O inglês acordou naquele dia com uma grande empolgação no peito, o que era bom, dadas das circunstancias de provas finais e vários trabalhos para entregar. Entretanto, diferente dos demais colegas ele era bastante organizado e gostava de planejar sua vida acadêmica tanto quanto os pais organizavam a agenda da Sullivan Co., e por isso não faria nada naquela sexta feira que não fosse assistir as aulas, tomar notas e aproveitar uma sexta-feira como essa deveria ser aproveitada. Mas o sonho com a filha durante a noite não deixou que seus planos para a noite fossem além do que um passeio pelo shopping, comida do restaurante favorito da menininha e assistir uma maratona de filmes infantis. Por isso antes da hora do almoço, mandou uma mensagem para Mary, avisando que pretendia ficar com a filha naquela noite e no dia seguinte, afinal sua mente agora já trabalhava com uma grande programação para ficar ao lado da garotinha dos cabelos castanhos e temperamento forte, sorrindo ao receber a confirmação de que não tinham nada para o próximo dia e que ele poderia ficar com ela tranquilamente. Gostava da relação que nutria com a mãe da menina, lidavam com a mais nova de maneira sensata sem precisarem ir a júris e ter mandatos de guarda compartilhada, o que para Charles era ótimo, afinal, evitava mídia e ser descoberto pelos pais.
Charles levava Daphne, quando a mesma passava a noite com ele eventualmente aos finais de semana, para um hotel. Era mais barato que pagar por um apartamento e o aluguel do hotel ficava em conta se fosse pensar em compra de móveis e pagar luz, água e afins. Precisou apenas adquirir um berço no começo, apesar de não ter deixado a pequena passar muitas noites longe da mãe antes do um ano e meio, sabia que ela necessitava da presença materna em tempo integral e ele compreendia isso. Porém, após estar mais crescida, ela passava as noite com ele em um quarto de hotel alugado e decorado aos poucos de forma mais infantil pelo pai de primeira viagem, nunca levava mais ninguém para lá, afinal era seu lugar com a filha e esta estava sempre em primeiro lugar na lista de prioridades do inglês fazia mais de dois anos já. Planejava a noite que teriam juntos, assim como o dia seguinte enquanto começava a arrumar a mochila antes de ir para as ultimas aulas do dia, sairia de lá e iria direto para a casa de Mary buscar Daphne.
Entretanto, os planos do universitário não saíram como desejava e alguns contratempos surgiram para o líder da Zeta Beta Tau no final da tarde e por causa da urgência os resolveu antes de pegar a avenida principal e seguir rumo ao apartamento da Sutton. Mas o transito parecia infernal, o atrasando ainda mais e apesar de querer mandar uma mensagem para a outra, avisando seu atraso ainda maior, não conseguiria encostar para pegar o celular com tamanho congestionamento; logo, decidiu apenas seguir viagem enquanto o sol de punha no horizonte e as ruas de Los Angeles começavam a ficar cada vez mais escuras, ganhando o brilho da vida noturna. Chegou no apartamento mais de duas horas e meia atrasado, estacionando o carro na frente do prédio soltando um longo suspiro frustado; odiava parecer irresponsável quando se tratava da filha, ainda mais para Mary. O porteiro deixou o outro entrar com um comprimento formidável e Charles seguiu rapidamente para o elevador, quase correndo até a porta da estudante de artes, apertando a campainha sem ouvir nenhuma resposta por alguns minutos. Tocou-a novamente com a preocupação já lhe subindo a cabeça, ela não costumava mudar os planos sem avisar-lhe e ele podia ver a luz vinda por debaixo da porta. Apertou mais uma vez, tentando varrer os pensamentos ruins de lado e sentindo o rosto se iluminar ao ver a presença da morena surgir na porta.
"—Oie!“ O sorriso se alargou nos lábios rapidamente quando Mary parecer na porta, não podia evitar os pequenos efeitos que ela tinha sobre ele, por mais que não quisesse demonstra a ela, principalmente depois do quase fora que tinha levado ao tentar insinuar algo entre eles mais uma vez no último ano, mas ele não conseguia se segurar. A morena provavelmente era a unica mulher em toda a vida do inglês que conseguia mexer com todos os cantos do seu corpo com apenas um gesto, não sabia ao certo o que sentia por ela mas de fato sentia algo muito forte, um sentimento bastante desconhecido para si até então e que mesmo após um bom tempo com a presença dele, o estudante de direito ainda não o compreendia ao certo; o que sabia era que gostava da companhia de Mary, gostava de ter longas conversas com ela sobre a filha ou qualquer outro assunto aleatório, sentia-se bem quando recebia mensagens dela pedindo por algo urgente para Daphne e sentia prazer em ser o mais prestativo possível para ela e não é como se ele fosse uma péssima pessoa mas era diferente fazer coisas daquele tipo ali em Los Angeles, onde havia se acostumado a pedir demais e fazer de menos para a maioria dos amigos, ainda que fosse solicito sempre que necessário. Ele riu com a afirmação dela e arqueou uma das sobrancelhas após a olhar dos pés a cabeça. ”—- Não parece ter sido uma pequena soneca, opa, um pequeno imprevisto.“ Ele aproximou-se dela ao passar pela porta e puxou a cabeça da mais baixa para depositar um beijo efetuoso no topo desta, um hábito que possuía com todas as mulheres por quem tinha grande carinho -e isso incluía Mary, as irmãs e mãe e sua melhor amiga-, sentindo o cheiro de shampoo o invadir por alguns instantes. ”—- Aceito sim!“ Falou tirando rapidamente os tênis que usava, ficando somente com as meias brancas e escorregando a jaqueta jeans pelos ombros, a pendurando em qualquer lugar; seguiu silenciosamente para o sofá, sabendo que a pequena estaria ali devido a tela de inatividade da tv. Observou-a por alguns instantes antes de depositar um suave beijo em sua bochecha fofa, sem ter a intenção de acorda-la do sono que parecia tão profundo. Não pode evitar o grande sorriso paterno que se abria tanto em seus lábios como nos olhos que brilhavam em direção a pequena; ainda que totalmente não planejada e que ele e Mary tivesse cogitado e quase feito o aborto -ele afastava por tudo aqueles pensamentos atualmente pensando em como fora tão estupido-, Daph era a melhor coisa que ele vai havia feito em toda a sua vida, não iria nunca haver no mundo uma mulher que ele amasse tanto quanto a pequena deitada ali, respirando profundamente com os olhinhos fechados, dormindo como um anjo. Deu a volta no sofá em silêncio e seguiu Mary pelo apartamento. ”—- Desculpe a demora, tive alguns imprevistos na fraternidade e o transito pra cá estava muito péssimo.“ começou assim aproximou-se mais da morena, mantendo o tom de voz mais baixo, não querendo acordar a filha. ”—- Se quiser posso pedir algo para comermos, garanto que ela vai acordar faminta. A não ser que tenha outros planos para hoje a noite, porque se for, posso acomoda-la na cadeirinha do carro.“ Mas ele torcia profundamente que ela não tivesse outros planos e que pudesse ao menos passar um pouco do tempo em sua companhia, enquanto Daphne não acordava.
Mary riu sem graça do comentário dele, segurando o impulso de rolar os olhos divertidamente. O gesto de carinho no topo de sua cabeça, porém, deu ao sorriso um ar agradecido; recíproco em afeto. Gostava muito do relacionamento que nutriam. Charles havia se tornado, para sua mais profunda surpresa, um ótimo pai. E mais do que isso: um grande amigo. É verdade que tinha ficado receosa em contactá-lo no início, pouco depois do nascimento, quando havia descumprido o acordo e resolvido prosseguir secretamente com a gestação. Mas como poderia ter dado fim a algo que crescia dentro de seu próprio ventre? Não era tão fácil quanto parecia. Quando dera por si, uma lista de possíveis nomes começava a se formar no subconsciente. Quando buscara conselhos com a mãe, que a havia criado sozinha, não recebera nada além de um abraço apertado e de apoio empapado em lágrimas mornas. Fora mais forte do que ela, do que qualquer desejo egoísta de carreira ou futuro. Não se arrependia nem por um segundo.
O aceitar do café pareceu tirá-la dos devaneios, e Mary aproveitou a deixa para afastar-se até a cafeteira. Pegou o pó, depositou duas gordas colheres na máquina —- forte, como sua mãe costumava fazer toda manhã. —- e acionou o botão vermelho, sorrindo satisfeita ao ouvir o barulho de sucção característico. Depois, virou à tempo de ser capaz de observar Charles se inclinando em direção ao sofá. O layout do pequeno apartamento colocava a sala de estar de costas para a cozinha, de modo que qualquer um sentado à mesa também pudesse assistir à tv. Daquele ângulo, não conseguia ver muito além da parte traseira do encosto do estofado; entretanto, tinha vista privilegiada do rosto de Charles e das reações que aquele rápido contato — um beijo terno, imaginava — havia lhe causado. Algo no interior de Mary se derreteu. E, julgando pelo brilho nos olhos do O'Sullivan, suspeitava que no dele também.
“Você demorou? Eu nem percebi.” brincou com a própria desgraça, fazendo-se de desentendida enquanto buscava por xícaras no armário. Na realidade, era ela quem deveria estar pedindo desculpas pelo chá de cadeira que o obrigaria a tomar, uma vez que praticamente nada da filha estava pronto para a saída de ambos. O desenrolar do diálogo, todavia, a deixou um pouco mais aliviada. Sutton tomou em mãos as peças de porcelana e caminhou mais lentamente de volta à mesa. Enquanto falava, ia abrindo um sorriso malicioso; incontido. “Meus planos pra hoje à noite incluem uma taça de vinho…” Parecia uma criança prestes a fazer alguma travessura: o espelho envelhecido de uma Daphne em seus dias mais sapecas. Chegava a ser até um pouco triste perceber o quanto estava animada por algo tão frívolo; mas, céus, sequer lembrava com precisão a data da última vez que havia conseguido se organizar à ponto de ter um dia inteiro sem qualquer tipo de compromisso. E era exatamente isso o que faria: total e absolutamente… nada. “E depois voltar com a minha bunda pra aquele sofá e retomar a soneca mais gostosa dessa semana exatamente de onde parei. Ou talvez para a cama… é mais confortável.” Estreitou os olhos, tomando nota da lógica de suas palavras. Logo, a pergunta inicial voltou à mente. Ela piscou, devolvendo a atenção a Charles. “Mas sim. Sim, pode pedir comida. Eu vou agradecer bastante, na verdade. Oh, e se puder, teria como conseguir uma fatia de torta de morango?” Perguntou, os olhos repentinamente arregalados e um sorriso de orelha a orelha, recheado em expectativa, marcando a expressão. “Levei a Daph numa cafeteria dois dias atrás e desde que ela provou a torta, não para de falar no quanto era boa. Tipo, literalmente.” Uma risadinha escapou. “Vai por mim, ela vai amar a surpresa.”