
Nesse mundo exuberante e hostil, acompanhamos a jornada da princesa Nausicaä (pronuncia-se Náushee-ka), que vive no Vale do Vento, uma região privilegiada que devido à topografia local não sofre dos impactos da Selva Tóxica.
Aprendemos com Nausicaä que a natureza exige respeito. Que os animais vivem em harmonia com o meio ambiente e suas ações representam a preservação e continuidade da vida. Vale apontar um paradoxo sutil: enquanto os monstros do filme possam parecer criaturas horrendas oriundas da Ilha da Caveira, lar do King Kong, eles não são os predadores, os humanos que são.
É importante ressaltar também que as animações do Studio Ghibli não tem um arco de herói muito similar aos da Disney ou Pixar por exemplo. As obras do Myiazaki, muitas vezes, não fornecem caminhos previsíveis ou gatilhos satisfatórios para o loop de diversão das pessoas mais ávidas por ação ou finais felizes.
Sabe aquela parte em que uma personagem vai amadurecer e comumente colocam uma montagem com os melhores momentos do ponto A ao ponto B com um fundo musical? As animações Ghibli não têm isso. O ponto A e o ponto B são pequenas nuances. Gosto de falar que são "filmes de trajetória", e não "filmes de finalidade". Você não vai assistir um grande herói mudar o mundo no final das contas, mas vai acompanhar um pedaço da trajetória de uma pessoa com fortes convicções enquanto ela enfrenta algum desafio mundano, e sai dele totalmente diferente - com sorte, no final do filme você também estará diferente.
Seria a guerra, a poluição e o consumismo inerentes à condição humana?
Essa discussão mais ambiental e filosófica sobre o nosso papel no mundo, e como nos relacionamos com o ambiente é sempre atual. Enquanto escrevo esse texto sofremos com a pandemia do Covid-19, e todo tipo de negacionismo científico. Também sofremos com o aquecimento global, com o desmatamento e queimadas das florestas tropicais, a extinção de animais pela caça e destruição dos biomas. Em miúdos, a humanidade, à imagem e semelhança do Deus, vem consumindo seu hospedeiro (o planeta) como se ela própria fosse um vírus. O Vale do Vento pode parecer um lugar sem ambições, mas eles já têm o principal para viver... o equilíbrio.
A carismática Nausicaä é uma princesa fora do comum (estamos em 1984 hein): além de piloto e catadora habilidosa, ela é uma aventureira destemida, de grande compaixão e se precisar arregaçar as mangas ela parte pra cima. É uma fonte de inspiração para a nação.
É interessante perceber que eles idolatram a moça, não por ela ser a herdeira por direito, mas porque de fato ela é a pessoa que incorpora os melhores ideais para a liderança. Ela representa a esperança, compaixão, equilíbrio e união. Em nenhum momento do filme nos é oferecido algum argumento específico para importância dela além de suas próprias atitudes, e é por isso que ela é tão legal, em quase duas horas de filme é impossível não se sentir cativado por ela.
O Vale do Vento e a monocromia
Você poderia ignorar toda a discussão do contexto da história, o carisma da protagonista e se concentrar no visual, na paleta de cores e nos belos cenários que integram a animação, e ainda seria um filme excelente! Um mundo extremamente rico.
A animação foi feita à mão e sem aqueles recursos digitais toscos presentes em muitos animês. A paleta de cores impressiona muito pela economia e simplicidade. A história começa bem monocromática e aos poucos, novos pontos de interesse vão sendo adicionados, aumentando a imersão. O filme é composto predominantemente de tons azuis e alaranjados, alternando entre cenário e ponto de interesse. O que gera destaques lindos quando uma nova cor é inserida. Recentemente eu estava estudando teoria das cores e percebi que esse filme é uma aula completa. Veja no exemplo abaixo, diversas cenas usam cores complementares para criar contraste ou pontos de interesse.
Toda vez que uma cor diferente do azul ou do laranja aparecer, perceba os rumos da história. A mesma lógica se aplica aos personagens. Se aparecerem detalhes com novas cores, fique de olho bem aberto!
Nausicaä e o futuro
Quando eu assisti eu não sabia que iria escrever um textão, mas eu não queria esquecer o quanto esse filme é bom, ou o quanto eu percebi sobre teoria das cores nos rumos da narrativa, e sobre a discussão ambiental. Então eu precisava dar um tapa no teclado e escrever essas impressões - acho que vou rever todos os outros filmes do Studio Ghibli e dedicar um tempinho pra estudar eles, ler um pouco sobre a história, tecer alguns comentários, amarrar, de fato, algumas ideais... e tirar fotos da tv (todas as fotos desse post são da minha tv, logo as cores não serão tão fiéis, você vai ter que assistir no Netflix)
O que fica mais marcante pra mim, além de toda a arte e ambientação, é que o cenário conflituoso que se desenrola ao longo do filme é totalmente secundário. Ele serve apenas para demonstrar como o homem é o lobo do homem e a Nausicaä, que apesar de cheia de qualidades, é apenas uma moça frágil num mundo em conflito. Aliás o Character Design da personagem optou por não deixa-la infantilizada, muito menos sexy (como comumente acontece em outras animações japonesas), a indumentária dela condiz perfeitamente com suas aptidões e ela parece uma moça comum de 20 e poucos anos, determinada e dona do seu nariz! Longe do ideal Disney de princesa indecisa que tem que provar alguma coisa no mundo enquanto conquista o príncipe encantado, ou a irmã encantada ;-).
Opa! Olha esse destaque vermelho... VERMELHO? Significa CORREEE! (obs.: volta ali em cima e vê qual cor é complementar ao vermelho)













