Quando o garoto lhe respondeu, Clarissa ficou tão surpresa que virou o rosto para poder encará-lo melhor. Quase soltou um “você sabe com quem está falando?” ao perceber o tom rude nas falas do gryffindor, mas o que fez foi rir. Não rir porque fingia e não rir de maldade, mas sim porque havia encontrado alguém muito melhor do que Korey. A fala de Pettigrew não era só recheada de raiva como também de inveja, Clarissa havia passado anos aprendendo a ler as pessoas e a entender o que elas sentiam, ver todo aquele ressentimento não nada menos que divertido. Afinal, ele está não só enganando a si mesmo como a todos que estavam a sua volta. Quando falavam de Peter para ela sempre se dirigiam a ele como o quarto maroto, aquele que come demais, o que vive se apaixonando pela garotas erradas, o amigo do James e do Sirius, mas nunca como uma pessoa si. Até mesmo Sirius falava dele de uma forma muito diferente do que o esperado, ela nunca havia ligado e nem se importado com qualquer um deles três que não e ex namorado e por isso nunca tinha falado com nenhum deles e nem com as pessoas da casa de Sirius, mas quando Greta veio encher seus ouvidos de elogios e comentários belos de Pettigrew, a slytherin quis ver com os próprios olhos como ele era antes de julgá-lo. O que encontrou foi muito melhor do que o esperado. Ele estava sozinho e ela pensava que seria fácil manipulá-lo, de fato seria, mas ele poderia oferecer muito mais do que algumas fofocas sobre a ordem. Guardou seu sorriso malvado dentro de si e o que mostrou foi um que tinha muito mais felicidade. – Oh, não, não. – gesticulou. – Por Merlin, não pense que vim aqui por causa dele. – indicou Black com a cabeça. A simples idéia de fazer alguma coisa só porque dizia respeito a Sirius a irritava. Clarissa nunca fez as coisas por ele, nem mesmo quando namoravam. Era sempre ela com seus assuntos e ele com os dele, nenhum dos dois estavam dispostos a abrir mão disso para poderem dar certo. Havia gostado muito dele, é claro o dinheiro e a beleza lhe caia muito bem, mas atualmente não sentia nada além de rancor e um tanto de raiva. – Eu estou noiva. – esticou a mão para ele, mostrando o grande anel que estava em seu dedo. Anel que vinha vindo da família de Thomas, provavelmente a única coisa de valor naquela família que ainda não tinha sido vendida. – E eu meu noivado dá certo. – riu ela, referindo-se ao tanto de pessoas que se traiam naquele castelo. – Não vim aqui para falar dele. Eu só vi você sozinho, não gosto de Runas e quis conversar. Achei melhor me apresentar como a ex do Sirius, assim você poderia me ver de uma forma que não uma Avery horrível que só sabe querer matar os outros. – gesticulou com a cabeça, sorrindo. Respirando fundo, Clarissa adquiriu uma expressão mais séria - O peso do nome é meio complicado às vezes. – olhando para ele, ela sorriu, erguendo a mão. Na verdade ela não ligava nem um pouco para o peso do sobrenome Avery, gostava muito do nome que tinha e usava todo aquele poder que vinha junto para fazer algumas coisas. – Eu juro não mentir e nem te enganar. Eu sou uma pessoa boa, Peter. – se ela acreditasse nessas superstições trouxas, com certeza iria estar com os dedos cruzados, pois o que havia saído de sua boca era uma das maiores mentiras que ela já havia contado. - Eu sei o que devem dizer nos corredores ou até mesmo o que meu irmão diz de mim, mas nada aquilo é verdade. Eu juro pra você. Não sou ruim e não tenho culpa se alguns parentes meus tendem a fazerem coisas ruins. - suspirou fingindo uma falsa tristeza. Mexeu em sua pena mostrando um desconforto que não existia. Mentir para ela sempre havia sido muito fácil e enquanto falava sobre seus pobres parentes que eram tão maldosos, ela só pensava em como ela estava feliz por estar chegando perto deles.
- Eu sei! Marlene? Bonnie? Não sei diferenciar as duas, mas eu acho que ambas são boas demais pra ele. – encolheu os ombros. Dessa vez ela não estava completamente mentindo. Acreditava que as duas eram, de fato, mulheres demais para uma criancinha covarde como Sirius Black, ainda mais Marlene que era dona de uma personalidade tão forte que talvez fosse à única pessoa de toda a gryffindor que interessasse Clarissa de uma forma não carregada de falsidade. Na opinião dela, Sirius não merecia uma garota como Mckinnon, mas não era como se ela se interessasse de verdade nisso. Enquanto a segunda, bem, ela nunca havia falado com ela e nem a visto, o que sabia eram pequenos comentários e algumas reclamações do ex, entretanto pelo pouco que sabia já via que ela era bem melhor. Não queria que Sirius ficasse sozinho, mas também não queria um mundo cheio de mini-Black por ai. De qualquer forma, ela não se importava e não havia sentado do lado de Peter para saber o traidor que um dia já havia sido seu namorado. Olhou para o menino ao seu lado, ajeitando-se na carteira e arrumando a matéria no momento em que o professor entrou na sala. – Não parece bem, se me permite dizer. – comentou, anotando em seu pergaminho o que o outro passava na lousa. Clarissa não era muito boa com cadernos. – Mas desculpe, não quis provocar em nem nada. Eu só… acho que vou morrer nessa aula. – suspirou, apoiando a mão no rosto e olhando para o quadro. Clarissa entendia muito bem de Runas, na verdade era uma de suas matérias favoritas e ela achava que o professor Clarke explicava muito bem. O problema era que muitas pessoas não gostavam tanto da aula e seria bem mais fácil se aproximar de alguém não gostando de tudo aquilo.
Não falou nada, pois não sabia se podia. Não que se importasse de fato com o que o outro iria dizer ou não sofre ela. Peter podia ter ganhado um pouco mais de sua atenção com a pequena explosão que dera, mas ainda era um pouquinho patético demais para o gosto da menina. Enquanto Sirius e James pareciam ter uma lábia muito boa para qualquer coisa que fosse, Peter parecia se esconder atrás de um muro que iria dar muito trabalho para ser desconstruído. Sua mãe nunca havia lhe dito nada sobre pessoas com baixa auto estima, entretanto com o passar dos anos foi aprendendo por si própria que esses eram o tipo mais difícil de pessoas. Nunca acreditavam em si mesmas o que tornava ainda mais difícil fazê-las acreditar em você, ou seja, as doces palavras de Clarissa não seriam o suficiente para fazer com que Peter acreditasse que ela estava ali porque queria estar. Portanto, quando ouviu o menino balbuciar alguma coisa que ela não entendeu, mas julgou que fosse um pedido de desculpas, ela sorriu e segurou a mão dele por cima mesa. – Está tudo bem. Todo mundo tem dias ruins, Peter. – assentiu, sorrindo de modo doce para ele. – Não estou julgando você por ter sido um pouco rude, está tudo bem. – continuou, com uma voz mais doce do que os bolos dos elfos – bolos que ela tanto odiava – e então se afastou. Retirou a mão da mão dele, voltando a escrever em seu pergaminho e olhando para frente. O método que ela teria que usar dessa vez teria que ser diferente. Não poderia ser amor como fazia com Jonathan, nem medo como era o caso de Phillip, nem semelhança como fazia com Korey, nem lealdade como era o caso de Narcissa e Lucius, não seria substituição como era seu relacionamento com Bellatrix, não seria chantagem com ela faria com Emma e nem acordo como iria fazer com Kala, o que Clarissa teria que fazer com Peter era confiança. Ela teria que fazer com que ele acreditasse nela, que visse nela uma amiga que o aceitasse daquele jeito tão diferente, seria mais difícil do que os outros, mas ela sempre havia gostado de um desafio.
O legado Avery dentro daquele castelo não era nenhum segredo. Eram todos incrivelmente bonitos e malvados, sem exceções até aparecer o tal professor de defesa contra as artes das trevas. Mas, antes de Jonathan, ainda havia Harriet, Elizabeth, John e Clarissa. Peter realmente não se importava muito com os outros que não fossem o garoto Slytherin que era seu melhor amigo. Sua própria família já fora para diversos jantares na casa dos irmãos e o relacionamento sempre durara por questões restritas de interesses em ligações. Não gostava de Elizabeth, mas a suportava porque ela guardava segredo. Os Pettigrew e os Avery sempre mantiveram certa aliança e era por isso que Peter envergonhou-se por ter tratado Clarissa de uma maneira ruim. O que seus pais pensariam se o vissem agindo daquele modo com uma Avery? Provavelmente o puniria severamente, não deveria tratar mal alguém de uma família tão importante e que já havia os ajudado tanto durante tanto tempo. Muito provavelmente Clarissa não sabia sobre aquela aliança, aquilo era mantido em certo segredo porque até então seus pais sabiam pouco sobre a vivência de Peter dentro do castelo. Tinham conhecimento de que ele estava na Gryffindor, e isso já era um fator bom, pois na Gryffindor ainda havia grandes aspiradores, não tanto quanto na Slytherin, mas Godric fora um ótimo bruxo como Salazar. Ambos quase sempre empatados em questões ambiciosas. A HufflePuff ou Ravenclaw não poderiam lhe acrescentar em nada, não era tão inteligente para ser ravino ou humilde para um huffle. Era um meio termo incompreensível que poderia muito bem ser um aborto. Pensara muito sobre poder ter nascido um aborto, sua primeira mágica fora quase nula, quase decepcionara extremamente seus pais aos onze anos de idade. Queria poder não ser responsável pelo nome da família Pettigrew ou pelo papel desta no mundo bruxo. Teria de ser alguém, precisava ser alguém, e para isso também precisava ser amigo de pessoas como os Avery. Adorava John, realmente, era um amigo e tanto que o compreendia e o fazia abrir os olhos para fatos mais importantes, maiores e melhores, que um dia lhe dariam o poder necessário para orgulhar todos os seus ancestrais. Mas também era obrigado a sempre sorrir para Lizzie e lhe tratar bem, o mesmo para Harriet e Clarissa. Escondendo o óbvio segredo de saber a real índole de todas as pessoas daquela família, sem exceções, seu pai lhe dissera. Então sabia muito bem do que a garota ao seu lado era capaz e não confiava em suas palavras, estreitava os olhos para seu tom dócil e sua risada titilante. Como mesmo Sirius poderia ter caído em uma armadilha daquelas? Quando uma personalidade estava em uma família, ela era repassada para absolutamente todos os seus membros. Era coisa de genética, berço, DNA. Nem mesmo os Black conseguiram escapar completamente daquilo se Sirius não tivesse nascido tão diferenciado. “Tanto faz.” Deu de ombros diante a declaração da outra sobre estar noiva, a última coisa que queria fazer era discutir sobre casamentos puristas monogâmicos e infelizes. “Não jure nada, Clarissa.” Comentou imprudentemente, observando uma pequena mancha na sua mesa. Sabia que a outra estava mentindo, conhecia sua família e conhecia até mesmo os seus pais. Ela que não o conhecia completamente, mas talvez pudesse. Levantou os olhos que tinham quase um tom de azul celeste para a morena. “Pode ser verdadeira, eu conheço sua família. Sei do que eles são capaz, Anastásia não cansa de falar sobre a filha prodígio para o meu próprio pai.” Sussurrou. Não adquirira um tom temeroso, apenas algo verdadeiro como quando falava com John nos corredores vazios de Hogwarts. A diferença era que Clarissa mentia para tomar uma personalidade mais agradável aos olhos dos outros.
Ter alguém mentindo em seu ouvido e saber que esta pessoa estava mentindo para o bem próprio era algo que fazia Peter querer rolar os olhos, sabia quem a garota era. Sabia do que sua família era capaz e de como tudo aquilo aparentava ser um enorme teatro. A raiva borbulhava dentro de si como nunca antes. Estava com raiva das pessoas com quem estava envolvido. Raiva de conhecê-las tão bem, mas interagir tão pouco com as mesmas por questão de estratégia. Não podia ser visto com uma Avery se quisesse continuar seguindo o plano. Mas era diferente, aquela não era Lizzie que se declarava pelos quatro cantos do castelo como uma megera de sangue-puro. Clarissa era mais inteligente, e aquilo acabou chamando um pouco a atenção de Peter que fazia uma pose desinteressada, mas posteriormente compreensiva e quase amigável. Pettigrew não tinha paciência para bruxos que não sabiam seguir estratagemas, que expunham completamente suas intenções. Mas aquela garota ao seu lado era mais inteligente que aquilo, começara falando o que ele queria ouvir. Falando que não era ruim, que sua família tinha aquela característica, mas que era diferente. As coisas que o professor Avery falava voavam pelo castelo e faziam as pessoas se questionar sobre as verdadeiras intenções de sua irmã. Mas logo aquilo tudo era esquecido, porque Clarissa sabia controlar as coisas, controlar as coisas e as pessoas por assim dizer. Parecia ser o tipo de pessoa que lia as outras e as convenciam de sua ideologia, alguém que poderia muito bem comandar o mundo se tivesse as palavras certas na ponta da língua. Peter ergueu o queixo e olhou-a de canto, depois observou seus dois amigos à frente, brincando sobre alguma coisa durante a aula. Seguir os mais fortes, aquela era a ordem. Sirius e James eram boas pessoas, tinham boas intenções, mas não eram nada se comparados à garota ao seu lado que conseguia persuadir pela sua fala e ações de maneira tão sábia. Sorriu pouco diante daquilo, mensurando o tamanho do poder que podia ter com aquela ligação. “Estar bem ou não estar bem não é a questão. Muito menos quem Sirius está levando para a cama no momento, mas eu aposto minhas fichas na Bonnie. Se bem que de pessoas parecidas com a Marlene, esse castelo está cheio.” Revirou os olhos tamanha importância estava dando para aquele assunto.
A raiva que envolvia seus pensamentos o fizera entregar a relação que sua família tinha com a família da garota, mas não estava arrependido. Via que ali podia obter alguma coisa, alguma coisa mais produtiva do que o relacionamento quase receoso que tinha com John por conta de seus amigos na Gryffindor, John não era capaz de absorver completamente a imensidão daquela estratégia. Era movido pela amizade que tinham quando crianças, quando brincavam juntos não quando elaboravam planos para crescerem naquele mundo bruxo que era recheado de ignorantes. “O que você quer?” Perguntou afinal, olhando-a com toda a honestidade de seu ser. Com a raiva nos olhos azuis e o queixo erguido, era daquele modo que seus pais haviam o criado e era para aqueles fins que estava destinado. Não poderia viver eternamente como a sombra de pessoas que mal cresciam até que os problemas já estivessem batendo na sua porta. Peter não era uma sombra, não fora criado para ser uma sombra pequena pelo menos. “O que você realmente quer Clarissa Avery?” Perguntou, virando-se completamente em sua cadeira e em um tom extremamente baixo. Não era coisa para ser discutida em meio a uma aula de Runas Antigas, mas também não havia aula menos improvável para aquele tipo de discussão. Não daria sua confiança logo de cara, mas se os interesses fossem ao menos compatíveis, já tinha um motivo para estar ao lado daquela garota durante a aula.