A palavra "artista" relacionada a obra de arte aparesse na Bíblia pela primeira vez no livro de Êxodo (30:35, 31:3, 35:31). Todas essas passagens são relacionadas ao momento em que o Senhor instruiu Moisés sobre como deveria construir o Tabernáculo e acerca de como o próprio Senhor dotaria alguns homens com "plena capacidade artística" pelo próprio Espírito Santo para que a obra fosse executada. Antes disso temos o relato da criação, que para mim é uma referência de construção/ação artística. A própria palavra "Gênesis" é um termo grego que significa: origem, fonte, geração, começo.
E a Bíblia logo começa assim: (Gênesis 1:1) "No princípio criou Deus os céus e a terra". Deus através da criação revela algo mais do que realmente Ele é e pode fazer nos dando base para toda a atuação humana sobre a terra. Ele criou todas as coisas e nós apenas cuidamos, re-arranjamos, recriamos a partir de tudo o que foi feito por Ele.
A “criação” conota alguns princípios da expressão artística. Deus em cada dia e gesto expressou algo diferente:
• Expressão de domínio e poder, pois dizia/ordenava e tudo passava a existir. (Como o domínio técnico de uma disciplina)
• Expressão de fazer, pois com suas mãos formou o homem. (Como produção autoral)
• Expressão de crítica, pois ao terminar observou, avaliou, e chegou a uma conclusão critica sobre o que havia feito dizendo: “é bom”, e “é muito bom”. (Como crítica artística)
• Expressão de si (autoconhecimento), pois criou o homem a sua imagem e semelhança. (Como produção artística relacionada a autoconhecimento e auto-reflexão)
Ao criar o homem, a ação descrita também é como de um artista escultor, pois lemos que Deus tomou o pó da terra, e dela deu forma ao homem. Após esse fato, podemos imaginar que a “forma” do homem estava pronta, montada, modelada, como uma modelagem em argila. Só então houve o sopro do “fôlego de vida” nas narinas do homem. E este passou a ser um ser vivente. Depois podemos ler sobre a criação da mulher, o termo empregado também é “formou” (Gênesis 2:7-8, 22).
Deus foi o primeiro criador, arquiteto, executor, e apreciador de beleza.
Clyde S. Kilby diz:
“Para o cristão Deus é o artista supremo. Deus olhou para sua criação em progresso e viu que era BOA; quando havia terminado, viu que era MUITO BOA. É evidente que o GRANDE ARTISTA ficou bastante satisfeito com seu mundo. Era um mundo cheio de coisas, formas e movimentos maravilhosos, abundante em ricas cores como as dos arco-íris e da rosa, ricas texturas como as do pêlo do castor e das folhas de magnólia, ricos perfumes como os do marmelo e da madressilva, ricos sons como os do trovão e do riacho a correr, ricos sabores como da melancia e do chocolate”.
Francis Schaeffer poetizando nos trás:
“Se Deus fez as flores, então estas são dignas de serem pintadas e de aparecerem em versos. Se Deus fez os pássaro, são dignos de serem pintados. Se Deus fez o céu, este é digno de ser pintado. Se Deus fez o mar, sem dúvida ele é digno de ser colocado em versos. Vale a pena para o ser humano criar obras que se baseiam nas grandes obras que já foram criadas por Deus”.
Toda obra criativa, bem como a criação de Deus, é fonte de conhecimento, beleza, e prazer estético. Na criação, o Senhor demonstra seu cuidado com o ser humano na maneira e perfeição com que o cria, e na maestria do local que criou para colocá-lo, o Jardim do Édem, e dando-lhe algumas funções. Uma das funções atribuídas ao homem era dar nome aos animais, e isso de acordo com o nome que o homem quisesse, trabalho que exigiu criatividade. Encontramos em Gênesis 2:19-20: “Havendo, pois, o SENHOR Deus formado da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus, os trouxe a Adão, para este ver como lhes chamaria; e tudo o que Adão chamou a toda a alma vivente, isso foi o seu nome. E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea.” Deus nos criou sua imagem e semelhança, acredito que todos nós somos criativos como o nosso Criador, todos somos de alguma forma, artistas.
Se tratando do termo “arte” de maneira mais ampliada, entendendo ela de modo perfeito, sublime, excelente, apreciável de se fazer algo, a vida do cristão deve ser uma obra de arte ofertada como presente, e motivo de apreciação e adoração diante do Senhor.
Francis Schaeffer diz:
“Nenhuma obra de arte é mais importante do que a vida do próprio cristão e, nesse sentido, todo Cristão é chamado a ser um artista. Pode não ter qualquer dom de criatividade no que se refere à maneira como leva a sua vida. Nesse sentido, a vida Cristã deve ser algo verdadeiro e belo em meio a um mundo perdido e mergulhado em desespero.”
A criatividade é algo dado a todo ser humano, uma faculdade divina ofertada ao homem. Acredito que é praticamente impossível que alguém não possua este talento, pois dele depende cognitivamente toda a forma de compreensão e aquisição de conhecimento, aprendizado e desenvolvimento. Mesmo no modo mais simples, como no desafio dos primeiros passos de um bebê, esta característica (a criatividade) já se manifesta. Como todo talento, esta deve ser estimulada e desenvolvida. A criatividade é - trabalhada.
LeRoy Koopman poetizando nos apresenta a seguinte pensamento:
“Em menor escala, as mãos humanas criativas imitam essa profusão de Deus, indo além dos requisitos mínimos para se realizar uma determinada tarefa. As mãos criativas não se contentam em espalhar a cobertura sobre o bolo; devem fazer um arranjo estético, formando ondas e usando cores. Não aplicam simplesmente uma demão de verniz; lustram a superfície até que brilhe como cetim. As mãos criativas fazem mais do que plantar sementes; dispõem-nas de modo a criar um jardim bonito e agradável”.
"E Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom." (Gênesis 1:31a)