yenniferv:
janie, don’t you take your love to town | vulcan
O que mais a incomodava era que o coração não parecia tão duro, não ao ver o leve tremor que consumia as mãos de Barbara. Havia algo na garota que fazia com que ela a lembrasse da Yennifer que havia encarado no espelho do banheiro, o seu reflexo nem um pouco alinhado. Era absurdo que pudesse ver a garota daquele jeito, lembrava que sua tia a havia contado sobre o noivado da mesma, com um jogador profissional, ainda por cima. Não, não podia haver nada de desalinhado na mais nova, qualquer impressão que tivesse disso só podiam ser seus desejos, esperança de que talvez ela não tivesse uma vida tão bem ajustada quanto parecia. Tecnicamente não se deveria desejar coisas ruins para alguém, mas tecnicamente pais não deviam trancar as próprias filhas em baús e, bem, ali estava ela. Tentava não olhar para as mãos de Barbara, que pareciam tão delicadas que por um momento - um momento breve, que estava determinada a fingir que nunca tinha existido - pensou em como seria sentir o toque dela contra sua pele. A sorte é que já estava acostumada a ignorar os próprios pensamentos, então foi fácil desviar o olhar para o rosto da garota, um rosto que deveria ser bem fácil de odiar.
Conteve o riso, a expressão de escárnio dançando livremente em seu rosto. “Sure, kifla.” Disse, dando ênfase na última palavra, querendo deixar bem claro que não era um apelido carinhoso, longe disso. A palavra era usada para se referir a garotas superficiais, garotas como Barbara era em sua visão. Talvez tivesse vontade de usar algo mais forte para se referir a ela, mas a simples ideia de dizer algo na língua de nascença e deixá-la confusa bastava naquele momento. Não era como se ninguém na casa fosse entender o que falava, de toda forma. “Mas você está segurando a travessa, não está? É simples, você trouxe, e eu não aceito. O resto dos moradores daqui pode comer, não seria nenhum desperdício, já que você está tão preocupada com isso.” Revirou os olhos, era impossível que Barbara acreditasse que ela realmente iria cair naquela conversa de desperdiçar comida. Se bem que talvez aquilo fosse a única coisa realmente importante para ela, não iria tão longe a ponto de duvidar que talvez fosse isso.
O fato de ela estar ali apenas a convite de sua tia não era uma surpresa, o que a surpreendia era que a outra tivesse consciência do qual indesejada sua presença era. Não contava exatamente como um ponto a favor, mas tornava aquela conversa mais suportável. Algo que não era suportável, entretanto, era a ideia de ir em jantares e ser apresentada a “homens solteiros respeitáveis”. A ideia era tão absurda que chegava a ser engraçada, e dessa vez não conteve o riso. Seria bom que a tia pensasse que estavam se dando bem a ponto da outra conseguir arrancar uma risada de Yennifer. “Eu não gostaria da sua ajuda nessas coisas nem em um milhão de anos, mas parece que você sabe disso. Além disso, a situação atual não me assusta, já vi coisas piores. Ao contrário de algumas pessoas, eu aprendi a me defender desde cedo e, claro, o treinamento de hitwitch ajuda bastante.” Não estava tentando impressionar a outra, mas talvez quisesse sim arrancar alguma reação dela. Desviou o olhar assim que a outra se sentou perto dela, não perto o bastante para incomodar, estavam em lados opostos, mas era mais perto do que tinham estado em mais de uma década. “Por que diabos você faria algo por mim, Milligan? Algo bom, no caso, algo ruim eu poderia entender.” Voltou a encarar Barbara, a expressão agora intrigada. Suas palavras eram honestas, a franqueza maior do que tinha sido até então. “Não sei quais são suas intenções, mas quero descobrir. E por isso, só por isso, vou aceitar o convite. Um convite feito de uma maneira muito porca, devo dizer. Achei que tivessem lhe ensinado modos.” A provocação já não vinha mais cheia de desprezo, mas não era uma escolha consciente.
Havia algo positivo em que ela já tivesse colado a travessa na mesa, pois se ainda estivesse em suas mãos era bem capaz que espatifasse no chão e fizesse uma bela sujeira. Não era como se ela esperasse que algo bom viesse quando havia aceitado o pedido da tia de Yennifer para apresentá-la a casas nobres bruxas, a procura de um bom marido. Barbara sempre havia tomado muito cuidado para que sua vida privada jamais arruinasse a imagem que havia criado para outras pessoas. Afinal, por mais que ela sempre pregasse o amor acima de tudo, ninguém iria querer se casar com uma menina arruinada. Sempre deixou segredo de suas amigas quando havia beijado Andrea, o entregando seu primeiro beijo. E consequentemente quando havia beijado meninas. Até mesmo agora em que estava noiva de Joey mantinha a figura de garota delicada em busca de alguém para casar e ter filhos. Ter sua casa e viver felizes para sempre. Era assim tão errado querer um felizes para sempre? Ela não ligava em manter as aparências, sem contar que naqueles dias, ajudava muito se proteger através de seu noivo e de sua boa fama. Nada daquilo que ela falava era real, mas pelo menos ela estava segura e por mais arruinada que estivesse já que todos ririam quando seu noivado acabasse e ela pudesse jamais ter seus sonhos, estava feliz de ter feito aquilo pela criança de Val e Joey. Era algo bom que havia feito, algo que poderia muito bem ter feito para se redimir de algo errado que havia feito para a própria Yennifer em si.
“Bom, nós duas crescemos, não?” Olhou ao redor tentando ver se havia alguém mais que pudesse ouvi-las. Sentiu as palmas bem úmidas. Esfregou no traje em que usava. “Pode me chamar de Barbara, sabia? É muito estranho ser chamada de Milligan. Faz parecer que somos duas idosas.” Deu risada e se aproximou da garota e ia levar as mãos ao braço delas, mas evitou e voltou colocando no próprio colo. “Quero ajudar, Yennifer.” Tentou falar de modo sincero. “Eu te devo isso. Sabe eu não queria ter feito aquilo.” Não era um pedido de desculpas. Ainda precisava pedir desculpas, mas não conseguia. Apenas conseguia dizer aquelas palavras. Admitir que estava errada era tão difícil. Não conseguia entender porque as palavras não saiam com tanta facilidade. Geralmente não era uma mulher tão orgulhosa. “Sua tia não vai sossegar até que você se case. E sabe disso. Não vai fazer mal falar para ela que vamos fazer isso. Depois de cinco minutos, você pode ir fazer o que quiser. Se não tiver o que fazer poderia muito bem ir comigo se quiser.” Sabia que não deveria falar sobre aquilo que era seu pequeno segredo, mas como não conseguia pedir desculpas era a maneira de tentar fazer Yennifer confiar nela. “Gosto muito de ir ao mundo trouxa. Em festas. Em lojas. Estudar...as roupas. Se divertir. Imaginei que seria legal conhecer a outra parte do mundo britânico.” Confessou a ela ficando um pouco nervosa em confessar tudo aquilo. Nem mesmo Joey sabia tanto, mas algo nela gostava de se abrir a Yennifer. Contar as coisas para ela, a ter como amiga novamente.
Yennifer fora uma das poucas pessoas que viram quando ela saiu de sua casa e a transformação do seu sobrenome de Thurkell em Milligan. Muitas garotas da região não entendiam como ela havia aparecido ali ou até riam falando que seu pai não era seu pai. Sempre usou aquela armadura. Talvez até mesmo tivesse reproduzido aquele discurso depois para Parrish por causa de tanto ouvir aquelas baboseiras. Yennifer havia sido diferente. Ela havia olhado para ela como qualquer outra menina, e brincado de forma normal. Era isso que ela queria desde o começo. E havia estragado tudo aquilo. Da maneira mais simples possível com uma mentira. Tudo por medo. Medo do seu pai ser como seu antigo pai que sempre brigava com ela e a colocava de castigo. Que achava que ela estava ali apenas para atrapalhar. “Outra coisa adoraria que maneirasse o tom comigo. Não sou do tipo que gosta de ouvir pessoas rude ou grossas e acha que é simplesmente personalidade forte. Então segure as garras.” Arqueou uma sobrancelha, ela mesma era grossa, muitas vezes com Tabitha, mas não aceitava quando eram com ela. Ela tentava mudar, por que os outros não tentariam também?















