Pai,
Eu me lembro do último dia em que estive pessoalmente com você...
Você pegou COVID19 e alguns dias depois tivemos que levar você para o hospital.
Você nunca foi de fazer drama, e sempre se manteve positivo quanto qualquer coisa... Você sempre dizia que estava bem, mesmo sem estar, e dizia que iria ficar bem, mesmo com medo. Você se preocupava em não nos preocupar, e eu tentei fazer o mesmo por você...
Eu te peguei na sua casa, conversamos um pouco, embora eu tenha falado mais, porque você estava cansado. Lá no hospital, eu sentei um pouco longe de você, para evitar contágio, ainda que minha vontade era ficar juntinha...
Para que você não se cansasse, eu evitei conversar com você.
Para que pensasse que eu estava calma e despreocupada, tirei o celular e o fone do bolso e comecei a ouvir um podcast de notícias.
Você olhou para mim com um olhar de riso, surpreso com a minha reação tranquila, como quem espera uma consulta médica de rotina. E eu disse "que foi?". Eu sabia o que você estava pensando, mesmo você dizendo que não era nada.
Você já tinha me dito antes, de modo aleatório, que achava que, se você pegasse COVID19, você morreria. Eu sabia que você estava com medo. No fundo, eu também estava.
Em segredo, eu tirei uma foto. Pensei que talvez você não quisesse tirar uma "selfie", mas gostaria de ter uma recordação sua, caso aquela fosse a última.
Você foi internado e eu estava orgulhosa de poder te ser útil, de poder ajudar e servir, te levando ao médico mais de uma vez, pegando suas coisas, ficando lá até às 3h da madrugada para assinar os papéis necessários. Era a única coisa que me apaziguava o coração: Caso o pior acontecesse, ao menos eu teria amado você em serviço.
Antes de ir embora, eu disse a você de forma otimista que você logo sairia dali... Você, ao contrário, duvidou "se eu sair, né?".
Eu reagi como de costume, mandei você ficar quieto e não falar besteira. Mas me arrependo... Eu deveria ter perguntado o que estava sentindo, e se estava com medo. Deveria ter te ouvido e tentado te fazer sentir que você não estava sozinho, apesar de tudo. Deveria ter dito com mais profundidade e seriedade o quanto eu te amava.
Eu não sabia como ser um suporte emocional para você ali, e apenas reproduzi o que você sempre fez. Agi como se estivesse tudo bem, como se aquele momento fosse leve como todos os outros em que seu riso fácil invadia. Eu estava pronta para uma piada, mas você estava sério.
Eu nunca entendi isso em você. Você sabia rir até em velórios e conseguia nunca ser impróprio, uma alegria sempre bem vinda... Nem todos tem esse dom.
Eu não sabia como conciliar minha necessidade de te dar um possível último abraço e ainda assim continuar fazendo você pensar que estava tudo bem, e que eu estava confiante de que logo você sairia de lá... Então eu te abracei. De forma rápida, e muito longe do coração. Foi, de longe, um dos piores abraços que eu te dei na vida, mas eu sei que você entende.
Você me agradeceu com amor por eu ter estado ali, e encheu meu coração de gratidão por essa oportunidade de te amar sem palavras.
Eu entrei no carro, que era seu, e chorei indo para casa... Aquela foi a última vez que eu abracei meu pai.





















