A contagem dos dias que já passaram
Era agosto e, pelo ano já estar se inclinando para o fim, eu parei de olhar para os lados, procurando algo para alegrar meus dias. Mas você apareceu tão brevemente e tão aberto emocionalmente que eu me permiti, mesmo com o prazo de validade já no final, acabando com o tempo. Me forcei tanto que, antes mesmo de esperar alguma coisa, já queria te ver todos os dias e ouvir você contando como foi o seu dia; ouvir da sua boca as mesmas palavras da sua rotina comum era o meu pico mais alto.
Estava tão envolto na situação que nem percebi muito a sua doce indiferença, como alguém que pouco liga para as coisas, mas se importa que os outros percebam isso. Não notei quando comecei a acordar com as suas mensagens de bom dia lotando minha caixa de entrada. Eu já acordava feliz e permanecia assim o dia inteiro. Como uma doença que mata e, em seguida, cura, você me fez gostar de você e, talvez, pela minha inocência com as coisas do amor, eu acreditei que, dessa vez, era real. Não era.
Você parou de mandar bom dia e, automaticamente, os dias passaram a ser cinzentos e sem graça. Me respondia com a frieza que escondia por trás da manga, como um recurso de defesa, e tudo foi diminuindo: todas as interações, todas as sensações, deixando um buraco aqui, que tem mais a ver com o que eu já passei do que com você, propriamente dito.
É verão agora e meu coração está gelado como as águas dos lagos que se recusam a liquefazer-se na temporada de calor. Minhas lágrimas estão sólidas, machucando meus olhos ao cair, e o silêncio que há em cada canto da cidade são ruídos que reverberam a mesma dor de quando você me deixou.
Você me deu apenas o silêncio confortável de quem chega do trabalho cansado e ignora as mensagens e, sem nenhuma explicação plausível, parou de falar, me deixando com nada além de perguntas. A mim coube retribuir o silêncio, mesmo com tantas perguntas pulsando dentro de mim, exigindo respostas para questionamentos que, no raso, eu mesmo conseguia resolver.
Deixei você ir; era o que eu podia fazer nesse momento, pois nunca fui de insistir muito em nada. Não me leve a mal: eu teria ido atrás de você e teria feito essas perguntas, mas de que teria adiantado? Mais uma pergunta retórica.
Fiquei aqui, nessa sinestesia na qual os sons são fragrâncias de um tempo que eu já nem lembro mais, e todo cheiro tem o gosto daquilo que não fizemos. As promessas não cumpridas são as mais lastimadas.
-meloedramático












