We take this step together. | POV
29 de novembro, Vail - Colorado.
Podia ouvir o som que relógio antigo fazia, mesmo que ele estivesse fora de seu campo de visão. Se virasse um pouco a cabeça poderia ver a neve caindo densamento no lado de fora – não era de se estranhar dado a época do ano e onde estavam. Por mais frio que fizesse lá fora a temperatura da sala era agradável. O comodo não poderia ser mais acolhedor com a lareira iluminando-o e carpetes felpudos em que podia afundar seus pés enquanto se aconchegava em uma das poltronas. Lizzie, sentada ali perto, já caíra no sono depois de reclamar de como a nevasca atrapalhara seu planos de esquiar junto com algum professor novo. Melody teria feito o mesmo se não estivesse tão ocupada ponderando a cerca do convite que recebera no começo da semana. A carta tinha vindo em um belo envelope marcado com seu nome no verso. Diferente da carta que recebera de Princeton, aquela era composta apenas por uma folha simples que explicava seu propósito e informava como poderia confirmar seus dados com o pessoal da faculdade e que só precisava ligar se quisesse aceitar a proposta.
Ela era naturalmente desconfiada, logo fizera questão de verificar os dados com a administração de Princeton e fazer sua própria pesquisa. A proposta era legitima e incrivelmente tentadora. Não era como se não amasse Princeton, pelo contrário, idolatra a universidade. Porém, era um tanto cansativo ouvir as comparações que faziam em relação a seus pais, principalmente sua mãe. Era como uma competição, os professores mais velhos a observavam o tempo todo, como se esperando que ela excedesse as expectativas ou falhasse. Estava começando a ficar irritada com tudo aquilo. Começava até a achar que entendia porquê sua irmã odiava tanto a faculdade – apesar de que no caso de Elizabeth tinha certeza de que o fator “diversão livre” também era importante. Chegar a aquela decisão não fora tão difícil, sentia como se precisasse mesmo de um tempo longe da supervisão exacerbada da mãe — em mencionar que provavelmente contaria com a companhia de Kevin e Hilary na nova universidade. No entanto, sabia muito bem que Louise não iria gostar nada disso. A maioria dos pais julgaria aquela uma boa oportunidade, mas sua mãe não gostava que interferissem nos planos dela, muito menos em um que ela trabalhava há mais de 18 anos – pensar em si mesma como um plano era um tanto estranho, mas se havia algo que ela e Louise tinham em comum era sua praticidade e lógica, logo podia compreender o raciocínio da mais velha.
“Pensei que já tivéssemos conversado sobre esse hábito, Melody. Mostra insegurança. Tenho a impressão de que não é isso que quer demonstrar no momento, é?” O som da bem modulada voz da mãe a pegou de surpresa, fazendo-a notar só agora que apertava as mãos sobre o colo – seu típico sinal de nervosismo. Descruzou as mãos devagar, forçando um sorriso polido e ajeitou-se na poltrona, adotando a postura que Louise julgava correta. “De fato, não é. Mas não é insegurança, só estava perdida em pensamentos.” Era verdade, parcialmente. Claro que estava nervosa, afinal sua mãe não era conhecida por ser alguém muito flexível, mas mostrar qualquer sinal de nervosismo, faria com que a mulher entendesse isso como incerteza e usasse como pretexto para recusar. Louise apenas assentiu com um sorriso levemente sardônico no rosto, fitando-a a espera que continuasse. “Recebi uma carta no começo da semana, era da Edward Rivere…” Com um olhar zombeteiro que por um momento lhe lembrou Lizzie, Louise a interrompeu. “É claro que recebeu. Jennifer, não subestime a inteligência do seu interlocutor durante uma discussão. Prossiga, mas seja mais direta agora.” Apertou os lábios por um breve momento, odiava quando a mãe a chamava pelo segundo nome, mas fingiu não notar que a outra fizera de propósito. Poderia questionar como a mãe sabia, mas seria inútil. Louise sempre sabia de tudo, a obrigara até a aceitar uma equipe de segurança por ‘motivos de segurança’ que Melody nunca entendera se eram reais ou apenas sua mãe querendo ter certeza de que ela estava se comportando adequadamente.
“Então presumo que a senhora já saiba o que vim informar.” Disse em tom baixo e calmo. Não era um desafio, mas se não fosse firme Louise nem ao menos lhe daria atenção. “Que quer deixar uma faculdade respeitada para passar um ano de férias em algum lugarejo da Pensilvânia?” Mel fitou os olhos da mãe, de um tom tão mais claro que os seus e sem nem sequer um ponto de verde, tentando não pensar em como o tom irônico da mulher se assemelhava ao dela mesma. “Não estou deixando Princeton, mãe. E tenho certeza de que sabe que a Edward é uma faculdade muito respeitada e que Princeton incetiva o programa de intercâmbio. Portanto, não são férias de modo algum. Além do mais, não é como se faça diferença onde morarei. New Jersey ou Philadelphia, não é como se fosse me visitar ou ficar com saudades…” Mordeu o lábio inferior ao notar que fora rude. Não era sua intenção discutir com a mãe, não era assim que as coisas funcionavam. “Eu…Me descul-” Foi a vez da mãe fitá-la com firmeza, como se avaliasse. “Você acha que não vou por que não quero? Que eu não ligo?”Melody levou a mão aos cabelos, ajeitando-os atrás das orelhas para ganhar tempo. “Sei que tem que cuidar dos negócios. Não esperaria que mudasse de rota por mim.” O som da voz sonolenta de Lizzie resmungando interrompeu a tensão por um momento.
Para sua surpresa, Louise caminhou até Elizabeth e balançou-a gentilmente para acordá-la. “Vá para o quarto, Sophia.” O tom imperativo, mas gentil surpreendeu tanto a Mel quanto a irmã que ainda parecia meio adormecida.“Alguém morreu?”Tentou não rir da expressão que a mãe fez, desviando o olhar de Lizzie que ainda esperava uma resposta. “Não ainda, Elizabeth. Agora vá para o seu quarto.” Quando a garota se foi, Melody trocou um olhar com a mãe. “Eu sei que não e eu entendo, está tudo bem.” Aprendera há muito tempo que não podia culpar a mãe pelo distanciamento, muito menos se revoltar. Louise não fazia por mal, era apenas o modo como as coisas eram naquela família. “Você realmente quer ir, não é?” O tom foi tão diferente do modo polido que por um momento ela julgou ter ouvido mal. “Não estou dizendo isso para te fazer sentir culpa e me deixar ir.” A mulher mais velha assentiu. “Eu sei que não, Melody. Mas ainda assim você quer ir e se eu negar, vai ficar infeliz.” A mãe estava exagerando e ela balançou a cabeça negativamente com um suspiro. “Não é o ponto. Eu amo Princeton. Fui para lá porque queria. Apenas acho que ficar um tempo longe me faria bem. Ficar um tempo sendo eu mesma, e não apenas sua herdeira.”Sorriu de leve, esperando que ela compreendesse.
“Acho que se puder manter os bons resultados e tomar conta de tudo que está estipulado no nosso programa, mesmo lá, eu poderia consentir. Com avaliações esporádicas e nos mesmos termos de sempre, é claro.” Não era o tipo de resposta amorosa, mas ela lançou um olhar de agradecimento. Sua mãe não mudar de uma hora para outra, talvez nunca, porém, as vezes podia ver o lado mais brando da senhora e isso a fazia sentir conectada a ela de modo único. “Sem problemas, mãe. Obrigada.” Teria a abraçado, mas a mulher agora andava pela sala, inquieta. “Não me agradeça ainda, se falhar qualquer um dos testes, voltará para casa. É um acordo.” Ela fitou o relógio.“Tenho que resolver algumas coisas. Vejo você e sua irmã no jantar. Pontualmente, de preferencia.” Melody levantou-se e assentiu, observando a mulher se afastar. “E Melody? Não importa como, eu sempre mudo minhas rotas por vocês. É o que mães fazem.” Louise falou ainda de costas para a filha, antes de sair. “Eu vou me lembrar disso, mãe.”